Por que romper o convênio Unicamp-Technion?

Imagem: Ash Hayes
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Por LAYMERT GARCIA DOS SANTOS*

Não há tecnologia neutra no Estado de exceção: o Technion opera como laboratório do extermínio, transformando conhecimento em arma – e a Unicamp não pode ser cúmplice dessa perversão fáustica da ciência

1.

Desde o ano passado, e em virtude do agravamento da ofensiva israelense contra toda a população civil de Gaza – a pretexto de combater o terrorismo do Hamas que teria a capacidade de recrutar até mesmo os bebês –, a Unicamp tem sido palco de um intenso debate sobre a conveniência de manter, ou não, um convênio firmado com o Israel Institute of Technology, de Haifa, em 24/08/2023.

Registre-se que a assinatura do acordo se deu, portanto, poucas semanas antes do atentado que chamou a atenção de todo o mundo para a gravidade extrema da condição dos habitantes do território palestino. Antes disso, a comunidade acadêmica ignorava o estado de exceção vivido, desde 1948, por essa população, até que a brutalidade da ação da resistência palestina destruiu definitivamente a aparência de normalidade de uma ocupação colonial insuportável.

A partir daí, revelou-se, por baixo da ficção da democracia israelense, a natureza totalitária de um Estado fundado no princípio da seleção que, como sabemos, desde a “solução final” hitlerista do problema judeu, divide a humanidade em raça eleita e raças portadoras de “vida nua”, isto é vida humana matável. Em poucas palavras: nos últimos dois anos, Israel emergiu como o Estado genocida que verdadeiramente é.

Se a questão do convênio Unicamp-Technion desperta tanta celeuma é porque a percepção da opinião pública mundial sobre o Estado de Israel mudou, e continua mudando, agravada diariamente pela loucura homicida exposta nas telas dos celulares e computadores do mundo todo.

Com efeito, confrontado com a violência da mobilização total desse Estado e da maioria da população israelense contra o povo palestino, o sentido de humanidade está se impondo, apesar do empenho da feroz propaganda israelense e da cumplicidade dos governos e da mídia ocidentais, e da crescente dificuldade para acobertar a realidade dos fatos. Por isso mesmo, em toda parte, inclusive entre os judeus da diáspora, crescem as manifestações e iniciativas clamando pelo fim do genocídio.

2.

É nesse contexto que se insere a Carta Aberta ao Consu em prol da ruptura do convênio. A comunidade universitária ainda desconhece o teor da cooperação firmada entre a Unicamp e o Technion. Mas mesmo que ela não tenha nenhuma relação concreta com a guerra de extermínio em curso, é impossível negar que o Technion é uma máquina de guerra atuando diretamente no âmago do Estado de exceção – basta lembrar seu papel, entre outros, na produção de drones e mísseis que têm como alvo crianças, mulheres e homens palestinos.

Mais ainda: negar o comprometimento total de Technion é tentar desconhecer que, para o Estado de Israel, toda e qualquer tecnologia se inscreve na mobilização total da solução final da questão palestina. É uma questão de lógica! Da lógica que comanda a própria concepção que o Estado de Israel tem da tecnologia.

Em seu livro O homem e a técnica, publicado em Munique em 1931, Oswald Spengler postula que a técnica é uma arma, e não um utensílio ou ferramenta, um recurso artificial que prolonga a mão e o olho do homem, predador por instinto. Portanto, sua natureza não concerne tanto o acúmulo de riqueza quanto a questão do domínio.

Assim, desde tempos imemoriais e até hoje, a humanidade se divide entre predadores e vítimas: “Existem povos cuja raça vigorosa conservou as características do predador. São povos senhoriais, conquistadores, que pelo combate invadem e subjugam outros povos. Deixam, para estes últimos, a luta econômica contra a natureza e, no momento propício, despojam-nos e submetem-nos. Assim, com o começo da navegação, nasce também a pirataria; tal como com o nomadismo e as viagens comerciais surge o banditismo; também, mais cedo ou mais tarde, onde se instalam os camponeses aparece uma nobreza guerreira que os escraviza”.

É mais do que documentada a influência de Oswald Spengler na formulação do ideário nazista como “raça superior” face aos judeus, considerados infra-humanos; também já foi bastante estudada a solução final hitlerista como supra-sumo da técnica ocidental, com sua meticulosa industrialização da morte em massa. O paradoxo terrível é que o povo vítima do Holocausto é o mesmo que hoje, migrando para o polo oposto, se torna o predador, ao considerar-se como o povo biblicamente “eleito” para conduzir um novo holocausto.

Não é, portanto, de espantar que Gaza tenha se transformado num novo e imenso campo de concentração, verdadeiro laboratório e campo de provas das armas mais modernas bem como das mais sofisticadas técnicas contemporâneas de extermínio.

Que vão do processamento de dados de cada indivíduo nas redes sociais, coletados para pô-lo na mira de drones e mísseis, ao uso sistemático da Inteligência Artificial e do recurso aos serviços de inteligência ocidentais para a programação de uma política de terra arrasada; de softwares que, sadicamente, analisam e calculam se o ataque deve atingir a cabeça, o peito ou os genitais do público-alvo, conforme os dias da semana ao front de desinformação cientificamente gerido e meticulosamente executado, tanto em sua vertente interna, para a população israelense, quanto em sua vertente externa, que visa a comunidade internacional como um todo e é fielmente reproduzida por quase toda a mídia ocidental.

Não há como negar a participação de Technion nesse plano sinistro e inominável. Dentro da concepção fáustica, spengleriana da técnica, não há espaço para neutralidade, não há como traçar uma suposta linha vermelha. Só há predadores e vítimas. Por isso mesmo, não há espaço para a inocência. Quem coopera com a máquina de guerra, seja em que nível for, é cúmplice.

Por todas estas razões e evidências, entendo que se impõe à Unicamp o cancelamento do convênio com Technion, universidade de Israel que tem elevada responsabilidade pelo genocídio em Gaza e está comprometida com a política de apartheid contra o povo palestino, práticas que, devemos lembrar, têm sido, publicamente condenadas, em recentes reuniões, pelo Conselho Universitário da Unicamp.[1]

*Laymert Garcia dos Santos é professor aposentado do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Politizar as novas tecnologias (Editora 34). [https://amzn.to/4fWZgHh]

Notas


[1] Este texto integra um dossiê, organizado pelo Comitê Unicamp Palestina Livre, a ser encaminhado ao Conselho Universitário da Unicamp.


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