Por AIRTON PASCHOA*
Sete peças curtas
Baixo Íleo
Só me sinto bem desse jeito, sem poder me mexer. Bem sei não ser mais possível viver em buraco neste betume de mundo, mas penso ter alcançado uma saída — aprendi a escavar-me as entranhas tenaz, a cavar árduo dentro de mim a pique de, digamos, encobrir-me de mim mesmo. Quando me toca a graça de me entocar assim, gozo as melhores horas da minha vida. Ou da vida, porque tapar tal cavidade de corpo e alma é como ser a cavidade mesma, e então nem sei se sou, soo ou ressoo. No princípio era o verbo que atrapalhava. Uma interpelação incontinente imobilizava, obrigando-nos a recomeçar do térreo, senão do terreno, ardendo que ficava à queima-roupa da inquisição. Com o tempo e o treino, esse exercício espiritual espinhoso que consiste em fazer das tripas coração, e sem fazer cara de nojo pela evisceração profunda, o vozeio, que é o modo humano de ruminar a soidão, veio silenciosamente passando a aliado, como que nos embalando a cavar mais e mais fundo, até nos abraçar um sarcófago vago no baixo Íleo. Quer conforto maior que cair em si e mal estar em si, de estar fora de si e não carecer de assistência, de se assistir em cena sem encenar? São horas de uma alegria louca, à beira de desvairada. Não a ponto de nos transtornar, mas de nos tornar quase falante. E pela conversa receio que ressoo.
Autoimobilismo
As notícias chegam de fora. Volta e meia viaja um conhecido, um parente, e regressam cheios de malas e saudade. Ah, a Europa! E não só ela. A Ásia! A China! O Império! Quantos jardins suspensos não suspeita o pobre tronco! resvalamos a pena velada nos olhos dos descobridores, nós que mal nos movemos do leito. Só ficamos menos embaraçado quando as pedem de dentro. Balançam a cabeça, não sei se positivamente ou por polidez, e esperam assentar a poeira. Uma hora os braços caem, levantando mais poeira. É quando se levantam também. Felizmente não preciso acompanhá-los.
Artrose
Mexeu-se um pouco. Que tinha que fazer algo, isso lembrava, e que era urgente isso, lembrava. O que era… Mexeu-se. Era alguma coisa que tinha que ver. Olhou ao redor, nenhum pico à vista, e teve vontade de sentir saudade do tempo em que escalava as estantes intrépido. É, intrépido. Mas não se mexeu. Nem pra apanhar a manta, que de quando em quando deslizava como deslizavam as nuvens, lembrava. Via a cortina em sua queda congelada e teve vontade de sentir saudade do tempo em que mergulhava no trabalho. Pescou a manta, com o gancho do cabide, cobriu a cabeça. O ar — não, não faltava. Inspirava e expirava, regular.
ATV
Foi assim de repente, desculpem-me, acho que vendo o jornal da noite. Travou. Acham que foi AVC e não a tevê. E não destrava mais. Fiz de tudo. Pensei até em plástica, mas o próprio médico, não sei como dizer, sorriu. A solução final, também cogitei, mas só de pensar no que podiam fazer com o meu rosto… É só por isso, por favor, não sorriam, só por isso que sorrio.
Parábola
Não reclamo. Se é sina andar em círculo, ando. Se ninguém nunca viu a figura, paciência. A esperança… vocês sabem. Por isso não reclamo, ando. Ou me arrasto, vá lá. Às vezes levo uma vida, caracol? carrossel? via-láctea? tateando a geometria dos passos. Geometria? A aspiral pode ser só aspiração, bem sei. Daqui, da poça, divisá-la, não há, senão em parte, braço, sino, cello. E se for uma parábola, uma parábola! e ergo os olhos. Os sóis, dardejando, parece também se desfazerem em sal ou cal, e caio queimando.
Circulatura do quadrado
Indo de um canto a outro e deste àqueloutro e destoutro ao penúltimo e do penúltimo ao último canto, perfaz-se um quadrado. Perfazendo-o vida afora, em que pese a distração com a poeira que levantamos, observa-se com justeza que o último confina palmo a palmo com o primeiro canto. Não deixamos de perfazê-lo por isso, notando embora requerer sempre mais e mais esforço, à medida que mais e mais nos faltam forças. — Mas há o pó, o pó! o tom subindo, subindo e descendo em sua infinita variedade, e a réstia de sol, volta e meia nos dizemos, erguendo a coluna.
Banho de sol
Certas manhãs, despontando impossíveis de azul e luz, parece quererem nos lembrar que não devíamos estar fazendo isso. É quando com certo pejo rápido engavetamos os afazeres e — não sabemos bem o que fazer. O amor permanece proibido durante o expediente. A poesia, de fim de semana, se confunde com suplemento. O subterrâneo, que retumbava outra vida… Outra vida! É quando com certo pejo rápido descemos tomar banho de sol.
*Airton Paschoa é escritor. Autor, entre outros livros, de Post streptum: espólio (e-galáxia). [https://amzn.to/4oHE6kK]
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