A produção ensaística de Ailton Krenak

LEDA CATUNDA, Gotas transparentes, 2021, acrílica s/ plástico e tecido, 300 x 380 cm
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Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES*

Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Krenak esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza

Ailton Krenak é uma figura de projeção nacional desde o dia em que subiu na tribuna da Constituinte e, pintando sua cara com barro preto, fez um contundente discurso sobre os direitos dos povos indígenas. Sua produção, no entanto, ganhou outro alcance nos últimos anos, quando, já uma liderança social completamente consolidada, passou a publicar, pela Companhia das Letras, uma série de pequenos ensaios com títulos contundentes e conteúdo instigante.

Até o momento são três: Ideias para adiar o fim do mundo, de 2019 (com uma segunda edição de 2020); A vida não é útil, de 2020; e Futuro ancestral, de 2022. Suas publicações não se restringem a esses três títulos e sua participação na vida brasileira vai muito além do que se pode quantificar pela listagem de suas obras, mas acho justo dizer que são essas três publicações que lhe garantirão permanência na cultura nacional.

Classifico suas intervenções como ensaios porque elas me parecem um experimento poderoso no gênero. Fruto sempre de suas falas, os textos escritos são textualizações de grande impacto de suas ideias. A consequência de seu pertencimento ao gênero parece vir, exatamente, da novidade de seu pertencimento à oralidade: suas ideias fluem de um lado a outro, o que garante uma abrangência a seu pensamento com a qual não estamos mais acostumados numa era de hiperespecialização.

O outro lado da moeda é que seu pensamento, pela fluidez que lhe garante a eficácia reflexiva e estilística, não possui forma sistemática ou mesmo rigor terminológico. Para o horizonte de sua produção, isso não se configura como um problema, mas tem consequências quando se tenta juntar suas ideias num todo coeso com o qual se possa discutir. Talvez esse seja um defeito não apenas de seus livros, mas do gênero a que pertencem: o ensaio implica uma identificação entre o pensamento e a enunciação que torna o pensamento refém de uma vinculação do leitor com o sujeito implicado pela enunciação das ideias e não com as ideias em si. Isso porque, no caso do ensaio, o sujeito que enuncia é a parte constitutiva mais importante da própria ideia que se enuncia.

Daí o entrecruzamento tão comentado entre literatura e filosofia nesse tipo de texto. O problema, obviamente, está do meu lado, que pretendo tomar suas ideias como um conjunto coeso com o qual possa abrir discordância, e não do gênero em si, que nessa indeterminação guarda talvez a parte mais interessante de sua eficácia.

Seja como for, é difícil até mesmo sintetizar as ideias que o autor defende para delas poder se distanciar. Um exemplo para não ser acusado de abstracionismo: a noção de humanidade, que é a mais importante de seu pensamento, aparece em momentos distintos com conotações diferentes. Ora a humanidade é o ocidente, ora ela é algo negado a populações excluídas.

Em Ideias para adiar o fim do mundo, ele nos diz que a “humanidade” foi algo inventado pelo Ocidente para justificar o processo de colonização (p. 11); ainda no mesmo livro ele oferece a definição mais polêmica dizendo a noção de humanidade é uma invenção ocidental que se baseia na diferenciação ontológica entre homem e natureza. As duas definições não se identificam completamente, mas podem dialogar.

Mas a surpresa vem quando, na primeira frase do próximo livro, A vida não é útil, ele nos diz: “Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre (…)”.[i] De um uso negativo do termo que perpassa toda sua produção ele pula para outro positivo, parecendo reivindicar a necessidade de incluirmos os seres não-humanos na nossa noção de humanidade, agora transformada em algo bom. O exemplo é singelo, mas ilustra bem tanto o tipo de pensamento que o autor pratica quanto a dificuldade de transformá-lo num sistema.

Não digo nada disso para exigir sistematicidade de um pensamento que se quer propositalmente ensaístico, mas para pontuar a dificuldade do que fazer com tal pensamento. Pesares de lado, gostaria de defender que as ideias expostas pelo autor, mesmo com seu grau de indeterminação, apresentam um caráter anticapitalista e reacionário. Dito de forma simples, é o seguinte. Ailton Krenak é alguém que conhece como ninguém as consequências devastadoras do que chamamos de capitalismo e, por isso, seu pensamento é inveteradamente anticapitalista.

