A importância do 7 de setembro

Imagem: Ramon Buçard
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Por JOSÉ DIRCEU*

A luta pela segunda independência do Brasil se trava no campo político e social. Exige a coragem de ocupar as ruas e a clareza de que a verdadeira autonomia só virá com a ruptura das amarras internas e externas que perpetuam a injustiça e a dependência

1.

O grito que estava aprisionado no nosso coração e na nossa garganta se expressa aqui hoje, o repúdio à intervenção dos Estados Unidos, do seu governo, da administração de Donald Trump. Uma intervenção que visa realmente impedir que o Brasil cumpra seu destino. Eu tenho dito, repetido, que é hora de nós tomarmos em nossas mãos nosso destino. Na década de 1980, quando perguntado sobre a América do Sul, sobre o Brasil, o presidente Ronald Reagan disse: “Jamais permitiremos um outro Japão na América do Sul.”

Vejam bem: no mundo de hoje, poucos países podem realmente almejar um projeto de desenvolvimento nacional soberano, com justiça social, e democracia. Se nós olharmos o cenário mundial, veremos que os Estados Unidos, sob Donald Trump, exercem sua hegemonia pelo dólar, pelas big techs, pela informação, pela cultura.

A força militar, que antes detinham, já não é mais suficiente. A própria globalização criou um novo mundo: o Sul Global, os BRICS, a China. Hoje mesmo estão reunidos na China o primeiro-ministro da Índia, o presidente Vladimir Putin e Xi Jinping. Representam, na verdade, metade da população mundial e mais de um terço da riqueza global. É um novo mundo que surge.

Se olharmos para o Brasil, somos um país com três condições que poucos têm: População: mais de 200 milhões de habitantes; Território: mais de 8 milhões de km², o quinto maior do mundo; PIB: mais de 2 trilhões de dólares.

Só cinco países reúnem essas três condições. Mas não temos poder militar, tecnológico e financeiro. Somos talvez o país mais rico do mundo, porque não temos inverno. Basta olhar nossa agricultura.

Somos um país com duas condições que a Europa não tem hoje, que a maioria dos países não tem: (i) soberania alimentar; (ii) Soberania energética.

2.

Mas a grande questão do Brasil é sua elite. Ela não pensa o país. Ela não defende o país. Resta, mais uma vez, a nós. Vamos lembrar que este país saiu da ditadura para uma luta de décadas que nunca cessou. Já em 1965, o povo do Rio de Janeiro e de Minas Gerais derrotou a ditadura. Aí veio o AI-2: fim da eleição para presidente, governador, prefeito de capitais; censura; repressão; fim dos partidos políticos.

Mas o movimento estudantil se levantou. As classes médias se opuseram à ditadura. Veio a resistência armada. Veio o terror, a repressão. Mas em 1974, o povo derrotou a Arena e votou no MDB. Elegeu 16 de 21 senadores e 44% da Câmara. Veio a reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE). Veio a luta pela anistia. A classe trabalhadora brasileira se levantou. E nunca mais o Brasil foi o mesmo.

O povo brasileiro deu ao MDB a maioria na Câmara e no Senado em 1986. Depois, nos deu o PT, uma ampla frente política de esquerda, popular – mais do que esquerda, ampla. Em 2022, cinco vezes a presidência da República. Nosso povo tem um rumo nacionalista, desenvolvimentista, democrático, progressista, de justiça social. Mas, para completar essa fase da nossa história, sempre houve aqueles que traíram a pátria. Aqueles que se aliaram ao império. Não vai ser a primeira vez.

Vamos lembrar: houve golpe de Estado em 1955 – aliás, em 1954 – que o povo derrotou depois do suicídio de Getúlio Vargas. Houve golpe de Estado em 1961 e 1964. Houve uma tentativa de golpe durante todo o governo de Jair Bolsonaro. E no dia 8 de janeiro. Teve golpe em 2016. O golpe que destituiu a presidente Dilma Rousseff.

A Lava Jato não só desconstituiu a indústria nacional, como procurou de todo modo descontinuar a Petrobras e a indústria de serviços brasileira, que estava ocupando mercados da África, da Ásia, da América do Sul na construção. Porque o Brasil pode se transformar num país livre, democrático, soberano e justo. Mas é preciso uma revolução social. É preciso uma revolução política.

3.

O ataque que é feito nesse momento ao país nos dá força. Esse ato aqui hoje é um exemplo disso. O Brasil jamais será o mesmo país.

Em primeiro lugar, por causa da intervenção externa do trumpismo. Em segundo, por causa da família Bolsonaro, da extrema direita brasileira, de vários governadores, de setores do empresariado que apoiam a intervenção americana contra nossa soberania e contra nossa democracia.

O que eles querem é destruir a nossa democracia, submeter o Brasil. Para isso, é preciso fazer o que estamos fazendo hoje aqui: mobilizar bem. Como nós vamos fazer uma revolução política e social no Brasil, que é uma profunda reforma tributária, uma profunda reforma no sistema financeiro. Porque o que amarra o Brasil é a concentração de renda, os juros altos, a estrutura tributária que expropria o povo.

Vamos fazê-la se formos capazes de mudar o Congresso Nacional. Não basta eleger presidentes democráticos, progressistas, nacionalistas. É preciso mudar o Congresso Nacional. E é preciso retomar as ruas. Daí a importância do 7 de setembro. A importância desse ato em São Paulo e em todo o Brasil. As ruas do 7 de setembro e 15 de setembro vai se reunir em São Paulo numa ampla aliança chamada “Direitos Já”, como esta que representa 300 entidades. É o começo de uma longa caminhada que não se deterá.

Sem isso, não há como sustentar a política que o presidente Lula está corajosamente aplicando, defesa do interesse nacional, articulação com os BRICS, com o Sul Global, com o México, com a Colômbia, com o Uruguai.

Para defender o país perante o império. Vamos, portanto, às ruas.

Vamos preparar o Brasil para derrotar não só essa tese da anistia, como levar até as últimas consequências em 2026 para garantir nossa soberania e nossa democracia.

*José Dirceu foi ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula. Autor, entre outros livros, de Memórias (Geração editorial). [https://amzn.to/3H7Ymaq]


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