Pegando fogo desta vez

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Por JOHN BELLAMY FOSTER*

Hoje, temos que criar um novo equivalente moral mais revolucionário da guerra; um que seja dirigido não ao alistamento de um exército para conquistar a Terra, mas dirigido à mobilização da população para salvar a Terra como um local de habitação humana

Hoje estamos observando o que parece ser o começo de uma revolução ecológica, um momento histórico diferente de qualquer outro pelo qual a humanidade tenha passado[i]. Como Naomi Klein sugere em seu novo livro On Fire (“Pegando fogo”), não apenas o planeta está queimando, mas um movimento climático revolucionário tem surgido, e está agora pegando fogo em resposta[ii]. Ao final deste texto segue uma breve cronologia do ano passado [2018], com destaque para ações climáticas na Europa e na América do Norte – ainda que se deva ressaltar que o mundo inteiro, objetivamente (e subjetivamente também), está pegando fogo desta vez[iii]:

O imenso número de protestos contra as mudanças climáticas no ano passado deveu-se, em certa medida, ao relatório de outubro de 2018 do “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas” (em inglês, IPCC), agência pertencente às Nações Unidas. Esse documento previa que as emissões líquidas de dióxido de carbono deveriam atingir o clímax em 2020, ser diminuídas em quarenta e cinco por cento até 2030, e  reduzidas a zero até 2050, a fim de que o mundo tivesse uma chance razoável de evitar o catastrófico acréscimo de 1,5 grau Celsius na temperatura média global[iv]. No último ano, um número incalculável de pessoas percebeu que, para fugir do precipício, é necessário iniciar uma mudança socioeconômica compatível com a crise do “Sistema Terra” que está desafiando a humanidade. Isso resultou no seguinte: a divisa “Mudança do Sistema, e não Mudança do Clima”, adotada como nome pelo mais importante movimento ecossocialista dos Estados Unidos, se tornou o mantra dos militantes de movimentos climáticos ao redor do mundo inteiro[v].

A ascensão meteórica de Greta Thunberg e do movimento de greves estudantis climáticas, o Sunrise Movement, a Extinction Rebellion e o Green New Deal, tudo isso em um breve intervalo de tempo, somados aos atuais protestos e às greves de milhões de ativistas pela mudança climática – a maioria deles jovens – significou uma transformação maciça na luta ambiental nos Estados capitalistas avançados. Praticamente da noite para o dia, os objetivos da luta mudaram seus contornos, a genérica mudança climática cedendo espaço para as alas do movimento que se orientam principalmente pelo ecossocialismo e pelo tema da justiça climática radical[vi]. Até agora, o movimento da “ação climática” tem sido principalmente reformista. Seu programa meramente tentou “dar um cutucão” no mundo dos negócios, empurrando-o na direção de uma maior “consciência do clima”. De fato, a grande marcha climática em Nova York no ano de 2014, que contou com quatrocentas mil pessoas e foi organizada pelo “Movimento Climático do Povo” [People’s Climate Movement], se dirigiu para a Rua 34 e para a  11ª Avenida – um não-destino, se comparado ao prédio das Nações Unidas onde estavam se reunindo os grandes negociadores da questão climática. Como resultado, ela teve um caráter mais de parada do que de protesto[vii].

Por sua vez, organizações como Extinction Rebellion, Sunrise Movement e Alliance for Climate Justice são conhecidas por seu estilo de ação direta. Esses novos movimentos são mais jovens, mais ousados, mais diversos e se apresentam como mais revolucionários[viii]. Na atual luta pelo planeta, há um reconhecimento crescente de que as relações sociais e ecológicas de produção devem ser transformadas, e que apenas uma transformação que seja revolucionária em magnitude e em velocidade poderia tirar a humanidade da armadilha que o capitalismo lhe impôs. Como Greta Thunberg declarou na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, em 15 de dezembro de 2018: “se as soluções dentro deste sistema são tão impossíveis de se encontrar, então talvez devêssemos mudar o próprio sistema”[ix].

New Deal verde: reforma ou revolução?

O que fez a luta contra as mudanças climáticas se transformar nos últimos anos em uma força aparentemente implacável foi o Green New Deal (“Novo Acordo Verde”), isto é, um programa  que propõe unir a luta para deter a mudança climática com a luta por justiça econômica e social, com foco nos efeitos sobre trabalhadores e sobre as comunidades mais expostas. Contudo, o New Deal Verde não era originalmente uma estratégia de transformação radical, mas sim uma proposta reformista moderada. O termo surgiu em 2007, em uma reunião entre Colin Hines, ex-chefe da Unidade de Economia Internacional do Greenpeace, e Larry Elliott, editor de Economia do jornal The Guardian. Diante dos crescentes problemas econômicos e ambientais, Colin Hines sugeriu uma dose de gastos keynesianos verdes, rotulando-os de Green New Deal, em  referência ao New Deal que Franklin Roosevelt aplicara nos Estados Unidos, à época da Grande Depressão. Então, Elliott, Hines e outros, incluindo o empresário britânico Jeremy Leggett, instituíram no Reino Unido, algum tempo depois naquele mesmo ano, o Green New Deal Group[x].

A idéia se disseminou rapidamente  nos círculos da política ambiental. Thomas Friedman, colunista do New York Times favorável às corporações, começou a promover o termo nos Estados Unidos, mais ou menos à mesma época em que formulou uma nova estratégia capitalista, de caráter eco-modernista[xi]. Barack Obama apresentou uma idéia semelhante em sua campanha de 2008. No entanto, após as eleições intermediárias de 2010 ele abandonou essa terminologia, juntamente com a substância que dela ainda havia sobrado[xii] . Em setembro de 2009, o Programa Ambiental da ONU emitiu um relatório intitulado Global Green New Deal, que consistia em um plano de crescimento sustentável[xiii]. No mesmo mês, a Fundação Européia Verde publicou A Green New deal for Europe, uma estratégia capitalista verde e keynesiana, hoje conhecida como New Deal Verde Europeu[xiv].

Todas essas propostas – enquadradas sob o manto de um New Deal Verde – eram criações políticas de cima para baixo, que combinavam o keynesianismo verde, o ecomodernismo e o planejamento tecnocrático de negócios, incorporando de maneira apenas marginal a procupação com a promoção do emprego e com a erradicaçãoda pobreza, em meio a um capitalismo verde ligeiramente reformista. Nesse sentido, as primeiras propostas do Green New Deal tinham mais em comum com o primeiro New Deal de Franklin Roosevelt (de 1933 a 1935),  de natureza comercial e muito favorável aos negócios, do que com o segundo New Deal (de 1935 a 1940), resultado de uma rebelião generalizada da classe trabalhadora, na segunda metade da década de 1930[xv].

Em contraste  com as primeiras propostas, favoráveis às corporações, a versão radical do Green New Deal, que ganhou fôlego nos Estados Unidos no ano passado, tem sua inspiração histórica na grande rebelião de baixo para cima, que resultou noSegundo New Deal de Roosevelt. Uma força chave nessa metamorfose foi a “Aliança pela Justiça Climática” [Alliance for Climate Justice], que surgiu em 2013 por meio da fusão de várias organizações de justiça ambiental. Atualmente, essa aliança reúne 68 organizações que representam comunidades de cor e de baixa renda, comprometidas com a luta pela justiça ambiental e com uma transição justa[xvi].

O conceito crítico de “transição justa” teve sua origem na década de 1980: foi anunciado primeiramente por Tony Mazzochi, um líder eco-socialista (do Sindicato dos Trabalhadores de Petróleo, Produtos Químicos e Energia Atômica), e depois acolhido pela United Steel Workers (união nacional dos metalúrgicos), eapontava para a construção de um movimento radical pela justiça laboral e ambiental[xvii]. Esse conceito de “transição justa” é reconhecido agora como um princípio central da luta por um “New Deal Verde do Povo”, e tem por alvo a superação do abismo entre lutas econômicas e ecológicas, para além da proteção climática em si.

Foi durante as campanhas presidenciais do Partido Verde de Jill Stein, em 2012 e 2016, que o New Deal Verde foi transformado pela primeira vez em uma estratégia de base popular – ou, nos termos do movimento Science for the People , em um “New Deal Verde do Povo” (People’s Green New Deal)[xviii]. O New Deal do Partido Verde teve quatro pilares: (1) uma declaração de direitos econômicos, incluindo o direito ao emprego, direitos trabalhistas, o direito à assistência médica (“Medicare for All”) e à educação universitária gratuita, financiada pelo governo federal; (2) uma ”Transição Verde”, que promoveria o investimento em pequenas empresas, pesquisa e emprego verdes; (3) uma reforma financeira real, que incluiria o alívio da dívida hipotecária e estudantil, a democratização da política monetária, a regulamentação de derivativos financeiros, o fim de fundos financeiros e de resgates governamentais a bancos e (4) uma democracia participativa, que revogaria a personalidade jurídica das corporações, incorporaria uma declaração de direitos dos eleitores, revogaria o Patriot Act de Bush e reduziria os gastos militares em cinquenta por cento[xix].

Não há dúvida sobre a natureza radical (e anti-imperialista) do programa original do Partido Verde. A redução da metade dos gastos militares era a chave deste plano de programa para aumentar os gastos federais em outras áreas. No coração deste programa havia portanto um ataque à estrutura econômica, financeira e militar do Império dos EUA, ao mesmo tempo que suas propostas econômicas forneceriam vinte milhões de novos empregos verdes[xx]. Ironicamente, a “Transição Verde” foi o componente mais fraco do New Deal Verde. No entanto, a grande inovação introduzida estava em ligar a mudança ambiental a uma mudança social igualmente necessária.

Mas foi somente em novembro de 2018 que a idéia de um New Deal Verde  estourou no Congresso, tornando-se um novo fator na política dos EUA, a partir do projeto apresentado pela deputada Alejandra Ocasio-Cortez. Ela havia se envolvido ativamente no protesto indígena pelo duto de Dakota do Norte e fez campanha no Distrito 14 de Nova York, representando o Bronx e parte do Queens, e estando associada ao movimento pelo fim dos investimentos em combustível fóssil, impulsionado pelo Movimento Sunrise [“Nascer do Sol”][xxi]. Ocasio-Cortez se juntou ao sit-in desse movimento no escritório da Presidente da Câmara, Nancy Pelosi, e esse foi o ponto de partida para o New Deal Verde, apresentado ao Congresso por Ocasio-Cortez e Markey.

A campanha de Ocasio-Cortez se inspirou bastante na campanha de Sanders a presidente, em 2016, e asusmiu portanto um caráter ecosocialista[xxii].

A Resolução do New Deal Verde, um documento de catorze páginas apresentado por Ocasio-Cortez e Markey em fevereiro de 2019, estende aos Estados Unidos a responsabilidade pela emergência climática, associando-a  a “crises relacionadas”, tais como: diminuição da expectativa de vida, estagnação salarial, declínio da mobilidade entre classes sociais, crescente desigualdade, divisão racial na riqueza, e disparidades salariais entre homens e mulheres. O New Deal Verde propõe  a redução a zero das emissões líquidas de gases de efeito estufa, por meio de uma “transição justa”, criando “milhões de empregos, promovendo justiça, equidade, e a reparação pela opressão histórica sofrida por povos indígenas, comunidades de cor, imigrantes, comunidades desindustrializadas, comunidades rurais despovoadas, pela população pobre, pelos trabalhadores de baixa renda, mulheres, idosos, sem-teto, deficientes e jovens” (aos quais o documento se refere como “comunidades vulneráveis e de fronteira”).

A Resolução propõe uma “mobilização nacional de recursos por dez anos”, com o objetivo de atingir “cem por cento de energia através de fontes limpas, renováveis e de zero emissão”. Juntamente com a oposição à atividade de “monopólios nacionais e internacionais”, propõe-se: incentivar a agricultura familiar, criar uma infraestrutura veicular de emissão zero; investir em uma rede de transporte público e ferrovias de alta velocidade; incentivar o intercâmbio internacional de tecnologia relacionada ao clima; criar parcerias com associações sindicais e cooperativas; fornecer garantias trabalhistas, treinamento e ensino superior à população ativa; prover a população com cuidados médicos universais; e proteger terras e águas públicas[xxiii].

Diferentemente do New Deal do Partido Verde, o projeto de Ocasio-Cortez e Markey (do Partido Democrata) não se opõe diretamente ao capital financeiro ou aos gastos militares dos Estados Unidos e, portanto, à expansão do Império. Seu caráter é limitado, pois estimula o desenvolvimento econômico com algumas medidas redistributivas para comunidades marginalizadas, combatendo também as mudanças climáticas por meio de uma “transição justa”. Apesar de suas limitações, pode-se dizer que possui um caráter “progressivo”, porque, se fosse realizado completamente, seria necessária uma grande transformação do capitalismo nos Estados Unidos, o que incluiria a expropriação da indústria de combustíveis fósseis.

O New Deal Verde de Bernie Sanders, sintetizado em um documento de trinta e quatro páginas, vai mais longe[xxiv]. Ele propõe cem por cento de energia renovável para eletricidade e transporte até 2030, e uma descarbonização completa até 2050 (equivalente a uma redução de setenta e um por cento nas emissões de carbono nos EUA). O projeto Sanders dedica 16,3 trilhões de dólares ao investimento público para acabar com os combustíveis fósseis, declara a emergência climática, prevê uma transição justa para trabalhadores e comunidades marginalizadas, proíbe a extração offshore, o fracking e a mineração de carvão no topo de montanhas. Ele aloca 200 bilhões de dólares a um Fundo Climático Verde para que os países pobres reduzam as emissões em trinta e seis por cento até 2030.

Para garantir uma transição justa para os trabalhadores, Sanders propõe “até cinco anos de garantia salarial, assistência de colocação e realocação, assistência habitacional para todas as pessoas deslocadas, assistência médica, uma pensão baseada no salário anterior e treinamento pago, o que pode incluir educação superior de quatro anos. O custo dos cuidados médicos seria coberto pelo Medicare for All. Os princípios da justiça ambiental seriam respeitados, a fim de proteger as comunidades indígenas, prevendo-se a destinação de 1,12 bilhão de dólares para programas de acesso e extensão das terras tribais. Além disso, o governo reservaria quarenta e um bilhões de dólares para auxiliar a conversão, em “práticas ecologicamente regenerativas”, das grandes operações que envolvem a alimentação de grandes animais confinados, ao mesmo tempo em que se prevê o incentivo às fazendas familiares.

O financiamento viria de várias fontes: (1) “aumento dos impostos sobre a renda  de investidores e proprietários de corporações que lucram com combustíveis poluentes”; (2) “eliminação dos subsídios da indústria de combustíveis fósseis”; (3) “geração de renda a partir da energia produzida pelas autoridades regionais”; (4) “cortes nos gastos militares destinados a salvaguardar o suprimento mundial de petróleo; (5) “cobrança de receitas tributárias adicionais como resultado do aumento do emprego; e (6) “novos impostos para os mais ricos”[xxv].

O New Deal de Sanders se distingue do projeto de Ocasio-Cortez ao: (1) estabelecer um cronograma para cortes nas emissões de gases de efeito estufa; (2) confrontar diretamente as grandes empresas de “capital fóssil”; (3) projetar uma transição justa para a classe trabalhadora e as comunidades marginalizadas; (4) especificar a criação de vinte milhões de novos empregos; (4) proibir a perfuração offshore, fracking e mineração de carvão; (5) enfrentar o papel dos militares na salvaguarda da economia de combustíveis fósseis; (6) alocar 16,3 trilhões de dólares do orçamento federal por dez anos para financiar este programa; e (7) aumentar os impostos sobre as empresas poluidoras[xxvi]. Apesar de tudo isso tão promissor, o programa de Sanders ainda está longe da proposta do Partido Verde de reduzir pela metade os gastos militares do Império.

Diferentemente das propostas dos democratas, a estratégia do New Deal Verde do Povo (People’s Green New Deal) constitui o que na teoria socialista se chama de reformas revolucionárias, ou seja, reformas que propõem uma transformação radical do poder econômico, político e ecológico, e que apontam para uma transição do capitalismo para o socialismo. As mudanças propostas pelos ecossocialistas são uma ameaça real ao poder do capital, mais profunda até mesmo do que aquela representada pelo segundo New Deal. O desinvestimento completo de combustíveis fósseis, incluindo reservas, constitui um tipo de abolicionismo cuja maior analogia, no que diz respeito a seus efeitos macro-estruturais, pode ser encontrada na abolição da escravidão nos Estados Unidos, em 1860[xxvii]. Para interromper a mudança climática, é necessário pôr um fim à indústria de combustíveis fósseis (sua estrutura financeira, indústrias relacionadas e infraestrutura), o que implica um confronto com detentores de poder e riqueza. Para o ecossocialista, uma verdadeira mudança só será possível com uma profunda transformação social e ecológica. Nesse sentido, em 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento revelou que as empresas de energia perderiam cerca de vinte e oito trilhões de dólares caso o uso de combustíveis fósseis fosse reduzido a zero[xxviii].

Uma mudança verdadeiramente ecológica ameaça toda a ordem político-econômica atual, como é sabido pelo capital desde o início. As empresas de energia, escreve Naomi Klein, “deverão renunciar a trilhões de dólares de suas reservas,  que elas hoje contam como seus ativos”[xxix]. E, para que isso aconteça, será necessário  mobilizar toda a população, promovendo a luta de classes em uma escala imensa, a fim de introduzir em alguns poucos anos uma transformação gigantesca no uso de energia produtiva.

É claro que todas as propostas do New Deal Verde estão longe de enfrentar a magnitude da tarefa exigida pela atual emergência planetária atual. No entanto, o desenvolvimento dessa luta pode desencadear uma luta revolucionária.  Ainda assim, existem contradições persistentes mesmo no âmbito das estratégias radicais do New Deal Verde, relacionadas à ênfase no crescimento econômico e na acumulação de capital. As restrições impostas pela necessidade de estabilizar o clima são severas, exigindo mudanças na estrutura subjacente da produção. No entanto, todas as atuais propostas do New Deal Verde evitam amplamente qualquer menção à conservação direta de recursos ou a cortes no consumo geral – muito menos medidas emergenciais como o racionamento como um meio equitativo, e não relacionado a preços, para realocar os escassos recursos da sociedade (uma medida bastante popular nos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial)[xxx]. Nenhuma das propostas considera o nível total de resíduos incorporado no sistema de acumulação atual, e como isso pode ser transformado em vantagem ecológica. Em vez disso, todos os planos se baseiam na noção de promover crescimento econômico exponencial rápido ou acumulação de capital – apesar do fato de que isso agravaria a emergência planetária, e apesar do fato de que os verdadeiros sucessos do segundo New Deal tiveram muito menos a ver com crescimento do que com redistribuição econômica e social. Como adverte Naomi Klein, um Green New Deal falhará em proteger o planeta e em uma transição justa se seguir o caminho do “keynesianismo climático”[xxxi].

O “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas” (IPCC) e as estratégias de mitigação

Nada disso é negar que uma mudança tectônica pareça estar em andamento. As estratégias radicais do New Deal Verde que agora estão sendo defendidas ameaçam destruir, em relação ao que pode e deve ser feito para combater a mudança climática, o processo de política pública baseada na ciência, que vem sendo liderado pelo IPCC e que até agora vem obstruindo todas as perspectivas sociais de esquerda. Em nítido contraste com seu cuidadoso tratamento científico das causas e conseqüências das mudanças climáticas, relativamente livre de intervenção política, a abordagem do IPCC às ações sociais necessárias para mitigar a emergência climática foi ditada em grande parte pela atual política econômica hegemônica. Até agora, as estratégias de mitigação para reduzir as emissões de dióxido de carbono em todo o mundo foram fortemente impactadas pelo domínio quase total das relações de acumulação capitalistas, assim como pela hegemonia da economia neoclássica. As diretrizes incorporadas a esses cenários de mitigação restringem fortemente os parâmetros de mudança sob consideração, e o fazem por meio de dispositivos como: modelos de avaliação integrados (em inglês, IAMs, que são grandes modelos de computador que integram mercados de energia e uso da terra com projeções de gases de efeito estufa) e caminhos socioeconômicos compartilhados (SSPs, que consistem em cinco diferentes caminhos tradicionais de negócios, baseados em estruturas amplamente tecnológicas, com crescimento econômico substancial e sem que políticas climáticas sejam formalmente incorporadas a esses modelos).

O resultado desses modelos deliberadamente conservadores, que descartam todas as alternativas ao modelo econômico dominante, é a proliferação de avaliações irreais do que pode ser feito e do que precisa ser feito[xxxii]. Em geral, os cenários de mitigação incorporados ao IPCC: (1) assumem implicitamente a necessidade de perpetuar a atual hegemonia político-econômica; (2) subestimam as mudanças nas relações sociais em favor da mudança tecnocrática, boa parte da qual é baseada em tecnologias que não existem ou que são inviáveis; (3) enfatizam os fatores no âmbito da oferta – principalmente fatores tecnológicos e relacionados ao preço – em vez dos fatores no âmbito da demanda, ou então reduções diretas no consumo ecológico, a fim de reduzir as emissões; (5) contam com as chamadas emissões negativas (capturando dióxido de carbono da atmosfera e, de alguma forma, sequestrando-o), de modo a permitir a superação dos objetivos de emissão; (6) deixam a massa da população fora do cálculo, assumindo que a mudança será administrada pelas elites gerenciais, e com participação pública mínima; e  (7) postulam respostas lentas, deixando de fora a possibilidade (realmente necessária) de uma revolução ecológica[xxxiii].

Portanto, enquanto a escala da mudança climática e seus impactos socioecológicos são bem capturados pelos modelos e projeções do IPCC, a escala da mudança social necessária para enfrentar esse desafio é sistematicamente rebaixada nas centenas de modelos de mitigação utilizados pelo IPCC. Esses, em vez disso, recorrem a soluções mágicas que decorreriam de intervenções no preço de mercado (como o comércio de carbono) e do emprego de uma tecnologia futurista, incluindo invenções que não são viáveis ​​is escala necessária e que dependem de emissões negativas[xxxiv]. Tais modelos apontam para resultados catastróficos, para os quais as únicas defesas previstas são a chamada eficiência do mercado e uma tecnologia barroca inexistente e / ou irracional, uma vez que essas abordagens supostamente permitiriam que a sociedade prossiga com seu modelo produtivo atual, em sua maior parte inalterado.Assim, a maioria dos modelos de mitigação climática incorpora a bioenergia com a tecnologia de captura e armazenamento de carbono (BECCS), que promove o crescimento de plantas (principalmente árvores) em grande escala para serem queimadas com vistas à produção de energia, ao mesmo tempo em que captura o dióxido de carbono liberado na atmosfera e, de alguma forma, o sequestra ou o armazena, como ocorre no seqüestro geológico e oceânico. Se implementado, isso exigiria uma quantidade de terra igual a uma ou duas Índias, assim como – apesar da escassez de água no mundo – uma quantidade de água doce aproximada à que é usada atualmente pela agricultura mundial[xxxv]. A promoção ávida dessas abordagens puramente mecanicistas é tampouco um acidente. Ela está profundamente enraizada na forma como esses relatórios são construídos, e na ordem capitalista subjacente à qual eles servem.Nas palavras de Kevin Anderson, principal climatologista do Tyndall Center for Climate Change Research, no Reino Unido: “O problema é que o cumprimento do compromisso de 1,5 a 2ºC exige cortes de emissões para nações ricas em mais de dez por cento ao ano, muito além das taxas normalmente consideradas possíveis no atual sistema econômico.  Os IAMs desempenham um papel importante e perigoso quando se apresentam como meios de remediar esse impasse. Por trás de um verniz de objetividade, o uso desses imensos modelos computacionais profissionalizou a análise da mitigação das mudanças climáticas, substituindo políticas confusas e contextuais por formalismo matemático não contextual. Dentro dessas fronteiras profissionais, os IAMs sintetizam modelos climáticos simples, baseando-se em crenças acerca do funcionamento das finanças e da mudança tecnológica que se apoiam, por sua vez, em uma interpretação econômica [ortodoxa] do comportamento humano”.Normalmente, os IAMs usam modelos baseados em axiomas de livre mercado. Os algoritmos incorporados nesses modelos pressupõem mudanças marginais próximas ao equilíbrio econômico, e dependem fortemente de pequenas variações na demanda, possíveis por sua vez em virtude de mudanças marginais nos preços. O Acordo Climático de Paris, por outro lado, estabelece um desafio de mitigação que está muito distante do equilíbrio da economia de mercado atual, exigindo mudanças imediatas e radicais em todas as facetas da sociedade[xxxvi].Anderson destaca que a realidade é que a atual modelagem e as projeções de cenários climáticos fornecidas pelo IPCC, e incorporadas aos planos nacionais, baseiam-se em pressupostos extraídos da análise de equilíbrio geral da economia neoclássica, construindo noções de mudanças gradualistas, baseadas nos requisitos do sistema de lucro. As estipulações desses cenários de mitigação não têm sentido no contexto da atual emergência climática, e são perigosas, pois inibem as ações necessárias (basta pensar que uma tecnologia inexistente é vista como a tábua de salvação). Dos inúmeros modelos considerados pelo IPCC em seu relatório de 2018, todos exigem redução de dióxido de carbono (CDR) ou as chamadas emissões negativas – principalmente por meios tecnológicos, mas por meio também do reflorestamento[xxxvii]. A verdade é que toda a abordagem de mitigação no âmbito do IPCC, explica Anderson, tem sido um “fracasso acelerado”, guiando um processo radicalmente contrário às suas projeções, com o resultado de que “as emissões anuais de CO2 aumentaram cerca de setenta por cento desde 1990”. Como os efeitos de tais emissões são cumulativos e não lineares, com todos os tipos de feedbacks positivos, os efeitos da política de mitigação das emissões elevou o patamar do desafio: a previsão de uma mudança moderada no sistema econômico converteu-se em uma revisão revolucionária do sistema. Essa não é uma posição ideológica; emerge diretamente de uma interpretação científica e matemática do Acordo Climático de Paris[xxxviii]. Ao reconhecer a aceleração da emergência climática, o IPCC, em seu relatório de 2018, partiu de seus relatórios anteriores, incentivando levemente o desenvolvimento de abordagens para a mitigação das mudanças climáticas que incluem considerações da demanda. Isso significa encontrar maneiras de reduzir o consumo, geralmente por meio do aumento da eficiência (embora geralmente subestime o conhecido Paradoxo de Jevons, segundo o qual o aumento da eficiência sob o capitalismo leva ao aumento da acumulação e do consumo)[xxxix]. Foram introduzidos vários cenários de mitigação que demonstram que as intervenções do lado da demanda são a maneira mais rápida de lidar com as mudanças climáticas – e mesmo, em um modelo, sugerindo que a meta abaixo de 1,5ºC pode ser alcançada com apenas um pouco excedente e sem depender das chamadas tecnologias de emissão negativa, mas dependendo das práticas agrícolas e florestais aprimoradas (consideradas uma forma não tecnológica de redução de dióxido de carbono)[xl].
Além disso, esses resultados são alcançados dentro das premissas extremamente restritivas dos modelos de mitigação do IPCC, que incorporam formalmente (via IAMs e SSPs) um crescimento econômico rápido e significativo, excluindo formalmente todas as intervenções de política climática. Portanto, foi sugerido por alguns críticos radicais, como Jason Hickel e Giorgos Kallis, que uma abordagem sociopolítica do lado da demanda que enfatize a abundância e as políticas redistributivas, ao mesmo tempo em que limita os lucros e o crescimento (que hoje beneficiam principalmente 0,01%), é demonstrativamente muito superior em termos de mitigação, e constitui a única solução realista[xli].

Uma grande virtude do surgimento de estratégias radicais ou populares do New Deal Verde, portanto, é que elas abrem o campo do que é possível de acordo com a necessidade real, levantando a questão da mudança transformadora como a única base da sobrevivência civilizacional humana: a liberdade da necessidade[xlii]. Aqui é importante reconhecer que uma revolução ecológica e social nas atuais condições históricas provavelmente passará por duas etapas, que podemos chamar de ecodemocrática e ecossocialista[xliii]. A auto-mobilização da população assumirá inicialmente uma forma ecodemocrática, enfatizando a construção de alternativas energéticas combinadas com uma transição justa, mas em um contexto geralmente carente de qualquer crítica sistemática à produção ou ao consumo. Ao final do processo, no entanto, a pressão das mudanças climáticas e a luta pela justiça social e ecológica, estimulada pela mobilização de diversas comunidades, podem levar a uma visão ecorevolucionária mais abrangente, penetrando sob o véu da ideologia recebida.

Ainda assim, permanece o fato de que a tentativa de construir um New Deal Verde radical em um mundo ainda dominado pelo capital financeiro monopolista será constantemente ameaçada pela tendência de reverter ao Keynesianismo Verde, onde a promessa de empregos ilimitados, rápido crescimento econômico e maior consumo milita contra qualquer solução para a crise ecológica planetária. Como observa Klein em On Fire,

“Qualquer Green New Deal credível precisa de um plano concreto para garantir que os salários de todos os bons empregos verdes que ele cria não sejam imediatamente despejados em estilos de vida de alto consumo que, inadvertidamente, acabam aumentando as emissões – um cenário em que todos têm um bom emprego e muito dinheiro. renda disponível e tudo é gasto em lixo descartável (…) O que precisamos são transições que reconheçam os limites rígidos da extração e, simultaneamente, criem novas oportunidades para as pessoas melhorarem a qualidade de vida e obterem prazer fora do ciclo interminável de consumo”[xliv].

O caminho para a liberdade ecológica e social exige o abandono de um modo de produção enraizado na exploração do trabalho humano e na expropriação da natureza e dos povos, levando a crises econômicas e ecológicas cada vez mais frequentes e graves. A superacumulação de capital sob o regime de capital de monopólio financeiro tornou o desperdício em todos os níveis essencial para a preservação do sistema, criando uma sociedade na qual o que é racional para o capital é irracional para as pessoas do mundo e para a terra[xlv]. Isso levou ao desperdício de vidas humanas em trabalho desnecessário gasto na produção de mercadorias inúteis, exigindo o desperdício dos recursos materiais naturais do mundo. Por outro lado, a extensão desse desperdício prodigioso de produção e riqueza humana, e da própria Terra, é uma medida do enorme potencial existente hoje para expandir a liberdade humana e atender às necessidades individuais e coletivas, ao mesmo tempo em que assegura um ambiente sustentável[xlvi].

Na atual crise climática, são os países imperialistas no centro do sistema que produziram a maior parte das emissões de dióxido de carbono agora concentradas no meio ambiente. São essas nações que ainda têm as maiores emissões per capita. Além disso, esses mesmos Estados monopolizam a riqueza e a tecnologia necessárias para reduzir drasticamente as emissões globais de carbono. Portanto, é essencial que as nações ricas assumam um fardo maior para estabilizar o clima do mundo, reduzindo suas emissões de dióxido de carbono a uma taxa de dez por cento ou mais ao ano[xlvii]. É o reconhecimento dessa responsabilidade por parte das nações ricas, juntamente com a necessidade global subjacente, que levou ao aumento repentino de movimentos transformadores como a Extinction Rebellion.

No longo prazo, no entanto, o principal impulso para a transformação ecológica mundial virá do Sul Global, onde a crise planetária está causando seus efeitos mais severos – no topo de um sistema mundial já imperialista e em meio a um crescente abismo entre países ricos e pobres. É na periferia do mundo capitalista que o legado da revolução é mais forte – e onde persistem as concepções mais profundas de como realizar essa mudança necessária. Isso é especialmente evidente em países como Cuba, Venezuela e Bolívia, que tentaram revolucionar suas sociedades apesar dos duros ataques do sistema imperialista mundial, e apesar de sua dependência histórica (nos casos da Venezuela e da Bolívia) da extração de energia – ela própria, imposta pelas estruturas hegemônicas da economia global. Em geral, podemos esperar que o Sul Global seja o local do crescimento mais rápido de um proletariado ambiental, resultante da degradação das condições materiais da população de maneiras igualmente ecológica e econômica[xlviii].

O papel da China em tudo isso permanece crucial e contraditório. É um dos países mais poluídos e famintos por recursos do mundo, enquanto suas emissões de carbono são tão grandes que, por si só, constituem um problema em escala global. No entanto, a China fez mais do que qualquer outro país até agora para desenvolver tecnologias de energia alternativa voltadas para a criação do que é oficialmente chamado de civilização ecológica. Surpreendentemente, ele permanece em grande parte auto-suficiente em alimentos devido ao seu sistema agrícola, em que a terra é propriedade social e a produção agrícola depende principalmente de pequenos produtores com restos de responsabilidade coletiva-comunitária. O que está claro é que as escolhas presentes e futuras do Estado chinês, e ainda mais do povo chinês, com relação à criação de uma civilização ecológica. provavelmente serão fundamentais para determinar o destino da Terra a longo prazo[xlix].

A revolução ecológica enfrenta a inimizade de todo o sistema capitalista. No mínimo, significa ir contra a lógica do capital. Em seu pleno desenvolvimento, significa transcender o sistema. Sob essas condições, a resposta reacionária da classe capitalista apoiada por sua retaguarda na extrema direita será regressiva, destrutiva e irrestrita. Isso já pode ser visto nas inúmeras tentativas do governo Donald Trump de remover a própria possibilidade de fazer as mudanças necessárias para combater as mudanças climáticas (aparentemente para queimar os navios do mundo), começando com sua retirada do Acordo Climático de Paris e sua aceleração na extração de combustíveis fósseis. A barbárie ecológica ou o ecofascismo são ameaças palpáveis ​​no atual contexto político global e fazem parte da realidade que qualquer revolta ecológica de massa precisará enfrentar[l]. Nessas circunstâncias, somente uma luta revolucionária genuína e não reformista será capaz de se impulsionar para frente.

Uma era de mudança transformacional

É comum na literatura de ciências sociais, representando a ideologia liberal reinante, ver a sociedade como simplesmente constituída pelas ações dos indivíduos que a compõem. Outros pensadores, mais críticos, às vezes apresentam a visão oposta de que os indivíduos são o produto da estrutura social geral. Um terceiro modelo genérico vê os indivíduos afetando a sociedade e a sociedade afetando os indivíduos em uma espécie de movimento de vaivém, visto como uma síntese de estrutura e agência[li].

Em contraste com todas essas abordagens tradicionais, principalmente liberais, que deixam pouco espaço para uma transformação social genuína, a teoria marxista, com sua abordagem histórico-dialética, baseia-se no que o filósofo crítico-realista Roy Bhaskar chamou de “modelo transformacional de atividade social”. Segundo ele, os indivíduos nascem e se socializam historicamente em uma determinada sociedade (modo de produção), que estabelece os parâmetros iniciais de sua existência[lii]. No entanto, essas condições e relações produtivas mudam de maneira imprevisível e contingente durante o curso de suas vidas, levando a conseqüências, contradições e crises não intencionais. Presos em situações históricas que não são de sua escolha, os seres humanos, agindo espontaneamente e por meio de movimentos sociais organizados, refletindo classe e outras identidades individuais e coletivas, buscam alterar as estruturas existentes de reprodução e transformação social, dando origem a momentos históricos críticos que consistem em rupturas e revoluções radicais e em novas realidades emergentes. Como Karl Marx escreveu: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; eles não a fazem sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas sob circunstâncias encontradas, dadas e transmitidas do passado”[liii].

Esse modelo transformacional de atividade social apóia uma teoria da auto-emancipação humana na história. As relações sociais existentes tornam-se grilhões no desenvolvimento humano geral, mas também dão origem a contradições fundamentais no processo de trabalho e produção – ou o que Marx chamou de metabolismo social da humanidade e da natureza, levando a um período de crise e transformação, ameaçando a derrubada revolucionária das relações sociais de produção ou das relações de classe, propriedade e poder[liv]. Hoje somos apresentados a essas severas contradições no metabolismo da natureza e da sociedade, assim como nas relações sociais de produção, mas de uma maneira em relação à qual não existe um precedente histórico verdadeiro.

No Antropoceno, a emergência ecológica planetária se sobrepõe à superacumulação de capital e a uma expropriação imperialista intensificada, criando uma crise econômica e ecológica que paira sobre nossa era[lv]. É a superacumulação de capital que acelera a crise ecológica global, impulsionando o capital a encontrar novas maneiras de estimular consumo para manter os lucros fluindo. O resultado é um estado de Armagedom planetário, ameaçando não apenas a estabilidade socioeconômica, mas também a sobrevivência da civilização humana e da própria espécie humana. Para Klein, a principal explicação é simples: observando que “Marx escreveu sobre a ‘fissura irreparável do capitalismo’ com ‘as leis naturais da própria vida'”, ela continua enfatizando que “muitos da esquerda já argumentaram que um sistema econômico construído sobre o apetite voraz do capital, solto a si mesmo, sobrecarregaria os sistemas naturais dos quais a vida depende”[lvi]. E foi exatamente isso que aconteceu no período desde a Segunda Guerra Mundial, por meio da grande aceleração da atividade econômica, do consumo excessivo por parte dos ricos, e da destruição ecológica resultante.

A sociedade capitalista há muito glorifica a dominação da natureza. William James, o grande filósofo pragmatista, referiu-se em 1906 ao “equivalente moral da guerra”. Embora raramente seja mencionado, o equivalente moral de James foi uma guerra contra a Terra, na qual ele propôs “manter por um certo número de anos uma parte do exército alistada contra a Natureza[lvii]. Hoje, temos que reverter isso e criar um novo equivalente moral mais revolucionário da guerra; um que seja dirigido não ao alistamento de um exército para conquistar a Terra, mas dirigido à mobilização da população para salvar a Terra como um local de habitação humana. Isso só pode ser conseguido por meio de uma luta pela sustentabilidade ecológica e pela igualdade substantiva, e destinada a ressuscitar os bens comuns globais. Nas palavras de Greta Thunberg, falando às Nações Unidas em 23 de setembro de 2019: “bem aqui, agora mesmo, é onde traçamos a linha. O mundo está acordando. E a mudança está chegando, quer vocês gostem ou não”. O mundo está pegando fogo desta vez.

*John Bellamy Foster é professor de sociologia na Universidade do Oregon (EUA) e editor da Monthly Review.

Tradução: Fábio Pimentel de Maria da Silva

Publicado originalmente na revista Monthly Review.(https://monthlyreview.org/2019/11/01/on-fire-this-time/)

Notas

 

[i] Aqui, a revolução é vista como um processo histórico complexo, abrangendo muitos atores e fases, um processo ora incipiente, ora desenvolvido, e que contém um desafio fundamental do Estado e da estrutura de propriedade, de produção e de classes da sociedade. Ela pode envolver atores cujas intenções não são revolucionárias, mas que são objetivamente parte do desenvolvimento de uma situação revolucionária. Para um exemplo histórico, cf. George Lefebvre, The Coming of the French Revolution (Princeton: Princeton University Press, 1947). Sobre o próprio conceito de revolução ecológica, cf. John Bellamy Foster, The Ecological Revolution (Nova York: Monthly Review Press, 2009), pp. 11–35.

[ii] Naomi Klein, On Fire: The (Burning) Case for Green New Deal (Nova York: Simon and Schuster, 2019).

[iii]  James Baldwin, The Fire Next Time [O Incêndio da Próxima Vez] (Nova York: Dial, 1963).

[iv] IPCC, aquecimento global de 1,5ºC (Genebra: IPCC, 2018). Nicholas Stern, “Precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa para zero líquido ou enfrentar mais inundações”, Guardian, 7 de outubro de 2018; «Transcript: Greta Thunberg’s Speech to UN Climate Action Summit,” NPR, 23 de setembro de 2019. Em geral, considera-se que o mundo deve ficar abaixo de 2ºC para evitar um ponto sem retorno no que diz respeito às relações humanas com o planeta. Mas cada vez mais a ciência tem apontado para 1,5 ° C como a marca desejável. Atualmente, a maioria dos esquemas de mitigação climática reconhecidos pelo IPCC admite um excedente temporário do limite de 1,5ºC (ou do limite de 2ºC) com emissões negativas e, em seguida, remove o carbono da atmosfera antes que ocorram os piores efeitos. Mas essa estratégia, cada vez mais reconhecida, é pior que a roleta russa em termos de probabilidades estatísticas.

[v] http://systemchangenotclimatechange.org . Cf. também Martin Empson (ed.), System Change Not Climate Change (Londres: Markers, 2019).

[vi] Sobre a distinção entre ação climática e justiça climática, ver Klein, On Fire, 27–28.

[vii] A marcha climática foi seguida alguns dias depois pela ação de Flood Wall Street, na qual manifestantes se envolveram em desobediência civil, mas não possuíam força de números.

[viii] Klein, On Fire, 27-28.

[ix] Thunberg, No One Is Too Small to Make a Difference, 16.

[x] Partido Verde dos EUA, cronograma do Green New Deal, disponível em http://gp.org; Grupo de Políticas Green New Deal (Londres: New Economics Foundation, 2008); Larry Elliott, ” Climate Change Cannot Be Bargained With“, Guardian, 29 de outubro de 2007.

[xi] Thomas Friedman, “A Garden Warning”, New York Times, 19 de janeiro de 2007.

[xii] Cf. Alexander C. Kaufman, “What’s the ‘Green New Deal’?”, Grist, 30 de junho de 2018.

[xiii] UNEP, Global Green New Deal (Geneva: UNEP, 2009).

[xiv] Green European Foundation, Global Green New Deal (Genebra: PNUMA, 2009)..

[xv] David Milton, The Politics of US Labor (Nova York: Monthly Review Press, 1982).

[xvi] Climate Justice Alliance, »History of the Climate Justice Alliance«.

[xvii] John Bellamy Foster, » Ecosocialism and a Just Transition«, MR Online, 22 de junho de 2019; Climate Justice Alliance, “Just Transition: A Framework for Change”.

[xviii] A organização Science for The People (“Ciência para o Povo”) tem sido um dos principais defensores de um “Novo Acordo Verde do Povo”, incorporando uma transição justa para trabalhadores e comunidades da linha de frente, em vez de tentar incorporar o Novo Acordo Verde em sua forma corporativa anterior . Cf. Science for the People, »People’s Green New Deal».

[xix] Jill Stein, “ “Solutions for a Country in Trouble: The Four Pillars of the Green New Deal”, Green Pages, 25 de setembro de 2012.

[xx] Partido Verde: “Podemos construir um amanhã melhor hoje, é hora de um novo acordo verde”.

[xxi] Tessa Stuart, “Sunrise Movement, the Force Behind the Green New Deal Ramps Up Plans for 2020”, Rolling Stone, 1º de maio de 2019. Os ativistas fundadores do Movimento Sunrise se apegaram ao movimento pelo desinvestimento em combustíveis fósseis, ocorrido particularmente em universidades, que em dezembro de 2018 afirmou ter conseguido alcançar a soma de US$ 8 trilhões em desinvestimentos. No entanto, os ativistas perceberam que o próximo passo era tentar atacar o próprio estado e mudar o sistema através de um New Deal Verde. Klein, On Fire, 22.

[xxii] O Partido Verde mudou explicitamente na direção do ecossocialismo e patrocinou uma conferência de eco-socialismo em Chicago em 28 de setembro de 2019. Ver Anita Ríos, “Green Party Gears Up for Ecosocialism Conference”. Black Agenda Report, 10 de setembro de 2019.

[xxiii] Resolução 109, ” Recognizing the Duty of the Federal Government to Create a Green New Deal”.

[xxiv] Sanders está completamente sozinho entre os principais candidatos democratas nas eleições de 2020 na promoção de um verdadeiro New Deal Verde. O “Plano para uma Revolução da Justiça Ambiental e de Energia Limpa” (Plan for a Clean Energy Revolution and Environmental Justice), de Joe Biden, apresentado em junho de 2019, evita completamente a insistência do IPCC de que as emissões de dióxido de carbono devem ser reduzidas em quase 50% até 2030 para permanecerem abaixo de 1,5ºC, e simplesmente promete promover políticas que atingirão zero emissões líquidas até 2050, propondo gastar US$ 1,7 trilhão no combate às mudanças climáticas por dez anos. Elizabeth Warren assinou a Resolução do New Deal Verde, mas em seu “Plano de Energia Limpa” (Clean Energy Plan), apresentado em setembro de 2019, vai além de dizer que apóia uma mobilização de dez anos até 2030 com o objetivo de atingir zero emissões líquidas de gases de efeito estufa “o mais rápido possível”. “Ela propõe um investimento de US $ 3 trilhões em dez anos. Seu plano exclui qualquer menção a uma transição justa para trabalhadores ou comunidades da linha de frente.

[xxv] Sanders, “The Green New Deal”.

[xxvi] Embora a Resolução do New Deal Verde apresentada por Ocasio-Cortez e Markey não aborde como seria financiada, a ênfase está na criação de bancos públicos, flexibilização quantitativa verde e financiamento de déficit sob a atual utilização de baixa capacidade, uma visão apoiada pela moderna teoria monetária. Desvia deliberadamente do financiamento através de impostos corporativos. Ellen Brown, » The Secret to Funding a Green New Deal», Truthdig, 19 de março de 2019.

[xxvii] O historiador David Blight, citado em Ta-Nehisi Coates, »Slavery Made America», Atlantic, 24 de junho de 2014.

[xxviii] Ben Caldecott et al., Stranded Assets: A Climate Risk Challenge (Washington DC: Banco Interamericano de Desenvolvimento, 2016): X.

[xxix] Naomi Klein, This Changes Everything: Capitalism vs. the Climate (Nova York: Simon e Schuster, 2014), 31-63.

[xxx] Klein, This Changes Everything, 115-16.

[xxxi]  Klein, On Fire, 261.

[xxxii] Kevin Anderson, “Debating the Bedrock of Climate-Change Mitigation Scenarios”, Nature, 16 de setembro de 2019; Zeke Hausfather, »Explainer: How ‘Shared Socioeconomic Pathways’ Explore Future Climate Change«, Carbon Brief, 19 de abril de 2018.

[xxxiii] Essas deficiências são integradas diretamente nos SSPs e até nas AMIs. Cf. Oliver Fricko et al., “The Marker Quantification of the Shared Socioeconomic Pathway 2: A Middle-of-the-Road Scenario for the 21st Century”, Global Environmental Change 42 (2017): 251–67. Para uma avaliação crítica geral, consulte Jason Hickel e Giorgos Kallis: “Is Green Growth Possible?”, New Political Economy, 17 de abril de 2019.

[xxxiv] Kevin Anderson e Glen Peters, “The Trouble with Negative Emissions”, Science 354, n. 6309 (2016): 182–83; Conselho Consultivo de Ciências das Academias Europeias, Negative Emission Technologies: What Role in Meeting Paris Agreement Targets, EASAC Policy Report 35 (Halle, Alemanha: Academia Nacional de Ciências da Alemanha, 2018).

[xxxv] Cf. John Bellamy Foster, “Fazendo guerra ao planeta”, Monthly Review 70, no. 4 (setembro de 2018): 4-6.

[xxxvi] Anderson «Discutindo a base dos cenários de mitigação das mudanças climáticas».

[xxxvii] IPCC, Aquecimento global de 1,5ºC, 16, 96.

[xxxviii] Anderson, ” Debating the Bedrock of Climate-Change Mitigation Scenarios”.

[xxxix]  Cf. John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), p. 169-182.,

[xl] IPCC, Global Warming of 1,5ºC, 15–16, 97; Jason Hickel, » The Hope at the Heart of the Apocalyptic Climate Change Report«, Foreign Policy, 18 de outubro de 2018. Veja também Arnulf Grubler, « A Low Energy Demand Scenario for Meeting the 1.5ºC Target and Sustainable Development Goals Without Negative Emission Technologies», Nature Energy 3, no. 6 (2018): 512-27; Joeri Rogelj et al., “Scenarios Towards Limiting Global Mean Temperature Increase Below 1.5ºC”, Nature Climate Change 8 (2018): 325–32; Christopher Bertram et al. » “Targeted Policies Can Compensate Most of the Increased Sustainability Risks in 1.5ºC Mitigation Scenarios«, Environmental Research Letters 13, no. 6 (2018).

[xli] Hickel e Kallis, “Is Green Growth Possible?”

[xlii] D. Bernal, The Freedom of Necessity (London: Routledge and Kegan Paul, 1949).

[xliii] John Bellamy Foster, “Ecology,” in The Marx Revival, ed. Marcelo Musto (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), 193.

[xliv]  Klein, On Fire, 264.

[xlv] Paul A. Baran and Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966).

[xlvi] John Bellamy Foster, “The Ecology of Marxian Political Economy,” Monthly Review 63, no. 4 (September 2011): 1–16; Fred Magdoff and John Bellamy Foster, What Every Environmentalist Needs to Know About Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2011), 123–44; William Morris, News from Nowhere and Selected Writings and Designs (London: Penguin, 1962): 121–22.

[xlvii] Kevin Anderson and Alice Bows, “Beyond ‘Dangerous’ Climate Change: Emission Scenarios for a New World,” Philosophical Transactions of the Royal Society 369 (2011): 20–44.

[xlviii] Para uma discussão sobre a atual situação ecológica no Sul Global e sua relação com o imperialismo, veja John Bellamy Foster, Hannah Holleman e Brett Clark, “Imperialism in the Antropocene”, Monthly Review 71, no. 3 (julho a agosto de 2019): 70–88. Sobre o conceito de proletariado ambiental, veja Bellamy Foster, Clark e York, The Ecological Rift, 440–41.

[xlix] O tema da relação entre a China e a ecologia é complexo. Veja John B. Cobb (em conversa com Andre Vltchek), China and Ecological Civilization (Jacarta: Badak Merah, 2019); David Schwartzman, “China and the prospects for a global ecological civilization”, Climate and capitalism, 17 de setembro de 2019; Lau Kin Chi, »A subaltern perspective on China’s ecological crisis«, Monthly Review 70, no. 5 (outubro de 2018): 45–57. Sobre o conceito de civilização ecológica e sua relação com a China, ver John Bellamy Foster, “The Earth-System Crisis and Ecological Civilization”, International Critical Thought 7, n. 4 (2017): 439–58.

[l] Naomi Klein, “Only a Green New Deal Can Douse the Fires of Ecofascism,” Intercept, September 16, 2019.

[li] Roy Bhaskar, Reclaiming Reality (London: Routledge, 2011), 74–76.

[lii]  Bhaskar, Reclaiming Reality, 76–77, 92–94.

[liii] Karl Marx, Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte (1852; New York: International Publishers, 1963): 15.

[liv]  Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 283.

[lv] Cf. Ian Angus, Facing the Anthropocene (New York: Monthly Review Press, 2016), 175–91.

[lvi]  Klein, On Fire, 90–91; Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 949..

[lvii] William James, “Proposing the Moral Equivalent of War” (discurso, Stanford University, 1906), disponível em Lapham’s Quarterly online.