Por EMILIANO JOSÉ*
Coragem e serenidade em meio à procela: a liderança de João Carlos Salles se agigantou no claro-escuro da crise política, transformando-se na voz firme da resistência acadêmica ao regime dos ataques
1.
Os homens podem ser avaliados de muitas maneiras. Uma delas, e a mim me parece decisiva, é o modo como eles enfrentam tempestades. Como suportam intempéries. Como encaram os monstros surgidos no decorrer delas.
É de Antonio Gramsci, a definição de crise. Quando o velho se recusa a morrer, a sair de cena. Quando o novo ainda não tem força para se impor. Nesse claro-escuro, nesse lusco-fusco, surgem os monstros. Aqui, a crise, a tempestade.
Fácil observar conjunturas assim. Quando as consequências delas desabam sobre os seres humanos, é hora de a onça beber água. Quando a liderança se revela. Se agiganta. Pode, também, submetida ao teste da procela, se apequenar, se acovardar, e então abrir mão da condição de liderança.
Quando então se mostra, ou não, o principal atributo de quem está na vida pública, na política: a coragem, tal e qual definido por Hannah Arendt.
Coragem, nunca sinônimo de arrogância. Ao contrário, a coragem exige serenidade. Combina sempre, ou deve, firmeza e serenidade.
Assim, ela se afirma. Dizendo tudo isso para chegar ao meu protagonista: João Carlos Salles. Um homem de coragem.
Reitor da Universidade Federal da Bahia por duas gestões, entre 2014 e 2022. Fez sucessor: Paulo Miguez, atual reitor. Presidente, naquele meio tempo, da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES). Antes, fora presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia por dois mandatos.
É filósofo, talvez o maior conhecedor de Ludwig Wittgenstein no Brasil, atualmente. Venceu o Jabuti Acadêmico de 2025, com o livro Gatos, peixes e elefantes: a gramática dos acordos profundos, 17º livro dele. Não vou aqui acompanhar a trajetória acadêmica dele, tão densa. Minha ênfase será na capacidade dele de enfrentar tempestades.
No decorrer dos mandatos dele como reitor, abateu-se sobre o país o golpe de Michel Temer e a eleição de Jair Bolsonaro. Período de ataque cerrado às universidades públicas, local das balbúrdias. Foi quando João Carlos Salles se agigantou.
2.
Os saberes acadêmico e político valeram muito. Soube reagir sempre com serenidade e firmeza, com coragem, sem tremer em nenhum momento, sem ser raso. Mostrando-se um intelectual público na mais perfeita acepção da palavra. Capaz de atitudes políticas, estas assumidas como civilizatórias. Se quisermos, intelectual orgânico, na acepção gramsciana, homem de projeto, voltado à militância em favor da emancipação da humanidade.
Talvez, arrisco, todas essas marcas de caráter advindas, além dos laços familiares, da militância política desde muito jovem, desde os tempos do jornal Em Tempo, quando nos encontramos: eu saído havia pouco tempo da prisão, e ele com 15 anos apenas. Aquela militância provavelmente lhe deu régua e compasso.
O monstro rugiu, ameaçou, amedrontou muita gente, espalhou terror. Encontrou João Carlos Salles pela frente. Na reitoria da UFBA, defendendo-a. E por essa capacidade, pela coragem, guindado à condição de presidente da Andifes, quando se tornou a principal voz da resistência acadêmica ao regime dos monstros. Voz serena, profunda, firme. Marcou aquele período.
Na UFBA, iniciou um novo modo de governar – democracia, na veia. Estabeleceu linha direta com estudantes, servidores, professores. Congresso, todo ano. A UFBA tornou-se uma balbúrdia, de fato, no melhor significado. Ganhou vida, intensidade, diálogo permanente entre reitor e a comunidade acadêmica.
A impressionar, em João Carlos Salles, a capacidade política de abraçar o projeto verdadeiramente democrático, representado pela presença sobretudo de Lula na cena política brasileira, sem perder a veia crítica, essencial a qualquer governo progressista. A crítica dele, quando posta, sempre voltada a contribuir para avanços, numa destrutiva.
Depois dos reitorados, dedicou-se aos estudos filosóficos e, além disso, outra vez, à análise do ensino público superior. Aqui, outra vez, não escamoteia sobre os avanços representados pelas políticas dos governos Lula e Dilma Rousseff.
E não deixa de apontar as dificuldades, obstáculos para a afirmação de uma universidade pública, de qualidade, inclusiva, e autônoma, os prejuízos decorrentes do regime dos monstros, e a necessidade de consolidar os avanços conquistados sob os governos de Dilma e Lula, avanços sempre sob ataque, que ninguém duvide.
Soube: está de volta. É candidato a reitor. Um luxo, privilégio para a UFBA. Tem o meu apoio. Pena não vote, por aposentado. Espero vê-lo à frente da minha universidade, novamente.
*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA) [https://amzn.to/46i5Oxb]
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