Quem quer a paz mundial de verdade?

Imagem: Vladimir Srajber
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Por FRANCISCO FOOT HARDMAN*

Desafios para uma multipolaridade na Amazônia e o papel de uma cooperação socioambiental efetiva Brasil-China

1.

Escrevo essas linhas durante a passagem do dia do professor no Brasil, celebrado em 15 de outubro. Para todos nós, que sabemos da máxima relevância da educação pública em qualquer processo de transformação social, vale sempre, por ocasião da COP-30 em Belém do Pará, fortalecer nossa esperança que se traduz em confiança na vida comum e na luta cotidiana para sua plena vigência. Salvar a Amazônia significa, inseparavelmente, salvar o Planeta.[i]

A Amazônia não é assunto somente das populações que lá vivem, sofrem e morrem, ou dos grupos de invasores que lá continuam explorações predatórias – especialmente no desmatamento da floresta e na mineração, no mais das vezes, clandestinas – que remontam ao passado colonial. Mas, que, lamentavelmente, cresceram de modo exponencial desde os anos 1970 e, mais ainda, no presente século.

A Amazônia é um bioma que diz respeito a 9 dos 13 países que compõem a América do Sul. No caso do Brasil, seu bioma abrange 60% do território nacional. Mas, acima de tudo, hoje, ela deve representar uma nova centralidade para o Brasil, a América Latina e o Mundo. Sua preservação é também a condição necessária à sobrevivência e continuidade da vida humana e de todas as formas naturais de vida em nosso planeta.

Viajei para a Amazônia a primeira vez nos anos 1980, ao pesquisar a trágica construção da ferrovia Madeira-Mamoré, na fronteira entre Brasil e Bolívia, ao longo dos rios Madeira e Mamoré, no território de Guaporé (hoje estado de Rondônia) em sucessivas tentativas que levaram à morte mais de 6 mil trabalhadores, desde a altura de 1870, até sua construção por mais de 400 Km, entre 1907-1912.[ii]

Na época, era a busca de escoamento para a crescente indústria do látex (borracha). Trabalhadores asiáticos, entre os quais chineses, indianos e japoneses também participaram dessa aventura, mais ou menos contemporânea da construção do canal do Panamá. A designação genérica de coolies a esses operários com baixa remuneração, condições insalubres de trabalho e moradia, bem próximas à escravidão, mal esconde seu caráter preconceituoso e racista.

Em vários estudos que fiz sobre a região amazônica, evidenciou-se a separação dessa imensa região do resto do território nacional. Euclides da Cunha, entre outros escritores, visitou a região por volta de 1905. Seu livro póstumo, À Margem da História (1909), é um grito de alerta à sua geração para a necessidade de incorporar essa grande região vital e desconhecida ao conjunto da história da nação brasileira, da América Latina e, sem dúvida, de todo o planeta.[iii]

2.

Viajei a primeira vez para a República Popular da China no ano de 2013. Desde então, nas oito viagens que realizei para lá, pude constatar o enorme interesse do povo chinês pelas culturas brasileiras. E, também, a sua justa preocupação pelas questões da desigualdade social e do colapso ambiental que dominam o mundo. Entre 2019-2020, vivi um ano inteiro em Beijing, como professor-visitante convidado pela Escola de Línguas Estrangeiras da Universidade de Beijing (BEIDA ou PKU) com quem a Unicamp mantém um acordo de cooperação científico-cultural desde 2018.

Nessa estadia longa vivi e conheci de perto a amizade e a solidariedade entre nós. Para minha alegria e boa surpresa, dessa experiência – mais difícil no período da chamada pandemia do coronavírus, em 2020 – escrevi 15 crônicas que muito interessaram ao público chinês e a Editora Universitária da BEIDA me convidou para publicar um livro, muito bem ilustrado e editado.[iv] Só posso ser imensamente grato por essa iniciativa.[v]

Em 2024, voltamos à China, entre maio-julho, em Pequim, e, depois, em novembro, em Shanghai. Novamente, os temas que predominaram em nossas palestras, e entrevistas à RTV China e ao Diário do Povo, com interesse crescente do público que nos acompanhou foram: (i) Sobre algumas afinidades culturais Brasil-China e perspectivas de uma aliança no contexto do Sul Global; (ii) pela Paz Global: as pontes entre Brasil e China no caminho de uma nova era; (iii) SOS Amazônia: o colapso socioambiental e o chamado de urgência à nossa geração; (iv) a China, o Brasil e a América Latina: juntar esforços pela paz mundial.

Pois é: celebramos em 2024 o cinquentenário das relações diplomáticas regulares entre o Brasil e a República Popular da China. E, chegados a 2025, temos que fortalecer ainda mais nossas “pontes que aproximam” sempre na perspectiva de uma paz mundial efetiva, que possa assegurar um futuro compartilhado em que prevaleçam: (a) multipolaridade, isto é, respeito às diferenças culturais e ação solidária pela superação da extrema pobreza e de situações crônicas de fome e carência alimentar; (b) a efetiva troca de conhecimentos científicos e tecnológicos, sem ranços hegemônicos nem cobiças de controle geopolítico; (c) linhas de cooperação educativa e pedagógica que façam aprofundar possíveis trocas entre estudantes, professores, técnicos e pesquisadores, tendo as universidades públicas como instituições coordenadoras do processo; (d) intercâmbios artísticos e culturais que possam dar a conhecer tendências contemporâneas dessas atividades em nossos respectivos países, bem como linhas históricas em que se revelem tradições e afinidades múltiplas; (e) as possíveis alianças na construção de uma nova ordem de “governança global” em que as questões socioambientais estejam na linha de frente de um novo mundo habitável para seres humanos e não-humanos, em que campo e cidade reencontrem harmonias perdidas, sempre em prol de uma possível (e boa) vida em comum.

3.

Nenhum triunfalismo deve vigorar a partir desse esboço de uma possível ação cooperativa. Os desafios são inúmeros e bastante graves. Fiquemos, aqui, num único exemplo. O da completa poluição por mercúrio da grande bacia do rio Tapajós, no oeste do estado do Pará, pela mineração em grande parte clandestina de ouro, onde vivem muitas comunidades indígenas, entre elas o dos índios Munduruku.

O grande cineasta brasileiro Jorge Bodansky, dirigiu, em 2022, um documentário contundente sobre essa tragédia, intitulado Amazônia, a nova Minamata? O paralelo é feito com a enorme contaminação de mercúrio ocorrida na cidade de Minamata, Japão, a partir de 1932, em função de uma grande indústria de plástico ali instalada e que utilizou mercúrio em abundância na sua linha de produção. Destaca-se, no filme atual, a figura da líder indígena munduruku Alessandra Korap, estudante da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), na cidade de Santarém.

A esse filme emblemático vem se somar, mais recentemente, o espetáculo teatral dirigido pela artista performática e pesquisadora da Amazônia, Gabriela Carneiro da Cunha, que esteve em cartaz, em São Paulo, nos meses de agosto-setembro passados. Chama-se simplesmente Tapajós, e denuncia igualmente a poluição de mercúrio naquela região, tendo como principais vítimas “o testemunho de rios que vivem uma catástrofe” e as comunidades ribeirinhas e indígenas que lá habitam em comunhão com as águas e a selva. Igualmente comovente, impressionante e quase sem palavras.

Diante de nós, portanto, quando a COP30 se apresenta em nossa querida Belém do Pará, mais um dos muitíssimos desafios e pedidos de socorro que a natureza-mãe e todas as mães dos rios e da selva nos conclamam. Será a nossa geração digna de reagir, para além da indignação, com ações solidárias, concretas e urgentes que o avanço da barbárie a todos nós conclama?

Lembro-me bem da região de Santarém e do rio Tapajós, que visitei há cerca de 40 anos. O garimpo artesanal dos anos 1950 já estava sendo substituído, nos anos 1970, pela mineração de ouro com motobombas de alta pressão que extrai a ilusão do brilho fácil da riqueza em troca da contaminação mercurial sem cura de todas as populações originárias que lá estão há séculos e que lá vivem em harmonia com o meio ambiente. Garimpo totalmente ilegal, clandestino e assassino.

Sem falsos triunfalismos, nem falsos misticismos… Que a lentidão das burocracias estatais não impeça nem retarde a cooperação solidária em prol da saúde dos nossos povos amazônicos, e de todo seu habitat silvícola. Saúde que poderá significar, também, a nossa última chance aqui na Terra.

*Francisco Foot Hardman é professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China tropical: crônicas de viagem (Unesp). [https://amzn.to/42nrjKN]

Notas


[i] Este texto foi feito a partir de convite do Consulado Geral da China em São Paulo, por ocasião da COP30 em Belém do Pará. Foi publicado no livreto Diálogo Ecológico: China-Brasil para um planeta sustentável, em parceria com IBRICS+, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e Instituto Confúcio da UNESP e lançado em 07/11/2025.

[ii] Cf. F. Foot Hardman, Trem-fantasma: a ferrovia Madeira-Mamoré e a modernidade na selva. São Paulo: Comp. Letras, 2005 (2ª. ed. rev. ampl.).

[iii] Cf. F. Foot Hardman, A Amazônia e a radicalização do pensamento socioambiental de Euclides da Cunha (Prefácio), pp. 15-31, In: E. da Cunha, À margem da história. São Paulo: Ed. Unesp, 2019 (Edição crítica organizada por L. M. Bernucci, F. F. Hardman e F. Rissato). Cf. também, de minha autoria, os ensaios que reuni em A vingança da Hileia: a Amazônia de Euclides e a utopia de uma nova história. São Paulo: Ed. Unesp, 2023 (nova ed. rev.).

[iv] Cf. F. Foot Hardman, Meu diário da China: a China atual aos olhos de um brasileiro. Beijing, PKU Press, 2021 (edição bilíngue ilustrada). A versão brasileira saiu com o título Minha China tropical: crônicas de viagem. São Paulo: Ed. Unesp, 2024.

[v] Acrescento, aqui, que a convite de Min Xuefei e Fan Xing, dei uma palestra na Universidade de Pequim, em dezembro de 2019, sobre o tema: “Hileia Amazônica: quando alguns humanos destroem nossa casa comum”. Com tradução simultânea de nossa então aluna Liu Tingting (Helena), essa intervenção teve muito impacto e ótimo debate numa plateia atenta e muito sensível ao tema. Idem, a convite da pesquisadora e tradutora Inez Zhou, em novembro de 2019, na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul (SUSTech), em Shenzhen, Guandong, sobre o tema: “Hileia Amazônica: quando a natureza se vinga dos humanos”, que também mobilizou muito interesse.


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