Marx, Engels e a Revolução de 1848

Peter Doig, Casa vermelha, 1996
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Por FERNANDO CLAUDÍN*

Introdução do autor ao livro recém-editado

1.

A revolução de 1848 desempenhou um papel relevante na formação da teoria política de Karl Marx e Friedrich Engels. Pouco antes, eles haviam elaborado os elementos básicos da concepção materialista dialética da história, verdadeira revolução teórica no campo do pensamento filosófico e sociológico. Mas logo que chegaram a conclusões que julgavam científicas quanto à interpretação teórica do mundo social, viram-se compelidos a utilizá-las para intervir na sua transformação prática por via revolucionária.

A revolução que esperavam se pôs em marcha antes que os primeiros exemplares do Manifesto Comunista saíssem da tipografia de Londres, antes que esse “Partido Comunista” fosse algo mais que uma corrente ideológica mal definida no movimento operário – ao qual, justamente, Marx se propunha oferecer a sua nova teoria revolucionária.

Decerto que a Liga dos Comunistasacabara de apropriar-se desta nova teoria, mas era uma pequena organização clandestina, formada principalmente por operários-artesãos alemães emigrados em Londres, Paris e outras capitais europeias, muito influenciados ainda por umas e outras variantes do doutrinarismo utópico. Mal iniciada a revolução, Marx e Engels consideraram conveniente suspender a atividade da Ligaenquanto organização.

Iniciada em Paris, a revolução se alastra, como um rastilho de pólvora, pela maior parte da Europa continental, entre o Atlântico e as fronteiras russas. Num primeiro momento, parece que vai estender-se à Inglaterra. Além da França, o torvelinho envolve a Prússia, a Áustria, a Baviera, a Saxônia e os outros Estados da Confederação Germânica, os territórios poloneses ocupados pela Prússia, a Boêmia e a Hungria (que tentam livrar-se do jugo austríaco, em particular esta última, cuja guerra nacional revolucionária se prolongará por um ano), a Itália do norte (Lombardia), ocupada pelos austríacos, e todos os Estados italianos (o reino da Sardenha, o Piemonte, os Estados Papais, o reino de Nápoles etc.).

É a revolução mais europeia de toda a história da Europa. Dirigida, em primeiro lugar, contra as monarquias absolutas ou reacionárias, contra o sistema da Santa Aliança e contra todas as sobrevivências feudais em geral, tem, ao mesmo tempo, um gume antiburguês reconhecido por todos os protagonistas. O medo das “potências da velha Europa” diante do “espectro do comunismo”, que Marx evoca nas primeiras linhas do Manifesto Comunista, torna-se virulento porque o fantasma parece tomar corpo.

Os proletários estão nas primeiras filas dos insurretos de Paris e Berlim, de Viena e Milão, e exigem algo mais que o sufrágio universal. Em junho de 1848, Paris é o teatro do primeiro grande combate da história entre a burguesia e o proletariado pelo poder político.

A luta de classes se desenvolve nitidamente e se combina com as lutas de libertação nacional e os conflitos entre as potências, resultando num processo revolucionário internacional de imensa complexidade. A recém-nascida teoria da revolução não poderia encontrar fundamento mais rigoroso nem experiência mais apropriada para se enriquecer.

2.

Estabelecendo-se em Colônia, capital da Renânia – principal província industrial da Prússia –, Marx e Engels participam diretamente da revolução alemã e seguem passo a passo o desenvolvimento da revolução nos outros países europeus. Têm que abordar problemas novos ou até então tratados apenas num plano muito geral: analisar dia a dia uma situação complexa em rápida mutação; resolver questões de estratégia e tática, de formas de luta e de organização, com as quais nunca se haviam confrontado.

Atuam nas organizações do partido democrata e nas associações operárias. Mas o instrumento principal da sua ação política é a Nova Gazeta Renana, o grande diário que fundam em Colônia, diretamente dirigido por Marx. Os mais de 230 artigos de Marx e Engels publicados durante um ano neste primeiro periódico “marxista” revestem-se de grande interesse, salvo exceções, por vários motivos – como fonte historiográfica da revolução, como primeiro modelo de jornalismo inspirado na concepção materialista da história e, sobretudo, como registro das novas ideias e análises que o processo da revolução inspira, no calor dos acontecimentos, aos dois teóricos.

Os catorze meses da revolução alemã vividos em Colônia constituem a única experiência de ação política direta, diária, no terreno, de toda a existência de Marx e Engels.

A ela se seguem dois anos e meio dedicados fundamentalmente à análise retrospectiva, global, da revolução, objetivada em As lutas de classes na França de 1848 a 1850, Revolução e contrarrevolução na Alemanha, O 18 brumário de Luís Bonaparte e noutros textos menos conhecidos, especialmente as análises da situação europeia e internacional publicadas ao longo de 1850 na Nova Gazeta Renana – Revista Econômico-Política, periódico editado por Marx depois da derrota da revolução.

Nesses textos, a concepção da luta de classes do período anterior ao Manifesto e do próprio Manifesto, ainda muito geral e esquemática, se enriquece consideravelmente com o exame de novas facetas e fenômenos. Não há nenhum domínio da teoria política de Marx sobre o qual a experiência de 1848 não tenha deixado marca profunda.

Vladímir Lênin o assinala em diversas ocasiões, qualificando como “momento central” de toda a atividade de Marx e Engels a sua participação na revolução de 1848; em 1907, ele escreve: “É daí que partem para analisar os destinos do movimento operário e da democracia em uma série de países. E a ele voltam sempre que se trata de definir, na forma mais expressiva e depurada, a natureza interna das diversas classes e suas tendências. E sob o prisma daquela época revolucionária apreciarão ulteriormente os partidos e as organizações, as tarefas e os conflitos políticos de menor envergadura”.

3.

No entanto, são escassos na historiografia do marxismo os trabalhos dedicados a este período do desenvolvimento de Marx e Engels. Nas biografias de Marx e Engels, a ele se lhe dedica um capítulo; nos estudos históricos sobre a revolução de 1848, são referidos mais ou menos marginalmente; e não há investigação marxista sobre o problema das classes ou do Estado que não recorra a As lutas de classes na França ou O 18 de brumário.

Porém, à diferença do tema da formação do marxismo no período pré-revolucionário, que conta com numerosos debates e pesquisas, o do seu desenvolvimento sob o impacto da revolução e da contrarrevolução no período 1848-1851, do Manifesto Comunista a O 18 de brumário, suscitou poucos estudos específicos.

Na maior parte, os artigos da Nova Gazeta Renana e da Nova Gazeta Renana – Revista Econômico- -Política são conhecidos apenas por um reduzido círculo de especialistas.

Com este ensaio, nós nos propomos contribuir para o conhecimento desse importante segmento da história do marxismo, sobretudo no sentido de oferecer ao leitor uma base documental que lhe facilite uma reflexão autônoma. Procedemos, com a maior objetividade possível, à reconstrução sintética do discurso e da ação de Marx e Engels na revolução de 1848 ou a propósito dela, situando-os no contexto histórico correspondente, mostrando a sua articulação com o curso concreto da revolução.

Procuramos, de um lado, evidenciar o uso prático que fazem da sua teoria para analisar o processo revolucionário, orientar-se nele e influenciá-lo e, por outro lado, o efeito que o mesmo processo – em geral e, em particular, a sua práxis política – tem na sua elaboração teórica.

Pensamos que esta síntese analítica pode servir à compreensão mais exata e crítica de conceitos e proposições da teoria política de Marx e Engels que, frequentemente, foram utilizados de modo dogmático e a-histórico.

Por outra parte, apesar das diferenças radicais entre o mundo e o capitalismo de 1848 e os de hoje, não deixa de ser proveitosa a reflexão sobre a primeira revolução de dimensões europeias em que se colocou abertamente a luta entre proletariado e burguesia e com a qual se iniciou a parábola periférica descrita pelos efeitos revolucionários das sucessivas crises do sistema capitalista, enquanto o seu centro resistia e – durante toda uma época – se fortalecia.

4.

Decerto que nada é mais original e irrepetível que uma revolução. Mas é forçoso constatar também que uma série de fenômenos de grande relevância parecem repetir-se – embora, sempre, está claro, com traços específicos – nas revoluções que ocorreram até hoje. Nada é mais perigoso para os atores das novas revoluções do que cair no mimetismo das revoluções anteriores – e a ignorância das experiências históricas não facilita a compreensão do presente.

A reflexão crítica sobre as precedentes revoluções engendradas pelo sistema capitalista (incluídas as engendradas pelas contradições entre o seu desenvolvimento e as estruturas pré-capitalistas) não é necessária apenas para apreender os fenômenos repetitivos, mas ainda para perceber plenamente a originalidade de cada nova revolução.

Sempre que possível, preferimos utilizar os próprios textos de Marx e Engels, em suas passagens mais expressivas, a resumi-los por nossa conta. Assim, a exposição perde em fluidez, mas ganha em rigor documental.

Também nos esforçamos por estruturar a exposição combinando o critério cronológico e o temático, de modo a obter as maiores unidade e coerência possíveis em ambos os aspectos, priorizando um ou outro conforme o caráter de cada uma das três partes em que está dividido o ensaio.

Na primeira, introdutória, dedicada a apresentar uma síntese da teoria da revolução de Marx ao tempo do Manifesto Comunista, predomina a ordenação temática. A segunda, essencialmente histórico-descritiva, está regida sobretudo pelo curso dos acontecimentos, mas, nos limites postos por essa sujeição cronológica, há um certo agrupamento temático.

Na terceira, esse critério volta a predominar para mostrar a análise global da revolução a que Marx e Engels chegaram retrospectivamente, bem como os elementos novos que introduziram na sua teoria política.

*Fernando Claudín (1913-1990) foi historiador e ativista político. Autor, entre outros livros, de A crise do movimento comunista (Expressão Popular). [https://amzn.to/4fSxVGn]

Referência


Fernando Claudín. Marx, Engels e a Revolução de 1848. Tradução: José Paulo Netto. São Paulo, Boitempo, 2025, 396 págs. [https://amzn.to/45xMmMH]


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