Régis Bonvicino (1955-2025)

image_pdf

Por TALES AB’SÁBER*

Homenagem ao poeta recém-falecido

“Mesmo a coruja cantando para o rouxinol, o tio se reencarnando no rato, o padre operário sendo metralhado pela tropa de Pinochet, a rua infectando a chuva, ainda tolerará o mundo, o poema?”
(Aurora Bernardini, sobre “Estado crítico”, 2013).

Régis Bonvicino, um poeta da imensa ironia. Muito marcado pelo vanguardismo concreto dos anos 1970 e 1980, este duplo paulistano de Paulo Leminski era mais duro, mais irascível, mais violento, mais materialista do que todos os outros poetas de sua geração.

A sua tendência à irreconciliação o levou gradualmente a se afastar de toda festividade e alegria gratuita, de todo autocuidado lírico em mundo de violência sistemática, de todo eu sutilmente celebrado, seja ele “straight”, ou em busca de um lugar ao sol, como dizem os americanos.

Com o tempo, o seu sol passou a ser o da sarjeta, a sua comunidade, a do lixo – humano – o seu país o da acumulação da violência e do ganho degradante de todas as formas. Sua poesia passou a ser um tour de force de tudo que o Brasil recusa, para ser o que é, mas convive distraído.

Acompanhando o percurso de Régis Bonvicino percebe-se bem a ilusão e a fragilidade auto protetora das vanguardas da linguagem e do comportamento no Brasil, enquanto a história faz exigências extremas. Não há ilusão em sua poesia dos últimos quinze anos, épica negativa, materialmente cruel.

Épica de desvalido, nenhum herói, sem mundo que o valha, em busca da imagem da coisa da violência do mundo. A coisa da violência, jogada na rua. A relevância, no limite do esquecimento, estava no mal da história e não nos jogos de linguagem e proteção dos que ainda “tem sapatos”, os vencedores, ainda que de classe média, ou desejantes de classe média, no Brasil.

Amigo franco, torturado e espinhoso, Régis Bonvicino nunca deixava de se espantar, e nos espantar, com a amplitude da última bandalha que descobria, da sua própria classe destruindo o país para melhor explorá-lo. Sentirei falta desse homem exigente e espantoso.

A seguir transcrevo dois poemas de Régis Bonvicino:

Do que se trata

Um mendigo dorme em si mesmo
buracos na calçada
farol vermelho
o cara estoura a janela
enfia a cabeça dentro do carro
cacos de vidro no asfalto
arranca o celular
tráfico de telefones para a África
pasta de cocaína
rivais bloqueiam o edifício
o soldado se atira pela janela
helicópteros sobrevoam o bunker
drones carregados de explosivos
incêndio, corpos queimados
uma coluna de fumaça
se confunde com as nuvens
o pássaro faz uma rasante
diabos de todos os tipos
uma tenda ao lado da igreja
o carrasco dizia:
“o imperador Maximiliano
quando avistava uma forca
tirava-lhe o chapéu”
o passado é imprevisível
becos, cortiços, porões
as pretas lavavam roupas na beira do rio
o sol caía, céu vermelho
mãe dos agonizantes,
não é só Gaza que agoniza

(2025)

Álibi

Oh, Pai, tende piedade
dos zilionários, dos vendedores legais de armas
dos lobistas, do dinheiro farto dos narcos
dos unhas de fome, dos gigolôs dos cassinos
dos traficantes de iguanas, rim e fígado

Oh, Pai, tende piedade
dos banqueiros, dos juros sobre juros,
do laissez-faire chinês, do marketing do bem
dos plutocratas, dos fundos-abutres
garras, o condor-dos-andes não canta

Oh, Pai, tende piedade
dos meões do dinheiro sujo dos contratos públicos
daqueles que depreciam os papéis de P.P. Pasolini
daqueles que lavam dinheiro com H. Matisse
misericórdia divina, delícia e êxtase dos santos

Oh, Pai, tende piedade
dos xeques, dos grandes proprietários de terra
daqueles que não entregam a lebre
dos traficantes de marfim, caveiras com dentes e pedras
da criptomoeda, dos chefetes políticos despóticos

Oh, Pai, tende piedade
dos traficantes de lixo eletrônico, dos agiotas
dos matadores de aluguel, dos guarda-costas
dos sócios ocultos, dos donos de offshores
Oh, Pai, sobretudo tende piedade de nosso honrado boss.

(2020)

*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
4
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
5
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
6
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
7
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
8
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
9
A suposta nova riqueza do imperador
11 Jan 2026 Por PAUL KRUGMAN: A guerra por petróleo na Venezuela é uma ficção: as reservas são superestimadas, os custos proibitivos e os únicos lucros reais são os de aliados políticos de Trump, não do contribuinte americano
10
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
11
O agente secreto
14 Jan 2026 Por ANDRESSA ANTUNES & MAURO FRANCO NETO: O filme opta por uma violência oblíqua e um passado fragmentado, revelando como o autoritarismo se entranha no cotidiano através de micropoderes e corrupção ordinária
12
A racionalidade equívoca
11 Jan 2026 Por JOÃO QUARTIM DE MORAES: Posfácio do livro póstumo recém-lançado de Gérard Lebrun
13
Marx e o Estado
16 Jan 2026 Por ARI MARCELO SOLON & ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN: Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Rafael Padial
14
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
15
Imediatez – o estilo do capitalismo tardio demais
12 Jan 2026 Por THOMAS AMORIM: Comentário ao livro de Anna Kornbluh
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES