Um corpo estendido na capa

Imagem: Mike van den Bos
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Por CARLOS A. P. VASQUES*

Consumir a dor espetacularizada como notícia é ratificar, em silêncio, o pacto social que naturaliza a violência e anestesia o olhar

1.

A capa do jornal que estampa um corpo violentado não é um retrato da realidade, mas a sua conclusão. Como desenvolve Mariana Carvalho na apresentação do livro, a análise tem início “A partir da história de Cleidenilson, jovem maranhense amarrado em um poste e espancado até a morte” para discutir como “as narrativas midiáticas sobre linchamentos e as tantas violências que historicamente no Brasil não costumam ter nome e sobrenome, mas costumam ter algo em comum: a cor da pele” (CARVALHO, 2024).

Esse é o produto final de um processo analisado por Angélica Fontella (2024) em seu livro Um corpo estendido na capa: jornalismo de sensações e cenas de linchamento. A autora desnuda a engrenagem do jornalismo de sensações, revelando-a não como um desvio de conduta, mas como um operador central na máquina de produção do linchamento.No entanto, para compreender a profundidade dessa barbárie simbólica, é necessário ir além da análise midiática e lançar mão de um arsenal teórico que desvele as patologias sociais que ela alimenta e explora.

O linchamento midiático é a chave para decifrar uma sociedade que ainda opera sob a lógica do açoite, do bode expiatório e da dessensibilização neoliberal.Este artigo busca, portanto, aprofundar a tese de Fontella (2024), costurando-a com um arsenal teórico que expõe as patologias sociais que este fenômeno alimenta.

O ponto de partida do livro é o assassinato brutal, por linchamento, do jovem negro e pobre Cleidenilson Pereira da Silva em 2015, no Maranhão, e a forma como a imprensa, notadamente divulgou na primeira página de um jornal carioca na edição de 08/07/2015.

A capa do jornal, ao contrapor a foto de Cleidenilson nu, morto e amarrado a um pilar, com a gravura Aplicação do castigo do açoite de Jean-Baptiste Debret (1815) que retrata o castigo público de um escravizado, não apenas denuncia a violência, mas revela uma permanência histórica da crueldade no Brasil. Essa justaposição é o motor central da obra, que vai além do caso específico para dissecar a relação intrincada entre o jornalismo de sensações e a perpetuação de estruturas sociais violentas.

Fonte: Gravura 1 – https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/07/08

Angélica Fontella (2024) demonstra como o “corpo estendido” é fabricado pela mídia: um corpo dessubjetivado, reduzido a um signo de perigo, amplificado e oferecido como espetáculo. Esta operação encontra seu fundamento filosófico em Judith Butler (2014) em Vida precária: os poderes do luto e da violência” onde a filósofa argumenta que o luto é distribuído de forma desigual, distinguindo vidas passíveis de luto daquelas pré-condicionadas à invisibilidade, a violência e ao descarte.

No contexto brasileiro, o jornalismo de sensações atua como árbitro dessa distinção, legitimando socialmente quem merece luto e quem deve ser descartado. Ao seguir o roteiro descrito por Angélica Fontella (2024) – que apaga a biografia e reduz a vítima a um “suposto ladrão” – a mídia performa ativamente a produção de uma vida não chorável. O “corpo estendido” na capa é a materialização visual e concreta de um corpo já marcado para o descarte.

A cobertura não erra ao retratá-lo; ela cumpre com maestria sua função social de definir quais mortes importam e quais devem ser consumidas como espetáculo. A vítima do linchamento é, primeiro, assassinada simbolicamente pela narrativa, para que sua morte física encontre um terreno fértil de indiferença ou aplauso.

2.

Angélica Fontella (2024) vai além da identificação do “corpo estendido” e detalha o “roteiro do linchamento”, uma sequência narrativa previsível que culmina na violança. Este roteiro é a reatualização midiática de um ritual arcaico, brilhantemente teorizado por René Girard (2004) em O bode expiatório demonstra como as comunidades em crise canalizam sua violência mimética (repetição e amplificação do desejo violento) para um único indivíduo, cujo sacrifício restaura momentaneamente a ordem e a coesão social.

O jornalismo de sensações, na análise de Angélica Fontella (2024), atua como o sacerdote moderno desse ritual. Ele não apenas identifica o bode expiatório, mas, através do seu circuito narrativo, o estigmatiza e o oferece à multidão. A sequência do crime, da fúria popular e da “justiça” com as próprias mãos é a liturgia perfeita para esse sacrifício.

A morte simbólica e física da vítima, amplificada pela mídia, serve como válvula de escape para frustrações sociais profundas (desemprego, desigualdade, falência do Estado), liberando a comunidade da necessidade de encarar suas próprias contradições.  A mídia, nesse contexto, não reporta a crise; ela a gerencia através do sangue alheio, seguindo o manual não escrito do jornalismo de sensações.

3.

Para entender por quem o bode expiatório é quase sempre escolhido no Brasil, Angélica Fontella (2024) nos leva a mergulhar na nossa história, um movimento corroborado por pesquisadoras como Jacqueline Muniz e Ana Paula Miranda (2015) em Linchamentos e justiça penal: uma análise a partir da teoria do etiquetamento demonstram com clareza que a prática do linchamento no país é um surto de violência contemporânea, mas a reencenação de um espetáculo de terror racial com profundas raízes coloniais.

A construção do “corpo estendido” herda diretamente a lógica do pelourinho. Há uma linha direta que conecta o corpo negro escravizado, açoitado publicamente no pelourinho para educar e aterrorizar, ao corpo negro e pobre estendido na capa do jornal. A espetacularização pública do sofrimento sempre foi uma ferramenta de controle social. A mídia, ao herdar inconscientemente ou não este papel, naturaliza a punição exemplar ao corpo não-branco, reatualizando o racismo estrutural como espetáculo noticioso. O “corpo estendido” de Angélica Fontella (2024) é, portanto, um corpo racializado.

Esta lógica do descarte não se encerra na rua. Ela é parte de um continuum de controle, como aponta Ângela Davis (2018), ao analisar o “Complexo industrial-prisional” em seu livro “Estarão as prisões obsoletas?” mostra como a criminalização da pobreza e da negritude alimenta um sistema que lucra com o encarceramento em massa.

O “corpo estendido” na capa é o produto de propaganda desse sistema. Ele justifica a violência extrajudicial (“se a justiça não faz, o povo faz”) e, ao mesmo tempo, fortalece o apelo por um Estado mais punitivo e encarcerador. A mensagem subliminar é clara: certos corpos são um perigo público e sua neutralização – seja pelo linchamento na rua, seja pela prisão em massa – é um bem social. A mídia, ao vender a imagem do “monstro” que ela mesma fabrica, vende também a solução simplista e violenta para o “problema”.

4.

E como a sociedade consegue consumir essa violência repetidamente sem colapsar? A resposta pode estar em Byung-Chul Han (2017) em seus livros A sociedade do cansaço e Topologia da violência onde o filósofo coreano descreve a passagem de uma violência imunológica (que vem de fora) para uma violência neuronal (que vem de dentro), caracterizada pela superexposição a estímulos.

A repetição incessante das cenas de linchamento – a reciclagem interminável do “corpo estendido” – na mídia e nas redes sociais não gera ação política ou revolta ética; gera exaustão e indiferença. É uma violência que não confronta, mas satura. A dor alheia, espetacularizada, se torna mais um feed a ser rolado, mais um estímulo a ser consumido e descartado. A espetacularização, portanto, não choca; ela anestesia. A sociedade, bombardeada por imagens de horror, corpos estendidos, torna-se incapaz de reagir, aceitando a barbárie como um ruído de fundo da vida cotidiana.

Diante do quadro complexo, que vai do filosófico ao histórico, do antropológico ao penal, traçado a partir da obra fundamental de Angélica Fontella (2024), fica claro que o “jornalismo de sensações” é um sintoma de doenças muito mais profundas. Combater essa prática exige mais que um código de ética; exige um projeto político e cultural de reumanização que se contraponha a toda a lógica do “corpo estendido”.

O antídoto, como bem sugere a autora, é um jornalismo do corpo inteiro. Que se recuse a ser o sacerdote de Girard, tornando-se o narrador das biografias interrompidas. Que combata a lógica butleriana da vida precária, insistindo no valor infinito de cada existência. Que desmonte a herança escravocrata, dando voz e rosto àqueles que a história sempre tentou apagar. Que denuncie o complexo industrial-prisional e que rompa com a violência neuronal de Han, provocando a reflexão lenta em vez do choque efêmero.

O livro, em seu final, deixa o leitor diante de um dilema: como cobrir a violência sem se tornar cúmplice, ainda que involuntário, da máquina histórica que a reproduz? A resposta está em uma prática jornalística que, ao invés de apenas estender o corpo na capa, se compromete a expor as raízes históricas que o ataram àquele pilar. No entanto, essa transformação não é apenas uma responsabilidade da redação, mas um espelho para a sociedade.

O corpo estendido na capa não é uma notícia, é a assinatura de um pacto social. Quem consome esse espetáculo sem se revoltar contra a lógica que o produz já assinou, em silêncio, a sentença que condena não apenas a vítima na foto, mas a própria possibilidade de uma sociedade que se reconheça no rosto do outro.

*Carlos A. P. Vasques é pós-graduado em Administração, Finanças e Contabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (RJ).

Referências


BUTLER, Judith. Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence. London: Verso, 2004.

DAVIS, Ângela. Estarão as prisões obsoletas? Tradução de Marina Vargas. 1. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2018.

FONTELLA, Angélica. Um corpo estendido na capa: jornalismo de sensações e cenas de linchamento. Rio de Janeiro: Estudos Americanos, 2024.

GIRARD, René. O Bode Expiatório. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2004.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Tradução de Ênio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Topologia da Violência. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.

MUNIZ, Jacqueline; MIRANDA, Ana Paula Mendes de. “Linchamentos e Justiça Penal: Uma Análise a Partir da Teoria do Etiquetamento”. In: Revista Brasileira de Segurança Pública, v. 9, n. 2, 2015. pp. 120-135.

CARVALHO, Mariana. Texto da 1ª. orelha. In: FONTELLA, Angélica. Um Corpo Estendido na Capa: Jornalismo de Sensações e Cenas de Linchamento. Rio de Janeiro: Estudos Americanos, 2024. Orelha.

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