A reviravolta de Donald Trump

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Por RUBEN BAUER NAVEIRA*

A aparente guinada pro-Ucrânia soa como um ardil para empurrar a OTAN europeia a um confronto com a Rússia, enquanto os EUA se posicionam como meros fornecedores de armas, não como parceiros no campo de batalha

No Alasca, Donald Trump pareceu ter compreendido que a Rússia vai mesmo ganhar a guerra. Então, no pós-Alasca, Donald Trump pareceu ter-se empenhado em convencer os europeus a desistir de continuar apoiando cegamente a Ucrânia, para irem todos à mesa de negociação com os russos (nos termos russos, bem entendido).

Quando ficou claro que os europeus não somente não concordavam, mas insistiam em pressionar o governo americano a voltar a apoiar a Ucrânia de forma massiva, Donald Trump lhes disse então algo como “ok, eu vou com vocês – mas, primeiro, vocês parem de comprar petróleo russo por meio da Índia e da Turquia, e além disso vocês imponham tarifas pesadas sobre a China e sobre a Índia”.

É claro que até os escombros da cidade de Pokrovsk sabiam que os europeus não tinham como topar. Donald Trump deve então ter achado que, uma vez os europeus abandonados de facto, eles finalmente tomariam juízo, e se disporiam a negociar com os russos.

Só que não. Os europeus – Estônia, Polônia e Alemanha à frente – passaram a desenvolver uma tática de “convencimento cumulativo” (da opinião pública), denunciando dia sim outro também alguma nova “agressão” russa – uma violação de espaço aéreo, uma violação de águas territoriais, até mesmo uma acusação de sabotagem no GPS do avião da presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen.

O auge dessa campanha foi o episódio de violação massiva do espaço aéreo polonês por drones russos. Pode ser que jamais saibamos ao certo, mas o que parece mais provável é que a Ucrânia tenha recuperado drones “Gerbera” lançados pelos russos em ataques anteriores, os restaurado e relançados em direção à Polônia (nota: os drones Gerbera são “iscas” para atrair as defesas antiaéreas e serem abatidos, desviando assim a atenção ucraniana dos drones “Geran” que, estes sim, bombardeiam a infraestrutura ucraniana; ao contrário dos Geran, os drones Gerbera são baratos, eles não portam carga explosiva – não foi registrada nenhuma explosão na Polônia –, e eles não têm alcance para chegar até à Polônia se lançados da Rússia).

Essa campanha de denúncias cumulativas sugere – e esta também é a conclusão da inteligência russa, que botou a boca no trombone – que os europeus estariam paulatinamente construindo o pretexto para fazer uma provocação mais séria à Rússia.

Supõe-se que tal provocação poderia ser: (i) O fechamento do Mar Báltico à navegação russa, resultando em bloqueios do porto de Saint Petersburg e do exclave de Kaliningrado ou (ii) A imposição de uma no-fly zone sobre a Ucrânia Ocidental, buscando criar uma região segura para a retaguarda ucraniana, até aqui impiedosamente castigada pelos bombardeios russos ou (iii) uma invasão da região separatista da Transnístria, na Moldávia, que se encontra ocupada (desde 1991) por forças de paz russas; algo assim requereria uma ocupação prévia da Moldávia, nação que não faz parte da OTAN, o que poderia se dar a pretexto de “garantir” as eleições próximas naquele país.

2.

Qualquer que seja a alternativa escolhida, a Rússia se verá obrigada a reagir militarmente com dureza – que é exatamente o que os europeus esperam que os russos façam, para ver se assim conseguem trazer os Estados Unidos de volta ao campo ucraniano, e desta vez para entrar de uma vez de cabeça na guerra. E guerra da Ucrânia se converteria em uma guerra de tudo ou nada do Ocidente contra a Rússia.

Bem. Seguramente, Donald Trump dispõe de mais e melhores informações a respeito de todo esse periclitante estado de coisas.

Eis que Donald Trump no dia de ontem (23 de setembro), após ter discursado na assembleia geral da ONU, solta um post-bomba em sua rede TruthSocial, pelo qual expressa uma mudança para lá de radical na sua avaliação sobre a Rússia e a Ucrânia.

Donald Trump afirmou que: A Rússia está à beira da bancarrota e do colapso social; a Rússia não passa de um “tigre de papel” que, se de fato fosse uma potência militar, teria levado uma semana para ganhar a guerra, em vez de ter estado desnorteada já por três anos e meio; a Ucrânia pode perfeitamente vencer a guerra, recuperar todo o seu território (inclusive a Crimeia), e até mesmo avançar sobre território original da Rússia.

Essa reviravolta de Donald Trump, de tão chocante, cheira a sarcasmo.

A mídia ocidental, especialmente a europeia, sequiosa por confirmações para sua narrativa anti-Rússia, sem refletir por um segundo sequer atirou-se às palavras de Donald Trump como a uma tábua de salvação. Amplificação e repercussão máximas.

Mais prudente teria sido desconfiar de uma guinada tão abrupta e vertiginosa, e procurar ler nas entrelinhas, até se dar conta de duas outras coisas que Donald Trump também escreveu na sua postagem que deveriam lhe ter feito pensar melhor.

A primeira delas foi: “Com tempo, paciência e o suporte financeiro da Europa e, em particular, da OTAN, [reconquistar] as fronteiras originais a partir das quais essa guerra foi começou é plenamente possível”.

O que poderia estar contido nas entrelinhas? Que quem irá apoiar a Ucrânia para ela derrotar a Rússia são… a Europa e a OTAN. Donald Trump poderia também ter acrescentado “e os Estados Unidos” na sua postagem – mas ele não o fez.

O mais importante, contudo, foi a segunda coisa que ele escreveu: “Nós continuaremos a fornecer armas à OTAN para a OTAN fazer o que quiser com elas” (onde se lê “fornecer” leia-se “vender”).

Em suma, os Estados Unidos não irão fornecer armas à Ucrânia. Eles irão fornecer/vender armas à OTAN (como se os Estados Unidos não fizessem parte da OTAN…). A equação aqui é simples: OTAN menos Estados Unidos é igual à… Europa.

Ao que tudo parece indicar, Donald Trump resolveu dar um “empurrãozinho” à Europa, provendo a ela uma atmosfera psicossocial favorável a uma ofensiva europeia contra a Rússia. Só que em nenhum momento Donald Trump compromete os Estados Unidos a marcharem junto.

É como se Donald Trump estivesse dizendo à Europa: “Quer se atirar no abismo? Vá em frente. Você consegue”. Em um toque final de puro sarcasmo, Donald Trump encerra a sua postagem com um “Boa sorte a todos!”.

Terá a Europa realmente a disposição tresloucada para prosseguir sozinha? Ou, ao mirar o abismo ela recobrará os sentidos, e recuará no último minuto? Ao mundo, só resta prender a respiração, e aguardar para descobrir.

E a Donald Trump, quem sabe, resta preparar a pipoca, enquanto aguarda para colher o Prêmio Nobel da Paz lá na frente.

*Ruben Bauer Naveira é ativista político e pacifista. Autor do livro Uma nova utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos.

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