Por JEAN MARC VON DER WEID*
O Brasil de Lula repete a sina de empurrar com a barriga o colapso que suas políticas de subsídio ao agro e ao fóssil aceleram
Este é o primeiro de uma série de artigos sobre temas estratégicos para o país e que estão ausentes dos debates, eleitorais ou não. Como os temas são muitos e complexos, prefiro tratá-los separadamente para não cansar os leitores.
A crise climática, suas consequências e como preveni-las
Se nada for feito a nível global para conter as emissões de gases de efeito estufa (GEE) a elevação das temperaturas médias em todo mundo (terras e oceanos) chegará a 2ºC a mais, em relação ao período pré-industrial nos próximos anos, e a 3ºC no começo da próxima década ou, na previsão mais otimista, até 2050. Isto se forem tomadas algumas medidas de contenção das emissões.
Nem vale a pena discutir as previsões para o fim do século para o caso de nada ser feito para contê-las (5º a 6º C), pois a sequência de catástrofes decorrentes do aquecimento anterior já terá destruído a civilização e talvez até já eliminado a vida humana na terra.
Para ser mais preciso, e para colocar uma pitada a mais de realismo assustador nas previsões, é necessário entender que o processo de aquecimento global não funciona numa relação imediata entre as emissões de gases de efeito estufa e o aumento da temperatura. Há um diferencial no tempo entre as emissões de gases de efeito estufa e o consequente aumento da temperatura. Isto se dá porque terra e oceano se aquecem aos poucos, de tal forma que os gases de efeito estufa emitidos hoje ou no passado terão efeito em anos ou décadas, dependendo do tipo de gases.
Os cientistas sabem a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera atualmente e podem afirmar que, mesmo que nenhuma nova molécula de gases de efeito estufa seja emitida (por um passe de mágica) a partir de hoje, o planeta vai continuar aquecendo por algum tempo pelo acúmulo de gases já emitidos. Este fato garante que, para manter a temperatura abaixo de 2º Celsius, vai ser preciso não apenas cessar de emitir novos gases, mas conseguir retirar uma boa quantidade dos gases já emitidos. Ou seja, já estamos condenados a um mundo com temperaturas médias superiores às do período pré-industrial em, pelo menos, mais 3º C, isto porque já praticamente batemos a barreira dos 2º C.
Este é o recado do mundo científico, envolvendo especialistas de todo tipo, cujas opiniões vão ficando cada vez mais pessimistas (e precisas) na medida em que vão se acumulando mais e mais dados concretos e pesquisas na mesma direção. É bom lembrar que o IPCC, em seus relatórios periódicos, sempre produziu vários cenários, desde o mais pessimista (nenhum controle sobre os aumentos de emissões de gases de efeito estufa) até os mais otimistas (diminuição da aceleração, estancamento, diminuição, suspensão e retirada dos gases de efeito estufa da atmosfera). Em mais de 20 anos, apenas as previsões mais pessimistas vêm se confirmando ou até se mostrando otimistas.
O senso comum tende ler estas informações com ignorante leveza. Para o cidadão comum, o aumento de 1º, 2º ou 3ºC na temperatura que ele percebe pessoalmente não chega a ser aterrorizante. A percepção dos cariocas, por exemplo, é de que isto não é mais do que a diferença entre as temperaturas na Baixada Fluminense, ou em Bangu, e as do bairro de Santa Tereza ou da Quinta da Boa Vista.
Ocorre que a média mundial não é mais do que um balanço de temperaturas muito diferentes nas várias partes do mundo. Desde logo, como as temperaturas dos oceanos são sempre mais baixas (por se aquecerem mais lentamente), cada grau a mais no nível global implica em temperaturas ainda mais altas em terra firme.
Por outro lado, todo o planeta está se aquecendo, mas as temperaturas nas latitudes extremas são mais baixas do que no Equador, embora estejam aumentando em ritmo mais acelerado do que no resto do mundo. Em resumo, 2ºC a mais em todo o mundo se traduzem em 4ºC ou 5ºC a mais nos trópicos, região do globo onde a maior parte do Brasil está situada.
