Por PAULO GHIRALDELLI*
Contra a aceleração capitalista que desmancha tudo no ar, a lição de Safo ecoa: só a arte – um conhecimento que amadurece no tempo – pode dar forma a uma vida em um mundo que multiplica espaços vazios
1.
Será que desde que o capitalismo se tornou o nosso regime de vida social, cada geração que se sucedeu teve a sensação ser uma última testemunha? Marx parece se sentir assim, como quem olha os últimos momentos de uma época ao descrever a revolução capitalista que parecia chegar ao fim em seu século. A frase célebre do Manifesto comunista diz muito disso: “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Estava-se na metade inicial do século XIX.
Um poema de Rainer Maria Rilke da segunda década do século XX, mostra sensação semelhante: “cada coisa nos grita como é jovem e importante (…) comprar significa trazer levianamente para casa coisas, convidados de uma só noite que saudamos, que utilizamos e que nunca mais vemos”.[1]
O que Rainer Maria Rilke comenta é a realização do mundo que Karl Marx descreveu. Tudo que é visto é assim visto pela última vez. O mundo do dinheiro e da compra, em substituição ao mundo da pertença e de relações sanguíneas, trouxe o efêmero, o necessariamente destrutível, e com isso inaugurou uma nova relação com o tempo. Há uma rapidez desavergonhada no ar.
Não se trata de velocidade, em um sentido banal. O que se põe para nós é o que a professora Olgária Matos tem chamado, em vários de seus trabalhos, de o “tempo sem experiência”. Se há a máquina a vapor para Marx ou o automóvel para Rainer Maria Rilke isso importa menos que o telégrafo, para ambos. O problema visado por Olgária Matos não é o de deslocamento de corpos por foguetes, mas, paradoxalmente, o não deslocamento de corpos.
Trata-se da consagração do princípio do telégrafo: a infosfera regida pela Internet e pelo reino do digital em substituição ao analógico, isso altera o conceito de espaço. O tempo precisou ser posto na direção do zero, assim quis o capital. Fez então o espaço ser capaz de se multiplicar de modo que estamos em diversos lugares em um único tempo.
Qual experiência se pode ter quando a fugacidade não é o tempo veloz, mas simplesmente a multiplicidade quase infinita do espaço? Como pode um corpo se desdobrar em mil pedaços para atender os inúmeros locais em que se deve estar na comunicação atual? A experiência real explode. A noção de experiência implode. No máximo o que conseguimos ainda ter como experiência é o experimento. Ora, mas experimento, essa é maneira pela qual a máquina diz poder ter experiência!
2.
No meio dessa reflexão, caiu em minhas mãos um artigo do professor Fernando Santoro, helenista da UFRJ.[2] Sua tese é ousada: ele quer mostrar que Safo é uma filósofa. Uma primeira filósofa. Ele dispõe de vários argumentos, e assim expõe como uma poesia de Safo se encaixa perfeitamente no que em geral cobramos de uma produção caracteristicamente filosófica. O que me chamou a atenção nesse seu artigo, no que se refere ao que escrevi acima, é a mensagem filosófica de Safo para suas meninas, as aprendizes da dança e da lira.
Ela conta para as meninas, por meio do poema que segue a dança, o mito de Titônio. Ele foi o moço lindo que teve amores com a deusa Aurora. Esta, sempre procurando a beleza, como é do feitio dos deuses, pediu a Zeus que concedesse ao amado a imortalidade. Ela foi atendida, e assim o destino do mito se fez valer: Titônio foi envelhecendo continuamente, sem morrer. Vendo sua beleza desaparecer de forma ininterrupta, Aurora o deixou e buscou outros amantes, jovens e belos.
Safo conta isso às suas garotas exatamente para lembrá-las que ela própria já havia sido jovem, bela e disposta para a dança. O que a salvava na velhice era ter também ser dedicado à lira, e então ter algo que, mesmo na inabilidade dos joelhos, podia ser aperfeiçoado. A arte é um conhecimento, e como tal é que precisa ser buscada pelos jovens. Mas para isso é se faz necessário que eles organizem o tempo.
Os gregos chamavam os humanos de mortais. Portanto, a questão de Safo não é a mortalidade ou imortalidade, mas a condição essencial nossa de ser os que, diferente dos deuses, vivemos no tempo. Somos, portanto os que se deterioram. Se buscarmos o belo, e a arte da lira é exatamente isso no poema de Safo, podemos então estarmos na velhice, vivermos a velhice. Talvez possamos escutar aí algum eco de alguma frase dita por Olgária Matos, que eu escutei lá no passado, agora já quase longínquo: a vida nada é senão poder organizar o tempo (juro que foi numa palestra).
Se Safo e Olgária Matos falam algo de sadio, então, podemos ficar aterrorizados diante do mundo que temos, quando o tempo se tornou inorganizável, uma vez que ele desorganizou o próprio espaço.
O desafio que nossa época nos coloca é diferente do desafio da época de Marx e da época de Rainer Maria Rilke. Também diferente de quando Olgária Matos e eu éramos jovens. O desafio não é de reconsiderar o tempo, mas o de fazer o espaço recobrar sua finitude. Não temos que estar em todos os lugares que a infosfera nos impõe.
*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial) [https://amzn.to/3HppANH].
Notas
[1] Citado em Peter Sloterdijk. Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008, p. 222.
[2] Fernando Santoro. A primeira filósofa: o amor à sabedoria da lira. Archai 28, 2020






















