A crise da ONU e a desordem do mundo – parte 2

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Por GIANCARLO SUMMA*

A política “America First” de Trump desmonta o multilateralismo, convertendo a ONU em instrumento descartável e agravando crises humanitárias globais

1.

O primeiro governo de Donald Trump (2017-2021) promoveu uma política abertamente hostil à ONU e ao multilateralismo. Rompeu com o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas e retirou-se do Conselho de Direitos Humanos, alegando parcialidade “anti-israelita” e falta de reformas.

Reduziu ou bloqueou fundos destinados a entidades como a Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA), responsável pela ajuda aos refugiados palestinos, e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), especializado em direitos reprodutivos e sexuais, utilizando o financiamento como instrumento de pressão política.

Anunciou a retirada dos EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS) em pleno auge da pandemia de Covid-19, questionando a credibilidade do sistema multilateral de saúde. Retomou a linha dura histórica contra a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e amplificou o discurso de que as organizações internacionais corroem a soberania dos EUA.

Na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança, a retórica “America First” [EUA primeiro] subordinou a cooperação multilateral a objetivos bilaterais transacionais. O resultado foi um aumento significativo dos atrasos financeiros dos EUA com a ONU e um enfraquecimento deliberado das normas e fóruns multilaterais, especialmente em relação aos direitos humanos, ao clima e à migração.

Após o parêntese de Joe Biden, o segundo mandato de Donald Trump está sendo muito mais agressivo do que o primeiro em relação ao sistema multilateral. Tal como na época de Ronald Reagan, o plano de ataque contra a ONU foi elaborado pela Heritage Foundation; neste caso, o 2025 Presidential Transition Project [Projeto de Transição Presidencial 2025], um volume de mais de 800 páginas que expõe planos detalhados para ampliar os poderes do Executivo em detrimento dos demais poderes, reestruturar e reduzir as agências federais e implementar uma agenda política unilateralista e de extrema direita.

As instituições multilaterais são descritas como cenários em que os atores “autoritários” e “globalistas” se apropriam das normas, e por isso a Heritage Foundation sugere que toda a participação dos EUA seja explicitamente transacional: o financiamento e a cooperação devem estar subordinados ao alinhamento com as prioridades de Washington, especialmente no que diz respeito a Israel, migração, “soberania” e questões sociais.[i]

2.

No mesmo dia em que tomou posse, em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump assinou 26 ordens executivas que, entre outras decisões, determinavam novamente a retirada dos EUA do Acordo de Paris e da OMS, mas também um congelamento imediato e sem precedentes dos fundos de assistência humanitária e cooperação internacional.

Nas duas semanas seguintes, foi anunciado o desmantelamento da Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a gigantesca estrutura de ajuda bilateral criada em 1961 pelo presidente John F. Kennedy – e que serviu com grande eficácia ao soft power americano –, assim como a saída do país, pela segunda vez, da UNRWA, do Conselho de Direitos Humanos da ONU e, mais uma vez, da UNESCO. A Casa Branca também anunciou que imporia sanções contra o Tribunal Penal Internacional, acusando-o de hostilidade aos EUA e seus aliados, como Israel.

Outra ordem executiva, emitida em 4 de fevereiro de 2025, acusava algumas agências e órgãos da ONU de afastarem-se de sua missão fundacional de paz e segurança, propagarem o antissemitismo e agirem “contra os interesses dos EUA”. Nesse contexto, iniciou-se uma revisão da participação e das contribuições dos EUA em todas as organizações internacionais, com o objetivo de determinar se elas estão alinhadas com os interesses nacionais. Com quatro meses de atraso, em 7 de janeiro de 2026, foi anunciado que, como resultado da revisão, os EUA se retirariam de 35 organizações e tratados internacionais e de 31 departamentos e organismos especializados da ONU.[ii]

Do ponto de vista prático, o governo de Donald Trump suspendeu o pagamento das contribuições financeiras de 2024 em atraso para a ONU e de todas as contribuições de 2025, além de interromper quase toda a ajuda humanitária. Incluindo todos os capítulos de despesas (Secretariado, operações de manutenção da paz, tribunais internacionais), estima-se que, no final de 2025, a dívida dos EUA com a ONU totalize cerca de 3 bilhões de dólares.

A reação do secretário-geral à renovada ofensiva de Donald Trump foi lançar, em março de 2025, um plano de redução generalizada de pessoal e atividades, batizado de UN80, em referência às oito décadas desde a criação da organização. Nos meses seguintes, todo o sistema da ONU começou a cortar seu quadro de funcionários e suas operações no terreno.

De acordo com algumas estimativas, o orçamento total do sistema da ONU deve ser reduzido em 25% até o final de 2026, ou seja, passar de 66 bilhões dólares em 2024 para 50 bilhões em 2026,[iii] descontada a inflação, é uma redução real de cerca de 35% em relação ao orçamento do sistema em 2016. Em relação aos funcionários, a redução deveria ser, em média, entre 18% e 20% dos 131.000 postos contabilizados em 2024[iv]: no total, entre 23.000 e 26.000 postos a menos, sem contar com o corte de milhares de contratos de consultores, voluntários e estagiários.

3.

Trata-se de números quase insignificantes em termos de orçamentos públicos. Só a cidade de Nova Iorque tinha, em 2024, 281.000 funcionários e um orçamento de 115 bilhões de dólares. Ainda assim, os EUA têm pressionado para que se reduzam os salários dos funcionários da ONU. Enquanto isso, no Palácio das Nações, sede da ONU em Genebra, deixou-se de utilizar as escadas rolantes e os elevadores, reduziu-se a temperatura de aquecimento no inverno e a limpeza dos banheiros é feita apenas alguns dias por semana. Em Nova Iorque, também foi anunciado que não haverá mais toalhas de papel nos banheiros.[v]

De todas as áreas de atividade da ONU, a assistência humanitária foi especialmente afetada, o que aprofundou uma tendência que, na verdade, tinha começado antes da eleição de Donald Trump. As contribuições dos países para a assistência humanitária caíram 53% em dois anos, passando de 43,3 bilhões de dólares em 2022 para 20,3 bilhões de dólares em 2025. Os EUA reduziram sua contribuição de 14,1 bilhões de dólares para 3,06 bilhões, e nenhum país ou bloco de doadores está em condições ou disposto a suprir o que foi perdido. Para algumas agências especializadas, os cortes foram especialmente duros.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), por exemplo, recebeu em 2025 3,9 bilhões de dólares em contribuições, ou seja, 1,3 bilhão a menos do que em 2024, e teve que demitir 30% de seu pessoal e reduzir suas operações em escala mundial.[vi] O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados voltou assim ao nível de financiamento de 2015, quando o número total de refugiados, pessoas deslocadas à força, requerentes de asilo e outras pessoas que precisavam de ajuda internacional era metade do atual: 60 milhões em 2015 contra 118 milhões em 2024.[vii]

Sempre comedido em suas declarações, o italiano Filippo Grandi, um dos mais experientes altos funcionários da ONU, pouco antes de deixar o cargo de Alto Comissário para os Refugiados, não escondeu sua frustração com os países ocidentais. “Quantas vezes fui a Bruxelas e a outras capitais europeias para dizer: ‘Somos muito dependentes do financiamento dos EUA. Vocês têm que nos ajudar’. Meu erro foi não ter sido mais insistente. Não fizemos o suficiente para sair dessa dependência pela qual estamos pagando um preço alto agora”, admitiu. “Muitos países europeus que estão cortando [ajuda humanitária] ou retirando-se também dizem: ‘Oh, temos refugiados demais’. Claro! Vocês estão cortando no Chade, no Sudão, no Sahel. Por que estão surpresos? Não sejamos ridículos. Estou furioso com os europeus por causa desta questão”.[viii]

4.

Os países mais ricos também reduziram significativamente a ajuda bilateral aos países em desenvolvimento. De acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne 38 dos principais países industrializados, a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) deverá registrar uma queda total entre 9% e 17% em 2025, somando-se à diminuição de 9% observada em 2024.

A Ajuda Oficial ao Desenvolvimento inclui subsídios e empréstimos concedidos por Estados, grandes ONGs internacionais e organismos multilaterais ao setor público de países de renda baixa e média ou em contextos de crise, e constitui uma fonte central de financiamento para essas economias. Esta queda deve-se essencialmente às reduções anunciadas pelos quatro maiores doadores mundiais: EUA, Alemanha, França e Reino Unido.

É a primeira vez em 30 anos que os quatro países reduzem simultaneamente sua Ajuda Oficial ao Desenvolvimento. Em 2025, os países mais pobres sofrerão uma redução da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento bilateral líquida entre 13% e 25%. Esta redução poderá atingir entre 16% e 28% para os países da África Subsaariana, os mais pobres do mundo.[ix]

Um estudo do Instituto de Saúde Global de Barcelona estima que, se a redução da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento se mantiver até 2030, a reversão na redução das mortes por HIV, malária e outras doenças tropicais poderá causar mais de 22,6 milhões de mortes adicionais[x], o que equivale a quase metade da população da Argentina[xi]. Se esta projeção se confirmar, o impacto letal seria três vezes superior ao da pandemia de Covid-19, que, segundo a OMS, foi responsável por cerca de 7,1 milhões de mortes em todo o mundo.[xii]

Outras áreas muito afetadas pelos cortes de verbas foram os direitos humanos e as operações de manutenção da paz. No âmbito da iniciativa UN80, foi proposta uma redução de cerca de 15% no orçamento do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (OHCHR, na sigla em inglês) a partir de 2026, que se soma ao congelamento de parte dos fundos atribuídos para 2025 e à brusca diminuição das contribuições voluntárias. No total, o sistema de direitos humanos da ONU sofrerá uma redução de cerca de 27% de seus recursos em relação a 2023-2024.

Como consequência, entre outras medidas, o organismo teve que cortar mais de um terço das missões no terreno, reduzir as equipes que investigam as violações dos direitos humanos (no Sudão, Ucrânia, Palestina, etc.) e diminuir o número de sessões do Conselho de Direitos Humanos. O ataque aos recursos financeiros do OACDH representa uma aliança de facto entre os EUA de Donald Trump, a Rússia e a China.

Enquanto os EUA suspenderam seus pagamentos, Rússia e a China vêm atuando há anos para bloquear ou reduzir os fundos do Alto Comissariado nos órgãos responsáveis pela alocação de recursos, como a Quinta Comissão da Assembleia Geral e a Comissão Consultiva para Assuntos Administrativos e Orçamentários (ACABQ, na sigla em inglês).[xiii]

Em relação às missões de manutenção da paz, em outubro de 2025, António Guterres anunciou que tinha solicitado às nove missões em curso uma redução de 15% nas despesas e que, nos meses seguintes, “25% do pessoal uniformizado e seu equipamento” seriam repatriados: o número total de capacetes azuis que poderiam sofrer um corte é de 13.000 a 14.000 efetivos. No início do ciclo orçamentário das operações de manutenção da paz, em 1 de julho de 2025, os atrasos nos pagamentos totalizavam 2,1 bilhões de dólares.

5.

Para o cargo estratégico de embaixador na ONU, Donald Trump nomeou, em seu segundo mandato, um congressista republicano da Flórida, o tenente-coronel (da reserva) das forças especiais do exército Mike Waltz, conhecido por suas posições ultraconservadoras em política internacional e contra o direito ao aborto. Mike Waltz assumiu o cargo no final de setembro de 2025 e, de forma reveladora, escolheu o site de notícias de extrema-direita Breitbart para anunciar as prioridades do governo Donald Trump em relação à ONU.

Ele justificou a participação dos EUA na organização em termos de interesses comerciais (“Queremos usar a presença da ONU em todo o mundo para reduzir as barreiras de entrada para as empresas estadunidenses”); destacou o papel da ONU na definição de normas globais para telecomunicações, espaço e órbitas de satélites, transporte marítimo e aéreo (“Se não estivermos presentes, China, Rússia, os europeus e outros estarão lá estabelecendo essas normas que, então, nos afetarão”); reivindicou o mérito dos cortes previstos no plano UN80 (“É a primeira vez que um secretário-geral propõe, a nosso pedido, reduzir este lugar”); e prometeu tornar a organização mais eficiente, removendo “burocratas e funcionários do caminho” e reduzindo o número de agências, possivelmente com a ajuda da China (“[os chineses] estão analisando a burocracia aqui e, de fato, trabalhando conosco para reduzi-la um pouco”).

Para Mike Waltz, “Make the UN Great Again” significa regressar ao conceito inicial da ONU de 1945, ou seja, concentrar-se exclusivamente em questões de paz e segurança (“retornar a essa visão original pós-Segunda Guerra Mundial”), ignorando os demais pilares estabelecidos na resolução 60/1, 20 anos antes. Na longa entrevista, Mike Waltz não fez qualquer referência ao trabalho da ONU em matéria de assistência humanitária, direitos humanos ou desenvolvimento sustentável. No entanto, afirmou: “Vamos tratar a ONU com rigor. Acho que vamos salvá-la de si mesma”.[xiv]

A visão de Mike Waltz reflete a dualidade expressa pelo próprio Donald Trump, que costuma atacar a ONU, mas também afirmou que a apoia “totalmente” “porque o potencial para a paz desta instituição é enorme”.[xv] Os EUA parecem dispostos a manter um certo nível de compromisso com as Nações Unidas, mas apenas na medida em que esta organização seja funcional ou instrumental aos seus interesses unilaterais.

Nos fóruns multilaterais que não podem controlar, os EUA de Donald Trump preferem simplesmente não participar. Foi o caso tanto da COP30, a cúpula anual da ONU sobre a redução das emissões de gases de efeito estufa, realizada em Belém do Pará (Brasil) de 10 a 21 de novembro de 2025, como da Cúpula Presidencial do G-20, o grupo de países mais industrializados, que se reuniu nos dias 22 e 23 de novembro de 2025 na cidade sul-africana de Johannesburgo. Pela primeira vez na história da COP e do G-20, o governo dos EUA não enviou nenhum representante.

6.

Em resumo, o multilateralismo do governo Donald Trump é declaradamente à la carte: um instrumento que é utilizado quando considerado útil, mas nunca um método que possa impor algum limite ao isolacionismo reacionário que caracteriza a visão de mundo MAGA. Como afirmou o próprio Donald Trump no documento “Estratégia de Segurança Nacional dos EUA”, divulgado no início de dezembro de 2025: “Em tudo o que fazemos, estamos colocando os EUA em primeiro”.

O texto deixa claro que a hostilidade não se limita à ONU, mas se estende à “União Europeia e outros organismos transnacionais que minam a liberdade política e a soberania”, através de “políticas migratórias que (…) criam conflitos, censuram a liberdade de expressão e reprimem a oposição política, provocam uma queda acentuada das taxas de natalidade e a perda das identidades nacionais e da autoconfiança”.[xvi]

A ONU do século XXI é muito diferente da organização dominada por um grupo restrito de potências que Roosevelt, Hull e Pasvolsky conceberam, com as melhores intenções. Apesar de todos os problemas e disfuncionalidades, a Assembleia Geral, com sua cacofonia de línguas, trajes tradicionais, exigências, contradições e traços físicos dos habitantes dos 193 diferentes países membros, finalmente assemelha-se ao “parlamento da humanidade” evocado num poema de Alfred Tennyson há quase 200 anos.

