Por MILTON PINHEIRO & SOFIA MANZANO*
Da resistência antinazista à luta anticolonial, a trajetória de Léon Landini encarnou a coerência revolucionária de quem combateu todas as formas de opressão sem jamais abandonar a simplicidade do militante
Enquanto as massas populares ocupavam as ruas no Brasil, em 21 de setembro, falecia em Versalhes, na França, o líder comunista e herói internacionalista, Léon Landini. Filho de uma família italiana, da Toscana, que fugiu para a França em virtude da perseguição do governo fascista. Seu pai, Aristide, havia sido um oficial comunista eleito em sua aldeia de Roccastrada, onde os fascistas de Mussolini massacraram 11 pessoas. Landini nasceu em Le Muy, perto de Saint-Raphael (Var), em 9 de abril de 1926, na França.
Quando a segunda guerra mundial começou em 1939, o pai e o irmão dele se alistaram no Exército para defender o país que os recebeu. Após o desastre de 1940, Landini, com apenas 14 anos, já desenvolvia ações com seu amigo Jean Carrara, de 15 anos (que foi massacrado pelos italianos em 1944) contra o governo de Pétain.
De fato, a partir da década de 1930, os Landini realizaram atividades políticas que os levaram a se juntar à luta de resistência desde muito cedo. Militantes comunistas (espanhóis, alemães, poloneses, etc.) de países onde o fascismo estava se instalando passaram por suas casas. Palmiro Togliatti foi um desses companheiros hospedados pela família. Seu irmão, Roger Landini, estava encarregado de transportar brigadistas para a Espanha. Ele era 12 anos mais velho do que Léon e foi líder do MOI em Rhône-Alpes.
A partir de 1942, Léon Landini entrou para o Francs-Tireurs et Partisans-Main-D`oeuvre Immigrée (FTP-MOI). Mas foi a partir de outubro de 1942 que ele participou de forma mais intensa das operações militares da Resistência armada. Nesse mesmo ano ele e suas irmãs entraram para o PCF (Partido Comunista Francês).
Em 12 de outubro de 1942, Landini participou da sabotagem que destruiu a ferrovia que ligava Saint-Raphael a Cannes, causando descarrilamento de trens com mercadorias nazistas. Posteriormente também participou de comandos armados de sabotagem numa mina de Bauxita usada pelas tropas alemãs. Depois comandou os ataques aos quartéis do exército italiano em Brignoles e em Fréjus. Uma das ações mais impactantes do jovem revolucionário foi, junto com um comando da Resistência, bombardear um hotel usado por oficiais nazistas em Saint-Raphael.
Após essas ações, Léon Landini passou a ser caçado pelos nazistas e fascistas italianos, sendo preso em maio de 1943 em sua região que estava ocupada pelo exército de Mussolini. No entanto, durante a sua deportação para um campo de concentração na Alemanha o jovem comunista empreendeu uma fuga espetacular.
Quando os alemães assumiram o controle da região, que havia sido ocupada pelos italianos até então, foi um novo ponto de virada para Léon e seu irmão Roger. Este último foi preso e torturado com seu pai pela Ovra, a Gestapo italiana, e, no processo de deportação, conseguiu fugir para Dijon. Léon Landini juntou-se à sua família no Creuse, e no segundo momento se juntou a um Maquis da FTPF (Francs-tireurs et partisans français) e novamente participou de novas operações.
Foi para Lyon com seu irmão onde integrou comandos da Resistência, agindo como guerrilheiro urbano no ataque às tropas invasoras. Contudo, em Lyon, foi preso em uma armadilha no dia 25 de julho de 1944. Sendo levado para a prisão de Montluc onde foi barbaramente torturado por milicianos e depois por Klaus Barbie: “Foi horrível: eles chutaram meu nariz, esmagaram meus testículos, esmagaram meu crânio”, lembra ele.
Em 24 de agosto de 1944, ele escapou da prisão de Montluc, aproveitando a confusão criada pela insurreição em Villeurbanne, se reunindo depois com seus camaradas que pensavam que ele estava morto, para desenvolver ações contra os nazistas.
Após a libertação ele foi hospitalizado algumas vezes por conta das violentas torturas que sofreu na prisão antes da sua desmobilização militar em fevereiro de 1946. Após restabelecer sua saúde, trabalhou no campo e desenvolveu intensa atividade comunista a partir das ações e deliberações do PCF. Mas, também teve importante papel nas lutas contra a guerra da Argélia, o colonialismo e o imperialismo.
Em 1963 mudou-se para Paris e passou a exercer importante ação enquanto dirigente comunista. Léon Landini militou no PCF de 1942 até 2004 quando, em divergência com o PC francês, fundou, juntamente com históricos dirigentes e intelectuais, o PRCF (Pólo do Renascimento Comunista em França).
Ainda em vida Léon Landini teve a sua heroica luta reconhecida. Recebeu a Medalha da Resistência Francesa, a comenda de Oficial da Legião de Honra, a Cruz de combatente voluntário, a Cruz da Resistência de Combatente voluntário, Medalha da amizade de Cuba, a Comenda da Ordem de Lênin da URSS. Foi recebido pelo presidente Macron no Panthéon da nação em 21 de fevereiro de 2024, quando expressou sua oposição ao atual governo francês.
Léon Landini faleceu no dia 21 de setembro de 2025 como figura das mais importantes da República e sendo o último guerrilheiro dos Comandos da FTP-MOI, um comunista que nos deixou um legado gigante de lutas em defesa da humanidade e do projeto pela emancipação socialista.
Tivemos a honra de ter privado da sua companhia entre 2010 e 2019. Estivemos juntos em várias oportunidades, jamais esqueceremos que em algumas oportunidades que estivemos em Paris sempre contamos com a sua extraordinária acolhida. Eram, sempre, momentos incríveis, estávamos diante de um gigante personagem da história e ele se comportava apenas como um simples camarada.
Nos recebia em frente do Metrô, em Bagneux, com os braços abertos para um forte abraço e dois beijos, um em cada lado da face. Era vigoroso, forte, animado e bem-humorado. Em seguida nos levava para um apartamento, que ele tinha nesta comuna. O apartamento estava limpo, tinha alimentação, nos deixava uma quantidade de bilhetes de Metrô e muita solidariedade. Nos deixava, dizendo que precisávamos descansar da longa travessia do Atlântico, e seguidamente marcava visitas à sua casa, conversas políticas. Sempre estava na companhia de operários das obras e motorneiros do Metrô, de intelectuais universitários e dirigentes do PRCF.
Léon Landini, um personagem da história! Presente, sempre!
*Milton Pinheiro é professor titular de história política da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e militante do PCB.
*Sofia Manzano é professora de economia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e autora do livro Economia política para trabalhadores (Instituto Caio Prado Jr.).
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