José Saramago – a dimensão política

Hélio Oiticica, Tropicália, Penetráveis ​​PN 2 'Pureza é um mito' e PN 3 'Imagem' , 1966-7

Por AMARILIO FERREIRA JR.*

Comentário sobre uma faceta da literatura de Saramago

José Saramago por ele mesmo: (a) “Minha obra pode ser entendida como uma reflexão sobre o erro. Sim, sobre o erro como verdade instalada e por isso suspeita”; (b) “Minha arte consiste em tentar mostrar que não existe diferença entre o imaginário e o vivido. O vivido poderia ser imaginado, assim como o contrário”.

A dimensão política de José Saramago (1922-2010) ficou entalhada no conjunto da obra literária que nos legou. Não só porque foi eleito, em 1989, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, espécie de Parlamento composto de 106 cadeiras, mas também porque, neste ano, comemoramos os 100 anos do nascimento de uma voz que foi demolidora, e ela nos faz falta ainda hoje. Da sua tímida boca saíram duras denúncias contra as “verdades instituídas”, os “dogmas e as crenças ensombradas” ou ainda a “desilusão” que aceitava pacificamente a banalidade consumista do mundo ocidental.

Depois de ter se filiado ao Partido Comunista Português (PCP), em 1969, a sua literatura ficou amalgamada entre realidade e imaginação, bem como os universos relativos ao sonho e à política cotidiana. Nos momentos de crises nos quais as virtudes morais ficavam em jogo, o literato se transfigurava em intelectual público que abandonava um pouco a imaginação para se dedicar à realidade concreta do mundo. Os seus romances, por causa desse traço distintivo, transitaram sempre entre ficção e não ficção.

Plasmou a sua lavra por meio de um movimento dialético que transmutava os elementos quantitativos (realidade) em elementos qualitativos (imaginação) ou vice-versa. Produziu textos nos quais essas passagens mudancistas exacerbavam a lógica da própria língua portuguesa para além dos seus limites gramaticais. A propósito, ele não gostava de usar ponto final. E foi assim que sua “pena” marcou, de maneira inexorável, a literatura mundial.

Além disso, podemos dizer que a concepção de mundo que professava – marxista e ateia – marcou a sua literatura transversalmente através da negação da negação tanto em relação ao capitalismo como ao cristianismo ocidentais, particularmente o católico apostólico romano. Fruto cultural da própria civilização ocidental, Saramago teve na língua portuguesa a sua “pátria”, tal como nos ensinou Fernando Pessoa. O Nobel de Literatura de 1998, usou a tramela derivada do galego como uma cortilha para esquartejar o corpo cultural da devida civilização que nos delegou a epopeia de Camões.

Expôs as suas “vísceras” por meio de uma crítica radical, sem qualquer concessão ao binômio cristianismo-capitalismo. Considerando que nesse monômio se assentam os pilares estruturantes da civilização ocidental, nenhum outro escritor escreveu sobre a figura histórica de Jesus Cristo – sem se sujeitar a um respeito obrigatório – como José Saramago o fez. Ele expressou melhor a sua posição, acética e lancinante, do que outros dois “ícones malditos” da literatura ocidental: David Herbert Lawrence (1885-1930) e Norman Mailer (1923-2007). Na comparação com esses dois escritores anglo-saxônicos, respectivamente autores de Apocalypse (1931) e O Evangelho segundo o Filho (1997), os romances de Saramago sobre o cristianismo foram muito mais humanistas e demolidores em relação à mitologia que o Ocidente criou para o deus cristão.

Neste breve texto, tomarei como referências apenas dois romances de Saramago para reafirmar tanto o profundo humanismo que professou como a negação que sustentou em relação a um possível ser criador situado fora dos próprios homens. Em O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), ele se referiu à origem do nazareno assim: “o filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo”.

Em Caim (2009), a sua lavra vaticinou o seguinte: “sempre ouvi dizer aos antigos que as manhas do diabo não prevalecem contra a vontade de deus, mas agora duvido de que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome”. Os excertos acima são emblemáticos para realçar o fato de que Saramago se distinguiu de forma singular no âmbito da literatura ocidental.

Contudo, a radical crítica que Saramago engendrou contra as concepções religiosas de mundo não pode ser desvinculada da mesma acidez com que rejeitava o capitalismo. Portanto, para se comemorar a efeméride correspondente aos 100 anos de seu nascimento, quero, neste pequeno texto, apresentar uma hipótese que considero factível e sem a qual teremos dificuldades para transitar pelos “labirintos literários” construídos por Saramago: a tentativa de expurgar da sua literatura o antagonismo manifesto entre marxismo/ateísmo – de um lado – e capitalismo/cristianismo – do outro – é uma maneira de abordá-la, no mínimo, de forma inconsistente.

