O ilustrado Zohran Mamdani

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Por TARSO GENRO*

A eleição do muçulmano de esquerda Zohran Mamdani personifica uma insurgência contra a decadência iluminista dos EUA, traduzindo as antinomias do sonho americano numa linguagem política nova e comovente

“A quem pretenda fazer um exame despreconceituoso do desenvolvimento dos direitos humanos depois da Segunda Guerra Mundial, aconselharia este salutar exercício: ler a Declaração Universal e depois olhar em torno de si. Será obrigado a reconhecer que, apesar das antecipações iluminadas dos filósofos, das corajosas formulações dos juristas, dos esforços dos políticos de boa vontade, o caminho a percorrer é ainda longo”

(Norberto Bobbio, A era dos direitos, p. 64).

1.

Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Foi o filósofo que instituiu no século 19 a ideia da “autoconfiança”, como predicado do indivíduo para o sucesso e a felicidade, bem como para a formação do “ethos” da nação, no sonho americano. Um episódio na vida espiritual de Emerson define os limites do sonho, cujo sucesso e fracasso ficou evidente logo depois Guerra da Secessão: o sonho americano tinha suas antinomias.

Em St. Augustine, na Florida, no pátio ao lado do auditório em que Ralph Waldo Emerson apregoava suas ideias numa reunião da Sociedade da Bíblia, ocorria um leilão de escravos, cujos lances de compra e venda perturbavam a exposição do filósofo. Ali, ele expressou num curto parágrafo a visão de mundo que caracterizaria a sociedade americana: “uma orelha ouvia boas novas de grande felicidade, enquanto a outra se regalava com as proclamações do mercado: ‘Vendido, senhores, vendido!’”.[i] A Liberdade branca calculava o seu preço.

Alexis de Tocqueville (1805-1859) fez convergir o individualismo libertário para a liberdade na comunidade, democraticamente vivida, onde a liberdade e a regra espontânea do justo estariam presentes na vida comum. À associação entre os indivíduos conscientes dos seus direitos, se somaria o bloqueio do despotismo estatal, sempre: “para ser livre, é preciso ser capaz de conceber um empreendimento difícil (…); é preciso se habituar a uma existência plena de agitação, movimento e perigo; e a cada instante dirigir um olhar inquieto ao redor de si”.[ii] “Olhar o entorno”, como recomendou Norberto Bobbio bem mais de um século depois.

Na utopia de Ralph Waldo Emerson estava o chamamento à liberdade –como apelo confiante a um futuro construído pelo arrojo dos indivíduos decididos –, mas, na utopia de Alexis de Tocqueville, a subjetividade livre dos humanos vai construir a boa vida comunitária, sem precisar ser ordenada por um estado organizador que se vingasse poderia eliminar o que no futuro chamar-se-ia de sonho americano.

2.

O revolucionário sardo, Antonio Gramsci (1891-1937) que via no campo da política o espaço da indeterminação e da contingência, confiava no “bom senso comum” erguido à condição de vontade coletiva.

Esta codificação da autoconfiança permitiria aos humanos, organizados na política, ganhar as opiniões da sociedade antes de assumir o poder de Estado, que seria iluminado por uma ordem da liberdade coletiva de todos: é a práxis de “viver livre”, na luz do estado orgânico unido e plural, que assume todos como iguais, para “uma vida livre” revolucionária e transformadora em movimento: ordem material da liberdade, igualdade e fraternidade” já esquecida pelo iluminismo. John Kennedy foi seu falso profeta, Donald Trump seu coveiro real.

As duas visões de mundo – de Emerson e Tocqueville – convergem, por isso mesmo, para um personagem contemporâneo num país em que se acelera a perda da ideia de nação como ficção da igualdade, que já depois da Segunda Guerra transformaria os Estados Unidos na grande Polícia da humanidade.

Finda a guerra do Vietnã, novos tempos de decadência fazem o desenho autoritário, internamente, que fortalece os EUA para a celebração comunitária do povo juridicamente formal, composto majoritariamente pelos brancos abonados e violentos. Diz Donald Trump: “eu faço porque eu posso”. Do outro lado do sonho ideal dos “pais fundadores” – de um poder americano, de glórias pessoais e tragédias coletivas – nasce o novo contraponto das utopias democráticas: misoginia, racismo e falsos deuses do dinheiro fictício e da prosperidade fictícia.

Uma pequena lente na literatura para, de forma minimalista, verificar os mundos que se chocam. O fim das ilusões está no personagem Rocky Rhodes, do romance As propriedades da sede, de Marianne Wiggins. Ele protege o seu rancho defendendo-o da drenagem promovida pelo Departamento de Águas de Los Angeles, que no auge do capitalismo industrial (antes da revolução infodigital) elimina os seus lençóis aquíferos.

Rocky é o tipo de homem-produto anteriormente confiante da Revolução Americana, que casa o “sonho” do domínio da natureza e de concórdia social, com o de afirmação da família, o que lembra tanto o transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson, como o comunitarismo de Alexis de Tocqueville. “Azul mais escuro nas sombras, a sensação que imperava na água; água no vapor das velozes nuvens alongadas, baixas e planas, típicas das manhãs naquele vale, água no gelo azul das montanhas; água, água por toda parte, menos onde ele precisava”.[iii]

Leo Proudhammer, personagem negro mestiço, está no outro lado do sonho, que emergiu no livro clássico de James Baldwin, “Diz-me há quanto tempo partiu o comboio”. Surge ali, na voz de toda uma geração, o registro vivo do sonho avesso à nação oficial, cujas conexões com os brancos finos e intelectuais das classes ricas de Nova York, são construtores privilegiados de um novo mundo, ameaçado pelos edifícios escuros do Harlem. O país escravocrata se redesenha lentamente no sistema iluminista e contra seus limites: “O corredor era escuro, cheirava a comida, a fraldas fervidas, a homens e rapazes que ali mijavam às tantas da noite, a vinho azedo, a lixo putrefato. As paredes estavam cheias de informação que mal conseguiam ler e não sabiam como utilizar(…)”.[iv]

3.

O que fez Zohran Mamdani para furar a história contemporânea, diluir bloqueios e costurar mensagens, a partir das escutas dos coletivos que multiplicaram demandas de grupos vulneráveis e atuantes? Qual a linguagem que criou linhas horizontais no tempo real e expressou, não somente as necessidades concretas deste verdadeiro “partido novo tipo”, mas também elevou as emoções a uma política de sentimentos e ambições possíveis?

É a linguagem que vai – para Zohran Mamdani – valorizando as gentes na melhor natureza dos seus instintos coletivos de comunhão, legitimando e configurando – sem a verticalidade dos partidos do século passado – o povo real que decide: Zohran Mamdani pode nos frustrar no futuro, mas hoje reorganizou as nossas utopias.

No Brasil das últimas informações sobre os episódios no Congresso e no Senado, que circularam na manhã de 11 de dezembro, ficou demonstrado que a direita mais conservadora e fisiológica – aliada à extrema direita de caráter fascista – aprendeu mais com Antonio Gramsci do que a própria esquerda.

Entenderam o que é a “guerra de posição”, com casamatas e trincheiras, e a “guerra de movimento”, que acelera tempo e espaço, em tempos de enfrentamento. Acordos velados nas mesas e nos escaninhos da Câmara e do Congresso – somados ao cerco de boa parte da imprensa e de uma parte das redes – conseguiram erguer casamatas e trincheiras para proteger o Estado, também cercado pelo crime e pelas milícias, cujos mandatos no Congresso tramam a “anistia” na sequência do golpe continuado.

Este Congresso, que não é pior do que o Congresso americano, ao “reformar” e tornar sem efetividade total uma sentença do Supremo Tribunal Federal, que eliminou da política imediatamente o ídolo doente, tende agora a purificá-lo. A ironia foi que, enquanto no Brasil a Câmara reduzia a legitimidade do STF como “guardião” da Constituição, ao mesmo tempo – em Nova Iorque – foi refeita a memória mitigada de Emerson e Tocqueville, alheios aos impactos do escravismo colonial do “Made in USA”.

4.

A eleição de Zoran Mandani, como Prefeito de Nova York, em 4 de novembro de 2025, aos 34 anos, muçulmano de esquerda, crítico radical do capitalismo trumpista e defensor de um sistema de subsídios alimentares para os mais pobres; defensor dos direitos dos imigrantes de todas as origens e apoiador irrestrito dos direitos humanos, é a principal novidade política da era Trump. A dimensão de tal vitória ainda não foi compreendida de todo, mas já apresenta alguns fundamentos para o futuro.

Zoran desafiou a tradição taticista – que ingressa e sai do repertório das esquerdas desde o século passado – transformando o sincericídio em estratégia vitoriosa. No oceano de desumanidades que banha a “maior democracia do mundo” surgiu a palavra certa, como uma premissa, não como predicado manipulado. E acertou o coração das pessoas que, de massa informe, passaram a ser um conjunto de indivíduos conscientes com propósitos comuns.

Primeira hipótese: será que a concentração de ódios represados, exclusões intermináveis, guerras semeadas pelo keinesianismo militar do liberalismo sem freios, fundiu em definitivo, tática e estratégia, defesa e ataque, culpa e glória, numa vasta parcela do povo americano? Penso, provisoriamente, que sim.

Uma segunda hipótese. Esta vitória improvável, que circulou no mundo inteiro sem que as mais brilhantes das análises tenham conseguido desvendá-la por inteiro, no conjunto dos seus fenômenos tem acertos eleitorais e escolhas programáticas, mas será duradoura? Ninguém sabe, mas foi a vitória que obrigou Donald Trump a colocar, ao seu lado e em pé, um iluminista muçulmano – ousado e livre – autoconfiante para voar no cenário político dos americanos comunitários, refazendo o seu sonho na decadência iluminista “real”.

Uma terceira e mais radical das hipóteses: o “jeito” de pensar dos muçulmanos em contato com a democracia política e aquilo que o iluminismo tem de libertador, está gerando uma nova cultura política contra a degradação da democracia americana? Nas antinomias de Emerson e Tocqueville sobrevive a humildade rebelde dos estranhos: com novas condutas de vida comum e civilidade democrática liberal.

O neofascismo trumpista e o espírito colonial-imperial americano, que dele emerge, está sendo testado pelo que resta de sentido na revolução americana, em oposição ao que resta da Ku Klux Klan, já submetida a testes de validade, desde o fim da guerra do Vietnã. Melhores tempos ásperos nos esperam? As contingências e as indeterminações da política, como diria o Sardo, é que vão responder se esta possibilidade existe ou não, mas elas aí estão a nossa frente, refinadas e agudas como um punhal mouro. E espessas como “um oceano de couro”, como disse Neruda, no rosto seco dos muros de Castela.[v]

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3DfPdhF]

Notas


[i] EMERSON, Ralph Waldo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ralph_Waldo_Emerson

[ii] WEFFORT, Francisco C. (Org.). Os Clássicos Da Política Burke, Kant, Hegel, Tocqueville, Stuart Mill, Marx. Francisco C. Weffort .Volume 2. São Paulo: Ática 1989, p. 184.

[iii] WIGGINS Marianne. Las propiedades de la sed. Traducción: Celia Filipetto. Barcelona: Libros del Asteroide.S.L.U., 2024, p. 24-25.

[iv] BALDWIN, James. Diz-me há quanto tempo partiu o comboio. Tradução de Eugenia Antunes. Lisboa: Clara Capitão, 2025, p.37.

[v] Artigo de um exaustivo fim-de ano, que dedico aos militantes do Partido dos Trabalhadores, meu Partido, que realiza o seu oitavo Congresso em abril de 2026.


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