Imediatez – o estilo do capitalismo tardio demais

Imagem: Lux Werk
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Por RITA VON HUNTY*

Prefácio à edição brasileira, recém-lançada, do livro de Anna Kornbluh.

O potencial explicativo dos conceitos

1.

Qualquer pessoa que já tenha tentado pensar a aceleração da experiência no tempo presente ou explicar a diminuição das nossas capacidades de romper com um horizonte muito estreito de imaginação política (das nossas possibilidades) de futuro vai se beneficiar grandemente da leitura deste livro.

A tarefa de refletir o presente costuma ser árdua, ainda mais quando isso ao que chamamos “presente” parece ter sido reconfigurado em algo mais ou menos intransponível.[1] Este ensaio crítico de Anna Kornbluh merece tanto reconhecimento quanto urgência na leitura. Um de seus feitos é esquematizar, com precisão e didatismo, um quadro desse estágio de acumulação capitalista em que – a autora joga de forma bem-humorada – teríamos migrado do capitalismo tardio para o capitalismo tardio demais, ou “tarde demais”.

O jogo de palavras parece revelar, no entanto, a consolidação de uma perspectiva mais ou menos cínica[2] daqueles setores políticos que, de acordo com sua trajetória e compromisso histórico, deveriam zelar por um futuro capaz de “superar”[3] as limitações e as contradições do presentismo no qual parecemos aprisionados, em vez de se contentarem em ser os administradores oficiais das crises capitalistas e do colapso climático.

A autora opta por capturar tal perspectiva tanto nas formas artísticas do presente quanto nos traços subjetivos daqueles agentes que compõem as paisagens dos mercados de arte, bem como os circuitos de produção de conteúdo nas plataformas de streaming, o mercado editorial e a própria produção acadêmica.

2.

A “imediatez” à qual a autora se refere carrega consigo não apenas um significado etimológico de “sem mediação” mas também um diagnóstico do estreitamento de nossas capacidades de significação das experiências. Nesta obra, a mediação assume a posição de uma categoria teórica central, e pode ser abreviadamente compreendida em três dimensões: processual, estético-cultural e político-social.

Enquanto processo, a mediação é aquilo que estrutura e relaciona elementos, permitindo sua complexificação ou síntese; é o espaço de postergação, adiamento e elaboração dos efeitos da experiência. Enquanto função estética e cultural, a mediação corresponde à transformação da experiência em signos, símbolos, narrativas, imagens etc.

Já em sua função política e social, a mediação é a própria forma por meio da qual as instituições (Estados, sindicatos, escolas) organizam a vida pública. Sem a mediação, portanto, perdemos as capacidades de nos distanciarmos dos acontecimentos, de dar a eles formas que evitem neles nossa imersão, a intensidade e a instantaneidade que se tornaram “naturais” para os modos de vida do século XXI.

O objeto de análise da autora emerge através da crítica cultural de viés materialista que relaciona fenômenos contemporâneos (por exemplo, as “exposições imersivas” de Van Goghou a performance de “presença pura” de Marina Abramović) com os novos padrões de produção, consumo e circulação de produtos e serviços artísticos (as NFTs são exemplos desconcertantes disso). Kornbluh produz uma sólida e sofisticada argumentação com um vasto referencial teórico que se estende da Antiguidade até a crítica dos movimentos “pós-críticos”. Utilizando-se do pensamento de autores como Raymond Williams e Frederic Jameson, a autora revigora tanto o impulso dialético quanto a crítica negativa para insistir que a mediação não é um obstáculo à verdade, mas seu próprio meio de produção.

Assim, esta obra nos permite relacionar infraestrutura e superestrutura de forma cristalina. Anna Kornbluh reconstrói os elos de mediação que ligam o avanço da informalidade sobre a força de trabalho global – que tem empurrado centenas de milhões de trabalhadores para a chamada gig economy e erodido múltiplas facetas do mundo do trabalho (como os direitos trabalhistas, a justiça do trabalho, as jornadas etc.) – às suas cristalizações culturais nas formas de hiperconectividade, proliferação de “autoidentidades” e multiplicação de discursos ultraindividualistas, que por sua vez podem ser novamente rastreadas nos esvaziamentos institucionais, bem como nos colapsos de modos de vida coletivos/comuns que poderiam fazer frente ao colapso ambiental.

3.

Este é o movimento e o cenário que Anna Kornbluh busca historicizar. Extraindo das categorias materiais seu nível máximo de abstração na esfera cultural, a autora mantém vivo o que havia de melhor na tradição que nos ajudou a perceber nas formas culturais os conteúdos sócio-históricos decantados e seus possíveis desdobramentos futuros.[4]

Frente à desintegração das nossas próprias capacidades de imaginar e construir outros futuros, Anna Kornbluh nos convoca a restaurar a mediação como combate à atopia temporal que nossa clausura no presentismo trouxe consigo. Tal forma de restauração se manifesta nas artes que exigem atenção prolongada, na teoria crítica que recusa o imediatismo empático e nas formas coletivas que podem produzir transformações estruturais nas sociedades.

A recusa ética e política ao “capitalismo de imediatez” aparece como fissura no tecido discursivo da catástrofe e do colapso que tenta nos impedir de ver que, embora pareça “tarde demais”, o tempo de agir é sempre o nosso tempo de vida.

*Rita Von Hunty é ator, YouTuber e drag queen. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

Referência

Anna Kornbluh. Imediatez: ou o estilo do capitalismo tardio demais. Tradução: Nélio Schneider. São Paulo, Boitempo, 272 págs. [https://amzn.to/47i668h]

Notas


[1] Ver François Hartog, Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo (trad. Andrea Souza de Menezes et al., Belo Horizonte, Autêntica, 2013).

[2] Sobre esta noção de um “cinismo” de esquerda, há duas obras recentemente publicadas por intelectuais brasileiros acerca da questão: Heribaldo Maia e Jones Manoel, Cinismo e a morte da esquerda brasileira. (São Paulo, Ruptura, 2025); e Vladimir Safatle, A esquerda que não teme dizer seu nome: um novo livro (São Paulo, Planeta, 2025).

[3] Faço referência ao uso marxiano de Aufheben que coaduna tanto a negação de algo quanto a conservação e elevação de outras partes do mesmo algo que fora negado.

[4] Ver Theodor W. Adorno, Aesthetic Theory (trad. Robert Hullot-Kentor,  Mineápolis, University of Minnesota Press, 1997), p. 139.


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