Por LUCIANA MOLINA*
Enquanto a biblioteca representa o paraíso para a literatura, a realidade das escolas públicas brasileiras revela um cenário de exclusão, onde instituições sem bibliotecários e livros lacrados aprofundam o abismo cultural
1.
Adília Lopes, poetisa portuguesa falecida no final de 2024, fez um acréscimo antitético à famosa frase de Jean-Paul Sartre em Huis clos: “O inferno são os outros / mas o céu também”. O céu para Jorge Luis Borges é uma espécie de “biblioteca”. Investigo, então, sua antítese: como seria o inferno para Jorge Luis Borges?
O escritor ocupou a posição de diretor da Biblioteca Nacional da Argentina por 18 anos. Foi, portanto, gestor de bibliotecas reais no seu país e de bibliotecas imaginárias nas suas ficções.
Dizem que a leitura é uma viagem. Essa metáfora, contudo, só faz sentido para quem pode embarcar. A falta de bibliotecas, portanto, equivale-se a uma espécie de empobrecimento formativo, espiritual? E o que dizer da ausência de bibliotecas nos lugares em que elas seriam mais necessárias?
A rivalidade entre Brasil e Argentina é habitual. Mas poderíamos falar de uma rivalidade não tão conhecida como a do futebol: a da quantidade de livrarias. Ali pelos idos dos anos 2000 compartilhavam esse dado viralmente, o que se confirma a partir de um levantamento de 2015: Buenos Aires, com 2,8 milhões de habitantes, tem 734 livrarias, ou seja, 25 livrarias para cada grupo de 100 mil habitantes.
É um número muito superior à quantidade de livrarias disponíveis para os gaúchos no estado do Rio Grande do Sul: 2,63. A média brasileira é de 1,46. Dados acachapantes, que se tornam ainda mais dramáticos quando lembramos que há municípios que não têm uma livraria sequer.
Em 2023, quando trabalhava como professora em um município periférico do Brasil, levei um livro para a sala de aula e um estudante de ensino médio me perguntou, com admiração, onde havia comprado. Em certas regiões do país, o número de bibliotecas e livrarias não parece aumentar, e sim encolher. Daí um estudante olhar para o objeto-livro com cara de espanto, como se nunca tivesse visto e não tivesse nenhuma noção de como obtê-lo. O livro foi recebido como uma presença alienígena que acabara de adentrar a sala de aula.
Há um vídeo no YouTube em que Umberto Eco aparece circulando por corredores labirínticos e repletos de livros em sua casa, enquanto explica a ideia de antibiblioteca, que é sedutora para qualquer um que deseje viver pelo conhecimento. É razoável a premissa de que um livro só tem utilidade se você ainda não o leu. Quantas pessoas hoje podem ter a antibiblioteca de Umberto Eco?
2.
O intelectual de algumas provisões não pode ser confundido com o capitalista detentor de meios de produção. Ainda assim, a biblioteca particular é o fetiche e o luxo do intelectual de certas provisões.
Hans Ulrich Gumbrecht reflete sobre os poucos livros que herdou da biblioteca dos pais, enquanto especula que talvez no Brasil existam mais tradições familiares bibliófilas que na Alemanha. O que sua consideração sugere é que um compositor e escritor como Chico Buarque é em grande medida filho da biblioteca de Sérgio Buarque de Holanda. No Brasil, a biblioteca particular é praticamente uma capitania hereditária.
Em um estudo de Franco Moretti, vemos uma análise de como são compostas as bibliotecas familiares na Europa – isso, é claro, quando há livros na família. Se uma família tem um livro em casa, é muito provável que esse único livro seja a Bíblia ou outra obra de devoção. Se tiver dois, talvez o segundo livro seja um didático. Não é possível esperar variedade em bibliotecas muito restritas. Em um país de desigualdades estruturais como o Brasil, são poucas as famílias que contam simultaneamente com bibliotecas particulares e incentivo à leitura.
Tanto Alberto Manguel como Walter Benjamin têm ensaios refletindo sobre desempacotamento de livros pós-mudanças. Essa situação contrasta radicalmente com minha própria situação atual. Mudei-me de país para exercer um novo trabalho e não trouxe nenhum livro físico. O e-reader passa a ser o recurso daqueles que vivem em instabilidade laboral, como deve ser a tendência mundial de agora em diante. Não podemos mais nos dar o luxo de colecionar livros e de ter bibliotecas estacionárias, porque nem sequer o mundo do trabalho tem a estabilidade de algumas décadas atrás.
Há muitos escritores conhecidos por terem frequentado bibliotecas coletivas para a escrita de suas próprias obras. É o caso do já citado Walter Benjamin, que escrevia em uma biblioteca em Paris. Machado de Assis costumava frequentar o Real Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio de Janeiro, onde desenvolveu várias atividades da Academia Brasileira de Letras. Apesar da existência de relações frutíferas entre escritores e bibliotecas públicas, são poucos os ensaios refletindo sobre essas instituições tão fundamentais.
Não só Alberto Manguel e Walter Benjamin, mas também Roberto Calasso e tantos outros, escreveram sobre suas bibliotecas particulares. Enquanto no centro do capitalismo é possível pensar sobre o vínculo entre leitura, pesquisa e a construção da própria biblioteca, na periferia enfrentamos problemas mais sérios e primários, tais como o número reduzido e mesmo a completa ausência de bibliotecas públicas.
3.
Em Marcel Proust encontramos a associação entre o ato da leitura e a memória corporal. Frequentemente retornam-me outros flashes, atrelados a descobertas pelas estantes das mais variadas bibliotecas coletivas que conheci na vida. No instituto federal no qual eu fiz uma parte do meu ensino médio, lembro de ter encontrado com grande felicidade um exemplar de Triângulo das Águas, de Caio Fernando Abreu. A noite caía lá fora. Ou talvez caísse em algum conto de Caio Fernando Abreu. O acesso a bibliotecas públicas, ocasionalmente da própria escola, foi fundamental para que eu cultivasse meu gosto pela leitura.
A primeira vez que eu trabalhei como professora no ensino público básico foi com a disciplina de filosofia em um bairro de periferia em 2013. A escola, então recém-reformada, não apresentava grandes problemas de infraestrutura.
Algo naquela época já me intrigava: embora a biblioteca fosse bem equipada, toda a logística de empréstimo, utilização e usufruto desses livros era consideravelmente problemática. Em primeiro lugar, porque a biblioteca não contava com bibliotecários. Em razão disso, ela também não apresentava horários fixos de abertura.
Educadores e pesquisadores da área de letras quebram a cabeça para discutir modos de tornar a leitura literária mais prazerosa. Mas tudo isso esbarra em um problema mais fundamental: o acesso ao livro pelos alunos de escola pública é extremamente difícil, senão completamente impossível. Dentre as escolas estaduais e municipais, apenas 48% contam com biblioteca. Menos da metade das escolas que têm biblioteca também têm bibliotecário. Calculo por alto que, dentre cem escolas, apenas 22 têm condições adequadas para o empréstimo regular de livros, ou seja, contam com biblioteca e bibliotecário. Vamos, assim, progredindo nos círculos do inferno de Borges.
A menos que os livros sejam apenas para impressionar as visitas, é razoável pensar que um livro só é útil na medida em que alguém poderá lê-lo. Se eles não chegam às mãos do estudante, há um grave erro de política pública.
No modelo em que se encontra hoje, a única forma de os alunos pegarem livros emprestados passa por um professor que queira acumular as tarefas da docência com as do bibliotecário. Mesmo que alguém se dispusesse a fazê-lo, o tempo utilizado seria descontado da carga horária dedicada às aulas. Com a crescente burocratização da atividade docente, em que o professor precisa preencher planilhas das mais diversas, é absurdo esperar que além disso ele ainda tome para si a tarefa de atuar como bibliotecário.
Há professores de reforço, mais de um coordenador por turno, equipe voltada para a educação especial, dentre outros funcionários. Então por que, ao longo de uma década, ninguém pensou em equipar as bibliotecas das escolas públicas com um bibliotecário? E por que isso não é considerado política pública educacional e cultural de primeira ordem?
4.
Lembro que, nesse meu primeiro emprego, pegava ônibus da capital, com necessidade de baldeação, para o trabalho. Naquela época havia pequenas locadoras de livros nos terminais de ônibus. Eu mesma, uma leitora que alguns classificariam de onívora (pois leio de Kant a bestsellers literários), já havia feito uso dessas bibliotecas algumas vezes durante aquele ano de trabalho.
Às vezes o deslocamento no horário do rush me fazia ficar mais de uma hora no coletivo lotado e barulhento, de modo que procurava leituras mais leves. Já havia encontrado alunos pegando livros emprestados ali. Ou seja, aquelas pequenas banquinhas prestavam um serviço à formação da periferia. Em 2023, já não havia mais sinais dessas bibliotecas nos terminais de ônibus ou qualquer coisa que se assemelhasse.
Quando, nas escolas, há bibliotecas sem bibliotecários, elas frequentemente funcionam apenas como depósitos. Na última instituição em que trabalhei, havia mais de cem exemplares de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, inteiramente novos e lacrados, empilhados e sem uso. Eles ficaram assim por mais de um ano e não há qualquer sinal de que algo será feito com eles. O mesmo com O Hobbit, fantasia clássica de J.R.R. Tolkien. Abundam discursos que associam o cânone literário à dificuldade ou até mesmo ao elitismo, mas tudo isso se torna indiferente diante de uma realidade que impede o acesso efetivo a qualquer espécie de livro.
A aquisição de pilhas e pilhas de livros que jamais são colocados para circular parece atender muito mais a um fetiche por gastar e preencher planilhas posteriormente exibidas para comprovar investimento público do que representa real estratégia na promoção da educação e dos hábitos de leitura. São muitas as maneiras de maquiar um dado e transformar uma realidade desesperançosa em um gráfico positivo para a escola ou o governo. Tudo tem potencial de terminar em pizza de dados eleitoreiros e propaganda institucional, sem que a política transforme minimamente a vida das pessoas.
Louis Althusser analisa que a escola é um aparelho ideológico do Estado, a partir do qual se constitui a divisão do trabalho. Há um abismo entre escolas particulares e públicas no Brasil. Desde cedo, lapidam-se as diferenças entre aqueles destinados a uma educação de elite, futuros profissionais em cargos mais bem remunerados, e aqueles que são, desde a formação escolar, empurrados para empregos precários. A ausência de bibliotecas escolares eficazes cumpre um papel melancólico nesse estado de coisas. Privados de uma formação humanística sólida, os alunos da escola pública são, desde o início de sua trajetória escolar, empurrados para a linha de frente da uberização.
5.
Volta à minha memória o caso de um colega de universidade que uma amiga apelidou de Talentoso Ripley, inspirada pelo personagem de Patricia Highsmith que ganhou adaptação para o cinema. Sua história é a de um alpinista social, que aplica pequenos e grandes golpes até assumir a identidade de outro homem, mais endinheirado e de outra classe social. Hoje o Ripley é doutor em história por uma das mais prestigiadas universidades brasileiras.
Há poucos anos, contudo, chegou até mim a informação de que foi pego roubando livros da biblioteca e que ele acumulava diversos volumes, inclusive raros, no quarto da moradia estudantil que ocupava. Talvez essa tenha sido a forma silenciosa pela qual nosso colega cleptomaníaco e bibliófilo encontrou de se revoltar contra as adversidades postas para aqueles que desejam ler no nosso país.
Durante uma aula ministrada para o ensino superior, em tom que mesclava queixume e consciência crítica em desenvolvimento, uma estudante reclamou que era difícil ter acesso a livros, como se isso explicasse por si só a dificuldade de os ler. Aproveitei a oportunidade para contar sobre a biblioteca e os outros espaços da própria universidade, mas também comparei com a situação de quem havia nascido 15 anos antes.
Após várias considerações sobre o advento da internet e a pirataria, e como elas poderiam favorecer a democratização do conhecimento, arrematei: “Vocês estão mais bem equipados do que eu. Quando era adolescente, meu recurso foi fazer um cartão da biblioteca”.
As bibliotecas das universidades brasileiras são, em geral, precarizadas. Calorentas, empoeiradas, com acervos desatualizados e reduzidos lugares para descansar ou ler confortavelmente. Não são, em geral, lugares para permanecer, e sim dos quais fugir. Talvez isso por si só já as caracterizasse, na visão de Umberto Eco, como um verdadeiro cauchemar. Ainda assim, há muitos usos para os estudantes, mesmo que seja apenas o de pegar livros e outros materiais emprestados.
Na universidade em que trabalhei há um cinema com uma programação alternativa de filmes, que conta sobretudo com obras brasileiras e estrangeiras fora do mainstream estadunidense e hollywoodiano. Todos os estudantes podem assistir às sessões sem pagar pelo ingresso.
Apesar da gratuidade, é muito comum que as sessões fiquem vazias, relegadas a gatos pingados e fantasmas. Alguns justificariam a baixa adesão a partir da própria reprodução social do trabalho: acúmulo de demandas familiares, domésticas etc.
Nada disso deve ser desconsiderado. No entanto, quando comparamos a quantidade global de alunos da universidade com o parco público das sessões, fica claro que há algo de mais profundo, e que passa pela formação do gosto e do hábito. Afinal, é quase certo que muitos dos estudantes que não aproveitam a gratuidade do cinema consomem streaming e, ocasionalmente, talvez até assistam a blockbusters em cinemas de shopping pagando pelo ingresso.
O bourdieusismo cultural, quando empregado sem filtros críticos, leva-nos a verdadeiras encruzilhadas. Cada vez mais pessoas acham que filmes, livros e outras obras de estética não hegemônica e fora do circuito comercial são coisa de intelectual afetado, que só o faz porque teve oportunidades e privilégios. Associam, de maneira caricata, a alta cultura e a cultura alternativa à elite.
Quando contrastamos essa crença com a realidade de um cinema em que os estudantes podem frequentar gratuitamente e mesmo assim não o fazem, faltam explicações convincentes. Consumir esse tipo de cultura não é apenas símbolo de status, e sim fundamental para a formação humana. Sem a estrutura adequada para o desenvolvimento desses hábitos no ensino básico, a infraestrutura da universidade é subaproveitada e a eficácia da formação é minada.
Não só os cinemas, mas também os livros e as bibliotecas, tendem a acumular cada vez mais poeira. As bibliotecas sem leitores estão instaladas em mais um círculo do inferno de Jorge Luis Borges.
*Luciana Molina é doutora em Teoria e história literária pela Unicamp. Atualmente é leitora do Programa Leitorados Guimarães Rosa, com atuação na Universidade Carolina de Praga.






















