Meu coco

Dalton Paula, Barreira do som, 2013
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MARCIO SALGADO*

Comentário sobre o álbum recém-lançado de Caetano Veloso

O anjo da poesia não podia ser como os outros, tinha que ser torto, como escreveu Carlos Drummond de Andrade no “Poema de Sete Faces”: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que  vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Ele tem inspirado outros anjos literários e agora ressurgiu na composição “Anjos Tronchos”, de Caetano Veloso, que trata da influência da internet e das mídias sociais no mundo contemporâneo, transformando – para o bem ou para o mal – a vida das pessoas. Os versos do compositor dizem: “Uns anjos tronchos do Vale do Silício/ Desses que vivem no escuro em plena luz/ Disseram vai ser virtuoso no vício/ Das telas azuis mais que azuis.”

Em ambos os poemas, não é um anjo qualquer que contempla os seus autores, mas “desses que vivem na sombra”, ou “desses que vivem no escuro…” O de Drummond traz uma capa de subjetividade, já o de Caetano, de realidade virtual.

O primeiro é moderno, mostra uma posição crítica diante do mundo: o termo gauche (do francês, esquerdo) sugere essa escolha do poeta no enfrentamento da vida, e certa ironia que vai acompanhá-lo, discretamente, como uma marca literária. O segundo abordou uma questão atual, da pós-modernidade, onde as redes sociais publicizam os desejos e os dramas humanos.

O compositor anotou o seguinte em uma rede social: “Embora eu não conheça muito a questão da tecnologia e das suas consequências, eu fiz uma canção que parece mexer em questões muito maiores do que seu autor é capaz de dominar”.

Embora o domínio dessas questões seja difícil, Caetano intuiu as mudanças, os prazeres e as agruras desses novos tempos: “Agora a minha história é um denso algoritmo.” Isso provoca mudanças psíquicas, não é de estranhar que o compositor conclua: “Neurônios meus ganharam novo outro ritmo.” Toda essa poética musical, à primeira audição, estranha, vem arranjada em mais estranheza que se distende e captura o ouvinte no decorrer da música.

Na composição “Ciclâmen do Líbano”, uma das mais belas do álbum, outros anjos retornam em versos que remetem, sutilmente, a Vênus, deusa do amor, dos desejos carnais e da fertilidade. “Que as almas se chamem/ E os corpos se amem.” Ao final da canção, os versos musicais: “Que os anjos reclamem/ E os céus proclamem” rimam com “Ciclâmen do Líbano”, verso repetido, que ganha densidade com o arranjo orquestral de Jacques Morelenbaum ao fundo. A música cujo título refere-se à flor vermelha remete ainda aos sons do Oriente Médio.

No fado “Você-Você”, cantado por Caetano com sotaque lusitano – ou não seria um fado! – tem a participação da cantora Carminho, que pertence à nova geração de fadistas portugueses, e já é conhecida do público brasileiro em participações em shows ou discos do próprio compositor baiano, de Chico Buarque e outros artistas.

O primeiro verso do fado de Caetano “Depois que nós nos perdemos” introduz a história que vai ser contada à meia luz, sem o grande apelo emotivo que caracteriza o fado, gênero musical expressivo que fala dos amores perdidos, das saudades que tocam no fundo da alma portuguesa, da vida do povo e outros temas afins. Neste fado, o bandolim de Hamilton de Holanda substitui a guitarra portuguesa.

A faixa “Cobre” começa com a evocação dos cânticos em louvor: “Vibra o bronze de Santana”. Em seguida funde-se com uma toada inspirada na cor da pele da amada no mar ao sol. “Ó mulher de tez nobre, toma tudo e me tem/ Sobre o teu bronze-cobre…” É uma canção romântica que expressa uma sensualidade contida.

Na música de múltiplos sons “Meu Coco”, o compositor fala da miscigenação do país: “Somos mulatos, híbridos e mamelucos/ E muito mais cafuzos…” Trata-se de uma visão de Brasil que ele defende há muito tempo, inclusive na música “Sugar Cane Fields Forever”, de “Araçá Azul” (1973), inspirada em poema de Sousândrade, definiu-se como “Mulato democrático do litoral.”

No texto de próprio punho que acompanha o lançamento do álbum Meu Coco (Sony Music, 2021), Caetano Veloso fala sobre seu processo criativo e, em particular, de algumas canções. “Muitas vezes sinto que já fiz canções demais. Falta de rigor? Mas acontece que desde a infância amo as canções populares inclusive por sua fácil proliferação.” O trabalho traz 12 composições inéditas, e, segundo o músico, cada uma delas “tem vida própria e intensa”.

Os arranjos são dos maestros Jacques Morelenbaum, Thiago Amud e Letieres Leite. A produção musical é do próprio Caetano com o compositor e instrumentista Lucas Nunes. Participam ainda os músicos Moreno Veloso, Marcio Victor, Vinicius Cantuária, dentre outros; além das cantoras Carminho e Dora Morelenbaum.

*Marcio Salgado é jornalista e escritor. Autor, entre outros livros, do romance O filósofo do deserto (Ed. Multifoco).

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Como mentir com estatísticascadeira 51 18/05/2024 Por AQUILES MELO: Os números apresentados pelo governo federal aos servidores da educação em greve mais confundem do que explicam, demonstrando, assim, desinteresse na resolução do problema
  • A “multipolaridade” e o declínio crônico do OcidenteJosé Luís Fiori 17/05/2024 Por JOSÉ LUÍS FIORI: A defesa da multipolaridade será cada vez mais a bandeira dos países e dos povos que se insurgem neste momento contra o imperium militar global exercido pelo Ocidente
  • Razões para o fim da greve nas Universidade Federaisbancos 16/05/2024 Por TADEU ALENCAR ARRAIS: A nova proposta do Governo Federal anunciada dia 15 de maio merece debate sobre continuar ou não a greve
  • A hora da estrela – trinta e nove anos depoisclareice 20/05/2024 Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI: Considerações sobre o filme de Suzana Amaral, em exibição nos cinemas
  • A greve nas universidades e institutos federais não…caminho tempo 17/05/2024 Por GRAÇA DRUCK & LUIZ FILGUEIRAS: As forças de esquerda e democráticas precisam sair da passividade, como que esperando que Lula e o seu governo, bem como o STF resolvam os impasses políticos
  • A liberdade fake e o Marquês de SadeEugenio Bucci 18/05/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: A liberdade fake, a liberdade sádica, que no fundo é a negação de toda liberdade, está levando o Brasil ao naufrágio total
  • De Hermann Cohen a Hannah Arendtcultura barcos a vela 18/05/2024 Por ARI MARCELO SOLON: Comentário sobre o livro de Miguel Vatter
  • A universidade operacionalMarilena Chauí 2 13/05/2024 Por MARILENA CHAUI: A universidade operacional, em termos universitários, é a expressão mais alta do neoliberalismo
  • O cavalo Caramelocavalo caramelo 15/05/2024 Por LEONARDO BOFF: Há que se admitir que nós não temos respeitado os direitos da natureza com seu valor intrínseco, nem posto sob controle nossa voracidade de devastá-la
  • Depois do dilúvioTarso Genro 20/05/2024 Por TARSO GENRO: Um cavaleiro apocalíptico, três negacionismos e muitos funerais

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES