Patrick Modiano

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Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o discurso dePatrick Modiano por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura

1.

O escritor francês Patrick Modiano (1945) recebeu em 2014, aos 69 anos, o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. O valor da láurea foi de oito milhões de coroas suecas, o que correspondia a quase 800 mil dólares. Como estabelecem os ditames da Academia Sueca, no mês de dezembro desse mesmo ano – mais exatamente no dia 7 – ele leu seu discurso, agradecendo o prêmio e, seguindo a praxe, falando em seu texto de sua trajetória enquanto escritor ao longo de quase cinco décadas.

A imprensa francesa naquele momento não demonstrou muita surpresa com a notícia. Lucas Neves escreveu que o jornal Libération lembrou que o nome de Patrick Modiano figurava havia anos na lista de favoritos à premiação e que na véspera ele aparecia em sexto lugar na bolsa de apostas da casa britânica Ladbrokers. Ele foi o décimo quinto francês a ser premiado no campo da literatura, tendo escrito mais de 30 obras, das quais aproximadamente metade já se encontra traduzida no Brasil.

Não vou me alongar em demasia, mas apenas acrescentar alguns dados biográficos de Patrick Modiano recorrentes em seus escritos, em que o vivido e o imaginado compõem a tessitura de parte da obra.

Patrick Modiano nasceu em 30 de julho de 1945 em Boulogne-Billancourt, filho de Albert Modiano (1912-1977) e de Louisa Colpeyn (1918-2015). O casal teve ainda outro filho, Rudy (1947-1957), que morreu de leucemia. Albert era um judeu italiano de origem grega, homem de negócios, ligado ao crime organizado e à Gestapo. Louise, por sua vez, originária de família de trabalhadores portuários de Antuérpia, tornou-se atriz, com longa filmografia em papéis secundários e no teatro.

Eles se separaram em 1960. O futuro escritor, ao final da infância e na adolescência, é deixado inicialmente aos cuidados dos avós e, depois, com vários amigos e conhecidos de seus pais, bem como em um internato. A história familiar criou o ambiente para a obsessão temática que é explorada em quase todos os seus romances.

Lucas Neves escreveu que Eric Chevillard, em resenha crítica no jornal Le Monde, comparou Patrick Modiano a Jean-Marie Le Clézio (1940). Eles seriam “um par cujo antagonismo literário instaura simetria tão perfeita quanto a dos dois hemisférios”. Aliás, dividem o mundo entre si. Ao primeiro, o mar, o sol, o azul; ao segundo, o crepúsculo, a neblina, as manhãs lívidas”.

2.

Patrick Modiano é reconhecido como excelente escritor, mas, também, pela sua extrema dificuldade para se expressar em público: não raro perde o fio do raciocínio, deixa frases incompletas, se confunde nas respostas. Assim, já nos primeiros parágrafos de seu Discours à l’Académie suédoise aborda, na qualidade de romancista, a distinção escolar entre o escrito e o oral. Diz que sua palavra é hesitante em razão da constante possibilidade de, quando escreve, poder corrigir seus textos – o que não acontece quando tem que falar, pois a correção lhe é vedada (p. 7-8).

Comenta que após a infância, o desejo de escrever apoderou-se dele, bem como de vários outros conhecidos. “Você espera que os adultos o leiam” (p. 8). Depois, quando já dominava o seu ofício de lidar com as palavras, entende que é impossível a um romancista ser seu próprio leitor, exceto para corrigir erros de sintaxe, repetições ou excluir um ou outro parágrafo do manuscrito. “Tem apenas uma representação confusa e parcial de seus livros, como um pintor ocupado em pintar um afresco no teto e que, deitado num andaime, trabalha nos detalhes, demasiado próximo, sem uma visão do conjunto” (p. 9).

Com bom humor observa que quando se está para terminar um livro, tem a sensação de que “ele começa a se separar de você e já respira o ar de liberdade, como as crianças na escola, na véspera das férias de verão” (p. 10). Quando se termina o livro, após colocar a última palavra, ele “não necessita mais de você, ele já se esqueceu de você” (p. 10).

Há insatisfações, um sentimento de incompletude, mas se passa a escrever o próximo livro, para restaurar o equilíbrio, mas não se consegue. “À medida que passam os anos, os livros se sucedem e os leitores falarão de uma ‘obra’. Mas você terá a sensação de que foi apenas um longo voo adiante” (p. 11).

Na infância, Patrick Modiano revela que começou a escrever poemas e é, sem dúvida, graças a isso, que ele pode compreender melhor o que leu em algum lugar: “É com maus poetas que fazemos prosadores” (p. 12). Para ele, a cada livro novo que escreve, sente que o anterior foi apagado, a tal ponto que tem a impressão de tê-lo esquecido.

Continua acreditando que ter escrito um livro após o outro de maneira descontínua, “através de esquecimentos sucessivos”, mas frequentemente com os mesmos rostos, os mesmos nomes, os mesmos lugares, “as mesmas frases retornam de um para o outro, como os motivos de uma tapeçaria que tecemos durante o sono” (p. 13).

Na declaração que se seguiu ao anúncio do prêmio Nobel recebido, Patrick Modiano reteve uma frase, que alude à última guerra mundial: “Ele desvendou o mundo da Ocupação” (p. 13). Acrescenta: como todas aquelas e todos aqueles nascidos em 1945, é “um filho da guerra”, uma criança que nasceu na Paris ocupada pelos nazistas (p. 13).

Acho que vale a pena transcrever o longo juízo que Modiano faz das pessoas e do clima existentes nos anos da Ocupação: “As pessoas que viveram nesta Paris esqueceram-na rapidamente ou recordaram apenas os pormenores do dia-a-dia, daqueles que tinham a ilusão que afinal a vida que levavam todos os dias não era tão diferente da que levavam em tempos normais. Um sonho ruim e também um vago remorso por terem sido uma espécie de sobreviventes. E quando seus filhos lhes perguntavam mais tarde sobre esse período e sobre essa Paris, suas respostas eram evasivas. Ou então ficavam em silêncio, como se quisessem apagar esses anos sombrios de suas memórias (…) Mas diante do silêncio de nossos pais, adivinhávamos tudo, como se tivéssemos vivido aquilo” (p. 13-14).

“Uma cidade estranha, essa Paris da Ocupação. Na superfície, a vida continuava ‘como antes’: os teatros, os cinemas, as salas de music-hall, os restaurantes estavam abertos. As músicas podiam ser ouvidas no rádio. Os teatros e os cinemas eram ainda mais frequentados do que antes da guerra, como se fossem abrigos onde as pessoas se reuniam e se amontoavam em busca de conforto. Mas detalhes incomuns indicavam que Paris não era mais a mesma de antes. Devido à ausência de automóveis, era uma cidade silenciosa – um silêncio em que se podia ouvir o farfalhar das árvores, o ruído dos cascos dos cavalos, o barulho das multidões nas avenidas e o murmúrio das vozes. No silêncio das ruas e no blecaute que começava por volta das cinco horas da tarde no inverno, durante o qual nenhuma luz era permitida nas janelas, a cidade parecia estar ausente de si mesma – a cidade ‘sem olhos’, como os ocupantes nazistas a chamavam. Adultos e crianças podiam desaparecer de um momento para outro, sem deixar rastros e mesmo entre amigos, falava-se em voz baixa e as conversas nunca eram francas, porque sentia-se uma ameaça no ar” (p. 14-15).

Paris era um pesadelo, pois corria-se o risco de ser denunciado e preso. “Assim que se saísse de uma estação de uma estação de metrô, ocorriam encontros casuais entre pessoas que nunca teriam se conhecido em tempos de paz, amores precários nasciam à sombra do toque de recolher, sem nenhuma garantia de que se encontrariam novamente nos dias seguintes. E foi como resultado desses encontros, muitas vezes de uma noite, e às vezes ruins, que as crianças nasceram mais tarde. É por isso que para mim a Paris da ocupação sempre foi como uma noite original. Sem ela eu nunca teria nascido. Essa Paris nunca deixou de me assombrar e sua luz às vezes banha meus livros” (p. 15-16).

É nesse sentido que, para Patrick Modiano, um escritor torna-se indelevelmente marcado por sua data de nascimento e por seu tempo, “mesmo que não tenha participado diretamente na ação política, mesmo que dê a impressão de ser um solitário, recolhido naquilo que chamamos ‘a sua torre de marfim’. E, se ele escreve poemas, os mesmos refletem a época em que vive e não poderiam ter sido escritos em outra época” (p. 16). Ele cita como exemplo o poema “Os cisnes selvagens”, do poeta irlandês William Butler Yeats (1856-1934).

Ou seja, um escritor, ou qualquer outro artista, pode se encontrar tão ligado ao seu tempo que não consegue escapar dele. O único ar que respira é o que ele chama de ‘l’air du temps’, sempre expressando algo intemporal em suas obras (p. 18). Assim, escritores como Edgar Poe (1809 -1849), Herman Melville (1819 -1891) ou Stendhal (1783 -1842), “são melhor compreendidos duzentos anos após sua morte do que por aqueles que formam seus contemporâneos” (p. 19).

3.

Patrick Modiano tece considerações a respeito do trabalho do romancista, entendendo que sua imaginação, longe de deformar a realidade, deve penetrá-la em profundidade e revelá-la “com a força do infravermelho e do ultravioleta para detectar o que se esconde por trás das aparências. E eu não estaria longe de acreditar que na melhor das hipóteses o romancista é uma espécie de vidente e até visionário. E também um sismógrafo pronto para registrar os movimentos mais imperceptíveis” (p. 21).

Acerca de biografias de escritores, Patrick Modiano tem concepção que faria Pierre Bourdieu (1930-2002) protestar energicamente, pois diz que sempre hesita ler biografia de escritores que admira. “Os biógrafos às vezes se concentram em pequenos detalhes dos testemunhos que nem sempre são precisos, em frações de caráter que parecem desconcertantes ou decepcionantes, e tudo isso me lembra os estalidos que confundem certas transmissões de rádio e tornam a música ou as vozes inaudíveis” (p. 21).

Para ele, apenas a leitura de seus livros nos permite “entrar na intimidade de um escritor, e é aí que ele está no seu melhor e nos fala em voz baixa sem que a sua voz seja turvada pelo menor parasita” (p. 21).

Uma série de episódios de sua infância serviram de matriz para os livros que escreveu. Os pais o confiaram aos cuidados de diferentes pessoas, levando-o a viver em lugares distintos. Ele não conseguiu identificar a maior parte dessas pessoas nem os locais com precisão topográfica. “Essa vontade de resolver enigmas sem realmente conseguir e de tentar desvendar um mistério me deu vontade de escrever, como se a escritura e a imaginação pudessem me ajudar a finalmente resolver esses enigmas e mistérios” (p. 23).

A cidade de Paris encontra-se ligada às suas primeiras impressões de infância – e tais impressões foram tão fortes que, desde então, nunca deixou de explorar os “mistérios” desse município. Conta que aos 9 ou 10 anos andava sozinho, apesar do medo de se perder – ia cada vez mais longe, para bairros que não conhecia, localizados à margem direita do Sena. “Era plena luz do dia e isso me tranquilizou. No início da adolescência tentei superar o medo e me aventurei à noite em bairros mais distantes, de metrô. É assim que se conhece a cidade e, nisso, segui o exemplo da maioria dos romancistas que admirava e para quem, desde o século XIX, a grande cidade – seja ela Paris, Londres, São Petersburgo, Estocolmo – foi o cenário e um dos temas principais de seus livros” (p. 24).

Cita o exemplo de Edgar Poe, em sua novela L’homme des foules (O homem das multidões). Poe foi um dos primeiros a evocar essas vagas humanas que caminham interminavelmente pelas calçadas e ruas da cidade (p. 24). “Ele avista um velho com aparência estranha e o segue à noite por diferentes bairros de Londres para descobrir mais a respeito dele. Mas o desconhecido é ‘o homem das multidões’ e é inútil segui-lo, pois permanecerá sempre anônimo e nunca saberemos nada sobre ele, que não tem existência individual, é simplesmente parte dessa massa de transeuntes que caminham em fileiras cerradas ou se acotovelam e se perdem nas ruas” (p, 25).

Patrick Modiano pesquisa, desde a juventude, antigos diretórios de Paris, sobretudo aqueles em que os nomes se encontravam dispostos por ruas com os nomes dos edifícios, tendo a impressão de ter diante dos olhos uma radiografia da cidade – “mas de uma cidade submersa, como a Atlântida, e de respirar o cheiro do tempo” (p. 26). Entretanto, de um ano para outro, alguns nomes desaparecem desses velhos anuários e os antigos números de telefone não se encontram mais ativos (p. 26-27).

Comenta os versos do poema “Leningrado” (1930), de Ossip Mandelstam (1891-1938), morto num campo de prisioneiros stalinista na Sibéria, que explora temática semelhante:

“Voltei para a minha cidade a ponto de chorar
Aos gânglios linfáticos da infância, as veias sob a pele

(…)

Petersburgo (…)
Você sabe meu número de telefone.
Petersburgo! Ainda tenho os endereços de antigamente
Posso procurar vozes mortas” (p. 27).

Portanto, foi a partir da consulta aos anuários antigos que Patrick Modiano escreveu seus primeiros livros, procurando cruzar o nome das pessoas, seus endereços e telefones e imaginar como teriam sido suas vidas entre centenas de milhares de nomes, as formas como se perderam ou desapareceram em uma grande cidade – onde se pode, inclusive “mudar sua identidade e viver uma nova vida” (p. 28).

“Os temas do desaparecimento, da identidade e da passagem do tempo encontram-se estreitamente ligados à topografia das grandes cidades. É por isso que, desde o século XIX, elas têm sido frequentemente do domínio dos romancistas, e alguns dos maiores dentre eles estão associados a uma cidade: Balzac e Paris, Dickens e Londres, Dostoïevski e São Petersburgo, Tóquio e Nagaï Kafû, Estocolmo e Hjalmar Söderberg” (p.28).

Sua geração foi influenciada por esses romancistas. Entretanto, as coisas mudaram e, em especial nos chamados países do terceiro mundo, depara-se com “megalópoles” de dimensões preocupantes, em que seus habitantes se espremem em favelas e/ou em bairros completamente abandonados pelo poder público, num clima de guerra social (p. 29). A partir dessa realidade, escreve que “gostaria de saber como os romancistas do futuro evocaram estas gigantescas concentrações urbanas nas obras de ficção” (p. 29).

Quase todos os críticos e estudiosos de sua obra afirmam que Patrick Modiano recorre, constantemente, “à arte da memória com a qual são evocados os mais alusivos destinos humanos”.

Mas tal dimensão, segundo ele, ultrapassa a sua pessoa, pois essa memória particular se esforça por recolher “alguns vestígios do passado e os poucos vestígios deixados na terra por anônimos e desconhecidos e encontra-se ligado à minha data de nascimento; 1945” (p. 29). Nasceu num momento em que cidades foram destruídas e populações inteiras desapareceram. Isso “tornou-me, sem dúvida, como os de minha idade, mais sensível aos temas da memória e do esquecimento” (p. 29-30).

Para Patrick Modiano a memória, hoje, tornou-se muito menos segura de si, e que “ela deve lutar constantemente contra a amnésia e contra o esquecimento” (p. 30). Apenas conseguimos captar fragmentos do passado, “vestígios interrompidos, destinos humanos fugazes e quase elusivos” (p. 30). A vocação do romancista, no seu entender, “diante dessa grande página em branco do esquecimento”, é a de “fazer ressurgir algumas palavras meio apagadas, como aqueles icebergs perdidos que flutuam na superfície do oceano” (p. 30).

4.

A grande maioria dos críticos e escritores aprecia o conjunto da obra de Patrick Modiano; mas alguns, nem tanto. Forneço uma pequena amostra a respeito, citando três casos.

Patti Smith (1946), no capítulo “Como a mente funciona”, de seu livro Devoção, declara-se fã de carteirinha de Patrick Modiano. Quase todos os dias ela pega seu caderno, sua caneta, algum livro e vai ler e escrever numa cafeteria do bairro em que vive, em Nova York. Lendo Acidente Noturno (2003) do autor francês, assim se manifestou: “lamento não escrever, mas percebo que me perder no vibrante torpor do universo de modiano é quase como escrever (…) Você penetra na pele do narrador com sua pálida noção de paranóia e preocupação com minúcias, e o espaço em volta se altera, Inevitavelmente, bem no meio de alguma frase, eu me vejo pegando a caneta” (p. 15).

Marcelo Coelho (Folha de S. Paulo, 14.02.2015), por sua vez, lhe torce o nariz, escrevendo que “os livros de Patrick Modiano mostram fascínio obsessivo por endereços parisienses” e que “toda a pesquisa parece valer menos por si mesma do que como subtítulo [referindo-se ao livro Dora Bruder] para a falta de imaginação do autor. A especulação, o jogo de hipóteses sobre o passado põem em cena, na verdade, o jogo de um romancista que simplesmente não é muito apto a criar boas histórias. Uma feliz consequência dessa incapacidade é que os livros são curtos, e nada difíceis de ler. Salvam-se do esquecimento (é o caso de Remissão da Pena, 1988) quando transparência e mistério, memória e irrealidade, conseguem reunir-se num equilíbrio delicado. Os demais, como se costuma dizer, são apenas para os fãs”. Para ele, Remissão da Pena se transfigura numa “vaguidão de infância, em que carinho, medo e mistério se fundem, digamos, no ‘’Grand Meaulnes’ de Alain Fournier (1886-1914).

Os livros de Patrick Modiano, para ele, “se tornam melhores quando se aproximam da autobiografia, tentando remexer a ficha policial de seu pai e uma infância e adolescência meio ao Deus-dará”. Em Ronda da Noite (1969) um grupo de figuras exóticas, “uma gangue”, se reúne numa mansão do square Cimarosa (…); posteriormente, a famosa ‘gangue da rue Lauriston será identificada pelo seu nome real na obra do autor”. Mas o detalhe, nada irrelevante, é que “o pai de Modiano, um judeu, foi salvo de morrer num campo de concentração graças a suas ligações, nunca muito esclarecidas, com essa quadrilha”.

Ronaldo Bressane, em “Memória Ocupada” (“Guia da Folha”, 28.02.2015), é de grande generosidade para com Patrick Modiano, destacando que o autor tem uma obsessão pelos quatro anos antes de seu nascimento (1941-1944), em que a França foi invadida por Hitler e colaborou com o regime nazista. “Uma época tenebrosa, em que judeus eram perseguidos e enviados para campos de concentração e até mesmo o lema ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’ foi trocado por Philippe Pétain (1856-1951) pelo ridículo ‘Trabalho, Família, Pátria’. Uma época nebulosa, em que não se sabia quem era herói e quem era vilão, quem era amigo e quem era traidor – uma época de que a França se envergonha e procura esconder. mas não adianta: Patrick Modiano, um Proust das sombras, é implacável ao lembrar daquele período soterrado – sua ficção é toda ela um ‘retorno do recalcado’ do inconsciente gaulês (…) Aos 23 anos já manejava todos os seus temas com segurança: a Ocupação, a memória a história, a identidade, a moral de cada um”.

*Afrânio Catani é professor titular aposentado da Faculdade de Educação da USP e, atualmente, professor sênior na mesma instituição. Autor, entre outros livros, de Origem e destino: pensando a sociologia reflexiva de Bourdieu (Mercado de Letras).

Referências


Patrick Modiano. Discours à l’Académie suédoise. Paris, Gallimard, 2015, 33 págs.

Bibliografia


Lucas Neves. Patrick Modiano, ‘Proust do nosso tempo’, vence o Nobel. “Ilustrada”. Folha de S. Paulo, 10.10.2014, p. E7.

Marcelo Coelho. Livros de Modiano melhoram quando viram autobiografia. “Ilustrada”, Folha de S. Paulo, 14.02.2015, p. E8.

Patti Smith. Como a mente funciona. In:Devoção (trad.: Caetano W. Galindo). São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Ronaldo Bressane. Memória ocupada: cinco livros trazem o francês Patrick Modiano, Prêmio Nobel de 2014, e sua arte de tecer memória e história. “Guia Folha”, Folha de S. Paulo, 28.02.2015, p. 5-8.


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