Soberania cultural

Imagem: Scott Umstattd
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Por ARTHUR COELHO BEZERRA*

Entre apagões elétricos e culturais, Bad Bunny transforma o palco do império em espaço de afirmação latino‑americana

1.

Não há como assistir à apresentação de Bad Bunny na final do Super Bowl nos EUA sem notar as inúmeras referências ao cotidiano porto-riquenho, e muita gente já escreveu sobre os jibaros dos trabalhadores dos campos de plantação de açúcar e sobre as malquecitas que reúnem famílias e amigos para festejar na casita, passando pelos problemas no abastecimento de energia.

Ao longo do espetáculo, são muitos os gatilhos que disparam lembranças – boas e ruins – do povo que habita a colônia mais antiga do mundo: com seu status colonial vigente até hoje, Porto Rico esteve sob domínio da Espanha desde 1508 até a Guerra Hispano-Americana de 1898, quando se torna colônia dos Estados Unidos. Embora seja um território “não incorporado” e possua um Estado com constituição própria, as decisões finais sobre a ilha são tomadas em Washington.

A performance de Bad Bunny no evento esportivo mais assistido na América do Norte, com audiência estimada entre 120 e 150 milhões de pessoas, ocorre no momento em que as tensões entre o Immigration and Customs Enforcement (ICE) e a comunidade latina estão no auge. O ICE, uma agência policial de imigração criada em 2003 sob o guarda-chuva do Departamento de Segurança Interna dos EUA, tem sido alvo de duras críticas por sua atuação.

Com um orçamento anual que ultrapassa os US$ 8 bilhões, valor que supera os orçamentos militares de todos os países do mundo com exceção dos EUA e da China, o ICE opera com um poderio logístico e uma agressividade que tem colecionado casos de violência, detenções arbitrárias em ambientes como tribunais e hospitais e até assassinatos, tanto de imigrantes quanto de cidadãos estadunidenses.

Para a comunidade latina, o ICE se tornou um símbolo de terror, uma polícia que, sob o pretexto de verificar status migratório, aborda pessoas com base na cor da pele, no sotaque hispânico ou em perfis étnicos, gerando um clima de medo e insegurança em bairros inteiros. A presença, no Super Bowl, de um ícone porto-riquenho, cuja cidadania norte-americana não o livraria de ser alvo desse mesmo perfilamento racial, é um ato de visibilidade e resistência em um contexto de criminalização da latinidade.

2.

Essa criminalização tem na língua falada e escrita um de seus instrumentos mais poderosos. É por isso que, logo após a invasão da ilha em 1898, os Estados Unidos tentaram impor o inglês em Porto Rico, intensificando esforços nas décadas de 1900-1930, especialmente no sistema educacional.

A política colonial visava “americanizar” a população, tornando o inglês a língua oficial de instrução escolar, um eficaz instrumento de dominação através do apagamento da cultura e do sentimento nacionalista. Um século depois, vemos a condenação de Donald Trump e de seus simpatizantes, na TV e em mídias sociais, em relação ao fato de Bad Bunny – que no Super Bowl se apresentou com seu nome de batismo, Benito Antonio Martínez Ocasio – insistir em cantar e se comunicar com o público na língua espanhola.

À guisa de tal crítica, os trumpistas afirmam que Benito é “americano”. O cantor porto-riquenho responde, no show do Super Bowl, listando com precisão geográfica todas as nações que existem no continente chamado “América”, partindo do Chile, no extremo sul, passando pela América Central e Caribe até chegar ao Canadá, para então finalizar com sua terra natal.

Em tempo: entrar no debate que equipara uma língua colonizadora (a do inglês) a outra (a do espanhol) é, além de inútil, um exercício perigoso – sabemos onde a busca pela pureza de um povo costuma chegar. É fato que as matrizes culturais são, elas mesmas, resultado de misturas, diásporas e atravessamentos. Nem o espanhol nem o inglês haviam sido ouvidos no território que chamamos de América até o fim do século XV.

Os do norte que se consideram “americanos” se comunicam em uma língua que atravessou o Oceano Atlântico e se impôs perante os idiomas nativos. Sem qualquer demérito das populações indígenas que bravamente mantêm seu legado cultural e linguístico vivo, o fato é que a colonização de mais de 400 anos, que perdurou por inúmeras gerações, fez com que hoje se fale majoritariamente espanhol em Porto Rico e em quase toda a América Latina.

É esta a língua que a maioria dos pais, avôs e bisavôs de nossos hermanos e hermanas, incluindo os de Benito, aprenderam a usar. Quando Benito fala em espanhol no Super Bowl, promove um ato de soberania cultural latino-americana.

3.

O exercício dessa soberania cultural não é mero luxo estético. Sem que se esqueça das contradições internas de cada país nos processos de “civilização” que erguem seus monumentos culturais (que, como lembra Walter Benjamin, são também monumentos da barbárie), cabe considerar a contribuição de manifestações de exaltação à cultura latino-americana como armas simbólicas e práticas contra a colonização cultural promovida por invasões bárbaras de impérios em declínio.

No contexto colonial de Porto Rico, onde a soberania nacional formal não existe, a soberania cultural torna-se um campo de luta fundamental. É a reivindicação do poder simbólico e prático de existir e se reproduzir como uma comunidade distinta, apesar da dominação política. Bad Bunny, ao saturar o epicentro da cultura massiva estadunidense com símbolos porto-riquenhos e com a língua espanhola, exerce uma forma de controle soberano sobre a narrativa e a representação de seu povo.

Mesmo com a ausência de soberania estatal, mesmo com a falta de eletricidade e os apagões de energia pelo descaso governamental (denunciados na música El Apagón, uma das apresentadas no show), o artista se insurge contra o apagão cultural e contra a chamada “havainização” da ilha pelo processo de gentrificação atualmente em curso.

Apesar da barreira linguística, há muito da cultura latino-americana que nós brasileiros compartilhamos e que reconhecemos no espetáculo de Benito, como os vendedores de água de coco, os inúmeros salões de beleza, o dominó dos coroas na esquina e, claro, a criança dormindo nas cadeiras do canto de um casamento barulhento e cheio de gente, em meio à celebração das famílias estendidas que é marca maior do que os gringos chamam de melting pot – o caldeirão cultural que, na prática latina, retroalimenta identidades e celebra a festa não porque a vida é mole, como ensina Luiz Antonio Simas, mas precisamente porque a vida é dura.

Isso vale para o samba brasileiro, para o tango argentino, para a salsa cubana, para a cumbia colombiana, para o merengue dominicano e, sem dúvida, para o reggaeton multifacetado de Bad Bunny, que mostra que a periferia de um império decadente também pode cadenciar os ritmos do mundo.

*Arthur Coelho Bezerra é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do IBICT-UFRJ. Autor do livro Miséria da informação: dilemas éticos da era digital (Garamond).

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