As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Oriente Médio – muitas dúvidas e poucas certezas

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FLÁVIO AGUIAR*

Os fatos que deflagraram a atual onde de horrores na Palestina ainda carecem de respostas convincentes, e não apenas de versões e contraversões

“Parodiando Descartes, hoje a gente pode dizer, pode não, deve:
duvido, logo penso” (Tarciso Roberto, filósofo).

Quem tenha nem que seja uma gota de humanismo nas lentes com que olha o mundo, não pode deixar de experimentar um luto perplexo diante do que aconteceu, está acontecendo e deve acontecer nesta nova fase da guerra entre o governo de Israel e o braço militar do Hamas, sacrificando vidas aos borbotões de ambos os lados.

Mas junto com a emoção é necessário pensar. E de começo é necessário abrir-se para a corrente (torrente?) de dúvidas que este massacre mútuo deflagra. Sublinho: dúvidas. Nada mais que dúvidas. Mas nada menos.

A primeira dúvida que se atravessa no caminho é a que pergunta sobre o que, afinal, aconteceu com os serviços de inteligência de Israel e/ou em torno deles. Há aspectos técnicos e políticos nesta dúvida. Tecnicamente muitos especialistas levantam a possibilidade de um excesso de confiança no aparato tecnológico de que estes serviços dispõem. Sublinham a ideia de que o Hamas preparou seu ataque em surdina, recusando o uso de tecnologias avançadas e privilegiando o contato humano direto entre seus militantes, evitando computadores, smartphones e outras parafernálias semelhantes.

Pode ser. Mas o aspecto que mais me interessa é o político. No meio da saraivada de versões e contraversões que se seguiram, me chamou a atenção a frase de um militar graduado israelense dizendo que era necessário uma investigação sobre o que acontecera, mas que isso viria depois: primeiro a guerra, disse ele. Isto não deixa de ser uma tentativa de tapar o problema com uma peneira, porque é perfeitamente possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Até na Guerra do Vietnã, para não citar outros exemplos, houve guerra e investigação simultaneamente.

Outro “detalhe” que me chamou a atenção foi a denúncia, atribuída a um oficial também graduado do serviço de inteligência do Egito, que teria preferido permanecer no anonimato, de que este teria advertido o serviço correlato e o governo israelenses de que “algo grande” estava sendo preparado pelo Hamas na Faixa de Gaza. Esta advertência, segundo a mesma hipotética fonte, teria sido feita, inclusive, diretamente ao primeiro ministro Benjamin Netanyahu.

Michael McCaul, deputado norte-americano do Partido Republicano, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, aventou a versão de que haveria até uma carta entregue ao governo israelense. Nada disto foi confirmado, e é claro que o governo de Israel e o próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu negaram veementemente terem recebido qualquer aviso a respeito.

Mas a dúvida continua, e se amplia, repetida por vários comentários na mídia ocidental, pró-Israel. Não houve qualquer percepção do que algo estava sendo preparado? Se houve alguma, e seguiu-se o necessário aviso, este não foi levado a sério? Trocando em miúdos e graúdos, o que de fato teria acontecido, negligência na percepção ou negligência na avaliação?

O fato é que o atual governo israelense – o mais direitista e truculento da história do país – estava sob enorme pressão interna devido à tentativa de neutralizar o poder judiciário, aliviando a ameaça que paira sobre a cabeça de Benjamin Netanyahu, acusado em três processos por corrupção. Neste sentido, ainda que de modo contraditório, o presente recrudescimento da guerra caiu-lhe como uma luva, garantido-lhe uma sobrevida política graças à formação de uma frente de unidade nacional com a oposição.

Fica a dúvida sobre a extensão desta sobrevida. Seus correligionários garantem que Netanyahu sairá reforçado desta hecatombe. Vozes mais críticas alertam que ele sairá enfraquecido, devido à sombra de negligência que paira sobre seu governo e os serviços de inteligência e militares correlatos. Outra dúvida paralela levanta a questão de que haveria divisões irreparáveis no interior do governo, do aparato de segurança e do militar devido às contradições políticas provocadas pela tentativa de controle dobre o Poder Judiciário e a enorme reação negativa provocada na população do país.

Fica uma meta-dúvida amarga no meio do caminho deste emaranhado de contradições. Se houve algum tipo de advertência, por que não houve a ação preventiva? Apenas descuido? Ou um cálculo mal feito sobre a nova capacidade de ação bélica por parte do Hamas? Nesta segunda hipótese – reitero, nada mais que uma hipótese, mas nada menos – não teria havido apenas culpa por parte do governo israelense. Teria havido culpa e dolo, misturadamente.

Para reagir diante da evidente negligência, seja de que tipo for, culposa, dolosa ou ambas, o governo de Benjamin Netanyahu redobrou a truculência militar e verbal de sua tradicional ação contra Gaza e sua população. O termo “animais humanos” em referência ao Hamas, proferido por um dos mais reacionários membros deste governo, caracterizou tal reação. O cerco sem pão, sem água, sem combustíveis, sem remédios, com a profusão de bombardeios aéreos como de costume atingindo alvos civis, a que o povo de Gaza foi e está sendo submetido, corroborou o horizonte de violência traçado pelo governo de Tel Aviv.

A truculência, no entanto, teve um efeito bumerangue: o governo israelense, fustigado pelo jornal liberal Haaretz, perdeu a primazia da narrativa sobre a guerra, pelo menos em parte. É verdade que a profusão narrativa que se seguiu ao 7 de outubro semeou muita confusão no espaço midiático, com subterfúgios que foram se tornando evidentes. Dou dois exemplos:

(i) Divulgou-se um vídeo com dizeres ofensivos sobretudo às mulheres israelenses como parte da gigantesca manifestação pró-Palestina, que houve em Londres. Depois, segundo pesquisa da Associated Press, ficou evidente que tal vídeo era de outro episódios ocorrido em 2021, e ainda havia dúvidas sobre a trilha sonora que agora o acompanhava.

(ii) Até hoje não se sabe muito bem o que aconteceu com o caso dos “bebês degolados” supostamente pelo Hamas, cujas imagens até hoje não foram confirmadas, e a suspeita de que pertencem também a acontecimentos passados, e sabe-se lá onde.

E houve ainda o caso curiosos de denúncias que os armamentos usados pelo Hamas em seu ataque teriam vindo… da Ucrânia! Também não houve provas a respeito.

O fato é que, se de início, como sói acontecer, os governos ocidentais e a mídia correlata se solidarizaram irrestritamente com Israel, aos poucos este “gestus” político foi sendo compartilhado com as imagens do sofrimento da população civil em Gaza. O discurso que o governo israelense tentou manter, de que dera “tudo” financeiramente para o Hamas e a população de Gaza, ficou rodando no vazio.

E o Hamas, nisto tudo? Bem, para começo de conversa, o Hamas é uma organização muito complexa. Além do braço militar, possui um braço de ação social e uma ação religiosa de extração sunita. Disputa a liderança entre os palestinos com a Autoridade Palestina, a Organização pela Libertação da Palestina e a Fatah, maior ala desta. Controla com dureza a Faixa de Gaza, onde venceu eleições em 2006. Além de Israel,  seis outros países (EUA, Canadá, Austrália, Japão, Reino Unido e Paraguai) e a União Europeia consideram o Hamas uma organização terrorista, mas a ONU não o faz. O Brasil, como de hábito, segue a orientação da ONU.

De qualquer modo, a ação empreendida pelo Hamas no 7 de outubro teve um caráter terrorista, de agressão aberta à população civil e granjeou-lhe uma condenação internacional.

Qual era o objetivo político desta ação do Hamas? Afirmar-se ou reafirmar-se como a principal organização palestina? Minar a aproximação entre Israel e outros países árabes, em particular a Arábia Saudita, também sunita? Desmoralizar o aparato de segurança de Israel? Tudo isto e mais alguma coisa? Aquele último objetivo (desmoralizar…) foi parcialmente atingido, mas o custo pode lhe ser muito alto, não só pelo peso da esperada retaliação israelense, mas também porque a martirização dos palestinos na Faixa de Gaza, que fatalmente acontecerá com uma invasão israelense, poderá ter um efeito bumerangue, custando ao Hamas a liderança que obteve a partir de 2006.

Ficam outras perguntas pelo ar. Como entrou em Gaza, desapercebido, o novo armamento e outros dispositivos utilizados na invasão de 7 de outubro? Como foi feito o treinamento com eles? Somente a existência de uma rede de túneis no subsolo de Gaza não responde tais perguntas.

Não se tratou de umas poucas armas, drones e objetos semelhantes; foi uma carga de porte imenso, que deve ter levado tempo para chegar a Gaza e ser armazenada. Pelo ar não veio. Pelo Egito, é difícil, embora o Hamas disponha de alianças aí. Pelo mar, esgueirando-se por entre a vigilância naval israelense e a egípcia?Como é possível que ninguém tenha percebido nada? Além do monitoramento constante por parte de Israel, também o Egito do general Al-Sisi monitora de perto o Hamas, por suas ligações com a Irmandade Muçulmana, que o golpe militar do general derrubou do governo.

Outra dúvida imensa é sobre o rearranjo que essa nova fase da guerra provocará no cenário geopolítico. É cedo ainda para fazer previsões, para além das tradicionais alianças e lealdades recorrentes. De momento, uma coisa é certa: a guerra na Ucrânia passou para segundo plano. O que isto implicará?

Não se pode esquecer, por outro lado, que a liderança de Benjamin Netanyahu em Israel favoreceu o crescimento do Hamas, graças à contínua sabotagem dos acordos de paz e pelo esforço contínuo de impedir a construção dos dois Estados paralelos, conforme a resolução original da ONU, reafirmada até hoje.

