Donald Trump e o mundo pós-americano

Imagem: Quang Nguyen Vinh
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Por MELVIN GOODMAN*

A busca por um legado pessoal, paradoxalmente, acelerou o declínio do poder global norte-americano. As ações de Trump não construíram uma nova ordem, mas sim isolacionismo, catalisando alianças que excluem ativamente os EUA do tabuleiro geopolítico que outrora dominaram

1.

A campanha descarada de Donald Trump por um Prêmio Nobel da Paz tem um novo item, uma nova reivindicação para seu currículo – a sua “diplomacia” estaria contribuindo para criar uma ordem mundial. Infelizmente, é uma ordem mundial que não apenas carece de um lugar para os Estados Unidos, mas exclui ativamente os Estados Unidos.

Essa nova ordem mundial está contribuindo para o estreitamento dos laços entre a Rússia e a China, algo sem precedentes, bem como está aproximando a China, a Índia, a Coréia do Norte e a Rússia. As relações dos EUA com cada um desses países estão em declínio. A relação entre os Estados Unidos e a Índia é a vítima mais recente do processo de formação dessa nova ordem mundial.

A nação norte-americana foi central para criar a ordem mundial do final da Segunda Guerra Mundial, a qual agora está se desmanchando. Pela primeira vez em 80 anos, os Estados Unidos estão do lado de fora do proesso, olhando para dentro, o qual não ocorre apenas na Europa, mas também no Indo-Pacífico. O declínio de Washington pode ser percebido em termos de poder, influência, credibilidade e posição.

Pela primeira vez em 80 anos, os Estados Unidos carecem de uma equipe de segurança nacional influente que possa trabalhar em estreita colaboração com um presidente que tem ideias peculiares sobre políticas e processos. O fato de Marco Rubio servir como secretário de Estado e como conselheiro de segurança nacional interino (tendo, aliás, uma influência muito limitada nas decisões aí tomadas) fala sobre o problema. Como resultado, Marco Rubio estendeu os seus poderes para limitar os vistos para estrangeiros, especialmente para estudantes estrangeiros, um fator-chave no isolamento dos EUA.

Donald Trump se esforçou para isolar os Estados Unidos na comunidade global. A sua última ação foi a negação e a revogação de vistos para os membros da Autoridade Palestina e da Organização para a Libertação da Palestina para participar da Assembleia Geral da ONU, deste mês, em Nova York. Isso ocorre em um momento em que os principais aliados dos EUA (Grã-Bretanha, França, Canadá e Austrália) planejam se juntar aos outros 147 membros da ONU no reconhecimento de um Estado palestino.

A negação dos vistos para a OLP viola a carta da ONU de 1947, que afirma que os Estados Unidos “não devem impor nenhum impedimento” à viagem de representantes das missões da ONU ao “distrito da sede” na cidade de Nova York. Essa proibição de visto afetará mais de 80 palestinos, bem como o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Mas isso não é, porém, novidade. Em 1988, a Assembleia Geral se reuniu em Genebra para que o líder palestino Yasser Arafat pudesse discursar na assembleia. Esta semana, o governo Donald Trump suspendeu todos os tipos de vistos para todos os palestinos.

2.

A China e a Rússia nunca tiveram um relacionamento tão próximo quanto o que existe atualmente. Existem várias razões para isso, mas as ações do governo Donald Trump são fundamentais para que ocorresse o estreitamento recente desses laços. Os exercícios militares conjuntos são uma parte fundamental da situação atual, bem como o generoso intercâmbio de inteligência militar e armamento. A convergência de Moscou e Pequim contrasta com a crescente discórdia entre os Estados Unidos e seus aliados na Europa e na Ásia.

Relações Sino-Rússia-Índia: A cúpula desta semana da Organização de Cooperação de Xangai, um grupo de segurança eurasiano liderado por Moscou e Pequim, trouxe o primeiro-ministro indiano Narendra Modi à China pela primeira vez em sete anos. Mais uma vez, Donald Trump foi o catalisador da decisão de Narendra Modi devido às políticas tarifárias de Donald Trump e ao falso crédito pelo cessar-fogo entre a Índia e o Paquistão há vários meses. A diplomacia de Xi Jinping desempenhou um papel importante em aproximar a Índia de Moscou e Pequim. Xi ganhou ao garantir que a Índia não se juntasse à política de contenção de Washington contra a China.

Relações Sino-Rússia-Coreia do Norte: A participação de Kim Jong-un na cúpula na China marca um passo importante para acabar com a discórdia entre Pequim e Pyongyang. As relações de Kim com Moscou também estão em terreno sólido, tendo em vista o apoio militar da Coreia do Norte à guerra da Rússia com a Ucrânia. A má gestão de Donald Trump na recente reunião com o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, e uma dura política comercial com o Japão, são pontos adicionais de contraste.

Relações BRICS: Aos países fundadores, ou seja, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, foram adicionados agora Egito, Etiópia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. E eles estão se juntando num esforço para formar uma alternativa ao G7. Os seus objetivos são antiocidentais e antiamericanos. O genocídio israelense e a cumplicidade dos EUA, bem como as políticas tarifárias e comerciais de Donald Trump, aumentaram a popularidade e a credibilidade do BRICS.

Relação EUA-Índia: Até recentemente, a Índia, a maior democracia do mundo, e os Estados Unidos estavam a caminho de criar uma política diplomática e econômica cordial e recíproca, onde ambos os lados pudessem se acomodar. Donald Trump praticamente interrompeu essa linha política com a duplicação das tarifas sobre as exportações da Índia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e a Índia caminham juntos para criar democracias problemáticas.

Os governos de Donald Trump e Joe Biden contribuíram para o isolamento e alienação dos Estados Unidos na comunidade internacional com sua cumplicidade no genocídio profano de Israel contra os palestinos em Gaza. O plano pós-guerra de Donald Trump, modelado em sua noção de fazer de Gaza a “Riviera do Oriente Médio”, criaria uma tutela administrada pelos EUA em Gaza por pelo menos dez anos, enquanto ela é transformada em um resort turístico.

Apenas barões imobiliários como Donald Trump, seu genro Jared Kushner e Steve Wytkoff poderiam ter uma ideia tão cínica para explorar. O fato de que alguns dos mesmos israelenses que criaram a disfuncional Fundação Humanitária de Gaza, que não conseguiu distribuir comida para as massas famintas em Gaza, completa o quadro hediondo do genocídio israelense.

Enquanto isso, os escombros em Gaza continuam a se acumular e os israelenses negacionistas continuam a esconder que a fome existe e que grassa nos territórios palestinos. Ora, tudo não faz um bom caminho.

*Melvin Goodman é professor de Política Internacional na Universidade Johns Hopkins. É autor, entre outros livros, de American Carnage: The Wars of Donald Trump (Opus Publishing).

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente no portal Counterpunch.


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