Mas ele não para aí. Compreende como ninguém os pressupostos filosóficos do Ocidente, não por tê-los estudado, mas por tê-los vivido em seu cotidiano como catástrofe – e, exatamente por isso, nega-os do princípio ao fim. E aqui encontramos o reacionarismo de sua resposta à ação devastadora do capital. Ailton Krenak confunde capitalismo com desenvolvimento técnico e tecnológico, e mesmo com a atividade científica, que ele parece compreender tão pouco. Pela leitura de seus livros, sentimos ainda o autor confundir capitalismo com modernidade, e nega tudo como se todos os gatos fossem pardos.

Num determinado momento, falando sobre o desprestígio dos estudiosos da biodiversidade em meados do século XX, ele solta uma pérola: “Quem já ouvia a voz das montanhas, dos rios e das florestas não precisa de uma teoria sobre isso: toda teoria é um esforço de explicar para cabeças-duras a realidade que eles não enxergam”.[ii] Aqui se contrapõem as duas visões que ele acabará por conflitar em todo seu trabalho. De um lado, aqueles que ouvem as vozes da montanha e, de outro, os cabeças duras. Na sua visão, a realidade é transparente e não precisa de investigação para ser decifrada: resta aos cabeças-duras a necessidade de elaboração de uma teoria para explicar algo que é evidente para aqueles que estabelecem com a natureza uma relação mística.

Trata-se, ao fim, disso mesmo: de maneira sistemática, Ailton Krenak irá jogar o bebê fora com a água do balde e pretender que a solução para os problemas do nosso mundo se encontrará na volta a uma relação com o ambiente baseada em misticismo, evitando o trabalho árduo da ciência. A lei da gravitação de Isaac Newton e toda sua mecânica, obviamente, estavam evidentes para quem quisesse ouvir a voz dos rios e aquela matemática toda é só o exercício para convencer os cabeças-duras que não viam, como fato óbvio que a voz dos rios nos revela, que no denominador a distância entre os corpos deve estar ao quadrado.

Vejamos aquela que é sua ideia fundamental, a de que o Ocidente está baseado numa noção falsa de distinção entre o homem – transformado na humanidade – e a natureza. Ele nos diz: “Enquanto isso – enquanto o lobo não vem –, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja a natureza. Tudo é natureza. Os cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza”.[iii].

Mais a frente ele diz: “Enquanto isso, a humanidade vai sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a Terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes – a sub-humanidade. Por que tem uma humanidade, vamos dizer, bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra, parece que eles querem comer a terra, mamar na terra, dormir deitados sobre a terra, envoltos na terra. A organicidade dessa gente é uma coisa que incomoda, tanto que as corporações têm criado cada vez mais mecanismos para separar esses filhotes da terra de sua mãe: “Vamos separar esse negócio aí, gente e terra, essa bagunça. É melhor colocar um tratos, um extratos na terra. Gente não, gente é uma confusão. E, principalmente, gente não está treinada para dominar esse recurso natural que é a terra.” Recurso natural para quem? Desenvolvimento sustentável para quê? O que é preciso sustentar?”[iv]

As duas citações mostram bem a radicalidade de seu anticapitalismo e o diagnóstico certeiro daquilo que sustenta o ocidente: a potencialização de uma distinção entre o homem e a natureza. Não se trata apenas de uma crítica ao capitalismo, mas de uma crítica a essa potencialização que muito o precede e que, provavelmente, muito o superará. O ponto é fundamental, porque dele depende uma compreensão da verdadeira radicalidade do pensamento de Ailton Krenak.

Ele não simplesmente critica um modo de produção, mas a perspectiva de potencialização da capacidade interventora do homem na natureza. Essa primeira confusão é importante, porque ela terá consequências. Não é apenas a sociedade capitalista que opera sobre a base de uma distinção entre homem e natureza, mas, a rigor, toda forma de civilização, o que implica toda organização do trabalho e toda linguagem. Ou seja, em qualquer uso da linguagem e em qualquer organização do trabalho está colocado no centro dos problemas a distinção entre o homem e a natureza para a criação de um ambiente mais favorável à existência humana.

Toda forma de trabalhar e de usar a capacidade linguística implica, portanto, na nossa separação da Terra. Transformar a natureza que nos circunda em objeto de nossa investigação e em recurso para a construção de uma vida que supere as limitações que o ambiente natural impõe é um fato antropológico geral, inscrito no próprio ato de nomear.

Aliás, a própria linguagem parece uma ferramenta primitiva de funcionamento complexo para tomar posse da natureza e nela intervir de acordo com nossos interesses. A domesticação das plantas é também uma ferramenta dessa distinção fundamental entre o homem e a natureza para a construção do que, se não me engano na sociologia do século XIX, passou a ser chamado de segunda natureza, numa referência a esse mundo construído pelos homens para sua própria sobrevivência.

O que transforma sua crítica ao capitalismo numa marcação radical de posição parece ser, portanto, a confusão entre esse fato antropológico geral e a mais recente forma de sua potencialização. O problema é que a potencialização disso que nos distingue da natureza é também um fato antropológico constitutivo. Dito em linguagem econômica, os ganhos de produtividade – transformados em extração da mais-valia relativa – são também uma constante que muito antecede o capitalismo e, queira o bom Deus, muito o sucederá. Buscar formas mais simples de encontrar a realização de nossas necessidades – tanto as reais quanto as fantasiosas, o casaco de lã e a Bíblia de Marx – é uma fixação que antecede a concorrência capitalista e significa, no fim das contas, liberdade.

Isso ainda poderia ser dito de outra forma. O Ocidente capitalista também é um filhote da Terra, já que a capacidade racional de compreender o mundo natural e instrumentalizá-lo para nossa subsistência é uma dotação da própria natureza. Nada indica que nossa capacidade de nos diferenciar do ambiente natural pela constituição de um ambiente artificial, criado pela tomada da natureza orgânica e inorgânica como recurso, não seja um fato da própria natureza, uma vez que somos, também, parte dela.

Dito de forma simples, a razão é uma dotação da própria natureza e a tomada de consciência ocidental dessa dotação é também parte da própria natureza. A Metafísica de Aristóteles e a Fenomenologia do Espírito de Hegel são parte da natureza assim como a índia Hopi que conversa com sua montanha. Aufere-se resultados diferentes dessas duas relações distintas com o ambiente, mas são duas formas de ser natureza.

Ailton Krenak está certo: tudo é natureza. Só que isso implica que a mineração química do início do século XX que destruiu o Rio Doce também é parte da natureza, como resultado de uma ação que está implicada pela própria capacidade de potencializar a transformação do que é natural em recurso. A questão fundamental, portanto, não é a distinção entre a humanidade e a natureza, mas a relação específica que se estabelece entre os dois termos. Aqui estamos todos de acordo: o capitalismo instaurou uma relação com a natureza que parece nos levar para uma destruição mútua e a rota precisa ser corrigida o quanto antes, mas daí saltar para uma crítica da ciência moderna como origem da catástrofe é um pulo grande demais e, como veremos, perigoso.

A visão que tem Ailton Krenak sobre o mundo natural parece reduzida não apenas nesse sentido mais abstrato, como também na sua própria capacidade de generalização. A descrição da Terra como nossa mãe só funciona em dois casos. O primeiro, aquele que parece ser o dos índios brasileiros, é quando o ambiente natural oferece de forma fácil os recursos à subsistência. Dificilmente um povo aborígene que viva em regiões desérticas terá uma visão tão positiva da natureza como nossa mãe. Aliás, a própria tradição cristã se origina de um povo que teria vivido em tal situação.

A humanidade figurada no Gênesis não é a que vive mamando no seio de sua mãe, mas aquela que foi expulsa do paraíso, onde podia viver sem trabalhar. A natureza que Adão e Eva enfrentam depois da queda está longe de ser a mãe generosa suposta por Ailton Krenak. O segundo caso é exatamente a “segunda natureza” criada pelo homem para sua própria sobrevivência. É a técnica e seus frutos que permitem nossa vida na terra ter não apenas se espalhado e se prolongado tanto como também se transformado em algo menos doloroso e terrível. É a civilização que garante tal situação em casos menos sortudos do que aqueles em que o ambiente circundante naturalmente oferece poucos recursos. Nós, os filhotes, é que inventamos nossa mãe.

O problema, então se configura da seguinte forma: o que Ailton Krenak está praticando não é simplesmente uma crítica ao capitalismo, mas a transformação da crítica ao capitalismo em uma negação da relação racional potencializada pela técnica com o mundo natural. Para substituir essa relação, ele propõe outra, oriunda do que chama de “sub-humanidade”, os que ouvem a voz do rio.

A história que ele conta da índia Hopi que conversa com as montanhas parece paradigmática: “Li uma história de um pesquisador europeu do começo do século XX que estava nos Estados Unidos e chegou a um território Hopi. Ele tinha pedido que alguém daquela aldeia facilitasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, ela estava parada perto de uma rocha. O pesquisador ficou esperando, até que falou: “Ela não vai conversar comigo, não?”. Ao que seu facilitador respondeu: “Ela está conversando com a irmã dela”. “Mas é uma pedra”. E o camarada disse: “Qual é o problema?”[v].

O entrecho tem valor exemplar em seu pensamento, porque exemplifica uma relação diferente daquela suposta pelo mundo ocidental. Agora, ao invés de enxergarmos a natureza como recurso, procuraremos entendê-la como parte de nossa própria família. Ao invés de uma relação racional e fria com o mundo natural, vamos estabelecer com ele uma relação afetiva. O que se descreve no trecho, no fim das contas, é uma relação mística. Ela é entendida como uma epistemologia alternativa, guardada pela sub-humanidade, e como solução, nesse momento de falência do regime epistemológico do ocidente.

Essa, no fim das contas, é a grande ideia do autor para adiar o fim do mundo. Ou ainda em outros termos: deixa que o mundo ocidental acabe para que possamos voltar a relações religiosas com o ambiente. Aqui está o reacionarismo, escondido por detrás das críticas tão contundentes à acumulação irracional do nosso modo de produção: melhor mesmo que acabe porque, assim, poderemos todos voltar a ouvir a voz das montanhas e a compreender a natureza sem o recurso ao exercício racional, porque ela, nesse momento, se revelará a nós transparente.

Aqui vale a pena reavaliarmos o que dissemos a partir de uma resposta que o próprio Ailton Krenak parece oferecer em seus livros para uma defesa da potencialização racional da relação homem-natureza, que foi o que fizemos. Ele certamente nos diria que, muito bem, pode ser isso mesmo, mas essa relação que você está defendendo está levando ao fim do mundo. A potencialização infinita da capacidade humana de intervir na natureza e transformá-la para sua sobrevivência levará a um cataclisma ambiental definitivo, porque a natureza não é infinita como o modelo de vocês pressupõe.

É essa resposta que torna seu pensamento tão interessante, porque revela uma espécie de encruzilhada contemporânea. A bem da verdade, ninguém está disposto, nessas alturas da história, de sair da civilização ocidental. Pelo contrário, o que todos parecem estar querendo fazer é entrar nela. Mas esse modelo de desenvolvimento é insustentável e nos levará a um desastre sem precedentes. O dilema é de uma atualidade assustadora, mas a resposta que ele nos oferece é, no mínimo, questionável, porque implica não simplesmente uma mudança de mentalidades.

O ocidente que se precisa abandonar não é uma forma de pensar ou de ver o mundo, mas uma forma de ser no mundo. A solução apresentada, pela radicalidade da crítica ao capitalismo, é abandonar a relação com a natureza que sustenta nossa forma de ser.

Quando estou dando aula sobre os livros de Ailton Krenak, costumo dar um exemplo caricato para meus alunos. A dipirona de 1 grama não dá em árvore. Ela é o resultado de uma relação que o homem estabelece com a natureza para manipular os recursos disponíveis e transformá-los em bens com determinadas finalidades. A visão de mundo proposta por Ailton Krenak como solução a nossos problemas é o abandono da dipirona como resultado dessa relação. Os alunos concordam comigo que ninguém estaria disposto a abandonar a dipirona e ficar com dores de cabeça e febre. Ao que eu respondo: mas, se não abandonarmos a dipirona, o mundo vai acabar.

A relação que estabelecemos com a natureza está levando o mundo ao apocalipse. O dilema parece insolúvel na cabeça deles, porque de fato é um problema de grandes proporções. A resposta que oferece Ailton Krenak, no entanto, não dá resposta à verdadeira questão: como evitar que o mundo termine sem abandonar a dipirona de um grama? A pergunta é caricata, porque alguém sempre pode se levantar e dizer que existem outras formas de acabar com a dor de cabeça que não seja a dipirona, e ainda mais: as dores de cabeça que temos tido são todas geradas pelo sistema capitalista que nos consome cada vez mais.

Sobre a segunda parte estamos todos de acordo, mas a solução não parece ser abandonar a dipirona, mas encontrar um sistema econômico em que tenhamos menos dor de cabeça e em que ainda tenhamos a nossa disposição a possibilidade da dipirona. Sobre a primeira, basta reelaborar a metáfora um pouquinho. Quimioterapia não dá em árvore e o sussurrar dos rios pelas pedras não nos revela de forma transparente a radioterapia. Nenhum de nós está disposto a abandonar os tratamentos de câncer, mas é exatamente isso que a proposta de Ailton Krenak nos deixa como herança, e o que a mentalidade contemporânea não tem percebido tão bem. Sair do regime epistemológico do ocidente e da ciência moderna não é mudar uma forma pensar e ver o mundo, mas mudar nossa forma de ser, com todas as consequências daí derivadas. 

Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Ailton Krenak se esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza, o que, ao que tudo indica, sempre foi um sonho civilizatório. Disse acima, em tom de polêmica, que a morte do Rio Doce é também um fato da natureza implicado na racionalidade técnica, mas a afirmação é só uma meia verdade, porque o que causa o desastre não é a separação do homem e da natureza e ou a constituição de uma noção errônea de humanidade, mas o capitalismo.

Trata-se de uma visão pouco matizada dos problemas reais que temos que enfrentar, porque os reduz àquilo que eles não são: questões de epistemologia. Não se trata de reconstituir uma relação afetiva mística com o mundo natural, mas reorganizar a maneira como nos relacionamos com nossa vida produtiva de forma que ela atenda melhor às necessidades que se colocam. E pasmem: só a intensificação da transformação da natureza em objeto de nossa análise e intervenção será capaz de indicar os caminhos a seguir. Inclusive a transformação do homem em objeto de nossa análise racional.

Dito de outra forma, é só dentro da racionalidade ocidental que temos alguma chance de sobreviver. Nós já estamos dentro de um paraquedas colorido. Digamos ainda de outra forma: o funcionamento do capitalismo não se revela pelo burburinho das montanhas, mas só se alcança pela atividade dos cabeças-duras que insistem em tentar compreender o modo de funcionamento da realidade. O mundo humano não é nem um pouco transparente e aqui está talvez o perigo maior nessa proposta reacionária: abandonar a perspectiva da ciência é também largar no caminho a possibilidade de compreender de fato o funcionamento do sistema econômico que lá vai nos levando ribanceira abaixo.

O pior, ao final, é que a crítica reacionária ao capitalismo nos priva da única possibilidade que temos de criticá-lo de forma incisiva e transformadora, de assumir em relação a ele uma postura triunfante. E é exatamente por isso que ele pode ter tanto sucesso: é que sua crítica radical não resultará em absolutamente nada, uma vez que ela desarticula a possibilidade de crítica e, no fim da rodada, reforça os instrumentos de dominação do capital.

Mas Ailton Krenak ainda poderia dizer outra coisa em resposta a tudo que dissemos. A dipirona de 1 grama não está disponível para todos. Aqui reside sua ideia de sub-humanidade. O Ocidente, no processo de construção da potencialização mais transformadora de nossa relação com a natureza – o capitalismo –, instituiu uma sub-humanidade que não tem acesso aos bens produzidos por ela mesma quando se transforma em carne no moinho da escravidão e do trabalho industrial.

É importante notar que essa não é a questão fundamental de sua posição. Ele não está interessado na universalização das supostas conquistas do mundo ocidental, porque, primeiro, não as considera como conquistas, e, segundo, porque não pretende fazer parte desse mundo. Quer que ele acabe. É essa radicalidade que o torna interessante e que marca seu reacionarismo. Mesmo não sendo fundamental, a questão está lá de alguma forma, e por isso merece resposta. De fato, o ocidente não consegue universalizar suas conquistas, e muito provavelmente nunca o conseguirá sob o capitalismo, mas a própria perspectiva de que as conquistas devam ser universalizadas surgem no interior do processo de desenvolvimento desse mundo desastroso em que temos vivido.

Há um trecho memorável de O capital, de Marx que nunca me esqueci depois da primeira leitura: “Mas a força dos fatos obrigou, enfim, a reconhecer que a grande indústria dissolveu, juntamente com a base econômica do antigo sistema familiar e do trabalho familiar a ele correspondente, também as próprias relações familiares antigas. Era necessário proclamar o direito das crianças. (…) Não foi, no entanto, o abuso da autoridade paterna que criou a exploração direita ou indireta de forças de trabalho imaturas pelo capital, mas, ao contrário, foi o modo capitalista de exploração que, suprimindo a base econômica correspondente à autoridade paterna, converteu esta última num abuso. Mas por terrível e repugnante que pareça a solução do velho sistema familiar no interior do sistema capitalista, não deixa de ser verdade que a grande indústria, ao conferir às mulheres, aos adolescentes e às crianças de ambos os sexos um papel decisivo nos processos socialmente organizados da produção situados fora da esfera doméstica, cria o novo fundamento econômico para uma forma superior da família e da relação entre os sexos. (…) Também é evidente que a composição do pessoal operário por indivíduos de ambos os sexos e das mais diversas faixas etárias, que em sua forma capitalista, natural-espontânea e brutal – em que o trabalhador existe para o processo de produção, e não o processo de produção para o trabalhador –, é uma fonte pestífera de degeneração e escravidão, pode se converter, sob as condições adequadas, em fonte de desenvolvimento humano”.[vi]

O trecho está dentro do capítulo sobre a maquinaria e a grande indústria, um daqueles longos capítulos históricos em que Marx se debruça sobre uma documentação extensa e procura mostrar a validade factual do que estava dizendo em chave abstrata. O trecho é memorável por vários motivos, mas acho que o principal aqui é pontuar que, se todo progresso é uma forma de barbárie, toda barbárie também é uma forma de progresso. Não é o abuso da autoridade paterna que cria a exploração do trabalho infantil, mas a transformação capitalista das relações de produção que evidencia a autoridade paterna como um abuso.

O direito das crianças só surge a partir do momento em que o regime capitalista transforma as relações de produção. O raciocínio é similar ao que gostaria de mostrar: é a radicalização brutal da desigualdade pelo capitalismo que faz necessário e possível a proclamação da universalização igualitárias dos bens.

O exemplo da família é interessante, porque Ailton Krenak nos diria – no diálogo imaginário que estamos tendo –, então, que ele não vê a constituição da forma moderna de família como um avanço, porque sua visão de família inclui não apenas as crianças e as mulheres, mas também a própria natureza que nos circunda. A montanha, no fim das contas, é seu avô. A pedra é a irmã com a qual a índia Hopi conversa. Não passa pela cabeça do autor, no entanto, que a índia conversa consigo mesma, uma vez que conversar com pedras é uma impossibilidade até onde se sabe. Não passa pela sua cabeça que essa concepção mística de família não produziu o modo de vida em que ele próprio vive, porque, ao que tudo indica, ele também é parte do mundo ocidental.

Não passa por sua cabeça que essa forma de família está superada, não por uma crença cega no progresso, mas pela descoberta, em algum momento da história humana, de que as pedras não falam. E é exatamente com essa resposta que captamos o caráter reacionário de seu pensamento. Ailton Krenak denuncia a barbárie sem notar o que ela significa de avanço, o que implica, em outros temos, em sua incapacidade de ver o avanço como barbárie.

Essas ideias que ele compartilha conosco fazem tanto sucesso, porque, de alguma forma, são parte do arcabouço ideológico geral do mundo que vivemos. São as ideias da desconstrução, do pensamento decolonial, da pós-modernidade etc. Mas, verdade seja dita, Ailton Krenak tem sobre seus companheiros europeus e americanos uma vantagem real: o que ele fala tem lastro em sua experiência, não apenas como indivíduo, mas também como coletividade indígena.

Num determinado momento, ainda em Ideias para adiar o fim do mundo, ele constrói uma oposição de expressões reveladora: “em todos esses lugares as nossas famílias estão passando por um momento de tensão nas relações políticas entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas”.[vii].

De um lado está o Estado brasileiro e, do outro, as famílias indígenas que, serão caracterizas como sociedades e, nas próximas páginas, como comunidades. Com consciência histórica acurada, Ailton Krenak sabe que essa história de Estado é invenção das civilizações ocidentais e que, para suas comunidades, que não compartilham a visão de mundo do ocidente, não se trata nunca de falar em Estado, mas em famílias, sociedades e comunidades.

Essa oposição tem forma trágica: “a máquina estatal atua para desfazer as formas de organização das nossas sociedades, buscando uma integração entre essas populações e o conjunto da sociedade brasileira”.[viii]

Ele está certo. A ideia de que os índios irão se integrar à sociedade brasileira sempre implicou, para essas comunidades, a morte. Isso em dois sentidos. O primeiro é a morte física, resultado dos primeiros contatos ou da escravidão dos índios durante o período colonial. Quando eles morrem, finalmente são parte da sociedade brasileira. O segundo é a morte a que ele se refere como a destruição da sua organização social. Para se tornar brasileiro, o índio necessariamente precisa deixar de ser índio, uma vez que passa a ser o cidadão de um determinado Estado – identificado como membro do clube restrito da humanidade – e não mais o membro de sua comunidade de origem. A sua segunda morte é a cultural.

Costumo ler o livro de Ailton Krenak com meus alunos depois de uma leitura de Macunaíma, de Mário de Andrade. Nesse momento comento com eles sobre a transformação dessa constatação de fatos, por parte de Mário de Andrade, em matéria literária. É simples, mas também complicado. No final do livro, depois que Macunaíma morre, vem aquele famoso “Epílogo” em que aparece a figura do narrador da história, que a recebe de um papagaio, depois não apenas da morte física do personagem, como também de sua morte cultural, representada pelo fim da língua (daí o “silêncio do Uraricoera”).

Depois de ouvir a história do papagaio, o homem começa a escrever a o livro sobre Macunaíma, “o herói da nossa gente”. Nesse momento eu pergunto aos alunos quem é nossa gente. A quem o pronome da primeira pessoa se refere? Eles normalmente falam dos brasileiros, mas então eu apresento outra possibilidade: a de que Macunaíma seja o herói dos povos indígenas que Mário conheceu pelo livro de Koch-Grünberg. Aquele Macunaíma indígena, herói da sua gente indígena, só se transforma no Macunaíma, herói da nossa gente brasileira pelo ato da própria escrita da história por parte da Mário de Andrade.

Quem o transforma de herói indígena em herói brasileiro é o próprio Mário de Andrade, mas isso depende da morte não apenas do herói, como também de sua língua. É a morte que o faz brasileiro, porque o índio só se torna parte do Brasil quando ele morre. Aí eu relembro aos meus alunos de outro texto, que normalmente leio com eles no ano anterior, o I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias. Ali acontece algo semelhante ao final, porque o “índio infeliz” de que fala o poema se transforma, depois de sua morte, em objeto da memória coletiva.

Mas ele só é memória coletiva, ou seja, só é herói nacional depois de sua morte. Enquanto está vivo, ele não pode ser brasileiro. Alguém ainda escreverá um texto fazendo justiça a Gonçalves Dias e mostrando, à luz da literatura indígenas contemporânea, que suas elocubrações sobre o pajé que sonha com o fim do mundo, ou da maldição patena no mesmo I-Juca Pirama não são assim tão idealizadas como certa crítica fez ver. Premonitórias, talvez.

A essa ideia que tento explicar para meus alunos pela análise dessas duas obras que estou lutando para entrar em seu repertório sobre o país Alfredo Bosi deu o elegante nome de “mito sacrificial do indianismo”, quando comentava José de Alencar. Meu interesse é mostrar para eles que esses autores, no entanto, por mais que produzam obras que procurem se identificar com o indígena, sempre se identificam com ele como membros de uma estrutura política, cultural e ideológica na qual eles só entram mortos e, portanto, da qual eles não querem fazer parte.

Ailton Krenak é o outro lado da moeda. Se, no cânone de nossa formação literária, a identificação principal é com o Brasil como projeto de país e de nação (e, portanto, com a morte dos índios), em Ailton Krenak se trata do abandono do Brasil em nome de suas comunidades. É essa a base real e material que dá fôlego a sua visão de mundo. Seu abandono do ocidente, embora me pareça um erro, está justificada pelo que esse mesmo ocidente representa para suas comunidades específicas.

Talvez exatamente por isso sua principal ideia para adir o fim do mundo seja precipitar o fim do mundo ocidental. O que parece lhe escapar é que, pelo bem ou pelo mal, o mundo ocidental se transformou, simplesmente, no mundo. Ele se universalizou. Quando escuto perguntarem por que os autores europeus se transformaram em universais se partem de uma realidade específica, costumo pensar comigo que é por causa do avião e da navegação marítima.

A indústria e a expansão colonial universalizaram o mundo europeu, concedendo validade global à produção cultural que eles fizeram. Aquela forma de sociabilidade, por sua capacidade tecnológica, transformou-se em paradigma para o mundo todo. É claro que o resto irá enxergar esse processo como negativo, porque ele implicou a destruição de suas formas tradicionais de vida. Negativo ou positivo, esse processo é um fato. É nesse sentido que a autoridade de Ailton Krenak mais uma vez se faz sentir: ele fala sobre o fim do mundo porque o mundo de sua comunidade, de fato, acabou. O mundo dos povos indígenas acabou e foi substituído por essa coisa estrambótica a que damos o nome de Brasil, dentro do qual eles ocuparam, ao longo da história, posições diversas. A mais recente foi dada pela Constituição de 1988.

O que ele nos apresenta, portanto, é a possibilidade de substituirmos nossa visão de mundo Ocidental pela cosmovisão de um mundo que já acabou. Exatamente por isso é um reacionário, e apenas por ser reacionário seu pensamento tem tanta repercussão. A única ideia viável para adiar o fim do mundo é acabar com o capitalismo, mas todos sabemos que ele não será substituído pelas tradicionais comunidades indígenas (brasileiras ou de qualquer outro lugar do mundo), e é só porque essa ideia é sabidamente inofensiva à reprodução do próprio capital na sua fase neoliberal que ela pôde se transformar em hegemonia. Dito de outra forma: é só porque a presença de Ailton Krenak na Academia Brasileira de Letras não altera em nada o caráter conservador da instituição que ele foi aceito entre seus membros.

É preciso ainda indicar um aspecto para evitar confusões. É que, embora reacionário, ele continua um anticapitalista. Se o reacionarismo faz seu anticapitalismo ser inofensivo, ele continua sendo anticapitalista. Nisso reside a contribuição fundamental que ele tem para a cultura brasileira. Seus livrinhos acrescentam algo a nossa cultura, alguma coisa de latente que ganha com ele uma forma. Aqui estamos de volta ao problema do ensaio. Como pensamento, ele parece não parar em pé, mas como enunciação é um lance importante na cultura brasileira. É uma voz que anuncia a possibilidade de pensar mais livremente, de reintegrar oralidade e escrita e encontrar um sentido amplo mais contundente para o que se tem feito de pensamento no país.

Esse é o grande ganho de sua obra: ela é uma voz e, como tal, tem lugar de proeminência na cultura nacional, mas é importante que nos lembremos sempre que é a voz de um morto, de alguém que não tem a nos oferecer um futuro viável, mas apenas um regresso impossível. Por se opor tão radicalmente ao mundo ocidental, que nada tem a lhe oferecer além do sofrimento da lembrança de seu povo exterminado, seu pensamento chega ao cerne dos problemas, embora não seja capaz de indicar uma solução viável para eles.

*Filipe de Freitas Gonçalves é doutorando em Estudos Literários na UFMG.

Notas


[i] Krenak, A vida não é útil (São Paulo: Companhia das Letras, 2020), p. 9.

[ii] Krenak, A vida não é útil, cit., p. 20.

[iii] Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (São Paulo: Companhia das Letras, 2020), p. 16.

[iv] Ibidem, p. 21-22. Essas ideias voltam em outros momentos de seus trabalhos, às vezes com mais virulência: “Muita gente afirma que o que nos distingue dos outros seres é a linguagem; o fato de falarmos, termos discernimento e criarmos relações sociais. Ora, se a principal marca dos humanos é se distinguir do resto da vida terrestre, isso nos aproxima mais da ficção científica que defende que os humanos que estão habitando a terra não são daqui. (…) Isso me fez pensar que os gregos, em algum momento, começaram a perceber a Terra como um mecanismo, e achei apavorante. (…). (Krenak, A vida não é útil, cit., p. 55-56).

[v] Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo, p. 17.

[vi] Marx, O capital (São Paulo: Boitempo, 2013), p. 559-560.

[vii] Ibidem, p, 37.

[viii] Ibidem, p. 39.


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