Somente os povos fazem sua história

Eduardo Berliner, Trompete

Por JOSÉ RAIMUNDO TRINDADE*

Comentário sobre o livro de Samir Amin

“O marxismo, que analisa a realidade do mundo a fim de fazer com que as forças atuem por uma mudança tão efetiva quanto possível, adquire necessariamente uma vocação tricontinental (África, Ásia, América Latina)” (Samir Amin).

No final de 2020 a editora Expressão Popular lançou uma coletânea de artigos do economista marxista egípcio Samir Amin. A pequena repercussão da obra de Amin, que faleceu em 2018, no Brasil pode ser explicada pelo cerco endogenista da maior parte da academia, inclusive marxistas, e ao elevado grau de despolitização da maioria dos grupamentos político partidários da esquerda brasileira.

Primeiramente, o problema do “endogenismo” compreendido pela condição de que os capitalismos seriam todos eles locais e não haveria influências externas centrais, além das já tipificadas relações comerciais, em outras palavras, a ideia de imperialismo, tão cara ao marxismo clássico, foi praticamente apagada do vocabulário, os custos disso foram e serão bem elevados.

Segundo, desde o fim da antiga URSS (União Soviética) a maior parte da esquerda brasileira se refugiou ou em noções genéricas de soberania nacional ou em discursos pós-modernos, em grande medida negligenciando completamente as relações de dependência e desenvolvimento desigual sob a qual o capitalismo se expande mundialmente, ou tratando a noção de globalização como uma “conquista civilizacional”, no caso dos pós-modernos.

Theotonio dos Santos – amigo pessoal de Amin – já notava, muito corretamente, que a economia mundial capitalista cria dois grandes tipos de formações: as centrais e as dependentes, sendo que esses capitalismos apresentam a “mesma temporalidade”, ou seja, centro e periferia constroem sua história  simultaneamente, sendo que o desenvolvimento do subdesenvolvimento que passa a constituir as periferias exige como contrapartida a superexploração dos seus trabalhadores e torna a expansão das forças produtivas muito mais contraditórias que nos centros. Essa percepção era em grande medida comungada pelo autor africano.

A obra contém onze artigos que o autor trabalhou e publicou na revista marxista Monthly Review entre 2000 e 2018, portanto os últimos artigos produzidos por esse genial e prolixo cientista social e militante revolucionário. Vale notar que a introdução do marxista indiano Aijaz Ahmed nos possibilita viajar em cinco décadas da produção teórica de Amin, desde sua tese doutoral até suas recentes análises sobre a crise orgânica do capitalismo, uma excelente introdução a um autor que a exemplo de um outro marxista, também já falecido em 2012, Eric Hobsbawm, pugnava que a ação interpretativa histórica era parte da sua própria vivência e luta pela dignidade humana, algo que requereria obrigatoriamente a superação do capitalismo.

Amin a exemplo dos autores latino-americanos vinculados a teoria marxista da dependência, tinha uma expectativa muito própria sobre a construção teórica marxista, segundo o próprio autor o capitalismo contemporâneo requeria a base teórica do marxismo clássico, mas era imprescindível uma enorme inventividade interpretativa de Marx tanto mais necessária para lidarmos com o século XXI. O capitalismo histórico, considerando seu desenvolvimento localizado, constitui uma preocupação para muitos autores, principalmente sabendo-se que a interação entre a totalidade sistêmica e as condições culturais, sociais e econômicas nunca foram movimentos teóricos fáceis de serem desenvolvidos.

A obra de Amin tem na sua tese doutoral publicada sob o título Acumulação em escala mundial uma agenda de pesquisa e estudos que manterá até o final de sua vida. Na dobrada dos dois séculos, entre o breve XX e a incógnita do XXI, afirma-se uma crise orgânica do capitalismo. Na leitura do autor, o capitalismo existe enquanto um modo de produção em crise contínua de ciclos longos, sendo que o grande período entre 1875 e 1950 seria a “primeira longa crise do capitalismo histórico”.

O capitalismo constitui uma totalidade sistêmica, por mais que sua essência baseada na concorrência entre capitais e da pulsão pela concentração da riqueza, porém como nos observa o autor o capitalismo histórico tem uma dimensão de destrutividade baseada na “despossessão cultural e material dos povos dominados das periferias” (Amin, 2020, p. 95).

O imperialismo capitalista se modifica no século XX e assume neste XXI uma configuração ainda mais senil. A trilateral imperialista, constituída pelo poder hegemônico estadunidense e circundada por parte da Europa ocidental e pelo Japão cordial, tem uma engrenagem fundamental nas chamadas “rendas de império” (Amin, 2020). Essas “rendas de império” nada mais são do que os fluxos contínuos de transferência de riquezas (excedentes econômicos) do Sul para o Norte Global.

A interpretação das “rendas de império” está muito próxima a percepção de transferências de valor (riqueza) da periferia para o centro, algo que constitui a base da dependência, fundada numa situação de compromisso entre os interesses que movem as estruturas internas dos países dependentes e as do grande capital internacional, centrados segundo o autor na trilateral imperialista.

Essa interpretação implica que as estruturas que movem o compromisso nos países dependentes internalizam em linhas gerais os interesses dos monopólios internacionais e a divisão internacional do trabalho que lhe é correspondente, o que limita fortemente o grau de autonomia de suas economias e sociedades, inclusive quanto aos aspectos democráticos, o que o autor observa no formato de interações religiosas e políticas, o que ele denomina de o “Islã político”.

A resistência social e a projeção de um sistema de longo prazo alternativo ao capitalismo passariam por um conjunto muito amplo de movimentos que Samir Amin denomina de “socialismo histórico”, antes de ponderarmos a percepção possível de transição do capitalismo que o autor denota, vale observar dois aspectos: (1) a crítica a Trotsky e a sua análise do erro e incapacidade de Lenin, Stalin e Mao de interpretarem a impossibilidade do “socialismo localizado”. Diga-se esse debate é de fato central para se repensar uma “quinta internacional” como propõe o autor. Samir Amin via tanto Lenin quanto Mao como coerentes nas decisões principais tomadas, especificamente a NEP (Nova Política Econômica) e no caso de Mao a “revolução cultural” e a permanência da lógica campesina enquanto parte das relações estratégicas da revolução chinesa, obvio o autor era um crítico ferrenho de Stalin e de sua lógica de restrição da ação popular, especialmente a expropriação camponesa e a coletivização forçada, o que segundo ele estaria na raiz da “ruptura na aliança operário-camponesa” e “por trás do abandono da revolução democrática e a virada autocrática” (Amin, 2020, p. 161).

(2) O atual imperialismo baseia-se em um “capitalismo monopolista generalizado”, cujo centro constitui as transferências de valor da periferia para o centro em formatos diversos, mas que constitui lógica que de um lado não leva a uma solução do tipo “super imperialismo” como pensavam Kautsky e Hilferding, como também mantém a disputa dos Estados nacionais e sua intervenção sistêmica e multipolarizadora.

As análises desenvolvidas por Amin nos levam a visualizar como o capitalismo enquanto fenômeno globalizado se move. Como alerta o autor, a atual globalização é a terceira de um processo que se inicia ainda no século XV, sempre estabelecendo uma longa crise sistêmica cuja solução histórica sempre aparece na forma de profunda destruição de vidas e capital. Porém nos alerta ainda para uma lógica mais grave, o capitalismo é uma longa e continua transição cujos elos cíclicos, como afirmava Marx, são uma “espiral infinita”. Assim dois movimentos parecem ser derivados do desenvolvimento do capitalismo nestes últimos momentos: (a) “o renascimento do fascismo em sociedades que estão cada vez mais em total desordem” e; (b) a “multipolaridade, é simplesmente inaceitável para a tríade” imperialista” (Amin, 2020, p. 190-191).

Considerando o que Amin nos colocou, duas ações concretas e militantes dos movimentos organizados no atual momento são necessários serem observados, para além do que nos resta resmungar: primeiro, o quanto a resistência social da periferia ou do Sul Global poderá construir novos elos de rebeldia e revolução e, segundo o quanto a humanidade poderá se opor a um “suicídio civilizacional”, como nos alerta esse último profeta egípcio.

*José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA. Autor, entre outros livros, de Crítica da Economia Política da Dívida Pública e do Sistema de Crédito Capitalista: uma abordagem marxista (CRV).

 

Referências


Samir Amin. Somente os povos fazem sua história. São Paulo: Expressão Popular, 2020, 252 págs.