Por RENATO DAGNINO*
O conceito de tecnociência denuncia o apartamento ciência-tecnologia como uma construção ideológica do capital e evidencia por que os que desejam uma sociedade “para além do capital” têm que participar de processos de adequação sociotécnica que reprojetem a tecnociência capitalista na direção da tecnociência solidária
Introdução
A aproximação de duas lideranças do Setorial de Ciência e Tecnologia e Tecnologia de Informação do PT ao território da Tecnociência Solidária prenuncia o avermelhamento das mentes ainda cinzas, por que contaminadas pela tecnociência capitalista, de muitos dos seus militantes. Por já terem corações vermelhos, eles poderão alavancar o projeto da esquerda se “antenando” para as demandas tecnocientíficas embutidas nas necessidades coletivas insatisfeitas do nosso povo.
É usual no mundo da política que uma pessoa “citada“ por alguém se sinta no direito de se pronunciar. Não é por isso, entretanto, que pretendo dialogar com os companheiros que publicaram o excelente artigo no site A Terra é Redonda, e com outros leitores que seguem o tema.
Começo destacando que ele aparece no momento em que nosso Setorial se encontra formulando, num rico processo de discussão analítico-conceitual, uma crítica à Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI). A qual, no entender de mais de trinta de seus integrantes, teria sido hegemonizada, como é usual na nossa política cognitiva (conceito com que tenho enfeixado as políticas de Educação e de CTI) pelo que ali denominamos “elite científica e seus tecnocratas”. E cuja alternativa de policy, amparada por nossa concepção de politics, deveria ter como um dos seus fundamentos ideológicos contra-hegemônicos a adoção de um marco analítico-conceitual coerente com a proposta da tecnociência solidária.
Complementando a abordagem dos dois companheiros, vou me deter em dois pontos. Sobre o primeiro, relativo ao conceito de tecnociência solidária, apenas remeto a um artigo que sintetiza o livro que eles citam.
Ressalto dele que seu enfoque histórico, baseado na corrente crítica do marxismo ortodoxo sobre neutralidade da ciência e determinismo tecnológico, me levou à formulação de um conceito genérico de “tecnociência”. Particularizável para diferentes estilos de vida, ele explicita, como ocorreu no capitalismo, a expropriação do conhecimento tácito e coletivo do trabalhador direto. Característica de modos de produção anteriores, como o dos que viveram aqui por milênios, essa construção cognitiva intrinsecamente plural (ou “transdisciplinar”) passa a ser codificada, segmentada e monopolizada, abrindo passo à hegemonia do capitalismo e de sua tecnociência capitalista.
O conceito de tecnociência denuncia o apartamento ciência-tecnologia como uma construção ideológica do capital para nos tranquilizar, fazendo-nos crer na existência de uma ciência objetiva, pura, universal e neutra, passível de engendrar uma tecnologia que a aplica (esta sim, passível de contaminação por valores interesses de projetos políticos distintos). E evidencia por que os que desejam uma sociedade “para além do capital” têm que participar de processos de adequação sociotécnica que reprojetem a tecnociência capitalista na direção da tecnociência solidária.
Lembro ainda, que o conceito não se limita àquilo que se nos apresenta como ciência e tecnologia. Ele engloba também o conhecimento que o capital segue se apropriando (empírico, popular, ancestral, indígena, religioso, quilombola etc.) para que a empresa possa identificar, nas necessidades do mercado que geram lucro, as demandas tecnocientíficas que traz para seus laboratórios de P&D.
Sem falar, e especifico para que não reste dúvida, naquele que o capital artificialmente separa, e que nós amistosamente ironizamos como aquele professorado pelos colegas que habitam as ilhas desprovidas de pontes do nosso arquipélago universitário: os desumanos, das exatas, e os inexatos, das humanas.
O segundo ponto é abordado em seguida com algum detalhe. Ele tem como foco a taxonomia – “negacionistas, neoliberais e neodesenvolvimentistas” – apresentada para classificar o que se denomina no artigo “elite científica nacional”.
Adotando o tom franco de companheiros que, em meio a reuniões e discussões às vezes intermináveis, contam suas histórias de vida, busco ali iluminar o processo de tomada de decisão da política cognitiva. Preparo o terreno, então, para analisar propostas como textos como os que aqui se aborda, redigidos no mundo da política, com explícita orientação político-ideológica, costumam apresentar ao final. E, assim, permitir a que se avalie a probabilidade de que elas possam ser implementadas sem que nos empenhemos decididamente no avermelhamento das mentes ainda cinzas que povoam a esquerda.
A taxonomia sugerida pelos companheiros
Começo dizendo que vou entender o que eles denominam “atores políticos, como o MCTI, agências de fomento (CNPq, CAPES, FINEP, FAPs) e operadores (ICTs, universidades e empresas)” como comunidade de pesquisa; conceito que como expliquei há tempo é distinto daquele de comunidade científica que a literatura do campo costuma usar.
Simplificando aquela taxonomia segundo uma perspectiva político-ideológica para qualificar a comunidade de pesquisa, é possível situar seus integrantes num eixo horizontal. Num extremo à direita estão os que não se sentem desconfortáveis com o capitalismo, os “negacionistas” e os “neoliberais”. Dizemos que eles possuem corações cinza.
No outro extremo, à esquerda, se situam os “neodesenvolvimentistas”, que desejam organizar a vida de modo mais justo e ambientalmente responsável. Seu nível de contradição com o capitalismo, em especial com a sua variante periférica, ainda mais selvagem e excludente, leva-os a se empenhar em alterá-lo. Dizemos que eles possuem corações vermelhos.
Esses últimos se orientam, desde a “industrialização via substituição de importações” característica do nacional desenvolvimentismo, mencionada pelos companheiros, pela constatação de que nosso tecido social que influencia a política cognitiva é incompleto e rarefeito quando comparado com o dos países centrais.
Em países capitalistas periféricos como o Brasil, dois atores lá muito influentes – empresários e militares – podem implementar seus projetos políticos prescindindo de conhecimento novo. Para obter lucro satisfazendo nosso mercado culturalmente dependente e imitativo, a empresa pode (tecnicamente) e deve (economicamente) usar conhecimento engenheirados nos países centrais. O que faz com que um terceiro ator que nos países centrais, atuando no “lado da oferta” e não, como os que se posicionam do “lado da demanda”, se especializa em formar pessoas para engenheirar o conhecimento novo que os outros precisam, tenda a assumir aqui um papel muito mais importante.
Desde o início da “industrialização via substituição de importações”, a esquerda da comunidade de pesquisa tomou para si a tarefa de formar pessoas capazes de, pelo “lado da oferta” de conhecimento tecnocientífico, modernizar econômica e culturalmente o País aproximando nosso modo de vida àquele dos países centrais.
Sob a influência do espírito da época (que entendia o empresariado como demiurgo da revolução democrática burguesa antimperialista que eliminaria os resquícios feudais que freavam nosso capitalismo dependente), fez com que ela espelhasse a demanda tecnocientífica da empresa do Norte para pautar sua missão.
É assim que, nesse processo, condicionada ademais por outros fatores relacionados à nossa condição periférica, ela emula as agendas de ensino, pesquisa e extensão adotadas pelos seus pares dos países centrais. Afinal, era nas suas universidades, que se dava o “desenvolvimento das forças produtivas” que o pensamento de esquerda entendia como capaz de, tensionando as “relações sociais de produção capitalistas”, desencadear o socialismo.
Contando como surgiu outra taxonomia
Quando há mais de 20 anos tentei aplicar a dicotomia esquerda-direita então correntemente empregada na análise da política cognitiva para investigar por que, muito mais do que nos países centrais, nossa comunidade de pesquisa dominava a elaboração da política cognitiva, percebi que ela era insuficiente. Era necessário, por um lado, entender de modo mais sofisticado nossa realidade. Por outro, em termos analítico-conceituais, eu precisava de algo mais do que aquele eixo horizontal para entender como essa comunidade se posicionava e atuava frente a ela.
Eu conhecia a trajetória dos seus membros mais destacados. Sabia do prestígio que desfrutavam no País e, muitos deles, no estrangeiro, da liderança que haviam assumido em suas áreas de especialização, e de como ela era tacitamente reconhecida nas instituições de ensino e pesquisa, e das posições de comando que nelas ocupavam.
Percebia que eles se haviam destacado da comunidade à qual pertenciam e se organizado, de modo ainda mais natural e sutil do que aquele que ocorre em outras áreas de política pública, mas talvez por isto mais admissível, como uma policy network. O que me autorizava, seguindo os estudiosos de Ciência Política, a caracterizá-la como uma elite. Conceito por eles utilizado para denotar essa capacidade de influenciar a política pública que envolve uma comunidade. Propósito que, diferentemente do que ocorre no linguajar corrente, não denota o gozo de algum privilégio possibilitado pela posse de meios econômicos ou títulos nobiliárquicos ou acadêmicos.
Por conhecer as características típicas da periferia do que denominei incompletude e rarefação do tecido social que influencia, entre outras, a política cognitiva, eu percebia que o poder dessa elite era consideravelmente maior do que aquele que detinham no processo decisório da sua elaboração os seus pares do exterior. Percebia, ademais, que ela gozava de uma reputação frente a outras elites e à sociedade em geral que fazia com que a ela fosse outorgada a prerrogativa de decidir o que era melhor para todos.
Ou seja, que ela havia logrado o consentimento que os estudiosos gramscianos consideram como a contrapartida necessária de uma situação de hegemonia. Foi assim que passei a caracterizá-la como uma elite hegemônica.
Mas eu conhecia suficientemente a trajetória dos seus integrantes mais importantes para saber que eram de esquerda. Meu trabalho se orientou, então, deslindar a “problemática”: a investigar por que a elite científica se comportava emulando o que ocorria nos países centrais. Por que, sendo tão diferente a demanda tecnocientífica das atividades econômicas, necessidades sociais etc. que o projeto da esquerda priorizava, ela imitava as agendas de ensino, pesquisa e extensão daqueles países?
Por que era obcecada por perseguir a excelência nas universidades públicas de pesquisa de modo a disputar uma pretensa corrida mundial pela ciência? Por que, de modo míope e equivocado, forçava uma contra fática e inalcançável relação universidade-empresa que pretendia que a empresa local aproveitasse os resultados desincorporados da sua pesquisa uma vez que os incorporados nos pesquisadores que ela formava não eram contratados para fazer P&D?
Para me aproximar da “solucionática” eu intuía que devia indagar sobre as causas do ofertismo-linear que alguns dos meus mestres do pensamento latino-americano em ciência tecnologia e sociedade haviam refutado no final dos anos de 1960. E graças ao interesse que me haviam suscitado pelas filosofias da ciência e da tecnologia, fui me tornando capaz de perceber como aquele apartamento ciência-tecnologia, os mitos da neutralidade e do determinismo do marxismo convencional eram por ela endossados.
Foi por isso que resolvi desenhar um plano ao qual eu adicionei àquele eixo horizontal político-ideológico, em que eu situava e delimitava os corações cinza e os corações vermelhos à direita e à esquerda para fazer referência à sua postura, um eixo vertical. Ele situava acima da horizontal, os de mente cinza: aqueles que, além de aceitar aquele apartamento, acreditavam no que passei a denominar “mito transideológico da neutralidade da tecnociência capitalista”.
E, abaixo, os de mente vermelha: os que percebiam que ela, por contaminar suas mentes, durante toda sua formação com valores e interesses capitalistas, as coloriam de cinza. Ou seja, faziam com que seguissem professorando a tecnociência capitalista que se opunha à materialização da sociedade que, coerentemente com seu coração vermelho, desejavam construir.
Dos quatro quadrantes do plano um, o dos corações cinza com mente vermelha ficava, por construção, vazio. Mês ele permitia identificar os corações vermelhos com mente cinza, isto é, os integrantes da comunidade de pesquisa que eu considerava dispostos a avermelhar suas mentes e a alterar suas agendas de ensino, pesquisa e extensão visando ao reprojetamento da tecnociência capitalista mediante processos de adequação sociotécnica conducentes à tecnociência solidária. E, também como professor de esquerda aspirante a intelectual orgânico a tentar seduzir participantes da elite científica com quem mantinha contato para que viessem a alterar nossa política cognitiva.
Eu sabia que a neblina ideológica produzida por aquele mito transideológico (dado que aceito tanto pela direita como pela maioria da esquerda) fazia com que esses corações vermelhos com mente cinza não lograssem perceber a verdadeira causa da inadequação de nossa política cognitiva ao projeto da esquerda. E que identificassem a ação deletéria da empresa – lócus da extração da mais-valia que explorava a classe trabalhadora e reproduzia o capital –, na defesa dos seus interesses, como responsável por essa inadequação.
Ou, para usar a taxonomia dos dois companheiros com quem estou dialogando, como se sua causa imediata fosse a ação daqueles que ela classifica como “negacionistas” e “neoliberais”, e não o modo como a elite científica elabora nossa política cognitiva tendo por inspiração uma idealização equivocada da relação universidade empresa dos países centrais.
A outra taxonomia e a sedução dos corações vermelhos com mente cinza
Seduzir os corações vermelhos com mente cinza ou os “neodesenvolvimentistas” era uma tarefa difícil. Frequentemente deles ouvi que eram de esquerda, votavam no PT, que o único que queriam era, enfrentando obstáculos que iam da insuficiência de recursos até à inércia institucional, formar bons cientistas e realizar uma boa pesquisa. Que o que faziam era contribuir para o progresso social e a Revolução via o desenvolvimento das forças produtivas; e que sequer entendiam o que eu estava falando.
Não obstante, por considerar que esse avermelhamento de mentes era indispensável para que, de modo e consciente e voluntário típico de sua condição, reorientassem suas antenas e agendas para as demandas tecnocientíficas complexas e originais embutidas nas necessidades coletivas desatendidas, venho me empenhando há tempo em cumprir essa tarefa.
As companheiras e companheiros de jornada que foram se aglutinando em torno dela, permitiram algum ganho de escala. De modo prematuro, mas compreensível dado o contexto em que se inserem, orientaram-se, aliando-se com movimentos sociais que mais fortemente padecem aquelas necessidades, ao desenvolvimento do que ficou conhecido como tecnologias sociais mediante atividades de extensão.
Descuidaram-se, entretanto das atividades de ensino e pesquisa sobre as quais possuem alta discricionariedade. E, muito importante em termos de seu efeito multiplicador de curto prazo, do processo de sedução de seus pares que deveria levar a uma disputa de hegemonia com a elite científica e seus tecnocratas na elaboração da política cognitiva. E, mais ainda, para confrontar o poder dos corações cinza nas organizações em que se desempenham de modo a torná-la mais coerente com o projeto da esquerda.
Essa longa explanação, em que caricaturo a adição de um eixo vertical àquele horizontal que se depreende da taxonomia sugerida no artigo para explicar como se dá a elaboração de nossa política cognitiva, permite avaliar as recomendações que ali se faz.
Sobre o que diz a respeito a proposições genéricas com alcance geopolítico, como “devemos quebrar a lógica de medir o progresso científico por meio de novas patentes obtidas” ou relativas ao “projeto nacional”, de que devemos “adotar como métrica uma tecnociência solidária que colocaria o Brasil como liderança mundial de novo um tipo de desenvolvimento”, não há o que objetar!
Atinente ao curto prazo, e expresso mais especificamente como medidas de política cognitiva, é igualmente válido que o quarto mandato de Lula “destine 10% dos recursos não reembolsáveis para CTI a projetos de pesquisa de tecnociência solidária”, que “mediante editais, se estimule projetos visando à melhoria da vida do cidadão comum e à potencialização dos empreendimentos de economia solidária”, e que se busque “orientar a mudança dos programas das universidades públicas federais, sem ferir a autonomia universitária, para que atuem neste sentido”.
A questão que aí se coloca tem a ver com o que na publicação Gestão Estratégica Pública, nos capítulos destinados aos instrumentos metodológico-operacionais de Diagnóstico de Problemas e Equacionamento de Problemas, chamamos de governabilidade do ator que declara o problema; ou ao que Garrincha imortalizou com a pergunta ao Feola: você já combinou com os russos? E com o que, nos capítulos como o de Análise de Políticas Públicas, denominamos construção de viabilidade de ações do ator que declara o problema visando à adesão de outros atores.
Nós, do Setorial, que recém examinamos a ENCTI, especialmente aqueles que há muito tempo e por dever de ofício nos dedicamos à análise da política cognitiva, temos razões de sobra para inferir que os “russos” tenderão a seguir obstaculizando proposições como as que o artigo propõe. Ou seja, que a elite científica e seus tecnocratas que a hegemonizam, as organizações que os congregam (ABC, SBPC, ANPROTEC etc.), as outras policy coalitions que participam do Estado (EMBRAPII etc.) ou o orbitam (como o, FAPs, CGEE etc.), não estarão de acordo com essas proposições.
Outra proposição, que parece pretender viabilizar a que diz ser “necessário demonstrar, na prática, que soluções alinhadas com a tecnociência solidária são mais efetivas do que a réplica do modelo adotado pelos países do capitalismo central”, é também inteiramente válida. Ela indica “exemplos de tecnociência solidária, que vão desde melhorar o manejo florestal e de nossos ecossistemas, a produção de alimentos da agricultura familiar, a proteção dos dados nacionais, os procedimentos para superação de doenças hoje incuráveis, a nossa soberania, até o uso da robótica para que todos trabalhem menos, sem exceção, e vivam mais”.
Mas vale lembrar que soluções pontuais como as aventadas nesses exemplos são levadas a cabo por atividades de extensão e nas incubadoras de cooperativas de nossas instituições de ensino e pesquisa. Entre muitos outros, seus resultados são há muito tempo premiados e certificados pela Fundação Banco do Brasil e disponibilizados no seu banco de tecnologia social no âmbito de um movimento que se iniciou em 2002, organizou a Rede de Tecnologia Social, contou com a participação de diversas organizações, “emplacou” uma secretaria dentro do Ministério posteriormente desvirtuada etc.
Eventos como esses originaram análises de natureza analítico-conceitual e metodológico-operacional (de pesquisadores entre os quais me incluo) sobre a relevância, estratégias de expansão do movimento, e dificuldades inerentes à implementação de exemplos como os que indica o artigo, que merecem ser conhecidos.
Como também merece ser conhecida a iniciativa de vários grupos estreitamente ligados à comunidade universitária que, apesar da má vontade dos “russos”, seguem envolvidos com a tecnologia social. No seu interior, vale destacar se tem desenvolvido um interessante diálogo em torno do conceito de tecnociência solidária que busca, em sintonia com aquilo que abordei aqui, melhor qualificá-la.
Deixei para o final, a recomendação que me parece mais importante. Aquela que, depois de mencionar exemplos, diz que “A prática deve ser acompanhada de profunda e permanente discussão que demonstre de forma analítica e conceitual quais as razões da proposta de tecnociência solidária como caminho mais adequado”.
Isso por que ela sugere, em primeiro lugar, que a “prática” derivada do empenho em produzir soluções pontuais para melhorar a vida do povo não é suficiente para gerar o efeito sinérgico de escala que acumulará a massa crítica que torne autossustentado o processo de alteração das agendas de ensino, pesquisa e extensão de nossas instituições e da nossa política cognitiva.
Em segundo, que é a prática ancorada na discussão (o que alguns chamam de práxis) o que permitirá aos trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento, que operam a política cognitiva e que devem ser incorporados ao seu processo decisório, o que poderá alavancar essa alteração.
Em terceiro lugar, e concluindo, que o processo de sedução e avermelhamento de mentes trazido à cena por este texto é uma tarefa essencial da conjuntura.
*Renato Dagnino é professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A indústria de defesa no governo Lula (Expressão Popular) [https://amzn.to/4gmxKTr]






















