Roberto Mendes: tradução e sabedoria poética

Imagem: João Nitsche

Por HENRY BURNETT*

Comentário sobre o músico baiano e o samba do recôncavo

Muitas vezes o tempo precisa agir, só assim algumas pessoas e obras se mostram em sua inteireza, iluminando nossas vidas e agindo como motor de renovação. Nesses tempos que atravessamos, essas pessoas e suas obras chegam com uma força redobrada, trazendo energia vital para nosso cotidiano cansado e desesperançado.

A primeira vez que vi e ouvi Roberto Mendes foi no documentário Tempo rei (Andrucha Waddington, 1996). Gil apresentava ao mundo seu jeito “violeiro, violado” e deixava clara a influência daquele violão sobre, por exemplo, “Expresso 2222”, executado em duo por eles numa cena memorável do filme.

Achei incrível na época que assisti, mas minha impressão não captara quase nada sobre o que estava por trás de sua figura meio tímida, daquele homem recolhido no ambiente de onde emana desde sempre sua música, Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, sem nunca de lá sair. Sua imagem ficou gravada de modo silencioso em minha memória.

Corta para 2020, este fatídico ano que teima em não acabar. Vejo o anúncio de mais uma live no canal do SESC no YouTube; meio enfadado, olho como quase todo dia a atração da vez – que não raras vezes nos salva o dia morto. Era o dia de Roberto Mendes, tocando direto do recôncavo, com seu filho João Mendes ao violão junto com o baterista e percussionista Tedy Santana. Com 10 minutos de atraso dou o play, acompanho até o fim, embevecido e arrependido por não ter ouvido o toque de Gil, de não ter acompanhado aquela obra de mais perto.

Passei as 24 horas seguintes sem conseguir fazer nada a não ser ouvir sua música, disponibilizada em seu canal no YouTube e nas plataformas de streaming. Sigo assim, como se essa descoberta tardia fosse agora inadiável e de algum modo irrecuperável. Duas produções me chamaram imediata atenção: 1. o SESC 24 de Maio disponibilizou um documentário em três partes, fundamental para quem não sabe quem é ou nunca ouviu falar nesse compositor baiano (disponível aqui: http://tiny.cc/sea1tz). Mas há também 2. um novo álbum independente, chamado Na base do cabula, de 2019. O disco foi lançado nesta unidade do SESC pouco antes do fechamento de tudo. As produções estavam, portanto, interligadas de algum modo. Mergulhei nas duas obsessivamente.

Começo pelo documentário. Gravado no que parece um quintal, talvez seu quintal, o que encontramos é, sem nenhuma concessão à palavra, um homem sábio; coisa rara. A descrição oficial é precisa: “O Samba antes do samba é um projeto que pretende levar a um público amplo o vasto conhecimento sobre a origem do samba na Bahia e compartilhar a paixão do músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes por sua gente, sua terra e sua cultura”. Uma aula apaixonada, ou uma paixão explicitada.

Se eu tivesse lido o resumo antes de ver os filmes, talvez eu esperasse encontrar algo didático, uma outra forma de contar uma história razoavelmente conhecida: a migração das famosas tias Ciata, Preciliana e Amélia do recôncavo para o Rio de Janeiro, sua penetração entre os músicos cariocas, a origem do samba e seu desenvolvimento etc. Não. Diferente de entrar na estúpida querela sobre o “verdadeiro nascimento do samba”, Roberto reconstrói sua “tradução” da oralidade santamarense, explicitando esse caminho que vai da chula ao samba sem nenhum laivo de afetação ou arrogância; isso, simplesmente isso, é o que chamo aqui de sabedoria. É tão raro hoje que chama imediata atenção.

O espectador recebe uma aula, sem dúvida, mas uma das aulas mais leves e profundas que já ouvi. Não raro este professor hoje de cabelos e barba branca engasga com um choro sentido, como quando lembra de sua primeira experiência como professor de matemática em Acupe (BA). Não cabe descrever, é preciso assistir e acompanhar a descrição de seu encontro com outro professor e seu primeiro mestre de violão, seu Tuni, e como as conexões se formaram tendo a música daquela região de Santo Amaro como pano de fundo. Roberto Mendes diz que seu violão é “percussão ferida”, “próximo do tambor”. Demora um tempo entender, mas logo me dei conta que, ao não se considerar violonista, ele nos ajuda a entender porque é um dos mais originais violonistas em atividade.

“Na oralidade a melodia fica solta”. “A unidade só pode existir se cada variante respeitar a outras”. Frases lapidares cheias de um conhecimento alimentado ao longo de toda uma vida como estas desconstroem totalmente a ideia que ele tenta nos passar de modo humilde e descompromissado, ou de que seu violão não seria profissional etc. A verdade é que a websérie empresta uma renovada interpretação à história do samba e de suas raízes, de um jeito único que precisa ser cuidadosamente assimilado.

Daí ao seu novo disco, gravado somente com violão e voz, Na base do cabula, explicado por ele com mais uma frase modelar, “as frequências depois do impacto voltam ao ponto do impacto”, fecham o ciclo e iluminam uma obra quase oculta, como tantas que o Brasil ignora. É o segundo momento em que a emoção domina seu discurso extremamente coeso, ao falar do disco como um retorno aos começos, produzido pelos seus dois filhos, “o disco da volta”. A volta de quem nunca foi, entenda-se, a volta ao princípio ordenador de sua vida.

Em certo momento do documentário ele explica: “Minha função como artista é traduzir”, transpor aquela música para seu universo particular. Tudo sempre em seu quintal, literal e organicamente. Estudos de vida que resultam em um violão soberbo em sua rítmica dominante. O final deste texto é incontornável, uma obrigação teórica. Se João Gilberto sistematizou a escola de samba em seu violão e se tornou por isso o modernizador da música brasileira do século XX, e se Roberto Mendes fez o mesmo com o samba do recôncavo, que forma a base oral e secular daquele outro, logo, pois é…

*Henry Burnett é professor de filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de Nietzsche, Adorno e um pouquinho de Brasil (Editora Unifesp).