Com açúcar e com afeto

Imagem: Brett Sayles

Por JULIAN RODRIGUES*

Considerações sobre Chico Buarque e o feminismo

Pensei muito se deveria meter meu bedelho nessa treta estético-cultural-política. O bom senso recomendaria a qualquer um passar longe. Mas não tive como resistir. Homem gay, articulista, ativista de esquerda com formação em literatura e “chicólatra” de carteirinha. Não deu para ignorar um quase chamado oriundo de tantos dos meus lugares de fala (contém ironia).
Resumindo a coisa: Chico Buarque revelou que não mais cantará “Com açúcar e com afeto” e fez a seguinte observação no documentário O canto livre de Nara Leão, disponível no serviço de streaming das organizações Globo (ainda não vi!): “ela [Nara] me pediu, me encomendou essa música, e falou ‘eu quero agora uma música de mulher sofredora´; ela encomendou e eu fiz, eu gostei de fazer [a canção], a gente não tinha esse problema [as críticas]; as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão”.

Identitarismo? É impossível falar desse tema – mesmo em um artigo jornalístico – sem fincar previamente alguns alicerces. Mesmo que possa parecer uma treta fugaz típica das redes sociais, essa “polêmica” remete a discussões teóricas antigas e bem densas. Qual o papel da arte e da cultura? Qual a relação entre realidade e representação? Como interpretar as obras de arte?

Perdoem-me se não adiro a modinhas. Meu mestre dos mestres – Antonio Candido – ensinou-nos a complexa dialética entre obra, autor e contexto histórico. As lutas feministas, antirracistas, pelas liberdades sexuais e de gênero são constitutivas de todo e qualquer programa de esquerda – seja socialista, comunista, socialdemocrata, reformista ou democrático-popular. Desde Rosa Luxemburgo aprendemos: “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Nós, pessoas de esquerda, progressistas, democratas, petistas, socialistas, comunistas não podemos cair em dois erros ainda infelizmente muito comuns. O primeiro – cada vez mais demodé – contudo presente: desqualificar a luta das mulheres, jovens, negros, LGBT rotulando-as como movimentos que tiram o foco do principal, a luta de classes.

O segundo: nos enredarmos em trilhas modernosas e seguir trends das redes sociais, da mídia hegemônica, dos capitalistas supostamente progressistas. Fato. Tem uma turma que só quer “lacrar” mesmo. Trabalham apenas na esfera da representação, do simbolismo, da afirmação de identidades. São os “neoliberais progressistas”, na definição precisa de Nancy Fraser.

Nada de classes sociais ou redistribuição de renda. A vibe se concentra ganhar espaço para mulheres, negros, LGBT. Um movimento sofisticado feito por boa parte da burguesia, o qual a Rede Globo e muitos empresários antenados com o que ocorre nos EUA vem promovendo.

No universo do ativismo há, entretanto, setores que miram apenas na luta por representatividade – que, sim, é importantíssima. Praticamente ignoram a batalha antissistêmica, pela transformação social, contra a desigualdade. Não fazem nenhuma crítica ao neoliberalismo. Como se as pautas das mulheres, negros, LGBT pudessem ser equacionadas apenas via inserção desses setores no mercado publicitário, programas de TV, séries e filmes, redes sociais, ou, conquista máxima, nos boards das grandes empresas. Não problematizam a exploração e opressão estruturais. Nem têm como perspectiva superar o capitalismo neoliberal.

No Brasil de hoje, por exemplo, o horizonte máximo desses setores é se opor ao bolsonarismo. Grandes empresas capitalistas, que entenderam bem esse novo contexto, mudaram suas estratégias publicitárias. E seguem fazendo o de sempre: seduzir, cooptar e absorver no “sistemão” toda gente talentosa que se destaca do nosso lado.

De um lado, ainda há um tanto de “ortodoxos” da esquerda que ignoram, subestimam, rejeitam ou combatem abertamente essas lutas todas. Recentemente, um dirigente importante do maior partido da esquerda brasileira causou polêmica ao tuitar: “o identitarismo é um erro, pauta importada dos EUA”. Afirmou ele, no mesmo tuíte, que a questão central é a desigualdade e o resto só afasta a esquerda do povão. Ou seja: ele e tantas e tantos outros líderes da esquerda não entendem ou não reconhecem a importância do movimento das mulheres, negros, LGBT.

O movimento feminista e o movimento negro são algo novo, recente, importado artificialmente? O movimento LGBT, com mais de 40 anos, é coisa menor, copiado dos gringos? Como combater a desigualdade social sem reconhecer que a classe trabalhadora tem raça e gênero, mora em lugares diversos, tem idades diferentes, deficiências, orientações sexuais e identidades de gênero plurais?

Por outro lado, o ativismo do movimento negro, feminista, LGBT não pode instaurar uma espécie de tribunal permanente (que valida ou cancela), via redes sociais, pessoas, músicas, filmes, séries, opiniões. Em muitos momentos temos assistido a batalha contra o sistema patriarcal, machista, racista, heteronormativo se transformar em julgamentos e ataques a indivíduos – homens brancos cisgêneros, heterossexuais.

É um tipo de essencialismo, na prática. Como se toda pessoa preta, pobre, LGBT fosse “naturalmente” progressista. É como se homens brancos trabalhadores, ou de classe média, intelectuais, jovens – não sejam ou não possam vir a ser sujeitos das mobilizações e transformações sociais. Não há estratégia ou programa gerais e aglutinadores para articular a batalha contra as opressões. Mas não faltam arrogância e sectarismo.

Fazer um mundo melhor, mais justo, mais igual e diverso só é possível com uma aliança entre todos explorados e oprimidos. Não é só somar demandas particularistas. Trata-se de unir trabalhadores e trabalhadoras, negras e brancos, jovens ou nem tanto, lésbicas, gays, trans, periféricos ou de classe média, camponeses, pequenos proprietários. Enfrentar o patriarcado junto com o racismo estrutural, a heteronormatividade e o neoliberalismo.

Voltando então ao início deste artigo. Não é legal que nosso Chico tenha se convencido de que era necessário cancelar uma de suas músicas. Esse gesto só reforça sua grandeza, delicadeza e comprometimento com um mundo melhor. Não ficou nítido quais “feministas” criticaram a canção (aliás, o feminismo é muito plural). Melhor mesmo é continuar ouvindo o poeta de olhos azuis, sem dar espaço para certas normatizações de rede social, que, no fundo, nada contestam ou transformam.

*Julian Rodrigues, professor e jornalista, é ativista LGBT e dos Direitos Humanos.

Publicado originalmente no site Viomundo.