Por CLAUDIO SERGIO INGERFLOM*
A única resposta à barbárie imperial — seja em Gaza, Caracas ou Minneapolis — é uma política feita com o povo, não em seu nome, e alianças redefinidas pela generosidade e não pelo cálculo de poder
Entre ontem, hoje e amanhã
Se o imperialismo norte-americano já copia o russo quando deixa de fingir ou disfarçar seus delitos, se ameaça seus vizinhos Canadá e México, aliados, ou anuncia a seus aliados que vai roubar territórios como a Groenlândia, de que realidade esse último disparate é um sintoma?
É porque ele considera que já não há nada que o impeça? Se Donald Trump está disposto a romper com a OTAN ocupando a Groenlândia, é porque a convergência com Vladimir Putin chegou tão longe que, como previa Curtis Yarvin e agora afirma Serguei Karaganov, ele está decidido a entregar-lhe a Europa? E entregá-la em troca de quê? Se o presidente dos EUA justifica o fuzilamento sem causa de uma cidadã de seu próprio país pela polícia, é porque desapareceram não apenas seus inimigos externos potencialmente capazes de freá-lo, mas também os inimigos suscetíveis de enfrentar com sucesso todo despotismo, seja doméstico ou internacional?
Depois de reler Curtis Yarvin, os relatórios de Valdai e outros autores da mesma constelação, fico pensando: já está tudo decidido? O mundo será como eles prevêem e como a Ucrânia, Gaza, Venezuela e Minneapolis já estão experimentando?
Ou será que a revolta popular no Irã está nos dizendo que, na história, o tradicional “no more bets”, com o qual o crupiê do cassino avisa que “a sorte está lançada, não se aceitam mais apostas”, não passa de uma ilusão estéril de políticos autistas?
Jacques-Alain Miller os retratou explicando por que Jacques Lacan afirmava que os canalhas são inanalizáveis: “Sem escrúpulos, sem decência. Sem hesitações, sem carências. O homem de aço, o canalha perfeito, inabalável, fechado em si mesmo, “um bloco tranquilo caído aqui embaixo de algum desastre obscuro”. O esplendor do canalha, o brilho maligno que lhe é próprio, vem de não ter alteridade: o canalha não admite nem o Outro com letra maiúscula, que não passa de ficção, nem os outros, que não valem nada”.[i]
Há aqueles que se regem por um determinismo teológico, afirmando agir sob a direção imediata de Deus. Em 14 de março de 1936, diante de uma multidão imensa, Hitler declarou: “Eu avanço com a certeza de um sonâmbulo pelo caminho traçado para mim pela Providência”.[ii]
Mais modesto, Vladimir Putin retomou uma frase de um militar do século XVIII: “A Rússia é governada diretamente por Deus”.[iii] Curtis Yarvin é ateu, mas, como Land, reza no altar da alta tecnologia. Todos os acima referidos estão convencidos de que o “livre arbítrio” é monopólio de Deus ou da alta tecnologia, e eles são seus representantes.
Para eterno desgosto dessas legiões do céu ou do Vale do Silício, os humanos – mesmo que talvez não sejam antropologicamente totalmente alérgicos à “anarquia” – são frequentemente tão ousados que, mesmo sem negar esse poder de livre arbítrio à divindade, invertem a fórmula e preferem praticar o arbítrio livre (Kant escreveu sobre essa inversão). Porque a liberdade é um a priori e o outro é o que na filosofia se denomina “falácia naturalista”: deduzir do ser, o dever ser.
Nosso gênio Discépolo[iv] cantarolava: “Cuidem-se, porque ela anda solta / Se ela os pega, ela os derruba / Não dá tempo de escapulir.” Na história, a que “anda solta” é a massa que mastiga, se ilude e “uma bela manhã, o camarada dá um empurrão e, crash!, o ídolo cai por terra”[v]. “Não tive tempo de escapulir”, pode ter pensado Nicolau II, último czar da Rússia: em 19 de setembro de 1905, começa a greve dos tipógrafos de Moscou; em 7 de outubro, a greve dos ferroviários; em 12, greve geral no Império; no dia 13, reuniu-se o Soviete dos deputados operários de São Petersburgo e, no dia 17, foi publicado o Manifesto Imperial que anunciava o fim jurídico da autocracia ilimitada e sua transformação em monarquia constitucional.
Em menos de um mês, aqueles que “não valem nada” derrubaram o que levou três séculos para se consolidar. E apenas doze anos depois, aquele que era protegido pelo céu, venerado como uma divindade desde o século XVII, pagou com a vida e a de sua família, incluindo filhos e filhas menores, por ter acreditado nisso.
“Cuidem-se, porque ela está à solta” e sua fugacidade é inevitável.
O caminho não está prescrito
Aqueles que pedem que “amemos a ausência de Nomos” porque seria a liberdade absoluta e é preciso se adaptar a ela, devem saber que podem ser surpreendidos pela contingência tornada lei, em um Nomos regularmente “amado” por aqueles a quem a lei é negada.
Os poetas têm razão – “Caminhante, não há caminho / o caminho se faz ao andar” (Antonio Machado) – e, às vezes, os filósofos da política: ainda sob a impressão da derrota da revolução operária parisiense em junho de 1848 e em plena noite czarista, contra Hegel e criticado por Karl Marx, Alexandr Herzen escreve em 1849 as palavras fundadoras do populismo russo: “O caminho não está traçado. Se a humanidade caminhasse diretamente para um resultado já conhecido, não haveria história, mas sim lógica. Não há libreto. Se houvesse, a história perderia todo o seu interesse. Não há limites nem caminhos traçados à nossa frente”.
Não haver caminhos traçados também significa que hoje a contingência não pode ser idêntica às anteriores, sob pena de desconsiderar as experiências, em particular as do século XX. Hoje, quando os nostálgicos das eras imperiais, neorreacionários, imperialistas, libertários como Curtis Yarvin e Land ou think tanks como Valdai estão em alta, não se pode enfrentá-los com políticas inspiradas em esquemas habituais.
O tempo está se esgotando. Em 15 de janeiro deste ano, Serguei Karaganov, um dos homens do governo de Vladimir Putin com maior influência em matéria de relações internacionais, escolheu nada menos que o programa de TV de Tucker Carlson, ícone da extrema direita americana, para declarar que (a) “a Europa é hoje o pior inimigo”, (b) provavelmente antes de um ano “a Rússia será obrigada a fazê-la desaparecer do mapa”, (c) a Rússia está convencida de que os EUA, depois de terem salvado a Europa do nazismo (até agora, a Rússia atribuía esse papel a si mesma!), desta vez não intervirão e (d) a China deve moderar suas ambições e compartilhar a hegemonia mundial “com os EUA, a Índia e a Rússia”.[vi]
Quando as alianças são tão instáveis que a OTAN pode congelar na Groenlândia, enquanto a Rússia considera plausível um acordo sino-americano que a relegue à vassalagem e Donald Trump e os CEOs do petróleo se acomodam com o que resta do chavismo, as novas linhas divisórias que há muito deixaram de separar sistemas socioeconômicos antagônicos tornam-se definitivamente visíveis em 2026.
É hora de repensar de que lado cada um se situa, com quem tem mais afinidades, quem é o inimigo irreconciliável da generosidade, da solidariedade, do humanismo…
Argentina – satrapia ou renovação ética da política?
Algumas das frases proferidas pelo presidente argentino em Davos, diante de uma sala semivazia, chamam a atenção. “Estou aqui, diante de vocês, para lhes dizer categoricamente que Maquiavel está morto”. Discutir com o florentino, quinhentos anos após sua morte física, se deixarmos de lado a vulgarização falsificadora do pensamento do autor de O Príncipe – como os boatos sobre sua suposta paternidade do “fim justifica os meios” – é reivindicar a ideia de que é o Céu quem deve decidir as questões políticas.
Uma reivindicação que é também uma das peças angulares da ideologia oficial russa. As frases de Javier Milei sobre “a degradação moral” da Europa e a necessidade de retornar aos valores tradicionais coincidem literalmente com os discursos das autoridades russas.
Seu alinhamento sem reservas com Donald Trump sobre a Venezuela só pode ser interpretado como sua adesão à negação do direito.
No entanto, quando os conflitos internacionais eclodem pela hegemonia imperial em um futuro mundo sem lei, a questão nacional é como ser um país e não uma satrapia de um Império, enquanto a outra questão existencial, para os povos, é como ser sem ser escravos.
Como os critérios das alianças internacionais mudaram, os princípios que regem a constituição de frentes políticas em cada país não podem continuar sendo os mesmos de vinte ou trinta anos atrás. É preciso identificar as novas linhas divisórias e os aliados, pensar em novos slogans, novos objetivos, novas formas de fazer política, mesmo que isso contradiga os costumes estabelecidos.
Mas de nada adianta gritar contra o nazismo, insultar o imperialismo ou vociferar contra a esquerda se não compreendermos que os judeus assassinados pelo Hamas, os palestinos massacrados por Benjamin Netanyahu, os opositores mortos nas prisões de Nicolás Maduro, Renee Nicole Good, fuzilada por um capanga uniformizado de Donald Trump, ou as centenas de milhares de ucranianos que perderam a vida pelas ambições imperiais de Vladimir Putin e seus comparsas exigem, todos eles e elas, repensar quem faz parte de cada um dos pólos do binômio amigo-inimigo.
Levar em conta, por um lado, que todos os perpetradores das tragédias citadas compartilham uma concepção bastante semelhante do poder, embora disputem territórios e recursos ou, no caso das potências, a hegemonia mundial; por outro lado, considerar que, como em Minneapolis, o conflito principal, por sua própria lógica, se desloca, mais uma vez, do âmbito internacional para o interior de cada nação. O poder se volta contra seu próprio povo.
Tentar escapar dessa divisão na Argentina pressupõe, a meu ver, algumas condições indispensáveis. A mudança de época exige abrir ou intensificar o diálogo entre aqueles que têm em comum a rejeição da divisão do mundo em impérios hegemônicos e nações vassalas. Dialogar significa abandonar a ambição de ter a última palavra, ou seja, de se acreditar Deus, para elaborar um espaço comum de perspectivas: “A abertura para o outro implica, portanto, o reconhecimento de que devo estar disposto a deixar valer em mim algo contra mim”.[vii]
Os ataques conjuntos contra a democracia não estão dissociados nem das frustrações, em primeiro lugar econômicas, de uma parte considerável da sociedade, nem das deslealdades daqueles que conseguem encarnar as esperanças.
Embora seja um truísmo, é necessário repeti-lo: sem um projeto econômico que leve em conta os mais vulneráveis, os trabalhadores e a classe média que hoje tentam destruir, o valor da democracia continuará diminuindo e, em vasos comunicantes, aumentará o dos aprendizes de feiticeiros, algo que levou nosso país a viver sua noite mais sinistra. A reorientação da política econômica deve andar de mãos dadas com a batalha cultural: reivindicar a política, a divisão de poderes, o papel do Congresso.
E definir uma ética. Fazer política, não em nome do povo, mas com o povo.
*Claudio Sergio Ingerflom, ex-diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS), França, é professor de história na Universidade Nacional de San Martín, Argentina.
Tradução: Daniel Aarão Reis.
Publicado originalmente na revista Amphibia online, janeiro de 2026.
Para ler a primeira parte clique aqui.
Notas
[i] J.-A,Miller: “La tendresse des terroristes. Troisième Lettre” (2001). https://www.oedipe.org/actualites/lettres-miller/3.
[ii] Citado por Ian Kershaw em sua monumental biografía do chefe nazista: Hitler, Paris, Flammarion,1999 (se guiam por un determinismo teológico, edição original en inglés 1998), t. 1, p.838.
[iii] https://rg.ru/2023/06/01/putin-rossiia-hot-i-upravliaetsia-napriamuiu-bogom-no-sushchestvuet-za-schet-nashih-liudej.html.
[iv] Refere-se a Discépolo Enrique Santos, poeta, compositor e dramaturgo argentino
[v] Hegel: cf. referencia a El sobrino de Rameau, de Diderot, Fenomenología del Espíritu, traducción de W.Roces y R.Guerra, revisada por Gustavo Leyva, FCE, México 2003, p,321. Citado por J.-A.Miller, art, cit.
[vi] Cf. nota 4.
[vii] Cf. H-G.Gadamer, Verdad y Método, Salamanca, Ediciones Sígueme, 2012, p.438.






