Os EUA encontram-se quase sempre em extrema minoria nas votações da Assembleia Geral sobre temas politicamente sensíveis, como Gaza, Tribunal Penal Internacional ou o embargo contra Cuba: Washington conta apenas com o apoio sistemático de um pequeno grupo de países aliados (principalmente Israel, Hungria, Fiji, Micronésia, Palau, Papua Nova Guiné, Nauru e Macedônia do Norte). Na América Latina, hoje os aliados incondicionais de Donald Trump são Argentina, Paraguai e El Salvador; ainda não está claro qual será a atitude do Chile após a posse de José Antonio Kast.

O problema do interregno gramsciano é que a alta burocracia da ONU e as chancelarias dos países ocidentais ainda não parecem capazes de imaginar um sistema multilateral que, para o bem ou para o mal, deixe de girar em torno de Washington. A questão central para o futuro, antes mesmo das dificuldades financeiras, é imaginar qual pode ser o papel da ONU num mundo que se tornou efetivamente multipolar, onde a China disputa palmo a palmo a hegemonia econômica e diplomática (embora ainda não no plano militar) com os EUA, a Europa está tornando-se politicamente marginal e o Sul global já não pode ser ignorado.[xvii]

Desde 2000, a China vem aumentando sua contribuição para o orçamento da Secretaria-Geral da ONU, passando de 1% para 20% do total; como os EUA congelaram seus pagamentos, Pequim é hoje o principal financiador. No mesmo período, a França reduziu sua contribuição de 6,5% para 3,8%, e o Reino Unido, de 5% para 3,9%.

7.

Mesmo assim, o peso político das antigas potências coloniais europeias na ONU continua sendo superior ao da China e da Rússia ou de qualquer país do Sul global. No entanto, o plano UN80 proposto por Guterres não aborda nenhuma questão estrutural, limitando-se a uma lista de cortes que responde às exigências dos EUA e de outros países ocidentais, que decidiram retirar recursos do sistema multilateral para aumentar as despesas militares. O secretário-geral, que em suas intervenções públicas parece cada vez mais cansado e abatido, já não tem capital político para gastar. Seu mandato terminará no final de 2026 e o processo de seleção de seu sucessor – ou sucessora – está em curso.

Segundo a regra informal de rotação geográfica, caberia que o próximo secretário-geral fosse latino-americano.[xviii] Pela primeira vez na história da ONU, poderia ser uma mulher. As candidaturas oficiais são as de Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês), e Michelle Bachelet, duas vezes presidente do Chile e ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Outra candidatura considerada forte nos corredores da ONU é a do argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por prevenir a proliferação de armas nucleares. Outras candidaturas poderão ser lançadas. Seja quem for o eleito ou a eleita, evitando vetos cruzados dos membros permanentes do Conselho de Segurança, herdará uma situação extremamente difícil, com fundos e pessoal insuficientes dentro da organização e um panorama político global em rápida evolução.

O plano UN80 ignora totalmente as demandas do Sul global para reduzir as assimetrias de poder no funcionamento da ONU. Segundo o politólogo alemão Ronny Patz, que há meses analisa minuciosamente os debates orçamentários da organização, “esta reforma é a última grande batalha travada pelos EUA para moldar a organização de acordo com seus interesses, antes que os interesses da China ganhem maior importância e, com o auge chinês, o Sul global possa se tornar uma verdadeira potência na política mundial”. O próximo secretário-geral terá a difícil tarefa de guiar a ONU para o novo mundo pós-estadunidense.

*Giancarlo Summa, jornalista e cientista político, é pesquisador na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) em Paris e co-fundador do Instituto Latino-Americano para o Multilateralismo (ILAM).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Para ler a primeira parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/a-crise-da-onu-e-a-desordem-do-mundo/

Notas


[i] Paul Dans y Steven Groves (orgs.): Mandate for Leadership: The Conservative Promise, The Heritage Foundation, Washington, DC, 2024.

[ii] A lista inclui agências especializadas (como o Fundo de População das Nações Unidas [UNFPA] e a ONU Mulheres), mas também uma série de departamentos e organismos que são componentes estatutários da organização, estabelecidos pela Carta das Nações Unidas ou por decisão da Assembleia Geral, como, entre outros, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DESA) do Secretariado da ONU (não por acaso, dirigido por um diplomata de carreira chinês, Li Junhua), o Conselho Econômico e Social da Assembleia Geral (ECOSOC) e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). O anúncio parece mais simbólico do que prático, porque seria impossível para os EUA sair desses organismos sem deixar a ONU como um todo.

[iii] Guy Ryder, subsecretário geral de políticas da ONU e presidente do Grupo de Trabalho UN80, apresentou esta estimativa numa sessão informativa informal para os países membros em 14 de novembro de 2025. O vídeo da sessão informativa está disponível em https://webtv.un.org/en/asset/k1j/k1jax5ye21.

[iv] Os dados sobre o quadro de pessoal do sistema das Nações Unidas estão disponíveis em https://unsceb.org/hr-organization.

[v] Damilola Banjo: “No More Paper Towels for Some UNHQ Restrooms in Latest Austerity Step”, PassBlue, 11/12/2025.

[vi] Thomas Byrnes: “Grandi’s Final Briefing: The Numbers that Confirm System Collapse”, documento de trabalho, 2025.

[vii] ACNUR: “Tendencias globales: Personas desplazadas por la fuerza en el mundo (2015-2024)”, 6/2025, disponível em “No More Paper Towels for Some UNHQ Restrooms in Latest Austerity Step”.

[viii] Lola Hierro: “Filippo Grandi, alto comisionado de ACNUR: ‘Escríbalo así: estoy furioso con los europeos por recortar ayudas a los refugiados y luego exigir resultados’”, El País, 10/12/2025.

[ix] OCDE: “Réductions de l’aide publique au développement. Projections de l’OCDE pour 2025 et à court terme”, nota de síntese, OCDE, 2025.

[x] Andréa Ferreira da Silva e Rodrigo Volmir Anderle: “The Impact of Two Decades of Humanitarian and Development Assistance and the Projected Mortality Consequences of Current Defunding to 2030: Retrospective Evaluation and Forecasting Analysis”, Universidade Federal da Bahia, 2025, disponível em https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=5765121

[xi] Uma das medidas de reorganização previstas no plano UN80 é o fim da ONUSIDA, a agência especializada na prevenção da propagação do vírus HIV e na assistência às pessoas portadoras do vírus, que foi gravemente afetada pelos cortes nas contribuições voluntárias dos EUA. As funções da ONUSIDA serão assumidas por outras entidades da ONU, mas vários especialistas alertaram que o fim da agência pode piorar ainda mais as condições de sobrevivência de milhões de portadores do HIV nos países mais pobres de África.

[xii] Ver dados em OMS: “WHO covid-19 Dashboard”, disponível em https://data.who.int/dashboards/covid19/deaths.

[xiii] Angeli Datt: Budget Battles at the UN: How States Try to Defund Human Rights, International Service for Human Rights, 2025.

[xiv] Matthew Boyle: “‘MUNGA’: Ambassador Waltz Unveils Trump’s Plan to ‘Make the UN Great Again’”, Breitbart, 3/11/2025.

[xv] “Trump Tells Guterres He Supports un despite Disagreements”, PBS, 23/9/2025.

[xvi] The White House: National Security Strategy of the United States of America 2025, 11/2025, disponívem em www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.

[xvii] De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024, 10 das 20 economias mais importantes do mundo são de países do Sul global. Em ordem decrescente do PIB, os países são: China, Índia, Brasil, Rússia, Coreia do Sul, México, Indonésia, Arábia Saudita, Turquia e Argentina. Juntos, representam cerca de 40% do PIB mundial.

[xviii] Até agora, a ONU teve nove secretários-gerais: quatro europeus, dois africanos, dois asiáticos e apenas um latino-americano, o peruano Javier Pérez de Cuéllar (1982-1991).

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