Essa prognose parte da seguinte asserção: a relação orgânica e unitária entre capitalismo e cristianismo marcou irremediavelmente o mundo ocidental depois de 1789. Dali brotaram duas tendências que se tornaram pano de fundo do proscênio no qual José Saramago escreveu, por exemplo, os dois romances aqui citados. Entranhado nas brenhas profundas do “ulterior debate” que se travou entre Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920) durante o século XX, Saramago nunca se fiou na ideia de que a “ética protestante” teria engendrado o capitalismo.

Para o ilustre morador de Lanzarote, o capitalismo nasceu mesmo com base no trabalho humano explorado pelo próprio homem que se tornou “semelhante a um deus”, no mesmo sentido daquele utilizado por Marx tanto nos seus escritos juvenis como na obra da maturidade: O capital (1867).

Mas não foi somente em relação à lógica que preside as relações capitalistas de produção que Saramago expressou sua filiação ao marxismo. O seu ateísmo também deitava liames na matriz teórica desenvolvida pelo filosofo alemão. Em uma das suas entrevistas ao jornal O Estado de S. Paulo (2009), ele explicitou o sentido da sua irreligiosidade assim: “deus, demônio, o bem, o mal, tudo está em nossa cabeça e não no céu ou no inferno, que também foram inventados pelo homem. Não nos damos conta que, ao inventar deus, imediatamente nos tornamos seus escravos”. Em Karl Marx (1818-1883), na obra Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução (1844), nós encontramos a seguinte passagem: “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidas. Ela é o ópio do povo”.

Assim sendo, não é possível dissociar a literatura de José Saramago dos escritos de Karl Marx, pois a sua crítica à sociedade capitalista e cristã vem, portanto, pelo viés da teoria marxiana. Se tomarmos o liberalismo e o cristianismo como essências ideológicas e culturais da civilização ocidental, podemos dizer que Saramago mantinha com ela uma relação de unidade e luta dos contrários.

A unidade materializada na tradição histórica criada pela civilização ocidental, que lhe concedeu a língua neolatina que floresceu na Península Ibérica da época romana e que foi usada por ele como acúmen dilacerante. Quanto à luta dos contrários, ele tomou partido entre dois blocos históricos que se excluem mutualmente: ateísmo/comunismo versus cristianismo/capitalismo. Aqui é preciso uma observação: outros grandes artistas do século XX, fora da literatura, também se debateram com essas questões dicotômicas abordadas por Saramago.

Os cineastas Pier Paolo Pasolini (1922-1975) e Stanley Kubrick (1928-1999) dirigiram, nesta ordem, O Evangelho segundo São Matheus (1964) e De olhos bem fechados (1999). Obras primas do cinema mundial, o primeiro é uma declaração de amor ao humanismo condensado na figura histórica de Jesus Cristo, ainda mais levando em conta que o seu diretor era comunista e ateu; já o outro expôs, em uma película de duas horas e trinta e nove minutos, a bagatela com que o mercado, baseado na lei da oferta e da procura, transformou a sexualidade humana em uma obsessão alienada, nela o corpo feminino se transforma em uma mercadoria que é descartada após ser usada.

No filme de Kubrick, o capitalismo é sinônimo de morte. Portanto, Saramago não foi o único artista que estabeleceu uma relação dialética de unidade e, a um só tempo, de colisão com as estruturas edificantes da civilização ocidental.

Mas, Saramago pagou um preço por usar a língua de forma tão ferina, principalmente na terra de Os Lusíadas, de onde se retirou para viver nas Canárias. Quando auferido com a láurea literária em Estocolmo (1998), o jornal L’Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé, assim se pronunciou: “um comunista com visão antirreligiosa do mundo”. Tempos depois, o jornal O Estado de S. Paulo nada ficou a dever ao periódico vaticanista.

Em 2009, ano da publicação de Caim, o título da matéria no seu Caderno 2 era uma espécie de sentença condenatória: “Saramago ataca Deus outra vez”. Sim, Saramago foi o escritor ocidental que fustigou como ninguém a imbricação freneticamente possessa entre cristianismo e capitalismo. A sua morte em 2010, não só deixou a literatura mundial mais inópia, mas também a humanidade perdeu “um homem bom, uma excelente pessoa e um escritor magnífico”, nas palavras de despedida de Pilar del Rio, sua amada espanhola.

*Amarilio Ferreira Jr. é professor titular de educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).