Silvio Tendler

image_pdf

Por SÉRGIO BRAGA*

Sua obra transcende o cinema para se tornar um instrumento de educação e resistência. Preservar seu legado é garantir que as novas gerações possam acessar a memória viva da luta pela democracia e pela justiça social no Brasil

1.

No dia 05 de setembro passado faleceu, no Rio de Janeiro, o cineasta e documentarista Silvio Tendler, um dos nomes mais notáveis da cultura brasileira, cuja importância nem sempre tem sido devidamente valorizada.

Com efeito, Silvio Tendler construiu uma obra fundamental para a compreensão da história política e social do Brasil que, além disso, teve papel de grande importância na luta contra a ditadura e na redemocratização do país.

Filmes como Os anos JK (1980)ou Jango (1984)foram parte da paisagem do processo de luta contra a ditadura no Brasil, levando milhões de cidadãos aos cinemas, ansiosos por conhecer os grandes líderes políticos do passado democrático brasileiro, cuja memória histórica havia sido “cancelada” pelos tecnocratas do regime militar e por seus aparelhos ideológicos auxiliares.

Desde o início de sua trajetória, ainda nos anos 1970, fez do cinema não apenas um instrumento de registro documental e de preservação de nossa memória, mas também de intervenção pública e militante, no sentido mais nobre que se possa dar a tais expressões. Trabalhando quase sempre com arquivos, numa era pré-digital e então de difícil acesso, montou narrativas que reconstituem episódios decisivos do país e oferecem ao espectador uma perspectiva crítica, ou seja, orientada para a mudança e transformação social num sentido sempre favorável ao povo trabalhador e mais carente.

Se me permitem uma nota pessoal, me recordo ainda que seu filme Jango estreou em Brasília na mesma época em que a emenda das Diretas Já era debatida no plenário do Congresso, na vigência do estado de emergência, e no mesmo dia em que um ensandecido general Newton Cruz, montado em seu cavalo, dava chicotadas nos carros cujos motoristas, com suas buzinas, manifestavam sua aprovação em relação às Diretas já e reprovação da ditadura, então em seus estertores finais – episódio que ficou conhecido na história da redemocratização brasileira como “buzinaço”.

2.

Em Curitiba, tive a oportunidade de organizar duas mostras que contaram com sua participação, e de outros convidados ilustres. Em setembro de 2003, a Cinemateca de Curitiba exibiu o ciclo “Um outro 11 de setembro – 30 anos do golpe contra Allende”, que articulava exibições e debates sobre a experiência chilena de Salvador Allende e o impacto do golpe militar de 1973. O fio condutor dessa mostra foi a exibição da monumental trilogia La Batalla de Chile, de outro grande cineasta e documentarista chileno que muito influenciou Tendler, Patrício Guzman, juntamente com o magnífico fecho da trilogia filmado postumamente e intitulado Memória Obstinada.

O ponto alto da mostra foi a exibição de cenas inéditas e pungentes do enterro do poeta chileno Pablo Neruda, trazidas num DVD pelo próprio Silvio Tendler, numa época onde não haviam acervos digitais, e filmadas logo após o golpe genocida que guindou Pinochet ao poder. Hoje estas imagens estão disponibilizadas no Youtube e podem ser facilmente acessadas, mas na época eram praticamente inéditas e constantes de seu acervo pessoal.

A experiência chilena e, em seguida, seu exílio na França marcaram profundamente a vida e a obra de Silvio Tendler, tendo grande influência em sua produção cinematográfica a partir de então, e em seu projeto de fazer uma arte engajada, legível ao grande público, mas, ao mesmo tempo, com qualidade e apuro estéticos.

No ano seguinte, realizamos a “Mostra Silvio Tendler – Cinema, Política e História”, ainda dentro da parceria firmada entre a Cinemateca de Curitiba e a UFPR, marcando os 40 anos do golpe de abril de 1964 e fazendo uma retrospectiva de toda obra de Tendler. Foram dias intensos de exibição de filmes, debates e palestras, com destaque para a abertura com Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil, apresentada pelo próprio Silvio Tendler ao lado do cineasta e animador cultural paranaense, Valencio Xavier, marcando a estréia do documentário sobre o cineasta baiano na cidade.

A cada sessão, o público reafirmava a importância de revisitar a história nacional por meio de sua obra, debatendo intensamente seus filmes com cientistas sociais e especialistas nesse período da história brasileira.

Ao longo de sua carreira, Silvio Tendler filmou presidentes e estadistas como Brizola, Juscelino Kubitschek, João Goulart, o marechal Giap, Tancredo Neves, dentre outros, mas também intelectuais, poetas e militantes de destaque que contribuíram para construir a identidade nacional e afirmar nossa soberania, tais como Josué de Castro, Castro Alves, Milton Santos, Oswaldo Cruz, Ferreira Gullar e Carlos Marighella.

Hoje, grande parte desse acervo encontra-se disponível no canal Caliban Cinema no YouTube (https://www.youtube.com/@calibancinema), o que representa uma oportunidade rara de democratização cultural e de acesso a uma obra valorosa e de grande importância para o conhecimento de nossa história.

Seus filmes, antes restritos a salas de cinema e cineclubes, agora podem ser acessados gratuitamente por estudantes, professores, militantes e cidadãos interessados na história brasileira e latino-americana.

Particularmente tocante é sua filmagem sobre o Poema Sujo de Ferreira Gullar, revelando um Sílvio Tender sensível e lírico, que sabia valorizar a qualidade da obra poética de um grande escritor, mesmo divergindo de suas tomadas de posição política ao final da vida, mostrando que as ideologias políticas não podem servir de critério único da elaboração estética dos artistas, ao contrário das versões mais radicais e militantes da “arte engajada”, que, antes de ser engajada, deve ser arte, justamente porque a ideologia não basta.

3.

Diante de todo esse magnífico legado estético, político e cultural, é urgente pensar em medidas para valorizar sua obra e ampliar seu alcance, transformando-a num instrumento de educação política de nosso povo, especialmente das novas gerações.

Nesse sentido, as Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, especialmente as bancadas de esquerda presentes nesses órgãos, poderiam assumir um papel decisivo: sugerindo moções em homenagem à memória de Tendler e incorporar a exibição de documentários de Tendler em suas programações culturais permanentes, dentre outras iniciativas.

Num contexto de necessidade de afirmação da soberania nacional contra uma nova onda de ataques de potências imperialistas estrangeiras, agora impulsionadas pela big techs digitais e seus subordinados locais, a TV Pública poderia também assumir um papel decisivo exibindo e divulgando suas obras para um público mais amplo e transformando-a em ferramenta de educação política de nosso povo, especialmente das novas gerações, promovendo debates sobre as personalidades históricas que são personagens de seus filmes.

Silvio Tendler deixou um acervo que permanece atual, porque dialoga com as questões centrais da democracia, da justiça social e da memória. Ao garantir que seus filmes circulem e sejam debatidos em escolas, parlamentos e espaços comunitários, não apenas se preserva a obra de um grande documentarista, mas também se fortalece a capacidade coletiva de pensar o Brasil.

Por tudo isso devemos sempre reafirmar a atualidade de sua obra, e a necessidade de preservar o seu legado e seu exemplo. E proclamar com toda a força, como o fizeram os combatentes chilenos no enterro de Pablo Neruda, em setembro de 1973, quando as utopias pareciam ter se desmoronado com a vitória momentânea das forças reacionárias comandadas pelo tirano general Augusto Pinochet e seus asseclas.[i]

*Sérgio Braga é professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Nota


[i] O vídeo pode ser consultado neste link dentre outras versões disponíveis no Youtube: https://youtu.be/q5qf-fLeLHI?si=37U-fMVcVDXUBhAh


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
2
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
7
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
8
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
9
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
10
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
11
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
12
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
13
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
14
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
15
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES