A destrutividade do trabalho alienado

Imagem: Aleksandar Pasaric
image_pdf

Por JÚLIO FISHERMAN*

O desafio final não é apenas descansar mais, mas resgatar o tempo e o sentido da atividade humana, interrompendo a espiral de moer a vida para multiplicar capital

“[O trabalho] não está limitado ao tempo físico efetivo na fábrica ou no escritório. O trabalho transpõe qualquer limite atribuído ao tempo de trabalho, ele mobiliza a personalidade por inteiro” (Christophe Dejours, Trabalho vivo).

1.

O campo do trabalho na sociedade capitalista está cindido em inumeráveis ofícios de gente sobrecarregada que, assumindo grandes riscos, custosos sacrifícios, sofrimentos e adoecimentos, sustentam a febre, a fissura, a compulsão, pela multiplicação incessante e insensível do capital, vulgo, grana.

É comum que os que vão adquirir um frango congelado, um leite de soja numa gôndola de supermercado, ou a gasolina com benzeno num posto de combustíveis, já não deem mais conta da existência desta densa paisagem poluída: a brutalidade presente nas relações trabalhistas.

O dinheiro opera uma mágica: a produção é consumida sem que se leve em conta as atividades das quais decorrem, tudo é visto apenas em seu estado final. Há um efeito estufa social de imensas implicações como que invisibilizado por sua naturalizada onipresença.

Ademais, e ao mesmo tempo, o trabalho não deixou completamente de ser fonte de realização e distribuir algum reconhecimento (esse capaz de subverter o próprio sofrimento), o que revela algum grau de suspiro experimentado no reino de seu estranhamento.

Mas o trabalho alienado/estranhado é desastre e a luta por sua abolição é a principal e decisiva batalha pela superação da sociedade capitalista. Como Marx apontou e defendeu, embora boa parte da própria esquerda marxista nunca tenha tirado daí as maiores implicações: suplantar a sociedade capitalista passa rigorosamente pela superação do trabalho estranhado.

Nesse sentido, embora cada dia aparentemente mais improvável, a disputa cidadã, de todos os que vivem do próprio suor e não do suor alheio, deve exigir e alcançar uma drástica redução da jornada de trabalho máxima para toda e qualquer pessoa. Se necessário: de modo compulsório.

Convém então o parêntese: o atual debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil expressa um sinal de vitalidade política no interior do campo do trabalho. A crítica a esse modelo, que garante apenas um dia de descanso por semana, ganha força justamente por tornar visível o desgaste sistemático a que milhões de trabalhadores estão submetidos.

Deve-se reconhecer o mérito da mobilização e o alcance da proposta: trata-se de tensionar o pacto tácito de exaustão que sustenta o funcionamento da economia. Ainda assim, é preciso dizer que se trata de uma reivindicação mínima, que apenas toca a superfície do problema estrutural da superexploração e do estranhamento.

2.

A emancipação só irá se construir com uma redução muito mais drástica. E trabalhar além dessa jornada muito mais reduzida, deve ser considerado “coisificação da pessoa” e direito indisponível. Assim como hoje é tratado o trabalho escravo e análogo a escravo: que se criem mecanismos para prevenir e combater as práticas em contrário. E, ironia, com todos trabalhando menos, algum emprego sempre existiria para todos, diferente da massa de desempregados e precarizados que hoje se avoluma.

E mesmo isso, no entanto, ainda não resolveria tudo. É, por outro lado, uma pauta nítida, absolutamente fundamental e já no radar do desejo comum! É do interesse do(a) trabalhador(a), que é gente, que possa trabalhar menos e possa viver mais e melhor! (E com viver mais e melhor, não está a se referir à mediocridade da longevidade, indicador limitado e sacrossanto com o qual os liberais alegam que a vida hoje é melhor que nunca.)

Por ser uma sociedade mediada pelo trabalho estranhado – fonte do valor das mercadorias e de tudo que se torna mercadoria, garrote impessoal e coercitivo diante do qual todos se curvam sem saber quem enfrentar – é que justamente quando imensos potenciais produtivos, socialmente constituídos, já poderiam libertar Adão do suor de seu pecado e Sísifo de seu suplício, que cresce a exigência para que todos se convertam em máquinas de rentabilidade e: trabalho!

Gente é então convertida em dínamos de uma dita luta pela sobrevivência que não é outra coisa senão um movimento cego de competição. Como também o pouco lido Marx anotou: ingressando numa espiral de destrutividade! Afinal, também o planeta é explorado. Absolutamente invulnerável às ideologias legitimadoras, no entanto, aponta seus limites.

A vitória da pauta pelo fim da escala 6×1, quando alcançada, terá valor prático e pedagógico. Será um marco a ser comemorado por afirmar mais direito ao tempo e à recomposição do corpo e da convivência social, elementos quase extintos nas rotinas marcadas pelo esgotamento. Mas não se deve perder de vista que esse passo, embora necessário, ainda se move dentro da moldura do trabalho alienado.

A luta não se esgota em descansar dois dias em vez de um: trata-se de interrogar o próprio lugar do trabalho na vida, seus ritmos impostos e seus sentidos expropriados. O que está em jogo, afinal, é mais que alívio: é emancipação e mudança do metabolismo humano e com a natureza.

O desafio é interromper o movimento contínuo e incessante de moer o viver para acumular e multiplicar riqueza destituída de qualquer propósito sensível. É afirmar os caminhos para uma (con)vivência socialmente saudável  e autenticamente sustentável. Conquistas que jamais serão viáveis nos marcos do capitalismo, metabolismo que achata o pensamento e reprime a sensibilidade já que estranha da atividade humana sua vitalidade por destituí-la de implicação com o viver.

*Júlio Fisherman é jornalista. Graduado em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
2
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
7
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
8
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
9
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
10
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
11
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
12
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
13
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
14
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
15
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES