Por Everaldo de Oliveira Andrade*
Novembro de 1935, uma quartelada sem classe e sem massas: o PCB aderiu ao voluntarismo insurrecional e à lógica conspirativa e distante da classe trabalhadora e da realidade social brasileira
Em novembro de 1935 uma aventura militar organizada pelos stalinistas do PCB ajudou Getúlio Vargas a esmagar o movimento operário e preparar a ditadura do Estado Novo em 1937. Diante da resistência operária, Getúlio Vargas planejava desde o início de 1935, uma ofensiva repressiva de maior profundidade. Se desde o golpe de 1930 as prisões já estavam abarrotadas de militantes operários, a nova etapa visava “acabar de uma vez com todos”, conforme expressavam documentos internos do aparelho político do regime.
A partir de 1934, os sindicatos operários que ainda preservavam alguma independência passaram a assumir um papel de destaque no cenário político nacional. Embora a intensa onda grevista de 1932–1933 tenha refluído temporariamente, o ano de 1934 foi marcado por greves de grande envergadura em quase todos os estados, movimento que se prolongou para 1935, apenas interrompido pela repressão brutal desencadeada por Getúlio Vargas em novembro.
Além das greves, ocorreram grandes comícios e mobilizações – como o da Estação Pedro II, no Rio de Janeiro – onde operários enfrentaram a polícia, produzindo confrontos com mortos e feridos. Outro episódio decisivo foi o 7 de setembro de 1934, na Praça da Sé (São Paulo), quando a Oposição de Esquerda dirigida por Mário Pedrosa e Fúlvio Abramo construiu uma ampla frente única operária contra os integralistas. Pela primeira vez trabalhadores organizados derrotaram os “camisas verdes” nas ruas.
O caminho para a quartelada de 1935
O primeiro passo da onda de repressões de 1935 foi a aprovação, em abril, da Lei de Segurança Nacional (LSN), definindo como crime qualquer atividade considerada contrária à “ordem política”, “ordem social” ou à imprensa. Com esse instrumento, o governo passou a controlar legalmente toda forma de dissidência, preparando as bases jurídicas para desferir um golpe devastador sobre a organização operária independente.
A desorientação política do PCB alcançou seu ápice em 1935. A política do Terceiro Período, importada diretamente de Moscou, tinha isolado o partido numa linha sectária e esquerdista e enfraqueceu as possibilidades de unidade do movimento operário. Foi essa orientação que dividiu a classe operária e levou Hitler ao poder na Alemanha em 1933.
Em contraposição ao curso tomado pelo PCB, a Oposição de Esquerda – transformada em Liga Comunista Internacionalista (LCI) – defendeu a mobilização independente dos trabalhadores e a unidade antifascista. A partir de 1933, a LCI impulsionou a Frente Única Antifascista (FUA), que uniu trotskistas, socialistas, anarquistas, sindicatos e grupos de imigrantes, enfrentando vitoriosamente os integralistas em São Paulo em 1934. A direção stalinista combateu a FUA, proibiu a participação de seus militantes, promoveu repressão interna – chegando inclusive a delações que facilitaram prisões de opositores.
A ANL, o stalinismo e a política de frente popular
Nesse cenário de mobilização popular e repressão crescente, os estalinistas deram uma virada de 180º na sua política e buscaram recuperar sua influência com uma linha de colaboração de classes com setores da burguesia, criando a Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Durante alguns meses, a Aliança Nacional Libertadora mobilizou setores populares e parte do operariado, mas sempre subordinada a alianças com setores burgueses, tenentistas e militares – expressão local da política de frentes populares da Internacional Comunista. Entre seus quadros figuravam políticos burgueses destacados. A Aliança Nacional Libertadora seria dissolvida logo após o comício de 5 de julho de 1935.
Com a Aliança Nacional Libertadora fechada e a LSN aprovada, Getúlio Vargas avançou numa ofensiva nacional, mas faltava apoio político suficiente. A burguesia mantinha algumas tensões internas quanto ao ritmo da repressão. Foi justamente nesse momento delicado que explodiu a notícia do levante militar organizado pela direção do PCB, iniciado em Natal – a 3.000 km dos principais centros industriais do país.
Novembro de 1935 – uma quartelada sem classe e sem massas
Ao invés de construir organizações de base e ferramentas de luta unitária, a direção stalinista investiu em alianças de cúpula com setores militares, na expectativa de que oficiais médios e tenentes pudessem substituir a ação de massas e a busca pela unidade das organizações operárias. O PCB aderiu ao voluntarismo insurrecional e à lógica conspirativa e distante da classe trabalhadora e da realidade social brasileira.
Entre 23 e 27 de novembro de 1935, ocorreram levantes militares em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Embora posteriormente glorificados como “Revolução Popular” pelos historiadores stalinistas, tais eventos não passaram de insurreições localizadas em quartéis, sem mobilização operária ou qualquer base real na classe trabalhadora.
A ação – liderada por Luís Carlos Prestes com respaldo da Internacional Comunista – foi mal preparada, militarmente frágil e politicamente descolada da conjuntura. A quartelada combinou: o voluntarismo do Terceiro Período; a lógica conspirativa da ANL derrotada, o desprezo pela mobilização de massas e a ilusão de que oficiais subalternos poderiam desencadear um processo revolucionário nacional. No Rio de Janeiro, o levante não conseguiu sequer sair dos portões do quartel.
Apesar do número limitado de mortos e feridos, a quartelada forneceu a Getúlio Vargas o pretexto perfeito para implementar a repressão que já vinha preparando há meses. A resposta foi devastadora: 16 mil prisões em poucas semanas; destruição de sindicatos independentes; censura total sobre a imprensa operária; deportações, torturas e perseguições generalizadas; ataques a todas as correntes marxistas – inclusive os trotskistas, que nada tiveram a ver com a insurreição.
A repressão significou o fim do sindicalismo independente no Brasil por um longo período. Consolidou-se o modelo corporativo, transformando sindicatos em repartições públicas, subordinadas ao Ministério do Trabalho e instrumentalizadas como braço da política social do Estado. A derrota de 1935 não foi apenas mais uma derrota parcial: foi uma ruptura qualitativa, que encerrou um ciclo inteiro da luta operária iniciado nas primeiras décadas do século XX.
A histeria anticomunista pós-1935 pavimentou diretamente o caminho para o Estado Novo (1937–1945). As liberdades democráticas foram eliminadas, e toda forma de organização operária autônoma foi engolida por um aparelho estatal centralizado, autoritário e burocrático.
Internamente, o PCB aprofundou sua crise: dirigentes como Hermínio Sacchetta romperam com o stalinismo e aproximaram-se da Quarta Internacional, depois a integrando. Ao mesmo tempo, mesmo nas prisões do Estado Novo, Luiz Carlos Prestes e seus aliados começaram a advogar políticas de conciliação com Getúlio Vargas – culminando, em 1945, no apoio ao movimento Queremista, defendendo uma Constituinte com o próprio ditador no poder.
O movimento operário e o sindicalismo independente demoraria décadas para superar a aventura liderada pelo PCB nesse período.
*Everaldo de Oliveira Andrade é professor do Departamento de História da FFLCH-USP. Autor, entre outros livros, de Bolívia: democracia e revolução. A Comuna de La Paz de 1971 (Alameda).
Referências
ABRAMO, Fulvio. Meio século de luta pela 4ª Internacional. São Paulo: Nova Palavra, 2025.
_______________. A revoada dos galinhas verdes – uma história da luta contra o fascismo no Brasil. São Paulo: Veneta, 2014.
ABRAMO, Fulvio; KAREPOVS, Dainis. Na contracorrente da História. São Paulo: Sundermann, 2015.
ANDRADE, Everaldo O.; ALAMBERT, Francisco; MARI, Marcelo (orgs.). Mário Pedrosa: revolução sensível. São Paulo: Sesc/Perseu Abramo, 2023.
KAREPOVS, Dainis. Luta subterrânea – o PCB em 1937-1938. São Paulo: Hucitec/ed. Unesp, 2003.
PEDROSA, Mário. A opção brasileira. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 1966.
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