O acontecimento

Joachim Koester, Acampamento Sul nº 3
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Por ANA LUIZA DA SILVA SANTOS*

Considerações sobre o livro de Annie Ernaux

1.

Poderia uma obra sacra servir de trilha sonora para uma heresia? Poderia o aborto, interditado, silenciado e criminalizado, ser sentido para além de quem o vive, como experiência estética, ética e histórica? O acontecimento, de Annie Ernaux, parece responder afirmativamente a essas perguntas ao nos oferecer um relato seco, clínico e fatal, que não pede absolvição nem indulgência.

Trata-se de um livro que narra um fato, e o sustenta até o fim, sem metáforas redentoras. Publicado a partir da memória de uma experiência vivida na França dos anos 1960, antes da legalização do aborto pela Lei Veil em 1975, O acontecimento narra a história de Annie, jovem universitária francesa, estudante de Letras, intelectualmente promissora, que engravida após um encontro casual.

Não ter o bebê sempre foi uma opção. Escolha que não surge como impulso, mas como decisão elaborada, racionalmente construída ao longo da narrativa. Católica, formada em uma família cristã, conhecedora dos códigos morais, dos pecados e das heresias, ela decide abortar em um contexto estruturalmente machista, no qual o corpo feminino é regulado por discursos médicos, jurídicos e religiosos.

A gravidez indesejada surge como ruptura absoluta: não apenas biológica, mas simbólica, social e temporal. O acontecimento fratura o curso da vida. A partir desse instante, tudo se reorganiza em função de um único objetivo: interromper a gestação. Num contexto em que o aborto era crime, tabu e condenação moral, a narradora passa a viver em estado de clandestinidade. O mundo exterior continua, mas para ela o tempo se condensa. Há apenas um antes, que já não importa, e um depois que depende da consumação do ato.

É nesse ponto que a experiência narrada por Annie Ernaux dialoga concretamente com a formulação de Simone de Beauvoir. A frase, tantas vezes repetida como aforismo abstrato, ganha aqui densidade histórica: “Tornar-se mulher não é um dado natural, mas um processo atravessado por estruturas, interdições e violências”. A gravidez compulsória, a clandestinidade, o medo e a solidão evidenciam que a condição feminina não é destino biológico, mas construção social imposta e, ao mesmo tempo, disputada.

Em O acontecimento, tornar-se mulher é ser confrontada brutalmente com os limites que a sociedade impõe ao corpo feminino. É experimentar, na própria carne, como o tempo, o olhar do outro e as instituições moldam a subjetividade. Ao decidir abortar, Annie não apenas interrompe uma gestação, ela reivindica a possibilidade de construir a si mesma para além da função reprodutiva que lhe é socialmente atribuída.

Assim, a objetividade da experiência, física, concreta, material, revela a verdade existencial da frase de Simone de Beauvoir: a mulher se faz na história, e é nela que luta para existir como sujeito.

2.

Annie Ernaux escreve sem adornos. Seu texto é cirúrgico, preciso, como se a linguagem precisasse eliminar qualquer excesso para dar conta da violência do vivido. Não há sentimentalismo. Não há dramatização retórica. A secura é ética. O que está em jogo não é apenas a busca por alguém que realize o procedimento, mas o confronto constante com uma rede de micropoderes: médicos que silenciam, colegas que julgam, olhares que condenam, palavras que não são ditas, mas pesam.

O corpo da narradora torna-se território público, regulado por normas morais e sociais que a empurram para a solidão. Não há acolhimento. Há vigilância. Nesse sentido, o aborto não é apenas um ato médico ou jurídico, mas uma experiência total de exposição, medo e espera. Annie vive suspensa num presente absoluto. O tempo se contrai até tornar-se quase insuportável. Tudo converge para o momento do fato consumado, o instante em que o acontecimento deixa de ser expectativa e se torna realidade irreversível.

É nesse ponto que o diálogo com A paixão segundo São João, de Johann Sebastian Bach, se impõe com força. Composta em 1724 e baseada no Evangelho de João, a obra é uma das expressões máximas da espiritualidade barroca. Na tradição cristã, “paixão” não significa amor romântico, mas sofrimento extremo, padecimento, travessia da dor. A narrativa musical acompanha julgamento, condenação e execução.

Não há suavização do suplício. Há tensão, dramaticidade, confronto. A estética barroca, inserida no contexto da contrarreforma, buscava não apenas explicar a fé, mas fazê-la sentir. O drama, o contraste, a intensidade emocional eram estratégias de permanência de um sistema teocêntrico ameaçado pelo avanço de racionalidades modernas.

A música de Johann Sebastian Bach, nesse sentido, não é apenas arte, é pedagogia sensível. Ela mobiliza culpa, temor, comoção. O ouvinte não permanece neutro: participa do julgamento. A coletividade assume a responsabilidade pelo suplício.

Assim como na Paixão, em Annie Ernaux há julgamento. Ainda que silencioso, ele é constante. A narradora sente-se observada, acusada, moralmente situada em um tribunal difuso. Seu corpo é o réu. A sociedade, a multidão invisível, ocupa o lugar daqueles que clamam por condenação. A diferença é que, aqui, não há transcendência. Não há promessa de redenção. Há apenas a materialidade do corpo e a urgência do gesto.

Se O acontecimento tivesse uma trilha sonora, poderia ser A paixão segundo São João. Não por analogia religiosa simplista, mas pela estrutura afetiva que ambas compartilham: intensidade, contenção, dramaticidade sem ornamento sentimental. Quando o feto finalmente deixa o corpo de Annie, o que se impõe é o fato consumado.

Assim como na crucificação, o corpo foi executado. O acontecimento se deu. Não há catarse. Há silêncio. Curiosamente, após a morte de Cristo, Johann Sebastian Bach não encerra sua obra em desespero absoluto. Há gravidade, mas há continuidade. A música prossegue. O mundo não para. Do mesmo modo, após o aborto, a vida de Annie continua. Não há punição divina nem redenção metafísica. O sofrimento não é romantizado nem sacralizado. Ele é atravessado.

O encontro entre Annie Ernaux e Johann Sebastian Bach revela uma tensão profunda entre sagrado e profano. O que é considerado pecado por uma moral religiosa torna-se, na escrita de Annie Ernaux, experiência histórica concreta, inscrita no corpo feminino. O que na tradição cristã é sacrifício redentor, aqui é decisão solitária. A heresia não se afirma como provocação, afirma-se como necessidade.

Durante a leitura, Annie Ernaux menciona a Paixão de Cristo. Não sei se como metáfora consciente ou memória cultural. Ainda assim, essa referência permite imaginar Johann Sebastian Bach como trilha afetiva da narrativa. Sua música poderia substituir a cena escrita do aborto sem perda de sentido: ambas trabalham a violência sem espetáculo, a dor sem moralização, o confronto entre lei e corpo, entre julgamento coletivo e experiência individual.

O paralelo entre Annie Ernaux e Johann Sebastian Bach emerge uma experiência limite: aquela em que corpo, história, religião e poder se cruzam. Um acontecimento que não pede absolvição, mas escuta.

*Ana Luiza da Silva Santos é estudante de direito na PUC-SP.

Referência


Annie Ernaux. O acontecimento. Tradução: Isadora de Araújo Pontes. São Paulo, Fósforo editora, 2022, 80 págs. [https://amzn.to/3NldM1O]

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