A tela totalmente preenchida

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Por TALES AB’SABER*

O cinema blockbuster é a expressão suprema do tecno-mundismo: uma ocupação total do espaço visual que espelha e naturaliza a lógica do controle global, onde até a destruição vira entretenimento inofensivo

1.

Poucos podem escapar à ocupação. Há um cinema do preenchimento total dos espaços, da supersaturação do tempo, dos artifícios visuais semi metálicos que buscam forjar a própria realidade: a realidade da tela que foi rastreada inteira por um cálculo prévio, sempre na mesma direção, esquadrinhada em cada ponto, pixels, por programas, design, algoritmos e efeitos especiais. A tela inteiramente ocupada pelo cálculo, a matéria da imagem convertida em total artifício. Como se sabe, este é o cinema das multidões globais.

Esse cinema da ocupação total é também o sonho, o espírito pesadelar, que preenche a arquitetura comercial gigantesca de show de tecnologia da época, de prédios fechados, mas exibidos, de vidros e de luzes expostas, quando não de placas de titânio, átrios gigantescos, blocos privados de desperdício espetacular de espaço, edifícios como displays, monolitos técnicos da imagem global, cujo sentido é celebrar o poder mundial como entidade pós-humana.

Diante de tais sonhos materiais concretos, o uso real da abstração da técnica, somos reduzidos a observadores minúsculos e paralisados, enquadrados nas vidas de pouco valor pelo cenário de um único sujeito, cuja linguagem é da submissão ao hiper-espetáculo. No cinema, sobrevivemos e cada filme ao esmagamento contínuo de uma tela toda preenchida, quase material na sua ideia da imagem, com tempo e espaço concebidos como coisa.

O mundo desenhado inteiramente por um dispositivo técnico calculado, o tecno-mundismo, é também o mundo global rastreado como alvo dos vários investimentos concentrados, financeiros ou militares, varrendo a terra, dos computadores de Wall Street e do Pentágono, da City de Londres, de Singapura e de Xangai. O mundo focalizado em detalhe pela imagem de um satélite que vai explodir o carro do terrorista, e vai saturar as telas de cinema com imagens que tem origem no mesmo laboratório da arma visual de alcance absoluto.

É o nosso mundo do cálculo imperial, que articula a invasão de países com o controle do espaço público de comunicações, ao espetáculo mundano cotidiano excitante e frio. O espetáculo de um mundo tela comum quando se trata de ver o extermínio programado passando em nossas televisões, das imagens dos mísseis e das bombas como luzinhas distantes – quase fogos de artifício. São as hipertelas, planejadas e reguladas por programas e algoritmos. Como as telas de cinema, ocupadas inteiras por imagens totalmente calculadas.

2.

Na televisão do extermínio real as luzes da destruição das cidades são postas à distância de uma contemplação, tendem ao inofensivo para quem assiste em alguma casa fora do alcance dos interesses e das bombas, enquanto no cinema somos levados à hiper amplificação da destruição como vida. Em um carrossel montanha russa, nos filmes da ocupação total da tela estamos constantemente em meio ao movimento interior da própria explosão.

Explodimos perto, junto e dentro dos carros, das pontes, das cidades. Esse mundo explosão será dominada para nós por algum ser mágico, alguma entidade técnica, meio homem, meio máquina, meio brinquedo, meio Aquiles, meio bicho, meio gnose da vida sob o terror, da qual devemos ser lembrados sempre no sonho, diversão, esquecimento do cinema.

Há uma história do cinema de hiper ocupação do terror técnico da tela. Nos anos 1970, enquanto alguns cineastas tentavam descongelar a linguagem clássica americana que dominava o mundo há décadas, incorporando à indústria estilemas dos novos cinemas críticos nacionais e periféricos, que a ultrapassavam, outros, Steven Spielberg e George Lucas, dobravam o cinema com a ocupação do espaço fílmico com mais técnica, com mais aparato, mais matéria abstrata que faz efeito, apostando na atração das massas pelo brilho e a repetição do choque fabricados.

Pode-se perceber o destino desta materialização da imagem na grande distância que separa o primeiro Guerra nas estrelas, ainda portador de algum espírito humano no tempo experienciado da imagem, e os seus últimos avatares do seu sistema de moda perpétua, absolutamente fabricados. Nessa linha, o cinema da ocupação total da imagem como crise do sujeito, como espelho anteposto entre o humano e a máquina, que de fato representa poder técnico artificial e dinheiro, chegou à sua obra-prima em Blade runner, canto do cisne de seus limites e do transbordamento para o maquínico imagem em si mesmo.

Hoje assistimos a hostes de filmes bizarros e divertidos, infantis e mágicos, em que grande parte do que vemos e sentimos são maquinarias se movendo na tela, como seres vivos, enquanto os humanos, seus corpos e falas, são agregados de uma máquina do mundo encenada e total. Filmes que não deixam um centímetro da tela sem estar preenchido por um cálculo, de uma imagem coisa, um efeito especial já muito pouco especial, uma energia de ocupação total previamente mediada por uma máquina calculadora, um programa digital, um computador.

O olhar está sendo processado, as sensibilidades equalizadas, alguma inteligência parametrada. De forma especular ao que o velho inconsciente humano ainda diz, em muitos destes filmes, em que é a luta de máquina contra os homens que importa, enquanto a imagem é toda maquínica. Máquinas do mundo como humanidade plasticamente disponível, em que só vemos mercado, show da técnica voltada sobre si mesma e destruição de mundos ou corpos. A tela de cinema como suporte da inteligência artificial como mundo.

3.

São os Frankensteins visuais absolutos que tomam totalmente a tela, de um cinema de choque permanente, vivo morto. Cujo programa é nos fascinar e impactar com a observação repetitiva da técnica. Seu sentido costuma estar ao rés de um maniqueísmo civilizatório, em que tudo ou nada sempre estão em jogo e a vida depende no limite de alguma explosão. Tudo envolvido em um show de brilho e choque, que busca emular uma imagem da realidade, que sabemos, ao mesmo tempo, ser inteiramente falsa.

Mas aceitamos o truque. De fato, o poder insinuado em cada quadrante digital da tela é a nossa própria relação com o mundo. Pobres criaturas, Avatar, Frankenstein. Pantera negra, Resistência ou cada uma das bobagens da repetição eterna dos marvel-movies, entre tantos.

Os mesmos filmes que Martin Scorcese disse “não serem cinema”. O apocalipse realizado da imagem da civilização como destruição, mas matematicamente plástica, fabricada com esmero na tela, que faz com que “cada vez que vamos ao cinema, saiamos uma pessoa pior”.

O mundo da onipotência imperial é o mundo da onipotência dos filmes de super-heróis, todos previsíveis em suas historinhas, todos absolutamente carregados pelo empastelamento da imagem-controle direto do olhar dos afetos. O show metálico e pesado, heavy metal visual, da submissão técnica de toda a tela. Grosseria computadorizada da dominação dos olhares disponíveis, como ocorre mesmo na sua ocupação de todas as dimensões da tela.

Como o melhor coach ocupa inteiramente o espaço psíquico de seu discípulo, não o deixando pensar nem falar, e o carrossel infinito de atrações nas redes sociais ocupam, com qualquer coisa, o espaço da vida de seus subordinados, a tela do cinema imperial de nossa época é ocupada centímetro por centímetro com o choque pesado do artifício. Ela busca simular a vida, pelo choque e o fascínio infantil.

Sabemos bem o que são todos os filmes da Marvel, ou de estórias deste tipo: um ou um grupo de heróis bizarros, com pequenas dúvidas existências sobre o caráter de sua humanidade, vão ser convocados para, com seu poderio absoluto – o puro espetáculo das bombas, dos raios, dos choques e das destruições – enfrentar um outro ser bizarro, também portador de poder total, que ameaça absolutamente o mundo falso dos heróis mágicos.

O mundo, a vida da mínima comunidade humana, que é sempre Nova Iorque, só pode ser salvo em uma guerra total, de destruição total por forças técnicas encarnadas em monstros totais e onipotentes, irresponsáveis absolutos, porque onipotentes absolutos.

É a guerra entre as onipotências, de Gunther Anders, de uma onipotência técnica na tela, que dominou tudo. Enquanto a vida e o cinema são qualquer coisa que, de um modo que não se sabe qual, esteja fora disto.

*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]

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