A longa revolução

Georges Tony Stoll, Paul Mignard, “Copistes”
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Por UGO RIVETTI

Apresentação do livro recém-traduzido de Raymond Williams

As tramas da história

1.

Comecemos por uma premissa básica: não há como compreender um texto sem atentar para as condições de sua produção e para a trajetória descrita por seu produtor. Dito de outra forma, é preciso apreender o texto enquanto uma certa tomada de posição por parte de um agente que intervém em uma determinada conjuntura. Talvez nem seja o caso de pensar o texto como o ponto de intersecção entre duas coordenadas (trajetória e contexto histórico), uma vez que trajetória e contexto não podem ser pensados separadamente.

Afinal, a trajetória individual só é inteligível enquanto realidade inscrita em um contexto mais amplo, ao passo que o contexto participa como variável explicativa de um texto enquanto contexto particular de uma trajetória particular. No caso de Raymond Williams (1921-1988), esse complexo trajetória-contexto poderia muito bem ser sintetizado em duas palavras-chave: cultura e política.

Raymond Williams nasceu e cresceu em um ambiente bastante politizado. Seus pais, Henry e Esther, eram militantes trabalhistas profundamente envolvidos com a vida partidária e sindical, participando de atividades de campanha, da organização de reuniões locais e acompanhando de perto e avidamente os resultados das eleições. Na longa entrevista concedida à New Left Review no final dos anos 1970 (publicada em A política e as letras, em 1979), Raymond Williams faz referência, por exemplo, à “euforia em casa quando o Partido Trabalhista ganhou as eleições [de 1929]. Meu pai encabeçava o braço do partido em nosso vilarejo, e recebemos o resultado com festa”.[i]

Além disso, nessa época, o sul do País de Gales distinguia-se pela presença de um amplo contingente de trabalhadores assalariados e sindicalizados – vinculados, em sua esmagadora maioria, ao Partido Trabalhista. No caso da Pandy natal de Raymond Williams, trabalhadores empregados sobretudo na estrada de ferro que cortava a região (dentre os quais seu pai, sinaleiro). Williams se formou no seio de uma cultura política socialista bastante vigorosa, familiarizando-se desde cedo com as mais diferentes formas de mobilização política.

Ao lado da precoce iniciação política, Raymond Williams deu provas de uma prematura inclinação para o mundo da cultura, em um percurso escolar exemplar que lhe permitiu transpor os rígidos filtros do sistema educacional inglês da primeira metade do século XX, da grammar school local até o curso de inglês em Cambridge (a disciplina central no campo das humanidades no sistema universitário inglês da época e a instituição que, ao lado de Oxford,  figurava entre as mais prestigiosas universidades do país).

As marcas dessa inclinação também se revelam, ademais, em suas primeiras tomadas de posição política, particularmente no alinhamento ao movimento comunista por intermédio do Left Book Club[ii]. A opção de Raymond Williams pelo comunismo é, por si só, indício poderoso de sua disposição para o universo da cultura, na medida em que traduz a atração por um meio intelectual que se lhe afigurava então como mais dinâmico, interessante e cosmopolita do que aquele associado ao movimento trabalhista, então já bastante enredado nos aspectos mais ordinários da vida político-partidária.

Desdobramento dessa aproximação, assim que ingressou na universidade, em 1939, Raymond Williams se associou ao Clube Socialista de Cambridge, agremiação dirigida por estudantes vinculados ao Partido Comunista da Grã-Bretanha, ao qual Raymond Williams se filiou em dezembro do mesmo ano (e ao qual permaneceu formalmente vinculado até 1941.

2.

Na universidade, o percurso trilhado por Raymond Williams desaguou em um embate entre marxismo e crítica literária, as duas grandes forças da cena intelectual inglesa da época. Não demorou para que Raymond Williams se visse confrontado pelo descompasso entre a teoria marxista que ele absorvera nos círculos do Left Book Club, do Partido Comunista e do Clube Socialista e a crítica literária profissional na qual ele então se iniciava.

Trata-se aqui, em outras palavras, da discrepância entre, de um lado, uma teoria marxista informada por uma perspectiva irremediavelmente mecanicista e reducionista, em cujo esquema a cultura figura como mero reflexo das (estas sim, fundamentais) condições econômicas e, de outro, uma crítica literária que não só privilegia o texto – na linha do método do close reading idealizado por I. A. Richards (1893-1979) –, mas que também pensa a cultura como a esfera mais importante da vida social.[iii]

Para F. R. Leavis (1895-1978), principal responsável pela consolidação da crítica literária inglesa como disciplina universitária, o crítico estava fadado a exercer o seu ofício em um contexto de crise da cultura, isto é, da cultura minoritária e tradicional ameaçada por aquilo que ele e seus discípulos reconheciam como as influências deletérias das massas, da indústria e da democracia (com destaque para o rebaixamento dos padrões culturais e o acirramento do conflito social).

Com um viés claramente conservador e abertamente antimarxista, a crítica literária na qual Raymond Williams se formou nutria a autoimagem de última barreira ao avanço dos valores utilitários da “civilização industrial”, aos quais seria preciso opor os valores morais da comunidade orgânica do passado, remanescentes em forma condensada na grande tradição do romance inglês.

Frente ao desacordo entre essas que eram as suas duas grandes influências formativas, Raymond Williams respondeu, em um primeiro momento, buscando aquilo que poderia ser descrito como uma acomodação mínima. Esforço por uma “união aproximada entre a política radical da esquerda e a crítica literária inspirada em Leavis”[iv] que motivou o projeto de Politics and Letters, revista criada por Raymond Williams em parceria com Wolf Mankowitz e Clifford Collins em 1947.

A revista teve vida curta, sendo encerrada no ano seguinte em decorrência de dificuldades materiais e de problemas de convivência entre os editores. Esse fiasco lançou Williams em uma profunda crise pessoal, à qual ele respondeu com um trabalho intelectual insano que se estendeu por toda a década de 1950,[v] período no qual escreveu e publicou nada menos do que sete livros,[vi] redigiu três romances e uma peça nunca publicados e colaborou com publicações importantes e prestigiosas, como Essays in Criticism, Tribune, Critical Quarterly, Partisan Review, New Statesman, The Nation, entre outras.

3.

Os textos produzidos ao longo desses anos registram o longo amadurecimento de uma outra forma pela qual Williams procurou dar conta do desarranjo entre a crítica literária inglesa e o marxismo. Raymond Isto é, não pela busca por uma acomodação, mas pela construção de uma abordagem nova, fundada na superação, por um lado, do recorte estritamente internalista e do viés conservador da crítica literária inglesa e, por outro, da perspectiva economicista do marxismo ortodoxo.

Cultura e sociedade (1958) e A longa revolução (1961) figuram entre seus principais trabalhos, entre outras razões, porque constituem os primeiros resultados mais bem-acabados desse esforço por sintetizar uma perspectiva original.

Como Raymond Williams assinala na introdução, A longa revolução é um livro que foi planejado como uma continuação de Cultura e sociedade, e isso em dois sentidos principais. Por um lado (partes I e II), na sistematização dos “princípios da teoria da cultura”, esboçados, no texto anterior, na proposta de uma “teoria marxista da cultura” que, afirmando-se em oposição ao marxismo ortodoxo, recupera o princípio – segundo vWilliams, já presente no Marx da Contribuição à Crítica da Economia Política (1859) – de que o exame daquilo que se convencionou qualificar como superestrutural demanda métodos próprios.

Por outro (parte III), no desenvolvimento da ideia de cultura comum apresentada na conclusão ao texto de 1958 – cultura enquanto produto do esforço colaborativo de todo um povo –, agora, à luz da conjuntura da Grã-Bretanha dos anos 1960.

Mas há outro aspecto no qual A longa revolução desenvolve as posições delineadas em Cultura e sociedade – uma dimensão mais geral que permeia e dá sentido às outras duas. Trata-se da forma como Raymond Williams desenvolve a interpretação daquilo que ele designou como uma “longa revolução”. Não por acaso, o título do segundo livro já aparece em uma passagem da conclusão do primeiro: “As forças que mudaram e ainda estão mudando nosso mundo são realmente a indústria e a democracia. A compreensão dessa mudança, dessa longa revolução, encontra-se em um nível de significado que não é fácil de alcançar”.[vii]

A longa revolução também é, portanto, uma tentativa de avançar na compreensão desse processo de mudança, tarefa que, ademais, seria imposta por sua própria atualidade. Na contramão dos muitos teóricos que, obcecados pelas novas eras e os novos tempos, tropeçam a toda hora em divisores de águas, Raymond Williams está muito mais interessado nas continuidades, naquilo que permanece e que, ao permanecer, agudiza as tensões e força novas transformações.

4.

Esse é um modo de ver – abrangente e interessado nas linhas de continuidade – que organiza as análises de Raymond Williams do pensamento social inglês do final do século XVIII até os anos 1950 (em Cultura e sociedade); das concepções de tragédia que se estendem dos gregos a Brecht (em Tragédia moderna, 1966); e da literatura que vai de Hesíodo ao romance inglês de meados do século XX (em O campo e a cidade, 1973).

Daí, inclusive, a própria ideia de revolução como um processo que não se limita às rupturas, aos eventos críticos e violentos. Esse mesmo enfoque estrutura seu romance de estreia, Border Country (1960), centrado na transformação e na persistência da comunidade natal do protagonista, chegando ao paroxismo em seu último romance (inacabado), People of the black mountains, publicado postumamente em dois volumes (em 1989 e 1990), no qual Raymond Williams se coloca o desafio de contar a história de sua região natal, das “comunidades dos pastores neolíticos” até o “século XX, ou um pouco à frente”.[viii]

No entanto, ainda que Cultura e sociedade e A longa revolução tratem, grosso modo, de um mesmo processo histórico, o segundo texto apresenta uma interpretação nova em diversos aspectos. Se o livro de 1958 se concentra sobretudo na Revolução Industrial, esta surge, em A longa revolução, como parte de uma transformação mais ampla abarcando também a “revolução democrática”, ao longo da qual o povo tende cada vez mais a assumir o governo de si, e a “revolução cultural”, assentada na extensão da educação e no desenvolvimento de novos meios de comunicação.

Fixada nesse quadro mais amplo, a revolução industrial surge não como o marco inaugural de um novo mundo (tal como pensado pela crítica da cultura de viés conservador),[ix] mas como a dimensão econômica de um processo muito mais abrangente. Nesses termos, a própria revolução industrial passa a ser pensada em termos mais amplos, inclusive como um processo que, com origem na Europa Ocidental, se espraia para todo o planeta, em um desenvolvimento ainda incompleto em meados do século XX.

Assim definida, a tese de uma longa revolução vai contra modelos dominantes que, para além das muitas diferenças entre si, compartilham o expediente comum de reduzir a sociedade a “dois modelos de relação social: política (o sistema de decisão) e economia (o sistema de manutenção)”. Em oposição a esses enfoques, Raymond Williams propõe uma nova forma de abordar a sociedade, tomando-a como uma ordem humana que compreende, além da política e da economia, também as atividades culturais, o sistema de aprendizado e comunicação e o complexo de relações baseadas na criação e manutenção da vida.

Pensada nesses termos, a cultura emerge como parte de uma organização que engloba todas as relações (sociais, culturais, políticas e do homem com o meio que o circunda e com sua própria natureza). Foi nesses termos que Raymond Williams procurou solucionar o problema da relação entre arte e sociedade: assim formulada, a própria questão careceria de sentido porque pressupõe, de saída, uma relação de exterioridade, quando, na verdade, nenhuma dessas esferas antecede ou prevalece sobre a outra, na medida em que ambas estão inscritas em uma mesma organização mais geral, à qual devem ser referidas.

5.

Esse alargamento do foco de análise tem relação com outra particularidade da abordagem desenvolvida em A longa revolução. Em Cultura e sociedade, a história aparece de forma oblíqua, isto é, tal como é tratada por aquela longa tradição (inglesa) de crítica da sociedade industrial e da democracia que remonta ao final do século XVIII – o objeto mesmo da análise de Raymond Williams.

Apesar do argumento original e em certa medida polêmico – segundo o qual aquilo que a crítica conservadora reconhecia como principal fonte de degradação dos padrões culturais (as tendências sócio-históricas inauguradas com a Revolução Industrial) é, na verdade, a condição mesma dos usos modernos da ideia de cultura –, Cultura e sociedade não fomentou, quando de sua publicação, nenhum tipo de estranheza, dada a sua afinidade, em termos de estilo e estrutura, com o modelo então vigente de crítica literária – consistindo, basicamente, em um exame bastante minucioso de uma sequência (tradição) de textos.

De fato, parte importante da recepção inglesa criticou Raymond Williams por assumir ali um tom excessivamente academicista, abstrato, genérico e, por vezes, evasivo, sintoma de uma análise demasiadamente colada ao quadro de referência da tradição investigada.

O contraste com A longa revolução não poderia ser maior.[x] Mesmo na discussão mais teórica desenvolvida na primeira parte é notável o esforço de Raymond Williams por incorporar debates até então estranhos ao campo da crítica literária inglesa, com destaque para as contribuições (algumas muito recentes) da filosofia, antropologia, sociologia, teoria política, psicanálise e neurociência.

Mas é na segunda parte em que talvez se tenha a grande novidade desse livro, a sua maior contribuição e aquilo que mais justifica o seu lugar de destaque não só no conjunto da obra de Raymond Williams, mas, sobretudo, no conjunto das ciências humanas e sociais. É na análise do sistema educacional, do público leitor, da imprensa, do ensino do inglês, da história social dos escritores e das formas dramáticas e do romance contemporâneo que Raymond Williams esmiúça a longa revolução em toda sua concretude histórica, em sua dimensão empírica, incorporando aquilo que Richard Hoggart não encontrara em Cultura e sociedade: “um quadro mais denso, concreto e matizado”.[xi]

6.

Anos depois, Raymond Williams relembraria como A longa revolução mereceu uma recepção muito menos favorável do que aquela dedicada ao livro anterior: “Cultura e sociedade adquiriu rapidamente a reputação de ser um tipo de livro meritório e honroso, ao passo que A longa revolução foi considerado escandaloso. Uma reclamação comum era a de que eu havia sido corrompido pela sociologia, que eu havia aderido à teoria”.[xii]

De fato, em contraste com os modelos da crítica literária então hegemônica, uma análise interessada em acessar os padrões de instrução da sociedade inglesa a partir da evolução da circulação da imprensa diária ou a história da literatura inglesa com base em variáveis como a ocupação paterna e a trajetória escolar dos escritores poderia ser facilmente acusada de corrupção pela sociologia. E, naquele cenário, qualquer análise da cultura que dispensasse a leitura de textos literários apareceria facilmente como exemplo de sujeição à reflexão teórica vazia.

Nesse último ponto, o que se tem é o exato oposto. Todo o esforço reflexivo desenvolvido na primeira parte do livro justifica-se pela necessidade de repensar as premissas incorporadas nos anos de formação universitária – esforço que funciona, ademais, como uma espécie de rede de proteção contra qualquer recaída em reflexões abstratas e genéricas. Isso se revela nos trabalhos de historicização das concepções então dominantes de criativo, indivíduo e sociedade e de reconsideração da abordagem própria à crítica literária da época, pensada como uma dentre as diferentes formas possíveis de análise da cultura.

A tentativa de oferecer uma definição mais qualificada de “estrutura de sentimento” – um dos termos mais intimamente associados ao argumento williamsiano – talvez forneça um dos melhores exemplos de como Raymond Williams procurou corrigir o tom excessivamente abstrato e genérico de Cultura e sociedade por meio de uma elaboração teórica mais cuidadosa. Todos esses esforços contribuíram para a formulação de um novo aporte, que não só se desdobrou em trabalhos posteriores da obra de Raymond Williams como produziu impactos mais gerais sobre diferentes áreas, como a crítica literária, os estudos culturais e a própria sociologia.

A última parte do livro opera como um arremate eficaz. Nela, os princípios sistematizados na primeira parte são empregados na análise do presente, com o que Raymond Williams procura demonstrar como a própria longa revolução ainda segue em movimento. Mais uma vez, o tom assumido aqui é consideravelmente distinto daquele da conclusão a Cultura e sociedade. Assim, se antes Raymond Williams refletira sobre a constituição de uma cultura comum fundada nas concepções de sociedade e de comunidade encarnadas no modo de vida da classe trabalhadora inglesa, agora ele se detém sobre problemas e desafios mais imediatos, o que sugere um olhar mais atento ao que aquela conjuntura trazia de mais complexo e talvez menos encorajador.

7.

Segundo Raymond Williams, no final dos anos 1950 ter-se-ia completado a adesão do movimento trabalhista aos modos de pensamento aos quais ele antes se opunha (e em cuja oposição ele, em parte, se definira). Em outras palavras, as instituições da classe trabalhadora teriam sido capturadas pela sociedade que elas pretendiam combater, ao final do que “as próprias expectativas do desafio original ao capitalismo são mobilizadas com o fim de fortalecê-lo”.

Talvez o exemplo mais significativo e desalentador dessa assimilação fosse dado pelas limitações das políticas de extensão dos serviços sociais e de nacionalização da economia e da indústria, empreendidas desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Por outro lado, posto que esse sequestro das instituições da classe trabalhadora se deu em paralelo a conquistas sociais efetivas e profundas, só restaria ao movimento operário recorrer a ações defensivas, reativas, de defesa e proteção daquelas conquistas. Para Raymond Williams, a armadilha montada pelo consenso político em torno do Estado de Bem-estar social do pós-guerra parecia ter-se fechado a tal ponto que as únicas formas de oposição que restavam seriam “a série sem fim de barganha e desgosto das reivindicações salariais e das greves”.

Muitas das passagens mais abertamente políticas da conclusão referem-se, como nesse caso, ao Partido Trabalhista e ao movimento trabalhista mais geral, conquanto não se limitem a esses alvos, mirando também a estrutura e o funcionamento do sistema político, partidário e eleitoral da Grã-Bretanha da época (críticas, em muitos aspectos, válidas até hoje).

Apesar de sua natureza mais conjuntural, essas críticas possuem uma dimensão mais substantiva, pois o que se pretende com elas é apontar para as possibilidades não realizadas da longa revolução – tarefa que, para Raymond Williams, caberia aos socialistas consumar. Trata-se aqui, em outras palavras, da articulação, presente em todas as suas obras de maior fôlego, entre diagnóstico histórico e projeto político.

O prisma distintamente político da parte final traz consigo, sem dúvida, o risco das ênfases datadas. Mas esse é um preço que Raymond Williams parece disposto a pagar. Para ele, intervir politicamente – seja enquanto militante ou acadêmico – impunha-se como uma obrigação. Pois, se é a exposição teórico-analítica o que embasa o arremate político, é este, por outro lado, o que dá sentido àquelas elaborações.

A unidade entre cultura e política se afirma, mais uma vez, como elemento estruturante de sua trajetória e projeto autoral.[xiii]

*Ugo Rivetti é pós-doutorando no Departamento de Sociologia da USP.

Referência


Raymond Williams. A longa revolução. Tradução: Ugo Rivetti. São Paulo, Edusp, 2025, 342 págs. [https://amzn.to/4r0KyE4]

Notas


[i] Raymond Williams, A Política e as Letras: Entrevistas da New Left Review, São Paulo, Editora Unesp, 2013, p. 11.

[ii] Rede de grupos de discussão dotada de uma revista e de uma estrutura editorial próprias, fundada em 1936. Em seu auge, no final dos anos 1930, o Left Book Club contava com 58 mil filiados e 1,2 mil grupos de discussão.

[iii] Discrepância que se manifestou muito concretamente para Williams na percepção de uma incapacidade para desempenhar adequadamente aquilo que se esperava dele na condição de estudante. Como ele próprio relatou anos depois: “muito de minha imagem própria era relacionada à ideia de que eu podia lidar com a atividade acadêmica. Naquele momento, ficou claro para mim que, na realidade, não podia”. Williams, A Política e as Letras, p. 36.

[iv] Williams, A Política e as Letras, p. 53.

[v] Ritmo de trabalho que só foi possível graças ao apoio material e intelectual assegurado por sua companheira, Joy (1918-1991), com quem Williams se casou em 1942, e às condições de trabalho particularmente favoráveis como tutor na educação de adultos, função que Williams exerceu entre 1946, após concluir os estudos universitários, e 1961, quando se tornou professor em Cambridge.

[vi] Por ano de publicação: Reading and Criticism (1950), Drama from Ibsen to Eliot (1952), Drama em Cena (1954), Preface to Film (escrito em parceria com Michael Orrom, 1954), Cultura e Sociedade (1958), Border Country (1960) e A Longa Revolução (1961).

[vii] Raymond Williams, Cultura e Sociedade: De Coleridge a Orwell, Petrópolis, Vozes, 2011, p. 359.

[viii] Williams, A Política e as Letras, p. 304.

[ix] Não apenas em sua variante inglesa (como em Leavis, Matthew Arnold e T. S. Eliot), mas também na alemã (notadamente em Oswald Spengler e Alfred Weber).

[x] Nesse ponto, é importante lembrar que A Longa Revolução começou a ser redigida em 1958, dois anos depois da conclusão de Cultura e Sociedade.

[xi] Richard Hoggart, “An Important Book”, Essays in Criticism, vol. IX, n. 2, abr. 1959, p. 178.

[xii] Williams, A Política e as Letras, p. 128.

[xiii] A tensão inerente a essa articulação transparece nas notas ao texto, incluídas por Williams quando da publicação da segunda edição inglesa, em 1965. Atestando o caráter instável da conjuntura política britânica da época, bem como a repercussão gerada pelo livro, nessas notas Williams procura atualizar a sua análise, esclarecendo alguns argumentos e emendando outros, além de justificar algumas afirmações que já soavam um pouco estranhas apenas quatro anos depois da publicação do livro.

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