Por MICHEL AIRES DE SOUZA DIAS*
Da experiência progressiva à negativa: duas filosofias a serviço da emancipação
1.
Com o processo de redemocratização no Brasil, na década de 1980, surgiu a necessidade de uma formação mais abrangente e diferenciada dos professores. Tornou-se necessário uma formação política do educador, uma vez que se passou a compreender a educação como um ato político e social.
Nesse novo cenário da educação, o professor adquiriu um novo status social. Ele passou a ser compreendido como agente intelectual e transformador, cujo papel seria colaborar para formar integralmente o indivíduo como cidadão reflexivo, crítico e capaz de participar ativamente na transformação da sociedade. Para realizar esse fim, o professor deixou de ser a figura central da educação e o aluno deixou de ser visto como uma tabula rasa, desprovida de conhecimentos.
Compreendeu-se o aluno como um ser ativo, portador de experiências e conhecimentos vivenciados em suas múltiplas dimensões. Assim, o protagonismo juvenil se tornou o núcleo central da prática pedagógica e o professor tornou-se um mediador que facilita as aprendizagens.
Naquele período as ideias educacionais de John Dewey se tornaram importantes para repensar a educação no processo de redemocratização do Brasil. Suas reflexões estiveram presentes no cenário nacional desde a década de 1930. Sua pedagogia enfatizava as experiências vivenciadas pelos estudantes, valorizava a democracia participativa e compreendia a escola como um lugar de desenvolvimento do pensamento crítico e da cidadania ativa.
Nesse sentido, suas ideias foram fundamentais para refletir sobre essa nova dinâmica em que a educação ganhava uma intencionalidade política. O postulado de John Dewey de que a educação é a preparação para a democracia teve um enorme papel em um país que foi vítima do autoritarismo e que buscava reconstruir suas instituições democráticas. Assim, as ideias do pensador americano foram importantes para as reformas que visavam uma maior democratização do acesso à educação.
2.
Outro filósofo importante no período de redemocratização do Brasil foi Theodor W. Adorno. Apesar de não ter um papel direto nas reformas educacionais daquela época, suas reflexões sobre a educação, o autoritarismo, a personalidade autoritária e sua crítica à racionalidade técnica-instrumental influenciaram o pensamento crítico no Brasil, em particular nos círculos acadêmicos e intelectuais.[i]
Para o pensador frankfurtiano, a educação tem um papel fundamental para o fortalecimento e a resistência dos indivíduos frente às tendências autoritárias na sociedade. Nesse sentido, a educação é um instrumento de emancipação, pois ela é antes de tudo esclarecimento e conscientização da realidade, sendo capaz de desbarbarizar o mundo em que vivemos.
Apesar de pertencerem a tradições filosóficas diferentes – o pragmatismo americano e a teoria crítica da Escola de Frankfurt – John Dewey e Theodor Adorno refletiram sobre a educação destacando o processo de formação da consciência e de reconstrução da experiência. Ambos acreditam que a educação possui uma intencionalidade política, uma vez que busca formar sujeitos autônomos capazes de participar ativamente da vida democrática.
John Dewey (1859-1952) é o maior representante do pragmatismo e da pedagogia progressista americana. Ele desenvolveu uma filosofia da educação baseada na experiência e enfatizou o papel político do ensino. As ideias educacionais do pensador americano valorizam a aprendizagem por meio da experiência e da capacidade do aluno de ser um ator ativo na busca do conhecimento, realçando o papel da educação na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Para esse filósofo, a democracia representa um modo de vida que necessita de cidadãos ativos, críticos e engajados. Assim, o processo educativo tem um papel fundamental para formar sujeitos esclarecidos e participativos para a vida coletiva.
Já Theodor W. Adorno (1903-1969) é um dos principais representantes da Escola de Frankfurt. É um grande crítico da modernidade, da racionalidade técnica e do autoritarismo. Apesar de não ser um teórico da educação, ele foi um grande pensador da cultura. Desde o início, suas obras demostram a atitude crítica com que ele pensou a formação cultural no mundo contemporâneo.
A preocupação com o processo formativo percorre toda sua obra. Dessa forma, suas reflexões sobre a educação se inserem em uma crítica mais abrangente de toda cultura ocidental. As suas reflexões sobre a educação se encontram em uma coletânea de textos, especificamente na obra Educação e emancipação (Erziehung zur Mündigkeit), que se originou de palestras e debates em uma rádio pública da Alemanha.
