Zohran Mamdani – a virada que desafia o império

image_pdf

Por MANUELA D’ÁVILA & ORLANDO SILVA*

No coração do império, a política do cuidado e do dissenso vital devolve uma palavra proscrita ao vocabulário do possível: o comum

1.

O vídeo começa sem aviso, como uma cena roubada da vida. No Bronx, Zohran Zohran Mamdani caminha de terno azul e microfone na mão. É mais uma tarde de campanha nas calçadas de Nova York. Um homem passa e, em tom provocador, lança: You’re a communist! Mamdani ri. – I’ve been called worse. [Já me chamaram de coisa pior].

A resposta é simples, mas desmonta a agressão. O homem hesita, se aproxima, pede o microfone. “I voted for Trump”, confessa – “Eu votei no Trump”. A expectativa seria o confronto. Mas não há confronto. Zohran Mamdani escuta. O homem continua: “I don’t agree with everything you say, but you talk to us” [“Eu não concordo com tudo o que você diz, mas você fala com a gente”].

É um diálogo breve, banal, e talvez por isso tão decisivo. Numa época em que o insulto parece ser a única forma de interlocução política, Zohran Mamdani responde com escuta. Em poucos segundos, o insulto “comunista” perde seu peso de ameaça e volta a circular como palavra comum, quase curiosa. Um signo devolvido ao campo do possível.

Essa pequena cena, captada por acaso, sintetiza um tempo de ruptura. Em 2025, um ano após Donald Trump voltar à presidência, a vitória de Zohran Mamdani na prefeitura de Nova York é uma virada simbólica. Em meio ao esgotamento do bipartidarismo norte-americano, ele representa uma nova linguagem política: a da presença e da escuta, a do antagonismo que não se confunde com ódio, a do cuidado que não é sentimentalismo, mas programa.

Nos Estados Unidos, país que transformou o individualismo em religião e o mercado em moral, um político abertamente socialista venceu falando de preço do aluguel, transporte público, creches e cessar-fogo em Gaza. A radicalidade não estava no estilo, mas na substância. Falar de redistribuição num país que fez da desigualdade um destino é, por si só, um ato revolucionário.

Zohran Mamdani não surge como um outsider carismático. Ele é um organizador comunitário, nascido em Uganda, filho de pais muçulmanos, formado no Queens, um político que aprendeu a traduzir o sofrimento social em agenda concreta. Sua vitória é o resultado de uma construção paciente, feita de alianças entre imigrantes, trabalhadores precarizados e jovens desiludidos com as promessas do liberalismo.

Num cenário em que o Partido Democrata se tornou gestor da apatia e o Partido Republicano o canal institucional da fúria, Mamdani oferece uma terceira linguagem: uma política popular, mas não puramente populista; radical, mas não sectária; moral, mas não moralista.

2.

A cena do vídeo é o retrato dessa travessia. O homem que votou em Donald Trump e agora conversa com um socialista representa uma fatia crescente dos Estados Unidos: os desiludidos de ambos os pólos, os órfãos do consenso. É o mesmo desamparo que, em contextos diferentes, aparece nas periferias do Brasil, no entorno de Paris, nas fábricas da Inglaterra, nas megacidades que surgiram nas últimas décadas no continente africano. O que está em jogo é mais que uma eleição, é a busca por sentido num mundo em colapso.

O bipartidarismo norte-americano sempre funcionou como o centro simbólico do Ocidente: um sistema que transformou o conflito social em disputa de marketing. Democratas e Republicanos são duas faces de um mesmo consenso: o da inevitabilidade do mercado. Donald Trump, com seu populismo autoritário, rompeu a fachada moral desse sistema, mas não sua lógica.

Zohran Mamdani, ao contrário, propõe romper o próprio modelo. Ele representa uma cisão interna, uma esquerda que se assume anti-sistêmica e anti-guerra dentro do coração do império. Enquanto Barack Obama prometia reconciliação, Mamdani propõe antagonismo. Ele não fala em restaurar a normalidade, mas em reconstruir o comum. Sua agenda não é apenas um conjunto de políticas sociais; é um projeto de refundação democrática. Onde o liberalismo vê crise, ele enxerga possibilidade.

A vitória de Zohran Mamdani é, nesse sentido, mais que uma resposta ao trumpismo. É um contraponto ético à forma de vida que o produziu. Porque o trumpismo não nasceu do nada: ele é o produto final de uma economia que destruiu o trabalho, corroeu as comunidades e transformou o medo em capital político. O mesmo sistema que gera bilionários também fabrica ressentimento. A extrema direita soube capturá-lo. Zohran Mamdani tenta transformá-lo.

Há uma diferença profunda entre usar o medo e escutar a dor. O vídeo mostra exatamente isso. Quando o homem diz “eu votei no Trump”, Zohran Mamdani não reage com indignação nem com indulgência. Ele escuta. É um gesto pequeno, mas revela uma ética: a de que a política não pode existir sem escuta, e a escuta, sem antagonismo. Escutar o outro não é concordar com ele; é reconhecer que o conflito é parte do comum.

Essa ética do antagonismo é o que falta à democracia norte-americana e, de certo modo, à política global. O bipartidarismo dos Estados Unidos, assim como o centrismo que se espalhou pelo mundo, vive da recusa do conflito. Seu ideal é o consenso. Mas o consenso, levado ao extremo, é a negação da política. É o que resta quando toda diferença é tratada como ameaça.

Zohran Mamdani devolve o conflito ao seu lugar legítimo: o centro da democracia. Não o conflito armado, nem o discurso de ódio, mas o dissenso vital que funda o espaço público. Quando ele se apresenta como socialista, ele está dizendo que o futuro não cabe mais nas palavras do passado.

Num país que investe mais em prisões do que em escolas, que trata o cuidado como mercadoria e o lucro como virtude, propor um modelo de bem-estar é uma afronta. É também um gesto de esperança. Por isso, a vitória de Mamdani tem a força de um acontecimento simbólico: no coração do império, um jovem político negro e imigrante ousa falar em redistribuição e cuidado.

3.

Há algo de profundamente universal nesse gesto. O neoliberalismo não destruiu apenas o Estado, destruiu a linguagem. Palavras como solidariedade, classe, bem comum foram esvaziadas ou transformadas em insultos. A cena do “Ei, comunista!” é, nesse sentido, uma reparação simbólica: a recuperação de uma palavra interditada, devolvida à sua dimensão de desejo.

A esquerda, quando esquece essa dimensão simbólica, se torna técnica. Fala de políticas públicas, mas não de vida. Zohran Mamdani faz o contrário: fala de vida, e por isso suas políticas ressoam. Ele não promete salvação, promete transformação e essa diferença é decisiva. Talvez seja isso que explique o entusiasmo que sua eleição desperta fora dos Estados Unidos. Em tempos de guerra, ele fala de paz. Em tempos de privatização da esperança, ele fala de cuidado. Em tempos de ódio, ele fala de escuta. Não como gestos individuais, mas como práticas políticas.

A questão da guerra é central em sua campanha. Ao exigir um cessar-fogo em Gaza, Zohran Mamdani toca na ferida mais exposta do império americano. Ele conecta o imperialismo externo ao abandono interno: o mesmo país que financia bombardeios corta recursos para creches. A violência é sistêmica, e começa dentro das fronteiras. A crítica à guerra é também crítica à economia da morte que sustenta o capitalismo contemporâneo.

Nesse ponto, sua proposta ultrapassa o vocabulário da esquerda americana e toca um problema civilizatório: o de como reconstruir o comum num mundo governado pela lógica da destruição. O socialismo que ele enuncia não é o da planificação estatal, mas o da reconstrução comunitária, um socialismo cotidiano, enraizado na vida.

É possível ver aí uma lição para nós. O Brasil, como os Estados Unidos, vive sua própria versão do impasse. O bolsonarismo foi o nome local do mesmo colapso simbólico que gerou o trumpismo: o retorno do medo como linguagem política. E, como lá, a esquerda muitas vezes se refugiou no moralismo ou na gestão. Falta-lhe antagonismo, presença e imaginação.

A experiência de Zohran Mamdani sugere um caminho: disputar o desejo, não apenas o discurso. Estar presente, ouvir, nomear os conflitos, falar de redistribuição com clareza, sem medo das palavras interditadas. A política popular não se faz de marketing, mas de corpo. Ela não nasce da promessa de pureza, mas da coragem de sustentar o dissenso. A risada de Zohran Mamdani diante do insulto talvez seja o gesto mais político do nosso tempo. Porque ela diz, com leveza, o que o império não quer ouvir: que o comum ainda é possível. Que o comunismo, não como regime, mas como ideia do comum, pode voltar a ser palavra viva.

Num mundo em que a democracia se esvazia e a esperança se torna mercadoria, a vitória de Zohran Mamdani devolve à política o que ela tem de mais elementar: a capacidade de transformar o medo em sentido. É essa a virada que desafia o império e que, talvez, anuncie o começo de outro tempo.

*Manuela d’Ávila é jornalista e ex-deputada federal pelo PC do B.

*Orlando Silva é deputado federal (PC do B). Foi ministro do Esporte.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
O segundo choque global da China
06 Dec 2025 Por RENILDO SOUZA: Quando a fábrica do mundo também se torna seu laboratório mais avançado, uma nova hierarquia global começa a se desenhar, deixando nações inteiras diante de um futuro colonial repaginado
2
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
3
O filho de mil homens
26 Nov 2025 Por DANIEL BRAZIL: Considerações sobre o filme de Daniel Rezende, em exibição nos cinemas
4
A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados
01 Dec 2025 Por MARCIO POCHMANN: O novo mapa do poder não está nos continentes ou oceanos, mas nos cabos submarinos e nuvens de dados que redesenham a soberania na sombra
5
A arquitetura da dependência
30 Nov 2025 Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR: A "arquitetura da dependência" é uma estrutura total que articula exploração econômica, razão dualista e colonialidade do saber, mostrando como o Estado brasileiro não apenas reproduz, mas administra e legitima essa subordinação histórica em todas as esferas, da economia à universidade
6
Colonização cultural e filosofia brasileira
30 Nov 2025 Por JOHN KARLEY DE SOUSA AQUINO: A filosofia brasileira sofre de uma colonização cultural profunda que a transformou num "departamento francês de ultramar", onde filósofos locais, com complexo de inferioridade, reproduzem ideias europeias como produtos acabados
7
O empreendedorismo e a economia solidária
02 Dec 2025 Por RENATO DAGNINO: Os filhos da classe média tiveram que abandonar seu ambicionado projeto de explorar os integrantes da classe trabalhadora e foram levados a desistir de tentar vender sua própria força de trabalho a empresas que cada vez mais dela prescindem
8
A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno. Por quê?
04 Dec 2025 Por VALEIRO ARCARY: O voluntarismo não é bom conselheiro. Ideias revolucionárias são poderosas e podem colocar em movimento milhões de pessoas até então desesperançadas. Mas é imprudente desconhecer a impiedosa força da realidade objetiva.
9
Biopoder e bolha: os dois fluxos inescapáveis da IA
02 Dec 2025 Por PAULO GHIRALDELLI: Se a inteligência artificial é a nova cenoura pendurada na varinha do capital, quem somos nós nessa corrida — o burro, a cenoura, ou apenas o terreno onde ambos pisam?
10
Asad Haider
08 Dec 2025 Por ALEXANDRE LINARES: A militância de Asad Haider estava no gesto que entrelaça a dor do corpo racializado com a análise implacável das estruturas
11
Considerações sobre o marxismo ocidental
07 Dec 2025 Por RICARDO MUSSE: Breves considerações sobre o livro de Perry Anderson
12
O agente secreto
07 Dec 2025 Por LINDBERG CAMPOS: Considerações sobre o filme de Kleber Mendonça Filho, em exibição nos cinemas
13
Terras raras e soberania: o elo invisível entre ciência, indústria e poder
05 Dec 2025 Por CELSO PINTO DE MELO: A entrada em operação da Serra Verde é um marco: faz do Brasil o único produtor ativo de terras raras fora da Ásia, mas também expõe limites estruturais. A falta de domínio tecnológico e o processamento final realizado na China mostram que o Brasil ainda exporta minério, não inteligência mineral
14
Raduan Nassar, 90 anos
27 Nov 2025 Por SABRINA SEDLMAYER: Muito além de "Lavoura Arcaica": a trajetória de um escritor que fez da ética e da recusa aos pactos fáceis sua maior obra
15
As lágrimas amargas de Michelle Bolsonaro
07 Dec 2025 Por CAIO VASCONCELLOS: Estetização da política e melodrama: A performance política de Michelle como contraponto emocional e religioso ao estilo agressivo de Jair Bolsonaro
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES