Ainda estou aqui — o livro

Gerth Kuusk, On the road, 2015
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Por DENILSON BOTELHO

Considerações sobre o romance de Marcelo Rubens Paiva

Para quem é historiador interessado pela literatura como eu, o mais comum é ler e ouvir sobre o tanto que o texto literário contém representações da realidade e do seu contexto de produção. Aliás, muitas pesquisas nessa área, talvez a maioria, buscam justamente identificar e analisar as representações contidas na literatura. E vale dizer que identificar tais representações não é tarefa das mais complexas, basta ser alfabetizado e leitor fluente para executá-la.

Atuando no campo da história social, interesso-me especialmente por abordagens que nos permitam ir além das tais representações do texto literário. Vejo a literatura como documento e testemunho de um tempo ou sociedade em que determinada obra foi produzida. E aqui cabe considerar literatura nos seus mais variados gêneros, contemplando não apenas o romance, como também o conto e a crônica, entre outros, publicados das mais diferentes formas, em jornal e revista, ou em livro.

O que importa fazer é submeter o texto literário – seja ele qual for – ao interrogatório a que habitualmente o historiador submete qualquer uma de suas fontes de pesquisa. Quem produziu o texto? Quando? Em que condições? Com que objetivos? O que pretendeu dizer sobre o seu tempo com seu texto? Com quem está dialogando? Estas são algumas perguntas que integram o interrogatório a que me refiro. E para quem não sabe, parte importante do trabalho do historiador consiste num diálogo com as fontes, conversando com documentos, ainda que nem sempre obtenha todas as respostas desejadas.

E esses procedimentos devem ser sempre pautados por um compromisso com a verossimilhança ou com a verdade, ou pelo menos com a realidade dos fatos. Se um conto ou romance é texto de ficção, o livro ou sua publicação em jornal ou revista, assim como seu conteúdo, são elementos concretos que não podem ser desprezados. Portanto, a literatura guarda certa materialidade que não deve ser ignorada.

Vez ou outra deparo-me com algum questionamento sobre a importância da literatura e a relevância social de transformá-la em objeto de pesquisa e produção de conhecimento. Afinal, muitas vezes no senso comum, literatura é só entretenimento, distração, uma forma de passar o tempo sem compromisso com o duro cotidiano vivido pela maioria das pessoas. Ou então vê-se a leitura como hábito elitista, dos quais somente aqueles que podem entrar numa livraria e adquirir um livro – caro, muito caro – estariam aptos a desfrutar.

Sendo professor de uma universidade pública federal, que leciona sobre a história do Brasil republicano e oferece algumas vezes um curso sobre história e literatura, e que tem se dedicado há bastante tempo a pesquisar sobre a obra e a trajetória do escritor Lima Barreto (1881-1922), procuro sempre fomentar entre os meus alunos – e também nos textos que publico – a importância de perceber a literatura como ato concreto.

Escrever e publicar um artigo, uma crônica, um conto, romance, memórias, ou o que quer que seja, é também um ato concreto, uma forma de participar do movimento da história no momento em que o autor a vivencia. É um modo de estar no mundo e de interferir no rumo dos acontecimentos. Afinal, quem escreve e publica seus escritos, deseja ser lido. E sabe que pode interferir tanto no modo como seus eventuais leitores pensam, como também na maneira como uma sociedade lida com a realidade e a sua própria história.

Ainda estou aqui, o livro de Marcelo Rubens Paiva, publicado em 2015, é um bom exemplo disso. Não se trata de um romance – como o Feliz ano velho (1982) inúmeras vezes reeditado, que fez parte da minha formação como leitor –, mas é mais uma obra literária produzida por este autor. É literatura que tem como objeto central Eunice Paiva, sua mãe. É um texto que guarda certo caráter autobiográfico e de desabafo ao ver sua própria mãe acometida do mal de Alzheimer, doença que impõe progressivo alheamento e ausência às suas vítimas, ainda que permaneçam aqui, entre nós, vivas.

Ao ser adaptado para o cinema, o filme recentemente lançado tem levado milhões de pessoas a assisti-lo. E ganhou ainda mais notoriedade com a merecida premiação de melhor atriz para Fernanda Torres no Globo de Ouro, nesta edição de 2025 e agora com a indicação para concorrer ao Oscar de melhor filme do ano passado. Sabe-se lá quantos novos leitores para o livro o sucesso no cinema tem atraído.

De qualquer modo, cabe atentar para o quanto Ainda estou aqui (o filme, baseado no livro) tem incrementado o debate sobre anistia hoje e ontem. Anistia hoje para todos os envolvidos na tentativa de golpe realizada em 8 de janeiro de 2023, e também a anistia promulgada em 1979, que nos impediu de conhecer as circunstâncias em que o pai do autor do livro em questão, o deputado cassado Rubens Paiva, foi assassinado por militares durante a ditadura iniciada em 1964.

É inegável que, de algum modo, com o seu livro, Marcelo Rubens Paiva está interferindo nos rumos dos acontecimentos do país, sobretudo quando se aproxima o desfecho das investigações sobre a tentativa de golpe que impediria Lula de iniciar o seu terceiro mandato como presidente eleito pelo voto popular. Se não fomos capazes de investigar e punir judicialmente os responsáveis pelos crimes cometidos pelos agentes da repressão durante a ditadura iniciada com o golpe ocorrido há 60 anos, cresce o clamor por justiça e punição contra os que tentaram um novo golpe há dois anos. E quem há de negar que “Ainda estou aqui” – o livro e o filme – é uma consequente contribuição para que não se repitam os mesmos erros cometidos no passado recente?

Não devemos desconsiderar o poder que a arte e a cultura têm de transformar a realidade. Ainda que muitos desvalorizem a importância da produção cultural, é inquestionável que ela pode fazer muita gente pensar diferente e interferir nos rumos da história. Para além de conter representações da realidade, a literatura é ato concreto. E também ato político para o qual não apenas os historiadores estão atentos, mas também o leitor comum que faz a leitura desse e de tantos outros textos.

*Denilson Botelho é professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Referência


Marcelo Rubens Paiva. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro, Alfaguara, Companhia das Letras, 2015, 296 págs. [https://amzn.to/4asx8JD]


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