Estas temperaturas devem ser ainda mais altas, dependendo de outros fatores, como altitude e cobertura vegetal. Sendo assim, as temperaturas na cidade do Rio de Janeiro podem chegar a 5ºC a mais em 2050 e a 7º ou 8ºC no Nordeste. Por outro lado, as temperaturas variam segundo a época do ano e para uma média de mais 5ºC em um ano, a temperatura de verão pode chegar a 10ºC a mais, não em relação ao século XVIII, mas em relação à temperatura de verão nos dias de hoje.
Ou seja, em poucas décadas poderemos estar vivendo verões com temperaturas frequentes acima de 50ºC. E ainda, como as temperaturas variam durante o dia e a noite, esta média de 50ºC pode indicar valores ainda mais altos ao meio-dia. É preciso notar que a sensação térmica, função da temperatura e da humidade, pode ser ainda mais elevada.
Hoje em dia, os cariocas estrebucham sob o sol quando as temperaturas chegam perto de 40º C de máxima, mas pensem no que vai significar viver com 40º C ou mais, como mínimo nos meses de verão?
Ondas de calor
O aumento das temperaturas globais é sentido de forma concreta naquilo que se chama de ondas de calor, com dias, semanas ou no pior caso, meses inteiros de verão com temperaturas que tornam impossível o trabalho físico ao ar livre. Mesmo com as atuais temperaturas já se registram decisões de saúde pública em países como o Vietnam recomendando aos agricultores trabalharem durante a noite.
No nordeste brasileiro, os agricultores já adotam há tempos a prática de ir para o campo antes do sol nascer, interrompendo a lida sob o sol das 9 às 16 horas. A busca de um horário de trabalho sem sol ou com sol mais fraco, vai aumentar com o aquecimento em curso. Com o tempo este vai ser o novo normal em muitas partes do planeta.
Nas últimas décadas, estas ondas de calor vêm se intensificando de forma notável e se estendendo por áreas maiores e com maior duração, provocando um forte aumento de óbitos de idosos e crianças, os mais vulneráveis. Por outro lado, não ocorrem, como seria de se esperar, invernos mais amenos e sim ondas de frio intenso, inversamente equivalentes ao calorão de verão. Ao sentir ou saber destas friacas, o senso comum tende a duvidar do aquecimento global, mas o que interessa são as médias e estas sobem implacavelmente.
O aumento das temperaturas já está impactando diretamente a produtividade das culturas agrícolas em toda parte. Como exemplo recente, a organização internacional dos produtores de café registrou perdas médias de 10% nos rendimentos globais desta cultura e isto repete constatações de outros produtores, como os de cacau. Não por acaso, os preços destas duas comodities vêm subindo sem descanso nos últimos anos.
Alterações climáticas
Mas os impactos mais importantes das temperaturas médias mais altas se dá pelas modificações no clima, com um aumento exponencial de dois fenômenos extremos: chuvas torrenciais, provocadas pelo aumento da evaporação das águas dos oceanos, e secas devastadoras, ambos fruto das mudanças na direção, regularidade e intensidade dos ventos. A alternância de secas e chuvas devastadoras tem efeitos mais amplos do que as ondas de calor, sobretudo pelo seu impacto sobre a produção agrícola.
Nas áreas mais secas ocorre ainda a expansão dos incêndios florestais catastróficos como os registrados repetidas vezes nos Estados Unidos, Canadá Portugal, Espanha, França, Grécia, Itália, Indonésia, Rússia, Peru, Brasil e outros mais, cada vez mais intensos e frequentes. Por sua vez, os incêndios são hoje, e de forma crescente, responsáveis por fortes emissões de CO2, que retroalimentam o aquecimento global.
A modificação do regime pluvial e da intensidade e direção dos ventos contribui para os impactos na agricultura e na cobertura vegetal. No caso da Amazônia, já se faz sentir a mudança do timing e intensidade dos ventos alísios que diminuem as chuvas na região. Por outro lado, o desmatamento crescente da floresta amazônica vem provocando a redução das chuvas originárias da evapotranspiração da própria cobertura vegetal.
Os famosos “rios voadores”, que levam humidade para as regiões produtoras do centro-oeste, sudeste e sul do país, estão mais erráticos e menos volumosos, embora possam provocar chuvas mais intensas e devastadoras localizadamente. As mesmas mudanças vêm se fazendo sentir nos ventos de monções, que levam chuvas para o interior da Índia, Ceilão, Bangladesh, Vietnã e outros países.
A consequência do duplo efeito da mudança nos alísios e na emissão de vapor d`água pela floresta é, por um lado, o ressecamento da Amazônia, empurrando o bioma na direção de uma cobertura vegetal do tipo savana seca, num primeiro momento e à desertificação, a longo prazo. Por outro lado, as áreas produtivas das regiões ao sul da Amazônia estão submetidas à uma crescente irregularidade e diminuição das chuvas.
Se ainda existia uma dúvida para o público brasileiro sobre a mudança no regime de chuvas (e a nova tendência para fenômenos extremos), o ano de 2024 registrou a pior enchente (no Rio Grande do Sul) e a pior seca (na Amazônia), já registradas na história do país.
A irregularidade no volume e distribuição das chuvas também afeta a produção de energia elétrica, pois os reservatórios das hidroelétricas são frequentemente afetados pela falta de chuva nas suas bacias. É o que estamos assistindo este ano (mais uma vez) no Brasil, com reservas caindo a níveis que obrigam a redução do fluxo que move as turbinas e diminuindo a oferta de energia. A “solução” disponível é o acionamento das termoelétricas, movidas a combustíveis fósseis como gás, petróleo ou carvão, mais caras e emissoras de gases de efeito estufa.
Derretimento das geleiras
O outro efeito catastrófico do aquecimento é o derretimento das geleiras permanentes (ou eram até pouco tempo atrás) na Groenlândia, Ártico e Antártica.
Este é um dos processos onde a previsão científica falhou muito, já que o ritmo do degelo vem se acelerando muito mais rapidamente do que foi calculado, e lançando bilhões de metros cúbicos de água doce nos oceanos e aumentando o nível das águas de forma a afetar não apenas as pequenas ilhas do Pacífico (Seicheles, Maldivas e muitas outras), mas áreas costeiras baixas como as do Bangladesh, Índia, China, Indonésia e outras com intrusão de água salgada em zonas produtivas costeiras e alagamentos de cidades e aldeias litorâneas quando ocorrem marés altas.
Estes fenômenos já estão acontecendo e se intensificando a cada ano, apenas apontando para o futuro de outros locais do planeta menos ameaçados atualmente, já que as águas não sobem por toda parte no mesmo ritmo. O processo do degelo, segundo os cientistas, já está chegando a um ponto de não retorno que pode precipitar a fragmentação das imensas massas de gelo, acelerando muito o derretimento.
Até o final do século, espera-se que os oceanos subam pelo menos entre um e dois metros, numa média mundial, se o aquecimento chegar a 3º ou 4ºC. Neste caso, e a avaliação pode ser otimista, é a maioria das grandes cidades à beira mar, como Nova Iorque, Miami, Los Angeles, Londres, Lisboa e muitas outras, inclusive a maioria das capitais estaduais do Brasil, terem bairros permanentemente alagados ou a ter que investir trilhões de dólares, euros ou reais em obras de contenção, fadadas a serem superadas com posteriores elevações do nível dos mares.
Como no caso dos aumentos médios de temperatura mundial, os prováveis dois metros a mais no nível médio dos oceanos não quer dizer uma subida uniforme das águas em toda parte. Uma média de dois metros a mais globalmente implica, por exemplo, em aumentos quatro vezes maiores na linha do Equador. Ou ainda, significa Boston podendo erguer barreiras no seu litoral, ao estilo da Holanda, e Miami ficando totalmente alagada, no máximo se transformando em uma Veneza kitsch.
Velocidade do aquecimento atual agrava o impacto
A última vez que estas altas temperaturas médias mundiais previstas para o fim do século aconteceram foi há 15 milhões de anos, muito antes do surgimento do homem sapiens. O nível dos oceanos subiu 40 metros acima dos níveis atuais. O volume de CO2 na atmosfera era de 500 partes por milhão, algo que estamos no caminho de atingir, na hipótese mais otimista, até o fim deste século e possivelmente até bem antes disso.
Entretanto, este aumento de temperatura no passado ocorreu ao longo de milhares de anos, enquanto agora ele está acontecendo em décadas. No passado, o tempo mais dilatado do aquecimento permitiu que plantas e animais se adaptassem às novas condições, embora tenha havido muitas extinções de espécies.
A velocidade atual do aumento da temperatura vai provocar maiores dificuldades de adaptação e um índice de extinções gigantesco. Para agravar a situação atual, a diferença com a Era do Mioceno é que há 15 milhões de anos não havia humanos destruindo os habitats do planeta, tornando todos os biomas mais vulneráveis à mudança climática.
E o aumento dos oceanos, ainda medido aos centímetros a mais por ano, está em franca aceleração e os impactos serão imensos, com o avanço das águas sobre as costas densamente habitadas em todo o mundo provocando o deslocamento de milhões e até bilhões de pessoas (nos piores cenários).
É preciso incluir neste processo de derretimento dos gelos, os glaciares de grande altitude como os do Himalaia, dos Andes, dos Alpes, e das Montanhas Rochosas, entre outros. O efeito vai ser (já está em curso) o de secar alguns rios de grande porte como o Indus e o Ganges, na Índia, o Colorado nos Estados Unidos, o Reno na Europa e uma série de rios menores, mas que permitem ao Peru existir como país.
Entre as perdas de cidades e áreas produtivas costeiras pelo avanço das águas marinhas, a desaparição de muitos rios importantes e a desertificação de grandes áreas interioranas, sobretudo nos trópicos, o que resulta é um planeta muito menor em termos de habitabilidade.
Como já pintei catástrofes suficientes (há outras) frente às mudanças climáticas é hora de ver o que se ainda pode fazer.
Medidas urgentes
A base científica para o Acordo de Paris sobre o clima apontava a necessidade de se dar uma forte desaceleração nas emissões de gases de efeito estufa, mirando em zerá-las até 2050. Isto permitiria iniciar um esforço de conseguir balanços negativos nas emissões nos seguintes cinquenta anos, reduzindo a quantidade de CO2 e outros gases na atmosfera de modo a obter as condições para se paralisar o aumento da temperatura em 1,5ºC, ao fim do século.
Como as emissões continuaram crescendo, apenas com uma leve “tirada do pé” do acelerador, a tarefa de cumprir as metas do Acordo de Paris ficou mais difícil e desafiadora. Uma mudança de rumo que se escalonava em 35 anos terá que ser feita em 25 e partindo de um acúmulo de gases de efeito estufa maior do que o registrado em 2015. Ou seja, a radicalidade das medidas a serem tomadas ficou ainda maior.
A ciência já identificou quais são estas medidas: zerar o uso de combustíveis fósseis e os desmatamentos nos próximos cinco anos. O primeiro passo (imediato) é parar de pesquisar novos poços de petróleo, gás e minas de carvão. O segundo é parar de explorar os poços e minas existentes nos próximos anos, começando por zerar o uso do carvão imediatamente.
Simultaneamente, vai ser preciso parar de desmatar imediatamente e iniciar um processo gigantesco de reflorestamento que não pode ser ao modo do agronegócio, com florestas plantadas uniformes. Replantar florestas heterogêneas é mais custoso e complexo, mas necessário. Já existem experiências nesta direção e cabe generalizá-las e para isso vai ser necessário recursos financeiros e gente, muita gente. O efeito deste reflorestamento será uma enorme absorção de CO2 pelos bilhões e bilhões de novas árvores, o mais eficaz meio de retirar gases de efeito estufa da atmosfera até agora.
Impacto do fim do uso de combustíveis fósseis
Como o petróleo é o motor da economia mundial e o principal gerador de energia elétrica e mecânica, o problema energético que o mundo vai enfrentar vai ser colossal. A solução através das chamadas energias verdes ou “limpas”, eólica e solar é promissora, mas tem vários problemas para ser posta em prática na escala e velocidade necessárias.
Para começar, a produção de painéis solares e de moinhos de vento no momento depende do uso de energia fóssil na extração de minérios, no seu transporte e transformação e no seu deslocamento para os locais de colocação (lembremos que hoje a maior parte dos painéis solares está sendo produzida na China).
Há muita dúvida sobre a disponibilidade global de minérios (as chamadas terras raras), sobretudo os utilizados nos painéis solares e sobre a durabilidade destes equipamentos. Vai ser preciso pesquisar urgentemente o aperfeiçoamento destas tecnologias e sobre outras formas de geração de energia, como o aproveitamento da energia das marés oceânicas, já em estudos avançados.
De toda forma, não vai ser possível manter o nível de consumo energético da economia mundial atual, eliminando o uso de combustíveis fósseis. A economia mundial vai sofrer um tremendo freio de arrumação e o uso da energia disponível vai ter que ser concentrado na produção de bens essenciais para a humanidade. Estamos a caminho de um inevitável decrescimento da produção industrial mundial, tal como ela existe hoje, e vamos experimentar uma forte desglobalização da economia, dado o custo dos transportes de grande distância.
O critério básico na seleção do que produzir é, como dito acima, o atendimento das necessidades básicas das pessoas como um todo e não, como hoje, a resposta às forças de mercado que jogam um peso enorme em produtos de alto custo energético dirigidos para uma pequena minoria de consumidores de alta renda.
Para introduzir o tema vou citar apenas algumas das prioridades. Desde logo, a produção e transporte de alimentos básicos será a prioridade um. Transporte coletivo (trens e metrôs) deverá substituir o carro individual, começando com os SUVs de luxo. Trens, hidrovias e cabotagem deverão fazer o transporte dos bens essenciais, no lugar dos caminhões. As viagens de avião serão reduzidas ao mínimo essencial.
Saneamento básico com compostagem de lodo de esgoto e de lixo deverão ser generalizados. Habitações com materiais renováveis deverão substituir o uso, hoje generalizado, de cimento, a segunda indústria mais emissora de GEE. A produção de caráter local deverá ser priorizada, diminuindo ao máximo o transporte até o consumidor. O uso da água potável terá que ser fortemente racionalizado já que uma outra previsão dos efeitos do aquecimento global é a insuficiência da disponibilidade deste bem essencial. Infraestruturas de captação de água de chuva terão que ser generalizadas.
Não vai ser possível fazer esta gigantesca revolução nos processos de produção e de consumo sem que se produza uma desconcentração das populações, hoje cada vez mais habitando, muitas vezes precariamente, grandes centros urbanos. Além disso, os efeitos devastadores da mudança climática, que não poderão ser totalmente evitados mesmo com a contenção do aquecimento, vão gerar processos migratórios, envolvendo centenas de milhões pessoas. Reassentar estas multidões nos lugares habitáveis de forma ordenada vai ser um desafio para qualquer Estado sobrevivente neste novo mundo inóspito.
Estes são apenas alguns dos problemas a serem enfrentados, mas são os mais importantes para a sobrevivência da humanidade. De toda forma, a lógica essencial a seguir é a eliminação do consumo suntuário do 1% da população mundial, que se apropria de quase 40% da riqueza produzida e mais da metade da energia consumida. Isto terá que ser feito em benefício dos hoje deserdados (os 80% mais pobres) no acesso aos bens básicos para uma vida confortável.
Resumindo para os que ainda não entenderam, para a humanidade sobreviver vai ser preciso abandonar o modo capitalista de produção, orientado pelo “deus” mercado e seu modelo atual, a hiper globalização. É claro que nada disso será possível sem uma revolução política que tire do poder a classe dominante e democratize as sociedades resultantes desta grande mudança.
O que vem fazendo o governo Lula em relação a estas urgências?
No que concerne a eliminação do uso dos combustíveis fósseis o governo “popular” se comporta como se estivéssemos nos anos cinquenta, quando foi criada a Petrobras. Hoje somos um país que produz e exporta petróleo em grandes quantidades, com autossuficiência relativa para o consumo interno e entre os maiores exportadores. E os planos da Petrobras se orientam para a expansão da pesquisa no pré-sal e da extração no mar e na terra.
O governo subsidia a produção e o consumo de derivados e incentiva a indústria automotriz, enquanto nas grandes cidades o transporte público perde passageiros ano a ano e o número de automóveis cresce sem parar. Na mesma direção vai o transporte de mercadorias, com subsídios para a renovação e expansão das frotas de caminhões e “bolsas motorista” para alegrar os caminhoneiros. Estamos na contramão do que tem que ser feito para eliminar o uso de gasolina e diesel.
Vou discutir a questão energética em outro artigo, mas adianto que a estratégia da Petrobras é totalmente voltada para a expansão do uso combustíveis fósseis, com algumas pitadas de recursos de efeito publicitário para a produção de biodiesel ou a adoção de energia solar e eólica.
É ignorar que petróleo não serve apenas para matéria prima de combustíveis e que é usado em quase todas as cadeias produtivas industriais, em particular na petroquímica e que em um futuro com escassez de petróleo vai ser muito mais complicado substituir ouso deste insumo na indústria do que trocar carros e outros veículos para o uso de baterias elétricas.
Na geração de energia elétrica o governo parece apostar mais na ampliação o uso das usinas térmicas, inclusive expandido o uso de carvão, o maior gerador de gases de efeito estufa por KWH.
As maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa no Brasil são o desmatamento e as queimadas, sendo que apenas o desmatamento representa 70% da nossa contribuição para o aquecimento global (as queimadas não são computadas nas estatísticas do governo sobre as nossas emissões).
O governo Lula apresenta resultados mais promissores na redução dos desmatamentos. Segundo as estatísticas do MAPBIOMAS o desmatamento em todos os biomas, em 2019, estava em 1,22 milhões de hectares, chegando ao recorde de 2,11 milhões em 2022. Estes números vêm caindo no governo Lula, voltando aos valores do primeiro ano de Bolsonaro, 1,26 em 2024. Entretanto, estas reduções se referem ao corte raso da floresta com o uso de tratores de esteira para derrubar a vegetação e não incluem a forma cada vez mais utilizada de desmatar, o uso do fogo.
As queimadas cresceram muito, mesmo em comparação com o governo do energúmeno, onde ficou famoso do “domingo de fogo”, promovido pelo agronegócio em 2019. A soma das áreas queimadas nos quatro anos do governo Bolsonaro ficou em 1,5 milhão de quilômetros quadrados enquanto no governo Lula a soma dos três primeiros anos foi de 1,45 milhão. Em todos os anos as queimadas foram maiores no governo Lula.
Não conheço um balanço abrangente que apresente o impacto conjunto dos desmatamentos e queimadas na destruição das matas brasileiras. Os dados são apresentados em separado e nem toda queimada ocorre na mata em pé, muito embora isto esteja ocorrendo em escalas cada vez maiores.
Por outro lado, o controle do desmatamento e queimadas já não basta para evitar o processo de destruição das florestas e o perigo, cada vez mais próximo delas chegarem ao “tiping point” ou ponto de não retorno, a partir do qual elas não são mais capazes de se recuperar e entram em decadência espontânea mesmo sem uma ação antrópica. A retirada de madeira de lei segue descontrolada e afeta áreas quase tão importantes quanto às desmatadas e queimadas.
Finalmente, o governo tem planos de construir novas hidroelétricas e estas têm um impacto enorme na destruição das matas e emitem gases de efeito estufa por longo tempo com a decomposição da vegetação nas áreas inundadas.
A terceira maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil vem do modo de uso do solo pelo agronegócio. Além de desmatar e queimar, o agronegócio emite gases de efeito estufa pelo enorme rebanho bovino do país e pelo uso de fertilizantes químicos em larga escala. Não é preciso enfatizar o quanto este governo Lula favoreceu o agronegócio, repetindo suas políticas para o setor com subsídios diretos e isenções de impostos.
Em outras palavras, apesar da retórica do presidente na COP 30, atacando os negacionistas do aquecimento global, estamos na contramão de tudo que tem que ser feito para, entre outras coisas, diminuir a nossa contribuição para a tragédia anunciada da humanidade.
*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).






















