Letícia Coura

Letícia Coura em Mutação de Apoteose (2024) – registro feito por Ana Peixe, fotógrafa e artista multimídia
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Por ZÓIA MÜNCHOW

A obra de Letícia Coura não se assiste, vive-se; ela transforma plateias em personagens rítmicos e espaços cênicos em paisagens sonoras. Seu teatro é um ritual antropófago que devora convenções para engendrar novas possibilidades de ser

1.

Não estou certo de quando comecei a devorar Letícia Coura, mas tenho certeza de que não consigo parar. Não sei se foi em Rasga Coração, mas tenho certeza de que ela estava de verde e cantava. Na memória, é viva a lembrança de sua entrada em Mutação de Apoteose: as luzes se voltam a ela, todos olham para a entrada do teatro e Letícia, de verde, brilha, toca cavaquinho, canta e, enquanto desce a pista, encanta.

Encantado, encontrei sua potente, bela, diversificada e proliferante obra. Letícia Coura é atriz, cantora, compositora, escritora, diretora, dramaturga, professora, tradutora – e acredito que mais outras coisas que ainda não percebi, e outras tantas que nem ela mesma sabe, pois é movimento em direção ao imprevisto, gozo do mundo como processo e da realidade como aquilo que se constrói.

O contato com a obra de Letícia Coura me faz pensar que ela é tradução do seu nome próprio: alegria. Há um exemplo do que digo: no samba Praça Clóvis, ela canta o canto de alguém que teve a carteira roubada, mas achou barato o roubo, pois livrou-se do retrato do ex que estava dentro dela. Ela canta: “25, francamente, foi de graça!”. Busquem no Spotify e lá encontrarão: Revista do Samba (2002), Outras Bossas (2005), Revista Bixiga Oficina do Samba (2006), Samba do Revista (2014), Hortênsia du Samba (2011), Música das Paredes (2023), HitParedes (2024).

Em minha biblioteca tenho dois livros assinados por ela: Então é isso?, de 2016, e, de 2023, O Coro Antropófago no Bixiga: o processo de criação dos atuadores com a música n’Os Sertões do Teatro Oficina. O primeiro, ainda não lido, é um livro de contos; o segundo, devorado, é o resultado da lapidação de sua dissertação de mestrado (ECA-USP, 2021). Sobre este último, me limitarei a dizer que ele me fez cantar.

A fome de alegria me levou em busca de Letícia Coura e, por isso, no dia 25 de outubro de 2023, fui à Unesp participar de suas oficinas. Em Concentração Cantante, dançamos e cantamos; e, em O Coro Antropófago no Bixiga: o processo de criação dos atuadores com a música n’Os Sertões do Teatro Oficina, conversamos. O efeito das duas foi a alegria: Letícia Coura aumentou nossa potência de agir. Arrastado por minha larica, fui ao Centro da Terra e, no lançamento do primeiro álbum solo de Chicão, tive a experiência do êxtase diante da aparição de Letícia Coura.

2.

Depois que tudo acabou, passei a desconfiar que talvez ela não seja humana. Com fome, aguardei novembro. Letícia constava em duas atividades da programação do Explosão Cultural: Teat(r)o Oficina. Às 19h do dia 13, no vão da história, a força da alegria criou um potente coro que, cantando e dançando, nos conduziu até a sala do Departamento de Filosofia onde ocorreriam os debates.

Na mesa de debates, Letícia Coura começou afirmando que o que havia sido realizado no vão da história, pouco antes, era uma prática de Zé Celso. Ela destacou a importância de incorporar essa prática dentro do Departamento de Filosofia, observando que, embora nas Cênicas a falta de prática já seja perceptível, na Filosofia isso se torna ainda mais alarmante. Letícia ressaltou que a rotina filosófica raramente inclui atividades práticas, limitando-se, em alguns momentos, a discussões enquanto se caminha ou, ocasionalmente, a encontros mais livres e ricos que acontecem durante greves, quando as conversas ocorrem em espaços diferentes e mais dinâmicos.

Segundo ela, a disposição de cadeiras e mesas em espaços de debate aprisiona, enquanto o formato de roda de conversa, que ela frequentemente adota com sua professora, oferece uma experiência muito mais viva e envolvente.

Letícia Coura também argumentou sobre a importância de um diálogo maior com diferentes linguagens – não só com o teatro, mas com outras áreas – ressaltando o valor das práticas que envolvem o corpo, como o canto e o ritmo, defendendo que essas atividades nos tornam mais inteligentes e presentes. Para ela, quando cantamos e mexemos o corpo, transcendemos a mente e nos conectamos de maneira mais profunda, algo que ela própria vem praticando e aprendendo, especialmente com Zé Celso.

Em 2024, com previsão de retornar a São Paulo em agosto, em maio, viajei para o Rio Grande do Sul e, pouco tempo depois, fiquei sabendo que haveria uma curta temporada de Das Paredes, com dramaturgia e direção de Letícia Coura.

A peça tem como personagem principal uma parede em que, incrustadas, vivem: “Quatro cantoras/atrizes/instrumentistas que viverão diferentes situações que descortinarão suas diferentes maneiras de perceber – ou não – a parede que as aprisiona. O espetáculo é dividido em cenas que abordam diferentes tabus, armadilhas muitas vezes difíceis de detectar justamente pelas ‘paredes’ construídas ao longo de tantos anos de patriarcado, sociedades altamente hierarquizadas, com um deus único e masculino, construídas sob o paradigma binário homem / mulher, cabendo a esta sempre a posição inferior. Relembrando o que disse o poeta Maiakovski: é mais difícil mudar um homem do que o sistema de governo de um país. Seria mais fácil mudar uma mulher? (https://bileto.sympla.com.br/event/95330)

3.

Depois de ler essa sinopse no Sympla, minha fome mudou meus planos. Retornei à selva de pedras e, às 20h do dia 22 de julho, assisti a uma das últimas apresentações da temporada. Assim que a fila andou e ultrapassei as portas do teatro, senti o primeiro efeito da peça: o Oficina era outro — os espaços habitualmente reservados ao público encontraram finalidades cênicas.

O segundo efeito foi o deslocamento: fui levado, junto com todo o público, a sair do lugar que primeiro escolhi para me sentar e a escolher, não somente outro lugar, mas também entre quais pessoas eu iria ficar. O terceiro efeito: o figurino não fazia nenhuma concessão às expectativas patriarcais do meu imaginário a respeito da vestimenta feminina. O quarto efeito: a sexualidade das mulheres era outra – não era como a da Mulher de Deus ou como tantas outras que a ela se assemelham nas mais diferentes peças do Oficina. Algo se passou. O quinto: a explicação da relação entre o individual e o coletivo é complicada – e a complicação é explicada. A essa complicada explicação que também é explicada complicação, chamei de “efeito Tom Zé”.

Ao final da peça, no caminho para casa, a sinopse veio à minha mente e relembrei que o poeta Maiakovski disse que “é mais difícil mudar um homem do que o sistema de governo de um país” e que, a partir desse dito, Letícia Coura pergunta: “Seria mais fácil mudar uma mulher?”. Não sou mulher, mas da peça saí modificado. Não por acaso, as tijolas cantam: “o que é uma música? De quem é a música? Sou uma música! Só existe a música, música, música. Só existe a música”. Letícia Coura aprendeu com Zé Celso a cantar antes de conversar – e assim nos transforma em personagens rítmicas, ao mesmo tempo em que nos situa em paisagens melódicas.

Segundo Deleuze e Guattari: “Há personagens rítmicos quando não nos encontramos mais na situação simples de um ritmo que estaria associado a um personagem, a um sujeito ou a um impulso: agora, é o próprio ritmo que é todo o personagem, e que, enquanto tal, pode permanecer constante, mas também aumentar ou diminuir, por acréscimo ou subtração de sons, de durações sempre crescentes e decrescentes, por amplificação ou eliminação que fazem morrer e ressuscitar, aparecer e desaparecer. Da mesma forma, a paisagem melódica não é mais uma melodia associada a uma paisagem, é a própria melodia que faz a paisagem sonora” (D&G, 2006, p. 125-6).

4.

As tijolas cantam o desejo de quebrar as paredes: cantam que “em Tupi não tem o verbo ser”, que só há o agora, “eu, você, aqui”; cantam O Bolero das Esmagadas; cantam que querem ficar mais velhas a cada dia e que querem cabelos brancos e rugas; cantam a vulva refletida nas águas; cantam convidando a cantar! É cantando que elas fazem de sua condição uma situação: as tijolas-sujeito se transformam em personagens rítmicas e as paredes em paisagens sonoras feitas pela própria melodia. As tijolas olham a vulva no espelho das águas para compará-la a outras coisas — e não encontram nada mais bonito. O pênis não é mais a medida de todas as coisas. Elas cantam uma amante cuja boca lhes faça jorrar mais água que uma fonte. Cantando, elas não mudaram o sistema, mas certamente mudaram homens e mulheres e abriram outras possibilidades de “eu, você, aqui e agora”.

Há alguns meses, na timeline do meu Instagram, tive a grata surpresa de encontrar mais alimento para minha alegria. Mexendo no celular, me deparei com a imagem, em preto e branco, de Letícia Coura prestes a tocar e cantar. No transcorrer do vídeo identifiquei outros rostos importantes e, na legenda, fui informado de que se trata de uma composição assinada por Cafira Zoé, Camila Mota e Letícia Coura. O samba imediatamente me trouxe à memória o momento em que, num dia ensolarado de fevereiro, sob a Av. Júlio de Mesquita, no cruzamento da Rua Humaitá com a Jaceguai, usando voz e cavaquinho, Letícia Coura se conectou ao carro de som do bloco de carnaval e, num átimo, se fez esplendorosa personagem rítmica e transformou a paisagem concretada em paisagem sonora. As paredes, os muros e o viaduto não conseguiam mais nos aprisionar: a melodia havia nos envolvido numa paisagem sonora, e já não éramos mais sujeitos — havíamos nos tornado personagens rítmicas.

Tentei devorar Letícia Coura e terminei devorado: de sujeito passei a personagem rítmica; de uma paisagem com melodia associada, passei às paisagens sonoras feitas pela própria melodia; entrei tijolo emparedado e, do teatro, saí alegria (Laetitia: Letícia) musical. Desconfio que a única explicação plausível para essas mutações se encontra no fato de que, quando interpretou Tarsila do Amaral, Letícia aprendeu a fazer Macumba Antropófaga: ela nos devora para nos transformar em música — afinal, como bem cantam as tijolas de Das Paredes, “Só existe a música”.

*Zóia Münchow é doutorando em filosofia na USP e professor no Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS).

Referências


Site da artista: https://leticiacoura.com.br/


Trabalho da artista no Spotify:


Bam, Bam, Bam (1998) – Letícia Coura

Letícia Coura canta Boris Vian (2001) – Letícia Coura

Revista do Samba (2002) – Beto Bianchi, Letícia Coura, Vitor da Trindade e convidados

Ao contrário (2012) – Letícia Coura e Adriana Capparelli

Aos contrários (2012) – Adriana Capparelli e Letícia Coura

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. São Paulo: Ed. 34, 2012.

QUATRO cantoras/atrizes/instrumentistas que viverão diferentes situações… [Descrição do espetáculo]. Disponível em: https://bileto.sympla.com.br/event/95330.


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