Reflexões sobre a pandemia

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Por Lucas Machado*

Não basta divulgar resultados científicos, mas torná-los compreensíveis para o público geral; é preciso tornar acessível e compreensível os próprios processos e métodos que levaram a eles

Conhecimento e realidade

Diante da atual situação de pandemia, gostaria de fazer algumas observações que penso serem importantes, não apenas para a travessia deste momento tão difícil, mas também para repensarmos uma série de aspectos de nossa sociedade e de nossa postura diante do conhecimento e da produção de conhecimento.

Em primeiro lugar: não desdenhem dos cientistas e das autoridades de saúde, se eles mudarem o seu posicionamento acerca de tratamentos e métodos eficazes de prevenção. Muito pelo contrário: saibam valorizar precisamente o fato de que eles estejam dispostos a mudar de posicionamento, se as razões para essa mudança se basearem na própria mudança do conhecimento que temos sobre os fatos.

Suponham, por exemplo, que um tratamento, que antes não era recomendado, passa a ser recomendado pelos cientistas e autoridades de saúde. Isso significa que eles não são confiáveis? Afinal, por que eles mudariam de ideia, se o tratamento é, no fim das contas, efetivo?

Para compreender isso, é necessário lembrar que há uma diferença fundamental entre a realidade e o nosso conhecimento dela. Mesmo que algo seja verdadeiro (como, por exemplo, que determinado tratamento é efetivo contra o coronavírus), disso não se segue que estamos (ao menos, no momento) em condições de saber que isso é verdadeiro. A nossa ação, porém, só pode ser orientada por meio de nosso conhecimento, já que não temos nenhum modo de acessar a realidade independentemente dele e, portanto, não podemos decidir o que vamos fazer ou como vamos nos comportar diante dessa realidade, independentemente do conhecimento que temos dela.

Imagine, por exemplo, que você está perdido em uma floresta. Você vê uma árvore cheia de frutos. Como você está com fome, você pode supor que seria uma boa ideia comê-los. Você não sabe, porém, se esse fruto é venenoso, se ele não poderia te fazer mal, ou mesmo matá-lo. Pela falta de conhecimento a esse respeito, portanto, *mesmo* que o fruto não seja, na realidade, venenoso, mesmo que ele fosse, pelo contrário, extremamente nutritivo, não seria recomendável simplesmente comê-lo. Antes, o recomendável seria buscar formas de tentar ampliar o seu conhecimento sobre esse fruto, talvez observando se outros animais o comem, sentindo o seu cheiro, ou mesmo colocando-o de leve na boca, mas sem ingeri-lo, para poder de alguma maneira adquirir mais informações sobre ele. Seja como for, é fácil compreender por que, não sabendo absolutamente nada sobre o fruto, não seria recomendável, simplesmente, decidir por ingeri-lo.

Mas, digamos que, no fim das contas, o fruto não era venenoso. Isso significa que todo aquele cuidado para saber mais a respeito dele, antes de decidir ingeri-lo, foi em vão? Não; afinal, por mais que ele não seja venenoso, ele *poderia* ser; não há nada, no fato dele, por fim, não ser venenoso, que implica que poderíamos estar seguros, desde o princípio, que ele não fosse. E, se nos arriscássemos a comê-lo, mesmo sem ter nenhum conhecimento prévio dele, poderíamos, certamente, nos beneficiar disso; mas poderíamos, igualmente, nos prejudicarmos. E, mais do que isso: se tornássemos hábito tomar decisões desse tipo, sem nenhum conhecimento prévio acerca daquilo sobre que estamos nos decidindo, o mais provável é que, na maior parte das vezes, nos déssemos muito mal.

Para entender isso, acho muito útil usar o exemplo do cassino. O cassino é o exemplo perfeito de um negócio que sobrevive da falta planejada de conhecimento, e que mostra precisamente que, se fazemos de regra tomarmos nossas decisões sem nos basearmos em um conhecimento cuidadosamente obtido dos fatos em questão, o saldo dessa atitude será, via de regra, negativo. Os jogos de cassino se baseiam, fundamentalmente, em uma aleatoriedade que impede que o jogador possa ter um conhecimento que lhe permita prever, de maneira eficaz, o resultado final do jogo. Precisamente por isso, porém, que a maior parte dos jogadores, a maior parte das vezes, perde. Haverá casos em que algum jogador ganhará? Certamente. Mas, a gigantesca maior parte das vezes, ele perderá, assim como todos os demais jogadores. Quem ganha, quando se toma decisões sem conhecimento, não é quem toma a decisão desse modo, mas sim quem está do outro lado dessa decisão, ou seja: o cassino. Daí aquela famosa expressão: “A casa sempre ganha”.

(É por isso também que, sempre que algum jogador se vale de métodos e conhecimentos que lhe permitem controlar perfeitamente ou quase perfeitamente o jogo, eles não são permitidos e são expulsos e banidos de cassinos; cassinos operam com a pressuposição fundamental de que, se você está se dispondo a jogar neles, você está se dispondo a jogar em uma condição de tão poucas informações e conhecimento que é mais provável que você perca do que que você ganhe.)

Por isso, não basta que algo seja, de fato, benéfico para nós; antes que possamos decidir usá-lo a nosso favor, é preciso que coletemos e adquiramos conhecimento a seu respeito, para que possamos *saber* (ou ter mais segurança de) que é benéfico, já que também poderia não ser. Ninguém te recomendaria comer o fruto na floresta antes de ter alguma ideia de se ele é venenoso ou não. Se, porém, depois de coletar informações e buscar adquirir conhecimento sobre esse fruto, se pudesse estabelecer com mais segurança que ele é benéfico, então, é natural que mudemos nosso pensamento, e passemos, de não recomendá-lo, a recomendá-lo.

Mudar de posicionamento, nesse caso, não é sinal de instabilidade ou de inconfiabilidade. Muito pelo contrário: é sinal de manter uma postura consequente diante do fato de que só podemos orientar nossas ações em relação à realidade com base no conhecimento que temos até então dela. E de saber reconhecer que o aumento do conhecimento implica, muitas vezes, a mudança de posicionamento.

Por isso, se os cientistas e autoridades de saúde mudam suas recomendações, e se o fazem por causa dos resultados dos experimentos e das pesquisas que vêm sendo feitas para se obter mais conhecimento sobre o vírus, admirem eles por isso, em vez de desdenhá-los, e respeitem mais o posicionamento deles precisamente porque, como cientistas, estão reconhecendo que nosso conhecimento sobre a realidade sempre pode ser aprimorado e, desse modo, também o nosso posicionamento a respeito dela pode mudar. Valorizem a mudança de posicionamento que se baseia na busca vigorosa, rigorosa e metódica de conhecimento sobre a realidade, e não em razões arbitrárias, pessoais, políticas, ou de qualquer outro tipo. Se tomarmos nossas decisões sobre a pandemia sem nos basearmos no esforço e na busca contínua de conhecimento, não tenham dúvidas: o vírus sempre ganhará.

“Mas Lucas, você está dizendo então que os cientistas e autoridades de saúde sempre mudam de posicionamento apenas por boas razões? Que eles nunca o fazem por motivos arbitrários, ou que não têm nada a ver com a busca e a obtenção de conhecimento?” De modo algum. Reconhecer que nosso conhecimento é falível é necessariamente também reconhecer que seres humanos são falíveis, e que também cientistas, portanto, o são. Por isso que eu disse: saibam valorizar o fato de que eles estejam dispostos a mudar de posicionamento, *SE* as razões para essa mudança se basearem na própria mudança do conhecimento que temos sobre os fatos.

Mas, como podemos decidir em que se baseia uma mudança de posicionamento? Como podemos saber se se baseia em razões arbitrárias ou está, de fato, bem fundamentada nas pesquisas e nos resultados das pesquisas que vêm sendo feitas? É sobre isso que gostaria de falar a seguir.

Além da divulgação

Falei sobre a importância de valorizar a mudança de posicionamento dos cientistas e pesquisadores acerca dos tratamentos apropriados para o coronavírus, se essa mudança se basear em novas evidências adquiridas por meio da pesquisa científica. Fiz, porém, a seguinte pergunta: uma vez que cientistas e pesquisadores também são seres humanos e, por isso, suas razões para mudar de posicionamento podem não ser, necessariamente, cientificamente justificadas, como podemos distinguir entre uma mudança de posicionamento baseada em evidências e uma que não seja?

Ora, para saber se há evidências que dão fundamento à mudança, é preciso saber avaliar as pesquisas disponíveis sobre o assunto. E aqui, entramos em um ponto central que, a meu ver, está, junto com outras coisas, no cerne da crise de conhecimento, de fake news e “pós-verdade” pela qual passamos atualmente: a separação entre divulgação e formação em pesquisa.
De uma maneira muito grosseira, podemos dizer que a nossa sociedade está separada em dois grupos: aqueles que sabem fazer pesquisa e conhecem os seus procedimentos, e aqueles que se preocupam apenas em conhecer os resultados das pesquisas, sem dar atenção especial aos métodos utilizados para se chegar a eles.

O problema, com isso, é que nos focamos muito no RESULTADO das pesquisas, sem, contudo, dar a devida atenção ao PROCESSO por meio do qual ele é obtido. E, uma vez que ignoramos como uma pesquisa chegou a seu resultado, também somos incapazes de avaliar a qualidade e a confiabilidade dele. Isso, porém, acabou por nos fazer esquecer algo que um certo filósofo alemão compreendeu uma vez com muita clareza: que, se buscamos conhecimento sobre algo, o processo por meio do qual chegamos a alguma conclusão a seu respeito é pelo menos tão importante quanto a própria conclusão.

Não basta que se divulgue os resultados e se torne-os compreensíveis para o público geral; é preciso tornar acessível e compreensível os próprios processos e métodos que levaram a eles. Não basta, em outras palavras, divulgar a pesquisa: é igualmente preciso *formar* para ela. É preciso ensinar como ela funciona, os seus pressupostos, métodos e procedimentos, e fazê-lo de modo acessível, a fim de que todos possam avaliar por si mesmos a qualidade de uma pesquisa e a confiabilidade de seus resultados.

É por isso que gostaria de fazer um apelo, aqui, para todos que trabalham com pesquisa: comecem a focar no ensino dos processos dela *pelo menos* tanto quanto nos resultados, expondo, de maneira acessível e compreensível, não apenas as conclusões a que chegaram, mas como chegaram a elas. Expliquem como funciona o processo de pesquisa científica, tanto de áreas particulares quanto no geral. Precisamos superar a ideia de que o mundo se divide entre aqueles que sabem pesquisar e aqueles que não sabem. Se nem todos precisam *fazer* pesquisa sobre tudo, todos precisam, porém, *saber* como se faz, e serem formados para tanto.

Em nossa era digital, somos todos pesquisadores; isso não quer dizer, porém, que sejamos bons nisso. Para tanto, é necessário formação; e, para que haja formação, é preciso que a comunidade científica e acadêmica não trate seus métodos e procedimentos com mesquinhez, como algo que deveria ser sua posse e privilégio exclusivo, mas sim torne parte fundamental de seu projeto como instituição tornar esses métodos universalmente acessíveis e compreensíveis. Só assim se poderá, efetivamente, cumprir a missão de possibilitar a todos a participação na construção coletiva do conhecimento.

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Aqui, mais uma vez, talvez possam perguntar: “Mas, então, se todos tiverem acesso ao conhecimento dos procedimentos de pesquisa, isso significa que poderemos, por fim, ter um conhecimento absolutamente seguro da realidade? Estaremos, assim, protegidos de qualquer erro?” Mais uma vez, a resposta só pode ser negativa. Não há nada que elimine completamente a nossa falibilidade, e, mais do que isso, ela é inerente a qualquer método de pesquisa. É por isso que, no próximo artigo, discutirei um pouco mais profundamente a questão da falibilidade de nosso conhecimento, e o que ela implica ele e para o processo por meio do qual o adquirimos.

*Lucas Machado é doutor em filosofia pela USP.