Bolívia – a derrota da esquerda

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Por GILBERTO MARINGONI*

A queda da esquerda boliviana expõe a fragilidade do progressismo latino-americano: avanços sociais sem ruptura com o extrativismo, divisões internas e a ascensão de uma direita revanchista

1.

Embora anunciada, a derrota da esquerda nas eleições presidenciais bolivianas é uma tragédia em toda linha. Duas décadas de progressismo vão pelo ralo, no bojo de uma briga fratricida entre três facções do Movimento ao Socialismo (MAS), poderosa força popular criada nos anos 1990.  As alas são lideradas por Evo Morales, Luís Arce e Andrônico Rodriguez.

O segundo turno será disputado pela direita (Rodrigo Paz Pereira) e pela extrema-direita (Tuto Quiroga), sobre as cinzas do desastroso governo de Luís Arce, ex-ministro da Economia durante quase todos os mandatos de Morales (2006-19). Decifrar as razões do tombo é tarefa urgente. Olhemos para o passado recente, quando o progressismo chegou ao poder político em oito dos 12 Estados da América do Sul.

Apesar de saldos sociais importantes, nenhum país do continente realizou mudanças em seus padrões de desenvolvimento na primeira onda de governos progressistas (1999-2015). As exceções são as tentativas de Cristina Kirchner, reestatizando empresas e aprovando a lei de mídias, e as de Hugo Chávez, buscando democratizar a riqueza petroleira. Mas ninguém logrou sair da armadilha do desenvolvimentismo primário-exportador, incapaz de aumentar ou distribuir renda. Programas compensatórios e focados, destinados a administrar a pobreza, renderam vistosas vitórias eleitorais, mas não atacaram desigualdades sociais.

O desenvolvimento, como projeto de crescimento e disseminação da melhoria de vida geral, só se concretiza com a indústria, que emprega mais e paga melhor que atividades rurais. À exceção de Brasil, México e Argentina, nenhum país da região conta com um mercado interno com escala e renda para sustentar um processo industrializante sólido. No maior deles, no Brasil, as tentativas foram pífias e sequer houve ensaios sérios para se romper com o neoliberalismo.

A derrota boliviana posiciona o país em linha com o avanço da extrema-direita continental e coloca em risco a soberania sobre a maior reserva mundial de lítio. O primeiro alvo de qualquer que seja o vencedor do segundo turno será a Constituição de 2009, em especial o Título II, Capítulo 2, artigos 348-358, que tratam da propriedade estatal dos recursos naturais, entre eles as riquezas minerais. A segunda onda de ataques recairá sobre direitos humanos e sociais.

O grande perdedor será o povo boliviano, que poderá sofrer perdas de prerrogativas democráticas, cidadãs e trabalhistas conquistadas desde 2006. Não nos esqueçamos: Evo Morales foi eleito no bojo de lutas contra a privatização da água, na virada do século, em Cochabamba, logo espalhadas para outros pontos do país. A privatização foi promovida pelo governo de Hugo Banzer e de seu vice Tuto Quiroga, que volta como discípulo de Javier Milei. Tais jornadas projetaram nacionalmente várias lideranças sociais, entre elas a de Evo Morales, cocaleiro. É ele o segundo grande perdedor agora.

2.

A primeira vez que vi Evo Morales intervir publicamente foi em Cuba, num seminário sobre a Alca, em 2002, quando ainda era um sindicalista quase desconhecido para além dos círculos da esquerda. Apesar de seu forte carisma étnico e popular e de expressar a ascensão de povos originários num país em que as maiorias indígenas eram impedidas de circular em certos bairros de La Paz até os anos 1960, ele nem e longe exibia um talento político a altura de Chávez, Cristina ou Lula.

Tive oportunidade de assisti-lo em outras oportunidades, na Bolívia e fora dela. Embora demonstrasse grande força de vontade e capacidade de trabalho, nunca me pareceu um criativo formulador de políticas públicas. Jamais entendi algumas postulações de suas gestões, como “Estado plurinacional” ou “Bem viver”.

Ao longo de três mandatos, mostrou-se paulatinamente egocêntrico e autossuficiente, a ponto de literalmente impedir o surgimento de lideranças que lhe fizessem sombra. Chegou a desrespeitar o resultado de um plebiscito sobre reeleições por ele mesmo convocado, em 2016. Derrotado, lançou-se na disputa para um quarto mandato três anos depois, quando foi derrubado por um golpe de Estado.

Contra todas as expectativas, veio à posse de Jair Bolsonaro, em 2019, uma festa da extrema-direita global, com a presença de Benjamin Netanyahu, Viktor Orbán e Sebastián Piñera, entre outros. O coroamento de sua trajetória pública até aqui se dá numa irresponsável e soberba campanha pelo voto nulo. Surtiu efeito: 19% dos sufrágios foram desconsiderados pela Justiça Eleitoral. Em tese, fizeram falta para um melhor desempenho da esquerda.

A seu favor é preciso ressaltar que a vida da população melhorou e a economia boliviana cresceu na média 5,7% em seus quatro primeiros anos de governo (2006-10), bem acima da média continental de pouco mais de 3%. Não houve mágica. O ascenso da demanda chinesa trouxe breve prosperidade à quase toda periferia do mundo.

Baseado no extrativismo, o dinamismo econômico melhorou a situação fiscal do Estado durante o boom de commodities, o que abriu caminho para inúmeros programas sociais. Mas não houve real distribuição de renda e nem se tentou uma mudança do modelo exportador, como em todos os governos da primeira fase do progressismo latino-americano (1999-2015).

A superação da derrota não será fácil. Reconstruir o movimento popular, recuperar instrumentos partidários e forjar novas lideranças não é tarefa que se resolva no curto prazo, ainda mais diante da barbárie fascista, agora patrocinada escancaradamente pela Casa Branca.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

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