Por ROBERTO VITAL ANAV*
A crítica a governos não pode servir de álibi para legitimar a violência imperialista nem o apagamento da soberania dos povos
1.
É preciso torcer por um mundo onde a soberania dos países seja respeitada e não violada por quem tem mais força. Onde os agressores não sejam vistos como “heróis da liberdade”. Onde os problemas internos de cada país sejam resolvidos por seu povo e não usados como pretextos para potências econômicas e militares imporem seus interesses ao mundo inteiro.
Onde as pessoas não percam a memória, como no caso do xá Reza Pahlevi, entronizado após um golpe patrocinado pelos EUA contra o civil Mohammed Mossadegh, que desejava, com todo o direito, nacionalizar as reservas petrolíferas do seu país. O xá, apoiado sempre pelos EUA, implantou um regime tirânico e corrupto derrubado depois de 25 anos por uma autêntica revolução popular. Quem lembra isso hoje?
A imprensa internacional e o oligopólio brasileiro de mídia das “grandes famílias” são unânimes em omitir tais fatos. Ao contrário, agora o filho do xá exilado é visto por “analistas” na mídia como opção “democrática”, mas todos sabem (e alguns admitem) que não tem apoio nenhum no Irã.
Na atualidade, jornalistas e analistas políticos, bem como cidadãos que se proclamam progressistas, celebram o assassinato ou sequestro de governantes antipáticos pela maior potência militar do planeta, que só deseja roubar e violar todos os países, da Groenlândia ao Irã.
Esse aplauso remete-nos de volta aos anos 1930, quando muitos comemoravam nas ruas a queda da República Espanhola pelo nazifascismo, com crimes como Guernica. “Ah, mas lá era o nazifascismo derrubando a esquerda!” Certamente, o governo do Irã não é de esquerda. Mas quem o atacou não é a versão atual mais abjeta e icônica da extrema direita versão.3M (terceiro milênio)? Isto é, o que importa é quem foi derrubado e não quem derruba?
Então, detenhamo-nos nos antecedentes: em 1931 e com maior ímpeto em 1937, o Japão imperialista invadiu a China governada pelo marechal Chang Kai-shek, assassino em massa de operários e perseguidor do Partido Comunista chinês, obrigando-o empreender a Longa Marcha para o interior do país para se preservar. Caso os japoneses tivessem matado Chang Kai-shek e se apoderado da China, deveriam os socialistas, comunistas e progressistas em geral comemorar, na época?
Ao contrário, Mao Tsé-tung e Chang Kai-shek acabaram realizando (obviamente a contragosto) uma frente única contra os japoneses. Ao final da guerra, o PC chinês, fortalecido em sua guerra camponesa contra o Império Japonês, entrou com seu Exército Popular de Libertação nas cidades, aclamado pelos operários, e expulsou Chang, seu partido e a burguesia que o apoiava para Taiwan. Assim nasceu a República Popular da China (1949), na segunda revolução popular vitoriosa após 32 anos da Revolução de Outubro na Rússia.
2.
Retomando na atualidade o fio argumentativo e ético: quando consideramos detestável certo governante, devemos aplaudir a violência de uma agressão internacional ilegal, ilegítima e imperialista que o sequestra ou assassina?
Devemos ignorar as finalidades imperialistas da potência agressora, como impor seu domínio mundial em declínio, acuar possíveis competidores ascendentes como a China, ampliar seu controle sobre matérias-primas estratégicas como o petróleo e terras-raras, bem como sobre rotas estratégicas, e ainda apoiar seu principal aliado no Oriente Médio – o Estado sionista de Israel, colonialista e persistente no extermínio do povo palestino –, eliminando todos os focos de resistência a ele? Separar os “aspectos ruins” do “aspecto positivo” – a eliminação pela violência imperialista de governantes indesejados e indóceis?
Algumas pessoas aplaudiram o sequestro de Nicolás Maduro e o assassinato de Ali Khamenei. Quando tais manifestações provêm de pessoas da direita, resta apenas lamentar. Em escassas ocasiões, um debate argumentativo como este pode, quiçá, levar à reflexão os (poucos) ainda não envenenados pelas campanhas de ódio do neofascismo contemporâneo.
O problema maior, porém, é quando pessoas que se supõem e afirmam de esquerda – de qualquer matiz – escorregam nesse lamaçal político e ético. Cada endosso adicional às agressões imperialistas abertas de Donald Trump enfraquece o combate pela soberania nacional e pela autodeterminação dos povos e nações, indissociável da luta por direitos e conquistas sociais.
O mesmo se pode dizer da luta pelo direito às migrações e pelos direitos dos imigrantes em cada país. Aplaudir violações do direito internacional e da soberania das nações, valendo-se da força militar superior dos Estados Unidos, fragiliza a defesa dos imigrantes nos próprios EUA, bem como em escala mundial. Afinal, Donald Trump justifica sua violência externa alegando combater regimes opressores e terroristas, ao mesmo tempo que justifica sua política criminosa no próprio país, por meio da milícia ICE, pretextando expulsar bandidos e terroristas.
A hediondez desse imperialismo de crise possui, em todo caso, mais coerência (por óbvio, cínica) do que a dos pretensos progressistas que aplaudem as suas ações externas, “com ressalvas”, culpabilizando os governantes atingidos.
Não há qualquer necessidade de alinhar-se acriticamente com líderes políticos questionáveis, sob diversos aspectos, para assumir uma posição clara e direta contra a política brutal e criminosa do governo estadunidense. Pode-se – e, sob certos aspectos, deve-se – expressar críticas a governantes que não representam alternativas democráticas nem progressistas, ou pendem ao autoritarismo antidemocrático, teocrático ou de qualquer matiz. Mas não é admissível fazer dessa crítica um motivo para relaxar ou atenuar uma oposição firme e uma denúncia explícita às agressões criminosas dos EUA ao Irã, à Venezuela, a Cuba e a qualquer outra nação soberana.
É da natureza do imperialismo capitalista pôr em questão a soberania das nações. Ontem, o argumento era a “globalização”. Hoje, é a chantagem e a agressão pura e simples, como já fora no passado.
Torço também por um mundo onde informações do Crescente Vermelho (por exemplo, sobre a destruição de uma escola para meninas no Irã) recebam tanta credibilidade quanto as da Cruz Vermelha Internacional, quando ambos fazem parte do mesmo movimento internacional. Lemos em redes sociais que a informação procedeu apenas do governo iraniano, o que sugeriria dúvidas sobre sua veracidade. Quando a denúncia é da Cruz Vermelha, tais dúvidas se mantêm? Ora, o Crescente Vermelho é parceiro da Cruz Vermelha nas ações humanitárias, atuando junto aos povos islâmicos.
Por que, então duvidar dessa fonte e dar o benefício da dúvida aos agressores? Por que depender do aval dos grandes órgãos de comunicação, claramente enviesados para a sustentação dos argumentos dos perpetradores do ataque?
*Roberto Vital Anav é pós-doutorado em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).






















