Plataforma

Kylie José, A garota do beco, 2016
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Por DIOGO NOVENTA*

Trecho, selecionado pelo autor, do livro recém-lançado

Duas atrizes, cada uma em um canto do cenário, se olham.

Apito de fábrica – tiram o celular do bolso, mostram ao público, uma de pé, outra sentada, olham fixamente o celular.

Uma se levanta, outra se senta (2x) – olham para a plateia – quem está sentada se levanta / se sentam / se levantam.

– Meu nome é Marilza, sou atriz da Estudo de Cena, estou de pé ao lado desse banco. Do ponto de vista de vocês estou no canto direito desse palco. Do meu ponto de vista olho fixamente para o celular, sou vista a partir daquilo que vejo.

– Meu nome é Juliana, sou atriz da Estudo de Cena, estou de pé ao lado desse banco. Do ponto de vista de vocês estou no canto esquerdo desse palco. Do meu ponto de vista olho fixamente para o celular, sou vista por vocês e pelas plataformas que estão aqui dentro.

Som netflix / entram no palco-tabuleiro – partitura/caminhada – a cada “casa”, uma notificação (3x).

Vinheta uber

As duas vão para trás da tela, olham para a plataforma:

JU – Duas atrizes.

MA – Duas trabalhadoras.

JU – Caminham pelo palco-tabuleiro com o celular no bolso.

MA – Navegam em plataformas irregulares e aceleradas.

JU – Ao parar em espaços demarcados ouve-se sons de notificação.

MA – Elas estão flexíveis, se movem sem sair do lugar.

JU – Essa é a cena que escolhemos para iniciar o experimento Estudo de cena: plataforma.

MA – Um fragmento precário.

Três sinais de teatro. Voltam para o palco, posicionam o banco, expõem o celular.

JU – O que você vê?

MARILZA – O velho e o novo / o que você vê?

JU – Seres humanos escavando montanhas e uma nuvem espessa / o que você vê?

MARILZA – Um trem de minério. Suor e sangue. Pessoas conversando com máquinas para arrumar trabalho / o que você vê?

JU – Na nuvem o dinheiro atravessando fronteiras impalpáveis, na terra trabalhadoras de todo tipo correndo. / o que você vê?

MARILZA – Um smartphone que enxerga com os nossos olhos / o que você vê?

JU – Empresas de plataformas digitais organizando e lucrando com o trabalho precário.

MARILZA – Quem irá se lembrar?

JU – As máquinas não lembram porque não esquecem.

Fazem o gesto de atirar uma pedra (o celular é a pedra). Congelam / Marilza descongela e volta-se para o público.

MARILZA – Para atirar uma pedra para a frente é necessário flexionar o braço para trás, antes de seguir adiante será necessário re voltar.

Juliana faz o movimento reverso.

JU – Primeira cena: “jogo da memória”.

Poema das Tecelãs, escrito no século XII:

Sempre teceremos a seda

E nem por isso vestiremos melhor,

Estaremos pobres e desnudas

E sempre teremos fome e sede

Nós temos pão a muito custo

De manhã, pouco, à noite menos;

Pois quem ganha por semana

Vinte soldos não está livre de sofrer.

Mas, com os nossos salários, enriquece

Aquele para quem nós trabalhamos.

Grande parte da noite velamos,

e o dia inteiro, para ganhar, velamos.

– É necessário lembrar:

Dizem que no ano de 1245 aconteceu uma das primeiras greves da história, organizado pelas tecelãs da cidade flamenga de Douai.

As tecelãs, que também eram agriculturas, realizavam o trabalho de “Manufatura doméstica”. O trabalho funcionava da seguinte maneira: um comerciante-empresário vendia para as tecelãs a lã crua. Elas, que tinham em sua casa um tear de madeira, fiavam e teciam o material transformando a lã em tecido, que era comprado de volta pelo comerciante ao preço estabelecido por ele. Embora trabalhassem em casa as tecelãs estavam à mercê do comerciante-empresário, como se fossem diretamente subordinadas a ele.

Contra esse sistema as tecelãs fizeram greve.

– É necessário lembrar:

A primeira greve brasileira aconteceu no ano de 1857 na cidade de Salvador, é conhecida como a greve negra.

Nesse período a maioria dos negros e negras de Salvador, escravizadas ou não, trabalhavam na rua. Eram chamados de Ganhadores e Ganhadeiras. 

Elas vendiam comida e roupa, eles carregavam de tudo: pacotes grandes e pequenos, envelope de carta, caixas de açúcar, tinas de água, fezes, tonéis de aguardente e gente em cadeiras de arruar.

No dia primeiro de junho de 1857 as ruas de Salvador amanheceram estranhamente calmas. Os ganhadores haviam decidido cruzar os braços em protesto contra restrições e impostos sobre o trabalho, como: o pagamento de dois mil reis pela licença ao trabalho. / A apresentação de uma declaração de boas intenções na realização do trabalho, emitida e assinada por um dono ou um comerciante rico. / E a compra por três mil reais de uma placa de registro que deveria ser usada pendurada no pescoço. Com forte apoio das ganhadeiras e outras trabalhadoras e trabalhadores da cidade, a greve dura doze dias e termina vitoriosa.

Canção dos ganhadores:

Ô, cuê …

Ganhadô

Ganha dinheiro

Pr’a seu Sinhô

Cantam e colocam o varal de fotos no painel de fundo.

*Diogo Noventa é diretor e dramaturgo da Estudo de Cena, companhia de teatro e cinema de São Paulo

Referência


Diogo Noventa. Plataforma: dramaturgia, reflexões e imagens. Marília/São Paulo, Editora Lutas Anticapital/Estudo de Cena, 2025. [https://abrir.link/vVBiE]


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