A falácia embutida numa verdade

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Por MANOEL RC PAIVA*

Comentário sobre um artigo de Gil Vicente Reis de Figueiredo

Os números

O professor de matemática da UFSCar, Gil Vicente Reis de Figueiredo, na tentativa de salvamento de seus colegas, caudatários* históricos filiados ao PROIFES-“Pelegação”, joga com dados que ele, por sua douta formação em área de exatas, deve dominar muito bem. E este domínio para o lado analítico ou capcioso, pode levar o incauto a erro sobre fatos deste movimento de servidores federais da educação, forçados a ingressar em greve por um governo que parece ter, contraditoriamente, ojeriza ao pessoal da educação universitária.

Pois de um lado já financiou e ainda financia a expansão do sistema e de outro contém o poder de compra dos trabalhadores das Instituições Federais de Ensino. Não só o poder de compra, mas o salário que se transforma em recurso para financiar boa parte de suas pesquisas, seus laboratórios, suas publicações.

Salvo melhor juízo, começo pelo que tem de correto e honesto no artigo de Gil Vicente Reis de Figueiredo. O número de filiados em cada sindicato Andes é 46.280 e no Proifes 17.238. Apresenta a partir daí proporções corretas, 72,9% a Andes e 27,1% ao Proifes 63.518. Parto aqui da confiança nos dados divulgados pelo professor, porém devidamente recalculados.

Observo que em vista às páginas eletrônicas de ambas entidades os números diferem, sendo de cerca de 70 mil para o Andes e 20 mil para o PROIFES. Mas os números fornecidos por Gil Vicente são mais do que suficientes para chegar a conclusão de no mínimo há equívoco na análise dos dados feita pelo professor cuja fonte é o texto do próprio Gil Vicente Reis de Figueiredo.

Mais adiante compara dados corretos em números – fornecidos por Gil Vicente Reis de Figueiredo no texto citado –, porém de modo malicioso na forma analítica, pois compara dados diferentes em sua conjuntura, em seu cenário. Pois coloca o número de professores que teriam comparecido às assembleias da Andes (10.000) contra os seus filiados (46.280) chegando ao resultado 21,6%, muito bem.

Aqui vem a manha capciosa que o leva ao argumento falacioso, confronta os alegados 7.000 consultados eletronicamente contra o seu número de filiados (17.238), resultando no espetaculoso número de 40,6%. Tal resultado colocaria por terra as assembleias presenciais feitas pela Andes e também Sinasefe, Fasubra ou qualquer outra entidade que faça adesão a essa forma analógica e quem sabe anacrônica de reunião e consulta a seus colegas. Uso este último termo tentando aqui pensar dentro da caixa do Gil Vicente.

Mas, repetindo para lembrar, a característica discursiva de Gil Vicente é a falácia de argumento. Apoiada em números que podem ser contestados porém em princípio uso da presunção da confiança.

É falácia porque o experiente, esperto, professor Gil Vicente compara alhos com bugalhos, compara pessoas consultadas por meio eletrônico contra pessoas consultadas em ambiente físico de assembleias. Por que o professor de matemática Gil Vicente não compara somente os números de pessoas presentes em assembleias físicas de ambos sindicatos? Deveria comparar os dados de consulta eletrônica contra outra consulta de mesma natureza. Acontece que ao que se sabe até finalizar a edição desta mensagem, Andes não tem por hábito cultural ou estatutário fazer enquetes, consultas eletrônicas.

Sabe-se que em Salvador, por exemplo, existem até babalorixá que fornecem consultas via Instagram, receitando seus conselhos via mídia eletrônica, cobrando por Pix. Uma modalidade que em nível individual ou para pequenos grupos pode funcionar bem. Porém não é o caso utilizado pela maioria dos sindicatos a consulta eletrônica massiva.

Tabela verdade

As proposições colocadas por Gil Vicente Reis de Figueiredo são fatores de uma expressão lógica chamada conjunção. Pois a primeira proposição, pAndes = (No. de presentes em assembléia/No. de filiados) x100% e qProifes = (No. de consultados via eletrônica / No. de filiados) x100%. Numa passada de olhos, tudo certo com as expressões, porém não. Os numeradores são diferentes e incomparáveis. Aqueles que se esforçam para ir a um recinto de assembleia é muito diferente do esforço daqueles que se dirigem a um teclado para apertar um dígito ou dois, confirmar e finalizar.

O esforço de arregimentar e deslocar-se é geográfica e politicamente diferente. Sendo um dos fatores da expressão, falso, o resultado da conjunção é falso com 75% de chance de sê-lo levando em conta as combinações dessa tabela.

O professor que enfatiza análise dos dados objetivos, subjetiva de modo subliminar sua argumentação como se fossem malabares, até um cair-lhe no rosto.

Agressões em assembleias

Afirma o professor que muitos optam por não ir a esses encontros presenciais, em especial quando se trata de debater e votar questões polêmicas. Nos dá o exemplo para que se tenha uma ideia do nível de tensão que pode ocorrer, mencionando que em assembleia recente um professor que defendia a não aceitação da proposta do governo agrediu outro, que era a favor, com um soco no olho, dizendo que o fato está gravado em vídeo e publicado na internet/redes sociais. E expressa sua opinião a respeito: “Logo, as posições da ‘categoria’ definidas pela metodologia da ANDES se referem às opiniões majoritárias dos militantes que vão às assembleias”. O fato de colocar a expressão categoria entre aspas já revela sua dúvida em relação a quem representam uma e outra entidade, na minha opinião.

Vou contrapor a este fato outro acontecido em data próxima também, em assembleia da Apub da UFBA [filiada a PROIFES] feita de modo misto, presencial no auditório da Reitoria da UFBA e virtual por plataforma de transmissão eletrônica com os docentes de Vitória da Conquista. Em determinado momento após a votação quando os presentes aguardavam a manifestação do resultado ouve-se em médio e bom som a expressão “…acho que tem uns professor aqui que já tá em morte cerebral e ainda tá aqui trabalhando pelamor de deus dá a vaga pro povo trabalha gente!…”.**.

Vinda ou do ambiente presencial no auditório ou do ambiente virtual de Vitória da Conquista, ou de outro local onde havia um microfone aberto e disponível para essa pessoa que agride com palavras seus semelhantes em assembleia. Vamos daí então impedir que se realizem transmissões eletrônicas? Ou que se impeça de realizar participações individuais de coletivos à distância? Pela agressão que alguém fez usando do mesmo meio eletrônico?

Então tanto pelo exemplo dado pelo professor Gil Vicente quanto deste que apresento vamos invalidar este modo de transmissão de assembleias ou vamos dentro do adequado ordenamento jurídico coibir essas manifestações, quer sejam físicas ou virtuais [eletrônicas]?

Alerta, de passagem

Quero fazer esse alerta porque en passant Gil Vicente parece ter razão, mas não. É uma manobra bem artificiosa usando de sua experiência como docente e como fundador da ‘pelegação’ Proifes para salvá-la do fogo a que está submetida.

Creio inclusive que o camarada Valter Pomar poderia usar o seu artigo anterior para rebater a este do Gil Vicente, pois a sólida argumentação do professor Valter Pomar permanece no tempo e no caso.

Todo o apoio à greve e mobilização dos Servidores das Instituições Federais e também aos Servidores do Paraná que lutam contra a privatização das escolas públicas e melhoria de condições de trabalho e salário.

*Manoel RC Paiva, licenciado em Ciências habilitado em Biologia é professor aposentado da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Notas


* caudatário, no velho sentido daqueles que carregam a cauda das vestes de personagens eclesiais.

** a partir de 1h50min deste vídeo disponível no canal da Apud no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=9zP-H1HDNj8&t=6767s


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