Venezuela – A causa do problema nunca será a solução

Imagem: Liz Vo
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Por VÁRIOS AUTORES*

O silêncio diante da violência nunca é neutralidade; é cumplicidade. A história, quando se pronuncia, raramente perdoa aqueles que desviaram o olhar – e desta vez, o olhar deve estar fixo na defesa de que a América Latina não é fronteira selvagem de ninguém

1.

O que está acontecendo hoje na Venezuela não é uma anomalia nem um desvio inesperado da ordem internacional. Tampouco pode ser interpretado como uma reação temporária a um governo específico ou como um episódio isolado de tensão diplomática. É, mais uma vez, o reaparecimento de uma lógica histórica que a América Latina conhece com dolorosa precisão: a de ser tratada como uma fronteira selvagem, um território onde as regras que governam o “mundo civilizado” são suspensas sem qualquer questionamento e a violência é exercida como se fosse um direito natural.

Bloqueios econômicos totais, confisco de bens, operações militares secretas, ameaças explícitas de intervenção e sequestros são apresentados sob uma nova versão da Doutrina Monroe e da Doutrina de Segurança Nacional, que, na verdade, se assemelham ao mito do “espaço vital” utilizado pelo Terceiro Reich há um século. Essas práticas não representam desvios do sistema internacional: fazem parte de seu funcionamento histórico, especialmente no que diz respeito ao Sul Global e à América Latina.

O que aconteceu em 3 de janeiro, no entanto, marca um novo patamar. Não foi uma mera reiteração de práticas conhecidas, mas uma demonstração obscena de impunidade perante qualquer lei e uma confirmação da atual “palestinização do mundo”. A violação da soberania venezuelana, realizada sem declaração de guerra e apresentada publicamente como uma demonstração de poder, não suspendeu a ordem internacional: tornou-a dispensável. Onde antes operavam eufemismos diplomáticos, ambiguidades legais ou pretextos humanitários, surgiu a afirmação direta de que a força, por si só, é suficiente para legitimar a ação.

O que se demonstrou não foi um excesso, mas uma pedagogia da dominação dirigida ao mundo inteiro. Os nomes dos governos mudam, os léxicos ideológicos são atualizados, as desculpas morais são recicladas, mas o roteiro permanece intacto. A América Latina surge mais uma vez como um espaço disponível para punições exemplares, experimentações políticas e a pedagogia do medo.

A história regional é tão clara que não há motivo para fingir surpresa. Invasões militares, ocupações prolongadas, golpes de Estado, guerras por procuração, bloqueios econômicos, sabotagem, sequestros e campanhas sistemáticas de demonização pela mídia acompanharam todas as tentativas de autonomia política, redistribuição social ou controle soberano de recursos ao longo de duzentos anos. Nunca se tratou de erros isolados nem de excessos corrigíveis, mas de uma política persistente, sustentada por uma concepção hierárquica do mundo que reserva para alguns povos, escolhidos por um Destino manifesto, a plenitude do direito e, para outros, a exceção permanente.

2.

Pensar a América Latina como uma fronteira selvagem não significa aceitar uma identidade imposta, mas sim denunciar o olhar imperial que a construiu como tal. Esse olhar imperial não apenas cria territórios disponíveis, mas também produz hierarquias humanas. Ele decide quais vidas merecem luto, quais atos de violência são escandalosos e quais podem ser tratados como danos colaterais. A ordem internacional não se limita a regular conflitos: ela distribui a sensibilidade, legitima a indiferença e organiza os silêncios.

Portanto, a agressão não começa com mísseis, mas com a normalização de uma linguagem que torna o inaceitável aceitável e invisibiliza aqueles excluídos da distribuição de direitos. É um olhar que naturaliza a violência contra o Sul Global com a cumplicidade de seus aliados locais, que racializa os conflitos e que suspende descaradamente os princípios do direito internacional quando estes obstruem interesses estratégicos.

O que em outros territórios seria considerado um crime, um ato de guerra ou uma flagrante violação da soberania, aqui se torna uma “medida”, uma “pressão”, uma “operação preventiva” ou uma “assistência para a estabilidade”. Em certa medida, a brutalidade tornou-se mais explícita, e a antiga desculpa da “democracia” perdeu sua utilidade e apelo. O que resta é a defesa da “liberdade” – a liberdade dos senhores e comerciantes, o medo e a moralidade dos escravos.

Nesse sentido, a Venezuela não é uma exceção, mas um ensaio geral. Quando uma potência age dessa maneira e não enfrenta sanções efetivas, a mensagem é inequívoca: a exceção se torna a regra. O que é tolerado hoje como um caso isolado será incorporado amanhã como precedente operacional. O direito internacional não desmorona da noite para o dia; ele é corroído pelo acúmulo de silêncios. Este é um cenário em que os limites do que pode ser alcançado sem gerar uma reação significativa da comunidade internacional são testados. O que é tolerado hoje como um caso isolado será invocado amanhã como precedente.

3.

Nada disso implica ignorar os conflitos internos, os debates, as concepções profundas sobre o que é ou deveria ser a democracia, ou as dívidas sociais endêmicas dos países latino-americanos. Não podemos negar isso, assim como não podemos aceitar que essas tensões possibilitem a agressão externa — na verdade, a história demonstra repetidamente que tais agressões e intervenções imperiais têm sido o maior combustível para os conflitos sociais e o subdesenvolvimento nesses países. Nenhuma crítica interna justifica uma invasão.

Nenhuma divergência política legitima a punição coletiva de um povo. A soberania não é uma recompensa pela virtude nem uma certificação moral concedida de fora: é o limiar mínimo para que as sociedades decidam seu destino sem que uma arma seja colocada sobre a mesa de negociações.

Diante dessa escalada, a resposta de grande parte da comunidade internacional tem sido o silêncio, a ambiguidade, a tibieza diplomática e a falta de medidas concretas. Uma linguagem que não busca deter a violência, mas sim administrá-la.

Palavras que nunca nomeiam o agressor, que diluem a responsabilidade e que equiparam o perpetrador ao resistente. A história da América Latina nos ensina que as grandes tragédias não começaram com bombardeios, mas com palavras e desculpas que os tornaram toleráveis. Quando a agressão é normalizada, a violência avança sem controle.

Defender a soberania da Venezuela hoje não significa defender um governo ou silenciar o debate interno. Significa rejeitar uma lógica que reinstaura a guerra como instrumento legítimo da ordem internacional, baseada nos interesses dos mais fortes. Significa afirmar que a América Latina não é quintal nem fronteira de ninguém; não é zona de sacrifício, nem fronteira selvagem de ninguém. E significa também assumir uma responsabilidade intelectual fundamental: romper com a amnésia histórica antes que a história seja reescrita, mais uma vez, com o sangue de outros.

Porque permanecer em silêncio diante da agressão nunca foi sinal de neutralidade. A história, quando finalmente se pronuncia, raramente perdoa aqueles que desviaram o olhar. Para muitos, isso não importa. Para nós, importa sim.

*Óscar Andrade, Uruguay

*Felicitas Bonavitta, Argentina

*Pablo Bohorquez, España

*Atilio Borón, Argentina

*Emilio Cafassi, Argentina

*Stella Calloni, Argentina

*Mario Carrero, Uruguay

*Aviva Chomsky, Estados Unidos

*Carolina Corcho, Colombia

*Raquel Daruech, Uruguay

*Boaventura de Sousa Santos, Portugal

*Federico Fasano, Uruguay

*Walter Goobar, Argentina

*Débora Infante, Argentina

*Eduardo Larbanois, Uruguay

*Jorge Majfud, Estados Unidos

*Víctor Hugo Morales, Argentina

*Adolfo Pérez Esquivel, Argentina

*Gustavo Petro, Colombia

*Jeffrey Sachs, Estados Unidos

*Andrés Stagnaro, Uruguay

*Jill Stein, Estados Unidos

Tradução: Artur Scavone.

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