Essas discussões foram feitas entre os anos de 1950 e 1960 e se tornaram referência nos estudos de uma teoria crítica da educação. Elas também foram fortemente influenciadas pelo contexto histórico do pós-guerra, uma vez que a educação foi pensada como um instrumento contra toda forma de autoritarismo e como resistência à barbárie.
3.
Para John Dewey e Theodor Adorno a reconstrução da experiência constitui o eixo central da educação. Em Dewey, a educação é uma reconstrução contínua da experiência, realizada por meio da interação entre o indivíduo e o ambiente. O acúmulo de experiências, nesse sentido, é positivo e progressivo, ampliando a capacidade crítica, a inteligência prática e a participação social.
Já em Theodor Adorno, a reconstrução da experiência é crítica, reflexiva e negativa, uma vez que o fortalecimento do sujeito decorre da capacidade de não se identificar com a sociedade reificada. A experiência formativa, nesse caso, implica negação, ruptura e resistência ao conformismo, à indústria cultural, e às formas de dominação. Trata-se de recuperar uma experiência fragmentada e danificada pela lógica totalitária do capitalismo.
Para aprofundarmos essas duas vertentes, é necessário examinar, em primeiro lugar, a concepção de experiência em John Dewey, entendida como reconstrução progressiva e positiva. Em seguida, abordaremos a perspectiva de Theodor Adorno, que compreende a reconstrução da experiência como resistência e negatividade ao mundo social reificado.
Para John Dewey, a experiência não é somente o núcleo do processo pedagógico, mas é da própria vida democrática. A experiência também não se restringe a um evento subjetivo, mas é um processo contínuo de interação entre o sujeito e o ambiente. A qualidade de toda experiência, nesse sentido, tem dois aspectos: o imediato de produzir satisfação ou insatisfação e o mediato de toda experiência influenciar outras experiências, em um movimento contínuo.
O mais importante não é que as experiências sejam agradáveis, mas que elas enriqueçam e preparem o aprendiz para novas experiências. Isso porque toda experiência humana está ligada a um processo contínuo de aprendizagens. É o acúmulo de experiências que colabora para o crescimento e o desenvolvimento do indivíduo (Dewey, 1979a).
A educação, nesse contexto, deve organizar e orientar as experiências de modo que incentivem o crescimento integral das pessoas e que os tornem capazes de participar ativamente da vida democrática.
4.
No pensamento educacional de John Dewey, a educação para a democracia exige que a escola seja um espaço coletivo, colaborativo e participativo, um lugar de igualdade e trabalho mútuo, onde a criança desenvolva um espírito de pertencimento.
Em 1896, John Dewey chegou a criar uma escola experimental, com a ajuda da Universidade de Chicago. A escola começou com 16 alunos e dois professores. Mas, em 1903, ela já contava com 140 estudantes, 23 professores e 10 assistentes (Westbrook, 2010). Nessa escola experimental, os alunos aprendiam a cozinhar, a costurar, a plantar e a construir artefatos, tudo feito de forma coletiva.
Nota-se que o núcleo da pedagogia de John Dewey é incentivar vivências diretas, onde a criança participa ativamente de forma coletiva, assimilando os conhecimentos necessários para a participação ativa na sociedade.
Para o pensador americano, a democracia é muito mais do que uma forma de governo, ela é antes de tudo formas de vida associada, colaborativa, onde as experiências são compartilhadas para o bem comum: “Que significa a democracia se não todas as pessoas participando da determinação das condições e objetivos do seu próprio trabalho e que, definitivamente, graças a harmonização livre e recíproca das diferentes pessoas, a atividade do mundo se faça melhor, do que quando poucos planejam, organizam e dirigem, por mais competentes e bem-intencionados que sejam esses poucos?” (Dewey apud Westbrook, 2010, p. 26).
Na concepção de John Dewey, a experiência não é um processo passivo que o indivíduo assimila por meio de eventos e sensações, mas é um fluxo contínuo de percepção, reflexão e ação. Ao interagir com o seu meio, o indivíduo aprende tanto atitudes práticas, assim como emocionais e intelectuais. Dessa forma, os princípios de interação e continuidade se constituem como os fundamentos da experiência humana: “A experiência alarga, deste modo, os conhecimentos, enriquece o nosso espírito e dá, dia a dia, significação mais profunda a vida” (Teixeira, 2010, p. 37).
5.
O princípio de interação parte do pressuposto de que a experiência só pode ocorrer pela interação do indivíduo com seu meio social, cultural e físico. Além do aspecto subjetivo da experiência, como os sentimentos, os desejos, a reflexão e as necessidades; há o aspecto objetivo da interação com a realidade, tais como as relações humanas e as relações com as coisas e o meio social e cultural.
A experiência do indivíduo não ocorre isoladamente. Ao interagir com seu meio a partir de uma multiplicidade de situações, aprendendo com elas e podendo modificá-las, o indivíduo modifica a si mesmo, formando sua personalidade: “É nisso que consiste a educação. Educar é crescer, não já no sentido puramente fisiológico, mas no sentido espiritual, no sentido humano, no sentido de uma vida cada vez mais larga” (Teixeira, 2010, p. 37).
O princípio da continuidade da experiência parte do pressuposto de que toda e qualquer experiência contém ou retoma algo das experiências passadas e que de alguma forma modifica as experiências futuras. A experiência é aquilo que se acumula, ela é progressiva, tornando-se cada vez mais rica, sendo capaz de ajudar o indivíduo a responder todas as condições que enfrenta na vida.
Em razão disso, a experiência em John Dewey é algo positivo, uma vez que transforma e enriquece o indivíduo. A experiência é um processo de crescimento constante. É a partir do princípio da interação e da continuidade das experiências que Dewey chega a sua concepção de educação: “Chegamos assim a uma definição técnica da educação: é uma reconstrução ou reorganização da experiência, que esclarece e aumenta o sentido desta e, também, a nossa aptidão para dirigirmos o curso das experiências subsequentes” (Dewey, 1979b, p. 83).
Como podemos notar, a experiência não é algo que acontece apenas na interioridade do indivíduo, formando os desejos, as emoções e as atitudes. Ela também tem um lado ativo que é capaz de mudar as condições objetivas e as circunstâncias em que vive o indivíduo. Esse fato é fundamental para o processo educativo, preparando o indivíduo para a participação consciente na vida social.
Para John Dewey, a escola é um microcosmo da sociedade democrática, uma vez que é por meio do processo pedagógico que a criança aprende a respeitar a diversidade, a dialogar, a cooperar e a resolver problemas de forma coletiva. A escola é um espaço de socialização, onde os estudantes praticam os princípios da vida social.
Nesse sentido, o processo pedagógico é o ato de conduzir e dirigir o aluno, por meio de um constante reorganizar ou reconstruir de suas experiências, para que ele se torne um cidadão ativo na sociedade. Desse ponto de vista, não é possível separar a educação da vida social. Como John Dewey mesmo afirma, “a educação é para a vida social aquilo que a nutrição e a reprodução são primeiro, para a vida fisiológica” (Dewey, 1979b, p. 10).
6.
Tal como na pedagogia de John Dewey, em Theodor Adorno a experiência também ocupa um lugar central nas reflexões sobre educação. Contudo, esse conceito não tem um caráter positivo, de crescimento e acúmulo de vivências, mas é um conceito negativo e crítico da realidade social reificada.
Para o filósofo frankfurtiano, a racionalidade técnica-instrumental do mundo ocidental produziu uma experiência empobrecida e fragmentada, que moldou a subjetividade moderna. A experiência genuína (Erfahrung), transmitida de geração em geração, típica das sociedades pré-capitalistas, fundamentada na autonomia de pensamento e na reflexão crítica, foi substituída por vivências imediatas e superficiais (Erlebnisse) da sociedade de massas.
A experiência moderna se nivelou pela forma da mercadoria. Nesse contexto, a educação tornou-se um instrumento ideológico de adaptação, que reproduz as formas de consciência, os valores e os modos de comportamento da classe burguesa.
Quando Theodor Adorno se exilou nos Estados Unidos, fugindo do nazismo (1938-1949), ele ficou impressionado com a cultura massificada, fundada no planejamento racional e na padronização dos meios de comunicação de massa. Ele percebeu que a cultura deixou de ser algo espontâneo, emanada do povo, passando a ser produzida por indústrias e instituições, exercendo um grande papel na formação interior dos indivíduos.
Aquele mundo de imagens sagradas e de religiosidade da idade média foi substituído por uma nova mitologia. Agora eram programas de auditório, propagandas, filmes, modelos, atrizes e galãs de cinema que satisfaziam o imaginário popular. O aparato técnico da indústria cultural moldou os valores, as formas de comportamentos e as atitudes dos indivíduos no interesse do capital.
7.
O que Theodor Adorno havia testemunhado foi a substituição da formação cultural burguesa (Bildung)[ii] por uma formação massificada, ideológica, dada a priori. Os indivíduos foram atomizados e nivelados por uma formação socialmente implantada. Por meio de produtos padronizados e homogeneizados da indústria cultural desenvolveu-se uma formação unidimensional, que socializa os indivíduos impedindo-os de adquirir uma experiência compreensiva da realidade.
Com isso, a subjetividade autônoma foi aniquilada pelos vários mecanismos de planejamento e controle. A cultura se degenerou, assim, em mercadoria, fixando e fortalecendo as formas de consciência, produzindo a dominação no plano da subjetividade. Como observou Adorno: “A semiformação não se confina meramente ao espírito, adultera também a vida sensorial” (Adorno, 2005, p. 11).
Para o filósofo (Adorno, 2005, p. 2), “a formação nada mais é que cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva”. Contudo, a indústria cultural e os vários mecanismos de controle impedem essa apropriação. Os espectadores assimilam os conteúdos da indústria cultural de forma passiva, sem reflexão crítica. A indústria cultural impede o indivíduo de compreender os fenômenos sociais, do ponto de vista histórico, social, cultural, político e econômico. Os produtos culturais estandardizados alienam as massas e incutem os valores, as atitudes e as formas de comportamento para a manutenção e reprodução do status quo. Desse modo, os indivíduos perdem a capacidade de ter uma experiência genuína e compreensiva da realidade.
Em sua análise crítica da cultura ocidental, Adorno observou que os seres humanos perderam a capacidade de vivenciar experiências intelectuais profundas – isto é, de refletir criticamente sobre a realidade, a cultura e a história com autonomia e consciência.
Seu amigo e parceiro Walter Benjamin, nos anos de 1930, já havia diagnosticado a perda da experiência no mundo contemporâneo. Para ele, com o advento da técnica surgiu uma nova forma de miséria espiritual. A formação cultural (Bildung) deu lugar a novos valores, comportamentos e modos de vida, que foram difundidos em larga escala à população.
Com o advento da técnica se difundiu a renovação da astrologia e da yoga, da christian science e da quiromancia, do vegetarianismo, da gnose, da escolástica e do espiritualismo. Os indivíduos se tornaram mais pobres em experiências (Benjamin, 1994).
8.
Seguindo os mesmos passos de Walter Benjamin sobre a perda da experiência, Theodor Adorno chegou à conclusão de que o indivíduo não tem mais acesso à realidade, ou seja, não é mais capaz de compreendê-la de forma crítica e reflexiva. Entre o indivíduo e a realidade se colocam os controles técnicos, que produzem a semiformação como espírito objetivo da sociedade reificada.
Desse modo, a formação cultural passou a ser mediado pelas imagens. A semiformação surge como engenharia do real, a realidade aparece como representação elaborada pelas instâncias de controle. Como bem avaliou a filósofa Susan Sontag (1981), uma sociedade se torna moderna quando a produção e o consumo de imagens passam a ocupar um lugar central, pois elas passam a ditar nossas exigências em relação à realidade e a se oferecer como substitutas desejadas da experiência autêntica, tornando-se essenciais para a economia, para a estabilidade política e para a felicidade individual.
Para Theodor Adorno, em uma época de integração das consciências e de regressão social, a única forma de recuperar a experiência danificada é por meio de uma educação emancipada. É imprescindível que a educação se torne um veículo de esclarecimento e conscientização da realidade, fortalecendo a subjetividade para reconstruir a autonomia dos indivíduos.
A aptidão a experiência foi compreendida por Theodor Adorno como processo de reflexão e conscientização, onde o indivíduo torna-se capaz de refletir diretamente sobre o objeto, sem a mediação de ideologias ou estereótipos, já solidificados na mente pela semiformação ou pelos vários mecanismos de controle social.
Não se trata do pensamento lógico ou da capacidade formal de pensar, mas da experiência crítica do pensamento. Trata-se de recuperar a experiência genuína como apropriação subjetiva da cultura para se adquirir consciência da realidade. Pensar para o frankfurtiano significa, portanto, fazer experiências intelectuais. É nesse sentido que “a educação para a experiência é idêntica à educação para a emancipação” (Adorno, 1995, p. 151).
9.
A experiência autêntica entendida como uma abertura à experiência do concreto sensível é uma experiência dialética. A emancipação “encontra-se relacionada a uma dialética. Esta precisa ser inserida no pensamento e na prática educacional” (Adorno, 1995, p. 143). Na realidade social não existe nada isolado, os fenômenos sociais não podem ser pensados como coisas isoladas, independentes de suas determinações.
Eles formam uma cadeia articulada de interdependência e condicionamento mútuo. Todo fenômeno social é mediado por uma totalidade mais concreta e complexa: “A sociedade deve ser e é por si próprio um conceito dialético” (Adorno, 2008, p. 118).
Desse modo, é necessário que o estudante aprenda a pensar a relação entre sujeito e objeto no processo histórico, compreendendo suas concatenações, sua dinâmica e seu devir. Ele deve refletir sobre os fenômenos a partir das relações que o particular estabelece com o todo concreto. A partir disso, ele se torna capaz de fazer experiências intelectuais e a educação recupera essa dimensão formativa em que cabe ao sujeito abrir-se à experiência dialética do concreto.
Segundo Theodor Adorno (1995), educar não significa apenas transmitir conhecimentos, habilidades ou competências. Também não significa modelar o indivíduo a partir de um ideal previamente concebido. Educar para o pensador frankfurtiano significa, antes de tudo, conscientizar. Trata-se de se apropriar do objeto de modo pleno e significativo, por meio do pensamento dialético, desvelando um sentido, descobrindo uma inteligibilidade nas relações entre os fenômenos.
Nesse sentido, a educação tem uma intencionalidade política, uma vez que prepara o indivíduo para fazer o uso público da razão, sendo capaz de decidir por si mesmo de forma independente, sem ser tutelado.
O grande desafio da educação para Theodor Adorno é fomentar uma prática pedagógica que valorize o pensamento negativo, crítico, que não seja reduzida apenas a preparação para o mercado de trabalho. É imprescindível pensar uma formação educacional que compreenda as condições objetivas da dominação social, que valorize o esclarecimento, a criticidade e a autonomia de pensamento, para que os indivíduos possam realizar a igualdade política, participando ativamente da democracia.
Desse modo, o processo pedagógico deve recuperar a experiência genuína da realidade para que os indivíduos sejam capazes de refletir sobre a semiformação e a totalidade social reificada, que os subjugam. Somente assim eles poderão fazer uso público de sua razão em uma democracia com responsabilidade.
Como vimos, tanto John Dewey como Theodor Adorno possuem a convicção de que a educação é reconstrução da experiência para que os indivíduos participem ativamente da vida democrática, almejando a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Daí a importância do esclarecimento, da reflexão crítica e da autonomia do pensamento para se exercer uma cidadania ativa. O processo pedagógico deve tornar o indivíduo capaz de compreender sua própria experiência e avaliar seu próprio destino histórico e suas circunstâncias sociais, para que ele possa participar ativamente na construção de uma verdadeira democracia.
Ambos os pensadores manifestaram seu otimismo em relação ao homem para se aperfeiçoar, se instruir a partir de uma concepção humanista de educação, que supere o egoísmo e a competição, almejando a construção de uma sociedade fraterna, justa e igualitária.[iii]
*Michel Aires de Souza Dias é doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Referências
Adorno, Theodor. Introdução à sociologia. São Paulo: Editora UNESP, 2008.
Adorno, Theodor. Teoria da Semicultura. Revista Primeira Versão. Ano IV, n. 191, maio/agosto, p. 1-20, 2005.
Adorno, Theodor. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
Benjamin, Walter. Experiência e pobreza. In: BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Dewey, John. Experiência e educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979a.
Dewey, John. Democracia e educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979b.
Sontag, Susan. Ensaios sobre a Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Teixeira, Anísio. A pedagogia de Dewey (Esboço da teoria de educação de John Dewey). In: Dewey, John, Robert B Westbrook, Anisio Teixeira, José Eustáqui Romão, Verone Lane Rodrigues (Org). Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. p. 33-65.
Notas
[i] Sérgio Paulo Rouanet é um dos principais responsáveis pela introdução das ideias de Theodor Adorno no Brasil. A obra As razões do Iluminismo, lançado em 1987, faz uma reflexão sobre o autoritarismo no Brasil à luz das ideias da Escola de Frankfurt.
[ii] Bildung refere-se as transformações na esfera subjetiva, como uma esfera de esclarecimento e autoconsciência, estando ligado ao processo de formação cultural. Nesse sentido, a palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo.
[iii] Esse texto é parte do artigo John Dewey e Theodor Adorno: a educação como reconstrução da experiência, publicado na Revista Filosofia e Educação (Unicamp), Campinas, SP, v. 17, 2025.






