Neste sentido, se inimigos são, e são, Hamas e Benjamin Netanyahu, sobretudo nesta sua última coligação com a extrema direita fundamentalista de Israel, são vinhos da mesma cepa, ou “irmãos siameses”, como expressou amigo meu sobre a questão. Ao contrário de Carl von Clausewitz, para quem a guerra seria “a continuação da política por outros meios”, para Hamas e Netanyahu 1.0, 2.0 ou seja lá que .0 ele ainda venha a ser, a política é uma mera continuação da guerra. Ambos dependem um do outro.

Por mais distante que pareça estar, a única alternativa diante desta situação de hoje é continuar reafirmando as resoluções da ONU a respeito, com a proposta de construção dos dois Estados e, por mais difícil que seja, a busca do reerguimento da Autoridade Palestina, além do favorecimento das forças democráticas e pacificadoras dentro de Israel.

Por isto mesmo tomo a liberdade de considerar que, se Benjamin Netanyahu é um grande problema, o Hamas está longe de ser uma solução. E vice-versa.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Anselm Jappe Kátia Gerab Baggio Denilson Cordeiro Chico Whitaker Maria Rita Kehl Leonardo Boff Mário Maestri Julian Rodrigues Luiz Bernardo Pericás Leda Maria Paulani Roberto Noritomi Airton Paschoa João Sette Whitaker Ferreira Chico Alencar Fábio Konder Comparato Antonino Infranca Paulo Sérgio Pinheiro Luciano Nascimento Liszt Vieira Luiz Eduardo Soares Marcelo Guimarães Lima Luiz Werneck Vianna Manchetômetro Slavoj Žižek Jorge Luiz Souto Maior Everaldo de Oliveira Andrade Salem Nasser João Lanari Bo José Micaelson Lacerda Morais Claudio Katz Juarez Guimarães Priscila Figueiredo Alexandre de Freitas Barbosa André Márcio Neves Soares Francisco Pereira de Farias José Dirceu Daniel Afonso da Silva Eleutério F. S. Prado Luis Felipe Miguel Ronald León Núñez Rubens Pinto Lyra Gabriel Cohn Fernando Nogueira da Costa Marjorie C. Marona Lucas Fiaschetti Estevez José Luís Fiori Igor Felippe Santos Francisco de Oliveira Barros Júnior Boaventura de Sousa Santos Eugênio Trivinho Marcos Aurélio da Silva Jean Marc Von Der Weid Ricardo Musse Bento Prado Jr. Jorge Branco Francisco Fernandes Ladeira Paulo Fernandes Silveira Milton Pinheiro Ladislau Dowbor Vladimir Safatle Remy José Fontana Alexandre de Lima Castro Tranjan João Carlos Loebens Annateresa Fabris João Adolfo Hansen Luiz Costa Lima Antonio Martins Ronaldo Tadeu de Souza Sandra Bitencourt Vanderlei Tenório Michael Roberts Carlos Tautz Michael Löwy Ricardo Antunes Dennis Oliveira Afrânio Catani Valério Arcary Elias Jabbour Érico Andrade Ricardo Abramovay Marcus Ianoni Flávio R. Kothe André Singer Fernão Pessoa Ramos Otaviano Helene Bruno Fabricio Alcebino da Silva Luiz Roberto Alves Andrew Korybko Paulo Nogueira Batista Jr Tarso Genro Carla Teixeira Renato Dagnino Luís Fernando Vitagliano Eleonora Albano Flávio Aguiar Bruno Machado Lorenzo Vitral Lincoln Secco Antônio Sales Rios Neto Heraldo Campos Bernardo Ricupero Tadeu Valadares José Costa Júnior Walnice Nogueira Galvão Thomas Piketty Ari Marcelo Solon Daniel Costa Vinício Carrilho Martinez Sergio Amadeu da Silveira Tales Ab'Sáber Eliziário Andrade Gilberto Maringoni Luiz Renato Martins Luiz Marques José Raimundo Trindade Samuel Kilsztajn Henry Burnett Armando Boito Yuri Martins-Fontes Anderson Alves Esteves Rafael R. Ioris Henri Acselrad José Machado Moita Neto Leonardo Avritzer Celso Frederico Gilberto Lopes Dênis de Moraes José Geraldo Couto Berenice Bento Marcos Silva Marilena Chauí João Carlos Salles Ricardo Fabbrini Leonardo Sacramento Eduardo Borges Osvaldo Coggiola Ronald Rocha Alysson Leandro Mascaro Mariarosaria Fabris Rodrigo de Faria Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Capel Narvai Manuel Domingos Neto Eugênio Bucci Luiz Carlos Bresser-Pereira Plínio de Arruda Sampaio Jr. Benicio Viero Schmidt Jean Pierre Chauvin Atilio A. Boron Gerson Almeida João Paulo Ayub Fonseca Marcelo Módolo Valerio Arcary Marilia Pacheco Fiorillo Daniel Brazil João Feres Júnior Paulo Martins Celso Favaretto Caio Bugiato Roberto Bueno

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada