Por SOLANGE PEIRÃO*
Comentário sobre o documentário dirigido por Johan Grimonprez
Tão surpreendente é o documentário Trilha sonora para um Golpe de Estado quanto é oportuno atualmente para nós, brasileiros.
O filme impressiona pela diversidade das fontes documentais, das quais o belga Johan Grimonprez, seu diretor, lançou mão. À tradicional imprensa escrita somam-se os filmes jornalísticos que a televisão dos anos 1950 começava a produzir e a divulgar, em âmbito mundial, ampliando para o campo da imagem um serviço que as ondas sonoras do rádio já disponibilizavam.
E é destaque o trabalho editorial complexo que seus criadores houveram por bem estabelecer. Longe de qualquer perspectiva de linearidade, são trazidas à tona as graves questões que agitavam o mundo, logo após a Segunda Guerra Mundial.
No centro da narrativa está o assassinato de Patrice Lumumba, primeiro-ministro da República Democrática do Congo, ocorrido em janeiro de 1961. Para lhe dar suporte, foi exposta a conjuntura, durante a Guerra Fria, marcada pelos embates entre países capitalistas e comunistas, sob a liderança dos EUA e da União Soviética, respectivamente.
Curioso é que há um longo período de introdução no documentário, antes que a tela escancare o título. E é nesse trecho que são abordadas duas questões seminais.
A primeira que justifica, na essência, o título; o Jazz sendo apresentado como a trilha sonora privilegiada e as razões dessa escolha. Inicialmente, as cenas com a voz cortante da cantora Abbey Lincoln, acompanhada pelo baterista Max Roach, servem de pano de fundo para alguns trechos de um texto da ativista congolesa, Maya Angelou, extraído de uma publicação com o sensível título O coração de uma Mulher. “Na sexta, nossas mulheres vão para as Nações Unidas”, diz Maya, “nós vamos nos levantar e permanecer de pé”. Essa convocação, em fevereiro de 1961, aconteceu após o assassinato de Patrice Lumumba.
E, aqui, já se destaca um segundo elemento importante dessa introdução: a apresentação da ONU como o palco expressivo dos enfrentamentos da Guerra Fria, nos anos 1950 e 1960. Para se ter uma ideia da temperatura das intervenções, o presidente americano Eisenhower, em dado momento, expressou seu desejo de que “o premier congolês Patrice Lumumba caia em um rio cheio de crocodilos”, o que levou o ministro das Relações Exteriores britânico a rebater: “perdemos as técnicas da diplomacia antiga”.
Quanto ao Jazz, algumas cenas mostram de que maneira cantores célebres como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Nina Simone participaram, muitas vezes inconscientemente, dessa estratégia de penetração em todos os países, colonizados ou não alinhados, coordenada pela CIA e pelo Departamento de Estado americano.
No caso das colônias africanas, mesmo que já formalmente libertas da dominação estrangeira, as forças imperialistas de pressão continuavam bem vivas. No caso da República Democrática do Congo visavam assegurar a exploração do urânio, entre outros minerais, utilizado na fabricação das armas nucleares.
Os Embaixadores do Jazz, como ficaram conhecidos osartistas, acabavam por seduzir, com sua arte, a população que, distraída, não avaliava com clareza o serviço de espionagem agindo para identificar e combater os focos da resistência, verdadeiramente nacionalista.
E quem não sucumbiria aos encantos do jazz? Parece mesmo que só o esperto Nikita Khrushchov, premier soviético, que, em cena hilária, ligando um rádio, detona “essa música que não é música, é cacofonia, e que me dá gases no estômago”.
O fato é que, três meses depois de Louis Armstrong ter desembarcado festivamente em Léopoldville (depois, Kinshasa) para uma apresentação, Patrice Lumumba, já deposto, foi assassinado, e o país mergulhou em uma guerra civil. Parece que Louis Armstrong, ao se dar conta de que era usado para encobrir a prisão domiciliar do líder africano, ameaçou abandonar a cidadania americana e mudar-se para Gana.
Certamente poucos momentos da Organização das Nações Unidas, a ONU, foram tão marcantes como a Assembleia Geral de Setembro de1960. O documentário registra magistralmente, por meio de fragmentos dos documentos audiovisuais, belamente editados e justapostos, aquele momento.
Teve, de fato, de tudo um pouco, quer dizer, de todas as facetas que representavam as disputas geopolíticas da ocasião. Para começar, foi a sessão que marcou a adesão à Organização de 17 novos países, 16 africanos e um asiático. Entre os primeiros, cogitava-se a formação dos Estados Unidos da África. Enquanto os EUA enalteciam os novos membros pela frente, à luz do dia, articulavam, na calada da noite, a desestabilização das jovens nações.
E nada aconteceu de maneira sútil, naquela sessão. Nikita Khrushchov, por exemplo, protagonizou a cena mais incendiária e mais uma vez hilária, ao bater com os punhos na mesa e vociferar, do púlpito, um discurso, fervente e acusatório, contra os países expansionistas e colonialistas (leia-se, EUA). Tal atitude acabou por difundir no imaginário coletivo a ideia, aliás nunca comprovada, de que teria batido com seus próprios sapatos à mesa.
No documentário, sua atuação rendeu talvez o trecho mais expressivo do casamento do jazz com a cena política: Dizzy Gillespie marcando o ritmo da música com os pés, enquanto a encenação, que ficaria para a história, se desenrolava no plenário da ONU.
Outro ponto alto foi o inesquecível discurso, de mais de quatro horas, de Fidel Castro, da Cuba revolucionária; quem diria que alguém, em reunião de Estado no Brasil (leia-se, o ministro Luiz Fux, do STF) o superaria, muitos anos depois…
Em outro momento, a delegação americana chegou a sugerir que a única maneira de salvaguardar o Congo das agitações políticas contínuas, e mantê-lo longe da Guerra Fria, seria colocando, dentro do País, forças da ONU. Uma versão moderna do Cavalo de Tróia, certamente…
Nas despedidas, ao fim da Assembleia, uma calorosa e afetuosa confraternização passa a impressão de que os consensos foram bem-sucedidos, e as disputas aplainadas. Nasser do Egito, Sukarno da Indonésia, Fidel, Khrushchov, todos afagando-se em abraços calorosos.
E depois que desce a cortina da introdução, sobe uma outra, por mais duas horas, que conta toda a verdade de um Golpe de Estado, o da República Democrática do Congo, embalado por uma trilha sonora que em si mesma é, de fato, encantadora.
A história segue seu curso
Passados sessenta e cinco anos, a África de hoje continua precisando reafirmar e proteger a soberania de suas nações. As forças imperialistas continuam a agir para explorar suas riquezas naturais.
Um olhar sobre a República Democrática do Congo, e lá vemos os novos poderosos do momento, as Big Techs, de olho no coltan, um minério bruto de onde se extrai o tântalo e o nióbio, cruciais na indústria eletrônica, na fabricação de celulares e computadores. Para as grandes empresas do setor, predominantemente americanas, interessa um defensor com um discurso garantista, que implica na continuidade da exploração econômica. Agora, não mais por domínio colonial direto, mas por meio da constituição de parcerias políticas que perpetuam as desigualdades sociais.
Das bandas do Sul Global, da América Latina, ouviu-se na Assembleia Geral da ONU, de setembro de 2025, um discurso potente do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, tratando da necessidade de regulamentação das Big Techs, para garantir a integridade física e mental do ser humano, do seu eixo moral estruturante, sem os quais nenhuma sociedade é saudável.
Lula falou de democracia, de soberania das nações, de organismos reguladores das relações comerciais em bases modernas e multilaterais solidificadas, de pobreza, de justiça social. Denunciou as guerras e o genocídio em Gaza.
Lula deu um voto de confiança à ONU, sem deixar de apontar para a necessidade de reformulação, em sintonia com os anseios do mundo contemporâneo. Falou de paz, mas denunciou a responsabilização das nações ali representadas, imobilizadas diante das atrocidades de Gaza, em que a Declaração dos Direitos Humanos é absurdamente desrespeitada, vilipendiada.
Lula tratou com atenção das questões climáticas para o futuro do planeta. Para essa ONU de 2025, então, considerando evidentemente o bloco dos países que lhe fizeram coro, qual seria a melhor trilha sonora, a mais adequada? Pensando bem, talvez o nosso saudoso Hermeto Pascoal seja uma boa escolha.
*Solange Peirão, historiadora, é diretora da Solar Pesquisas de História.
Referência
Trilha sonora para um Golpe de Estado (Soundtrack to a Coup d’État).
Bélgica, 2024, documentário, 150 minutos.
Direção: Johan Grimonprez.
Roteiro: Johan Grimonprez & Pirouz Nemati.
Elenco: imagens de arquivos de Patrice Lumumba, Dag Hammarskjöld, Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Nina Simone
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