Triste Alemanha

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Por FLAVIO AGUIAR*

Na Alemanha de hoje, o silêncio virou virtude — e a crítica, crime

1.

Li, consternado, que a escritora indiana Arundhati Roy decidiu retirar-se do Festival Internacional de Berlim, conhecido como a Berlinale, em protesto diante de uma declaração do presidente do seu Grande Júri. Questionado sobre a posição do governo alemão de apoio à política genocida do governo de Israel em relação aos palestinos, ele declarou que “os artistas não devem envolver-se em política”. Acrescentou que ”a arte não deve misturar-se com política”.

Foi apoiado pela produtora polonesa Ewa Pszczynska que afirmou ser injusta aquela pergunta porque os cineastas não podem ser responsabilizados pelas posições dos governantes. Existem tantos outros genocídios pelo mundo, comparou, e ninguém diz nada a respeito deles. Um corolário deste seu pensamento, que ela não aceitaria, seria que não deveríamos nos ocupar do Holocausto promovido pelos nazistas, uma vez que os europeus exterminaram tantos povos e culturas pelo mundo afora que ele seria apenas mais um genocídio dentre tantos.

Os jesuítas do colégio em que fiz a maior parte de meu ensino hoje dito médio me ensinaram que o pior pecado que se pode cometer é aquele por omissão. Na outra ponta do espectro ideológico, Bertolt Brecht disse (estou citando de memória) mais ou menos que aquele que não sabe o que acontece é apenas um ignorante, mas que aquele que sabe e não fala é um criminoso. Este é o pecado, ou o crime, cometido pelo presidente do Grande Júri da Berlinale, além de ser um insulto à tradição do festival.

Durante os quase vinte anos que morei em Berlim, cobri regularmente a Berlinale. Trata-se de um festival que tem três grandes atrativos especiais. Em primeiro lugar, é muito amplo, reunindo produções atuais e históricas e também cineastas do mundo inteiro, com filmes raros que não passam no circuito comercial.

Segundo, não se limita ao tapete vermelho das celebridades e seus arredores, mas se espraia pela cidade inteira, envolvendo cinemas de bairro, seminários para jovens cineastas e cinéfilos, sessões especiais para adolescentes e crianças, o que ajuda a entender por que cinema não fecha em Berlim, não vira estacionamento nem igreja. Terceiro, é dos festivais mais politizados da Europa, sobretudo no que toca às causas dos direitos humanos.

Por isso é compreensível o repúdio de Arundhati Roy às declarações absurdas do presidente do Grande Júri. Sua atitude foi secundada por uma carta de 80 cineastas e produtores também repudiando aquelas declarações.

A diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, e o ministro da Cultura, Wolfram Weimer, se solidarizaram com o Presidente do Júri.

2.

O pior de tudo está na identidade do Presidente do Grande Júri. Trata-se, nada mais, nada menos, de Wim Wenders! Wim Wenders! O diretor de Buena Vista Social Club, de Asas do desejo, de Paris, Texas e muito mais! Para mim sua imagem se espatifou ali na hora. Do alto de seus 80 anos, rasgou a própria história.

Este episódio é um sinal da degradação moral que vem corroendo a vida intelectual e cultural na Alemanha.

Por um lado, lateja a soturna culpa em relação ao povo judaico. Do outro lateja o desejo de “pôr a Alemanha nos trilhos”, e “fazer a coisa certa”.

Esta pinça leva ao que chamo de “automatismo redutor”. Tudo começou antes do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023. Começou com a guerra na Ucrânia. Assim: se você é crítico do governo de Kiev, é porque você é a favor do Vladimir Putin. Não importa se o Exército de Volodymyr Zelensky está recheado de neonazistas que usam símbolos da SS e fazem o elogio dos ucranianos que ficaram do lado de Hitler na Segunda Guerra.

Não há espaço para a reflexão, nem para a História. Agora a Alemanha está fazendo a coisa certa, apoiando Davi contra Golias. Não importa se este Davi tem por trás de si a garra da OTAN, o outro Golias. É que a OTAN é do bem, e a Rússia é do mal. E ponto final, não se discute mais.

O Bundestag, o Parlamento Alemão, aprovou uma lei declarando o antissemitismo um crime contra o Estado. Até aí tudo bem. Acontece que isto fomentou um novo macartismo. Se você critica a política genocida de Benjamin Netanyahu e da extrema direita israelense contra os palestinos, criminalizando todos eles, inclusive crianças, mulheres e idosos, é porque você é antissemita.

Instalou-se um clima de perseguição e cancelamentos. Intelectuais e artistas que fizeram declarações defendendo os direitos dos palestinos, inclusive muitos judeus e judias, tiveram contratos e prêmios sumariamente cancelados por serem considerados antissemitas. Instalou-se uma espécie de pânico promovido por denúncias que sequer são verificadas.

Neste contexto, a declaração de Wim Wenders é lastimável, mas compreensível. Trata-se do medo de levar a pecha de antissemita, hoje tão maligna quanto era a estrela de Davi na roupa dos judeus durante o regime nazista.

Nas ruas a polícia reprime com violência extrema qualquer manifestação pró-Palestina. O clima começa a ficar sufocante. Enquanto isto, as bandeiras da extrema direita, xenofobia, ódio ao refugiado e ao imigrante, defesa da Europa “tradicional e cristã” começam a contaminar os demais partidos, até pela esquerda, em nome de proteger os direitos dos trabalhadores alemães. A palavra “paz” virou anátema.

Como alternativa à política de sanções contra a Rússia ter mergulhado a Alemanha numa crise econômica grave, devido aos cortes no fornecimento de gás, a Alemanha está investindo, como outros países europeus, na indústria armamentista. O resultado é a militarização das mentes e das almas. O militarismo prussiano saiu do armário. O Partido Verde hoje é apelidado de verde-oliva, tal o afã com que dirigentes seus defendem esta militarização do espaço político. Pacifistas de ontem defendem a preparação para a guerra, “defensiva”, dizem eles.

Bertold Brecht, Thomas Mann, Heinrich Mann, Heinrich Heine, Erich Maria Remarque, Anna Seghers, Goethe, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburg, Simone Weil, Erich Fried, mais os milhões de mortos na Primeira e na Segunda Guerra, devem estar todas e todos se remexendo em seus túmulos. Que seus restos mortais iluminem os vivos para evitar a catástrofe que cresce e se avizinha.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]

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