A batalha de Lula

Imagem: João Nitsche
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Por ANISIO PIRES*

A reconstrução do Brasil e a defesa do governo popular serão como a vitória eleitoral, uma tarefa dura e trabalhosa

Para compreendermos porque Lula venceu com tanta dificuldade, voltar a escutar Gení e o Zepelim, música de Chico Buarque, ajuda como metáfora. É uma história da grandeza e da miséria humana. Uma mulher que, representando a humanidade sofrida, discriminada e maltratada, resolve apesar disso, fazer um ato de sacrifício e amor para salvar aqueles que tanto a maldiçoavam de uma terrível ameaça. Lula fez isso.

Com a chegada dos governos do PT ao comando do país, os escravocratas de sempre partiram para o ataque, convencidos de que o povo, qual Gení, foi feito pra “apanhar e cuspir”. O trabalho sujo, 24 horas por dia, acabou rendendo seus frutos. Uma das razões foi que a revolução social feita pelos governos Lula e Dilma Rousseff, com sua inclusão social de milhões de pessoas, redistribuição de renda e saída do mapa da fome, não se traduziram em consciência social. Essa “autocrítica” em parte nos pertence, sem deixar de reconhecer, no entanto, que era muito difícil enfrentar a mídia e seu macarthismo antipetista planejado para destruir nossa credibilidade e autoestima.

A grandeza de Lula, colocando-se na frente dessa batalha depois de tantos anos de luta, exige da nossa parte generosidade para corresponder à sua entrega pelo Brasil. Os que se omitiram ou fizeram críticas descabidas ou injustas ao longo desses anos têm uma oportunidade privilegiada para se redimir. Estão obrigados a contribuir da melhor maneira para impulsionar o governo de reconstrução nacional que Lula vai comandar. Ele enfrentará a terra arrasada, material e espiritual, deixada pelo bolsonarismo. Não será nada fácil.

Devemos estar alertas para combatermos os ataques pesados que certamente virão. Já nos primeiros 15 dias tivemos mercados “nervosos”, a Janja sendo mandada ficar em casa, o pranto de Lula chamado de “populismo” e uma miserável “indignação” pela sua viagem ao Egito em avião privado.

A direita, que foi obrigada a aceitar o mal menor de um terceiro mandato do Lula, segue sabendo o que quer. Trabalha desde já para que seu governo tenha o menor sucesso possível, planejando a sua pretensão de retomar o controle do país em 2026. Nesta tarefa destrutiva, não duvidará em se apoiar novamente no extremismo bolsonarista e seus assemelhados para ir ganhando terreno. Por isso, espera-se dos críticos predispostos a apontar falhas e contradições aqui e acolá, que valorizem muito essa que é a mais importante vitória do resto das nossas vidas. Aprendamos a lição, sejamos críticos, mas construtivos. Caso a história se repita, será uma (nova) tragédia muito piorada. A direita é revanchista e vingativa. Caso voltasse, viria com gana e muito ódio.

E nós, os já comprometidos, que papel cumpriremos nesse desafio de reconstruir o Brasil como parte de uma América Latina Unida e integrada no novo mundo multipolar? Evidentemente deveremos ter um papel muito combativo e plural, sintonizado com a diversidade de experiências e sensibilidades que todas e todos possuímos. Mas, enquanto lá em Brasília o Presidente Lula governará com “credibilidade, previsibilidade e estabilidade”, nós aqui, agindo no cotidiano das ruas, bairros e redes, devemos acompanhá-lo guiados por três ideias que fortalecem nossa capacidade de vencer: confiança, lealdade e unidade.

A direita já começou o trabalho de tentar nos enfraquecer sob a máxima: “dividir para conquistar”. Cada uma e cada um de nós precisa pensar com serenidade nas consequências práticas de não permanecermos confiantes, leais e unidos.

Nunca percamos de vista que opinar nas redes é muito fácil. Levar adiante as responsabilidades de um governo onde se tomam decisões que impactam na vida de milhões é algo bem mais complexo, cheio de desafios e ciladas. Certamente irão se tomar decisões que poderemos não compreender ou até mesmo discordar. Erros inevitáveis também acontecerão como em toda obra humana. Mas em qualquer circunstância, por mais difícil que pareça, nossa confiança no Lula e seu time deve permanecer inabalável.

Após sua vitória, Lula reafirmou aquilo que vem defendendo durante toda a campanha: “Eu vou cuidar desse povo como ninguém jamais cuidou”. Tenhamos paciência. Evitemos cair na tentação de sair escancarando aquelas situações que por ventura possam estar escapando ao olhar sensível do Lula. Ao invés de certas preocupações já manifestadas pela transição e instalação do novo governo, pensemos em como qualificar nossa comunicação para contrabalançar o monopólio midiático que fez a cabeça de milhões de brasileiras e brasileiros.

O Brasil viveu um retrocesso, mas não tem 58 milhões de fascistas. Precisamos reconstruir e recuperar a hegemonia democrática e popular. Avançar com passos firmes na reconstrução do Brasil democrático, soberano e independente que devolva ao povo brasileiro sua dignidade.

Para nós que fazemos parte da base social, política e espiritual desse time dirigido pelo Lula, cabe assumir nossa responsabilidade com a história.

Todas e todos somos Lula!

*Anisio Pires é professor de sociología na Universidade Bolivariana de Venezuela (UBV).

 

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