Protestando na igreja

Clara Figueiredo, - e daí_, fotomontagem digital, 2020
image_pdf

Por ALEXANDRE MARUCA*

O vereador que promoveu uma manifestação em prol da vida é ameaçado de cassação

Verdadeira ou não, a parábola do sapo em água quente é representativa de um sintoma presente entre nós: o de que qualquer movimento mais ativo pode atiçar e dar força ao campo oposto. Melhor se acomodar e não mexer no vespeiro que é nossa sociedade conservadora, pois no fim a contra revolta será grandiosa e eles sempre vão ganhar. Morrer aos poucos, sem alarde, é essa a alternativa.

Acontece que, sem negar os inúmeros avanços de cunho econômico e social que tivemos, o que vimos nos 13 anos de governo de esquerda no Brasil foram um aumento expressivo do encarceramento em massa, de remoções e de punitivismo policial. Se sem cutucar a onça não avançamos na diminuição da mortalidade de pretos, pobres, mulheres, indígenas e comunidade LGBTQI antes, porque acreditar que agora será diferente?

As reações sobre o justo protesto contra a morte violenta do congolês Moise e de Durval Teófilo Filho dentro de uma igreja de origem negra no fim de semana, liderado pelo vereador Renato Freitas, são simbólicas a esse respeito.  Os dois personagens negros mortos de forma abjeta no Estado do Rio, como é sabido, o foram em virtude de componentes racistas, que desvalorizam o corpo negro a ponto de projeteis e pauladas serem usados sem nenhum pudor contra sujeitos marcados. O mesmo racismo que levou à construção de igrejas como as de Curitiba, pois a comunidade branca não admitia a mistura em nosso passado colonial, que não cessa de se fazer presente. Hoje, frequentadores brancos sentem-se ofendidos pelo que chamam de invasão à casa de Deus por pessoas reivindicando a vida e a justiça.

O vereador Renato Freitas viveu em diversas ocasiões as marcas da discriminação de forma violenta. Ano passado foi agredido e preso por guardas municipais que viam nele um sujeito perigoso por participar de um protesto contra o presidente defensor das armas. Um vereador negro preso e algemado em meio a uma manifestação é exemplo explícito do racismo presente no país. Não é suficiente ser detentor de poder público. Alguns sinais como cor da pele e grupo a que pertence (no caso dele o PT) são suficientes para que as tais forças da ordem sintam-se emponderadas para descarregar todo um acúmulo de ódio gerado ao longo do tempo.

Retomando o ocorrido no último sábado, há um esvaziamento de significados do que se relaciona à igreja do Rosário dos Pretos e de sua razão de existir. As inúmeras igrejas do Rosário espalhadas pelo país são símbolos de resistência e de socialização de escravos impedidos de frequentar locais utilizados pelas famílias de pele clara. Por que não usar um local, cuja origem está ligada a vidas negras que resistiram, para reclamar as mortes violentas e desumanas por que passam ainda hoje pessoas de pele escura? Há um esvaziamento inclusive do significado original da doutrina da igreja cristã. Afinal, a história na qual se fundamenta o cristianismo não conta que o messias de Jerusalém pregava a favor de pobres e contra a violência?

Não causa espécie, obviamente, a esperada reação da direita em atacar o movimento liderado por Renato. O que chama a atenção é a continuidade do discurso de parte da esquerda que receia que qualquer atitude mais arrojada seja capaz de provocar reações indesejáveis. Óbvio que vão causar, mas o que faz crer que o comodismo nos levará a bom termo? A história recente mostra que não.

Os exemplos de condenações por parte da esquerda de mobilizações mais combativas são fartos. O #elenão teria ajudado a eleger Bolsonaro; incendiar uma estátua que representa assassinos de índios em plena capital paulista é dar arma ao inimigo. A mensagem é: permaneçam calados, sem atrapalhar a política institucional.

Política institucional que não foi capaz de mudar verdadeiramente a situação de repressão sobre os mesmos de sempre no período recente governado pela esquerda.

Alguém pode dizer que não dá para brigar com os números: Bolsonaro melhorou nas pesquisas de 2018 após o #elenão. Mesmo que essa relação direta de causa e efeito possa ser considerada verdadeira, o que fazer então? Melhor não tensionar para não correr o risco de o resultado ser inconveniente? Para que levantar bandeiras de oposição às condições injustas do cotidiano (e esse é um dos grandes motes da esquerda) se de partida deve-se atentar para os limites impostos justamente pelos que não querem mudança? Limites institucionais, limites eleitorais, limites partidários, enquanto isso a mortalidade não cessa.

Há riscos envolvidos em tomadas de atitudes mais diretas mas há risco também, e é grande, em manter as regras do jogo da forma como sempre foram. Um dos grandes impasses colocados na realidade recente é sobre como mobilizar as massas oprimidas a defender seus direitos e os direitos democráticos frente às violências de toda a ordem: institucional, social, policial etc. Uma das formas de se fazer passa por mobilizar, conscientizar, expor, mesmo que isso traga consequências imediatas desagradáveis, como alterações nas intenções de voto.

Cabe também refletir sobre os destinos da esquerda no país. De que adianta ser alçada novamente ao poder se não for capaz de acumular força para pressionar as mudanças? Sabe-se das dificuldades em promover alterações significativas às ordens legal e social no Brasil. Os ataques vieram e virão de diversos flancos e apostar novamente apenas em acordos das mais diversas colorações pode ser um caminho que conduzirá a um passado não de tempos alvissareiros com desempregos baixos e economia acelerada, mas a um passado de tempos sombrios que levaram governos e líderes do PT a andar de joelhos, serem retirados do poder, serem presos. Os tempos são outros, bem mais difíceis, como todos sabem. Se não podemos nem devemos fechar os olhos para as necessidades de acordos políticos, é hora também de deixar de lado o medo de se expor e enfrentar os riscos de levantar debates essenciais, porém encobertos por medos, receios e acordos.

Chega a ser repugnante ver partidos completamente alinhados ao atual governo, que promove a morte de diversas formas e faz uso frequente da estética da arma, cogitarem a cassação de um vereador que promoveu uma manifestação em prol da vida. A hora é de defender Renato Freitas, não de deixa-lo à míngua, como apontam algumas opiniões.

Há um componente a mais neste ano, que é o protofascismo que nos cerca. Isso é inegável. A necessidade de retirada desse governo que atenta contra a vida em todos os sentidos é real, mas o fascismo não se encerra em Bolsonaro. Será suficiente uma troca de governo sem uma base social de apoio? Essa base social pode ser conquistada ou reconquistada através da exposição das chagas que tanto afligem esse país, que nasceu para ser explorado e assim permanece até hoje.

Há riscos neste caminho, como é sabido, mas o caminho da conciliação já foi trilhado, pensando ser o mais seguro, o que não se mostrou verdadeiro. Ou seja, há riscos também em se manter inserido no desenho institucional vigente. E enquanto a briga pelos números permanece as pessoas continuam morrendo, sofrendo, sendo pisadas, chutadas, violentadas. Mortes em silêncio: esse o resultado forjado por uma atitude comodista que ecoa por diversos lados.

De volta à parábola do sapo, melhor seria se a água desta panela fosse fervida a ponto de fazê-lo perceber a arapuca em que está metido. A calmaria é capaz de matar mais do que a fervura.

*Alexandre Maruca é graduado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
5
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
6
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
9
Mapa da desigualdade informacional
19 Jan 2026 Por MARCIO POCHMANN: A desigualdade informacional nasce quando os dados granulares do século XXI residem em oligopólios privados, enquanto o Estado luta para manter a legitimidade e comparabilidade das estatísticas oficiais
10
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
11
Venezuela – epitáfio para uma revolução?
19 Jan 2026 Por LUIS BONILLA-MOLINA & OSVALDO COGGIOLA: A intervenção estadunidense consuma a transformação da Venezuela em protetorado colonial, sepultando o projeto bolivariano sob uma transição que institucionaliza a pilhagem e a submissão
12
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
13
A geopolítica em 2026
18 Jan 2026 Por DMITRY TRENIN: O cenário de 2026 aponta para uma confrontação prolongada e fragmentada
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
A política econômica do nacional-socialismo
20 Jan 2026 Por ROMARIC GODIN: Em um texto recentemente traduzido para o francês, Alfred Sohn-Rethel descreve o mecanismo pelo qual os nazistas, aproveitando-se da crise econômica, implantaram um tipo particular de economia que inevitavelmente levou à guerra e à violência
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES