Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS*
Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
1.
Orfeu não aceitou perder sua amada Eurídice. Ela morreu antes de se casarem. Por isto ele desceu até o mundo dos mortos para recuperá-la. Encantado pela música tocada por Orfeu, Hades o deixou que a levasse embora, mas sob uma condição: Orfeu não poderia olhar para Eurídice, que o seguia logo atrás, até que ao menos chegassem de volta ao mundo superior. Perto de chegar à saída do submundo dos mortos, no entanto, Orfeu olhou para trás e a perdeu.
Essa foi uma breve história contada no filme Hamnet por William Shakespeare a pedido daquela quem será sua futura esposa de nome Agnes. A história do filme é baseada no romance homônimo de Maggie O’Farrell (2020). Sua narrativa gira sobretudo em torno da personagem Agnes. Seu protagonismo faz, inclusive, o nome de William Shakespeare aparecer somente no último ato do filme. Mas também diria que mais um “personagem” protagoniza o filme junto àquele casal e seus filhos: a morte.
Agnes cria um falcão na floresta e domina a arte da fitoterapia, também conhecida como a antiga medicina das ervas, ou, ainda, também podendo ser chamada simplesmente por “bruxaria”. Não só dominava a cura pelas ervas medicinais, ela tinha o dom de conhecer uma pessoa por apenas um toque na mão, além de ter clarividência, premonição.
Agnes aprendeu esta arte com sua mãe, quem aprendeu com sua avó, numa longa linhagem de um saber da floresta, tão perseguido por católicos e protestantes, no Antigo e no Novo Mundos.
Sobre isso, não se pode esquecer de Silvia Federici, com o seu Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2023), quando explica que “com a perseguição à curandeira popular, as mulheres foram expropriadas de um patrimônio de saber empírico, relativo a ervas e remédios curativos, que haviam acumulado e transmitido de geração a geração – uma perda que abriu o caminho para uma nova forma de cercamento: o surgimento da medicina profissional, que, apesar de suas pretensões curativas, erigiu uma muralha de conhecimento científico indisputável” (Federici, 2023).
O filhinho de Agnes e de William parece ter nascido com os dons mágicos da mãe. Diante da morte iminente de sua irmã gêmea Judith, o pequeno Hamnet enganou o anjo ceifador, a morte. Ele seguiu o conselho heroico de seu pai e foi bravo, valente, pedindo para que morresse no lugar de sua irmã. E assim aconteceu. A peste vitimou Hamnes, deixando sua mãe e irmã em desespero.
2.
William Shakespeare retornou de Londres a sua casa logo após a morte de seu filho. Ele havia tentando a vida lá com a desculpa de que iria vender luvas como seu odioso pai o fazia. Mas, como sabemos, ele foi até Londres para encenar suas peças, tornando-se, como todos sabemos, um dos maiores escritores modernos. E se pode dizer que foi por uma destas peças que o luto pela perda de seu único filho fora feito: a tragédiado príncipe Hamlet.
Como é dito logo no início do filme, o nome Hamlet é uma variante de Hamnet. Mas a famosa tragédia shakespeariana acaba por variar entre seus personagens não apenas seus nomes, mas também alguns dos temas sensíveis à biografia de seu autor: a ambiguidade entre amor e ódio na relação pais e filho, a dor do luto e as angústias do sujeito perante a questão de se “ser ou não ser”, de se cometer suicídio ou de se continuar vivendo mesmo diante dos “açoite e os insultos do mundo (…) as pontadas do amor humilhado” (Shakespeare, 2007).
Em uma das mais bonitas cenas do filme, Agnes entende enfim que a peça escrita, produzida e encenada pelo seu marido, agora famoso em Londres, talvez tenha sido sua tentativa de fazer aquilo que o Dr. Freud uma vez chamou de “trabalho de luto” (Trauerarbeit): (…) uma a uma, as lembranças e expectativas pelas quais a libido se ligava ao objeto são focalizadas e superinvestidas e nelas se realiza o desligamento da libido” (Freud, 2011).
Isso se deu porque Agnes foi com seu irmão mais velho assistir com os próprios olhos a peça de Hamlet no teatro popular em Londres, num modelo de espetáculo anterior ao do “teatro italiano”. Em meio à plateia plebeia, encostada no palco, Agnes vê Hamlet como seu filho crescido, loiro e habilidoso com a espada. Ela e o público tocam em sua mão, à medida que o personagem Hamlet faz seu último monólogo antes de morrer, depois de sua vingança pelo assassinato de seu pai, o Rei-fantasma da Dinamarca.
E Pela força mimética típica da arte vista como “jogo” (Spiel) (Gadamer, 1999), Agnes e o restante da plateia, por um instante em suas vidas cotidianas, esquecem-se do que poderia distinguir o “real” do “fictício”. A obra toma conta do ambiente como um “acontecimento” desvelador da verdade, quase como um ritual religioso, ou, ainda, como uma experiência mágica própria à linguagem ao realizar aquilo que dizemos e encenamos ao nos demorarmos na obra.
Ironicamente ou não, é verdade que “a arte de perder não tem nenhum mistério” (Bishop, 2011), como diz o poema de Elizabeth Bishop, mas diria que viver após ter perdido alguém é sim bastante misterioso. E diria mais: fazer o trabalho de luto, que é mais uma poética do que um labor, tem, sim, tudo de misterioso, ou quem sabe até mesmo de místico. Perder alguém que se ama é da ordem do “místico” porque se tenta lidar com a fronteira daquilo para o qual só há silêncio depois: a morte.
Em Hamnet a poética do luto ganha, então, novo sentido. Os versos de Shakespeare e o “trabalho de luto” são mais do que uma poética, pois são verdadeira “bruxaria”.
É somente pela magia de uma longa linhagem de feiticeiras, legítimas cientistas dos encantos das florestas, e sem muitas explicações racionais ou pretensamente científicas, todos os dias continuamos e temos de continuar a viver, como diria Agnes: “mantendo o coração aberto”; ao mesmo tempo que, diferentemente de Orfeu, temos de resistir e não olharmos para trás, livrando-nos do submundo dos mortos, mesmo que isto nos custe o último olhar de cuidado e ternura pelo amor perdido, morto, deixando-o ir.
*Ricardo Evandro S. Martins é professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Referências
Hamnet: a vida antes de Hamlet (Hamnet)
Reino Unido, 2025, 125 minutos.
Direção: Chloé Zhao.
Roteiro: Maggie O’Farrell & Chloé Zhao.
Montagem: Chloé Zhao e Affonso Gonçalves.
Elenco: Emily Watson, Jessie Buckley, Jacobi Jupe, Paul Mescal.
Bibliografia
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Sycorax, 2023. [https://amzn.to/45ZdHac]
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. São Paulo: Cosac Naif, 2011.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. São Paulo: Vozes, 1999. [https://amzn.to/45xiZd0]
SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. [https://amzn.to/4qCqgQZ]






















